Prévia: Capítulo 2



​Para quem não aguenta esperar, eis a primeira cena do Capítulo 2: Mandada pelo Diabo.


O capítulo integral estará disponível para leitura na próxima sexta-feira, dia 30/12.

Exceto por um restinho de luz no oeste, a escuridão já tomava os céus, revelando as estrelas mais brilhantes e duas luas. A maior, Lágrima Prateada, presença constante nas noites, brilhava intensamente em sua fase cheia. A menor, apelidada Olho do Diabo por sua cor avermelhada, reaparecera após um longo período de ausência. Ao surgir, a pequena lua torna-se constante por uns três meses, cada noite avançando só um pouquinho no firmamento, para depois sumir de novo. Dizia-se que sua aparição era sinal de mudança iminente, para o bem ou para o mal.


Na Cornália, ao anoitecer, as ruas se enchem, reavivando o comércio. Na praça, o povo se reúne para comer, beber e dançar ao som da sanfona, da zabumba e do triângulo. Naquela noite, porém, Zé Calabros percorria as escuras ruelas próximas com o náufrago nos braços. Levou alguns minutos até discernir a silhueta da capela do Divino Pai, que estranhamente já estava com as portas fechadas.

Zé deu três fortes batidas na porta, repetindo-as após alguns instantes sem resposta. Quando já considerava bater novamente, ouviu o som da fechadura se destrancar, seguido pelo abrir das pesadas portas de madeira. A luz do interior inundou os olhos dele, ofuscando-o por um momento.

De lampião em mãos e em vestes formais brancas e vermelhas, as cores do sacerdócio de Padim, Madre Mirna sorriu ao reconhecer Calabros. Ambos eram órfãos, conviveram por anos em Vila Maria, quando ela fora noviça sob tutela de Madre Magnólia. Seis anos mais velha do que ele, sua decisão pelo sacerdócio a fez permanecer no orfanato até se tornar Madre aos vinte e um. Zé, por sua vez, partiu aos dezesseis, por iniciativa própria, mesmo não tendo atingido a idade máxima dos internos.


"José!", a bela clériga, de pele escura e cabelos cacheados, exclamou em alegria. Contudo, percebendo a pessoa desacordada nos braços do rapaz, encheu-se de compaixão e ordenou com seriedade: "Padim do céu! Entre, vamos!".

O salão principal da capela não era grande, havendo ali apenas oito bancos largos de madeira. Madre Mirna fechou a capela assim que Calabros adentrou o recinto, depois o conduziu até uma porta à direita do altar, que dava acesso aos aposentos dos fundos.

"Por que portas fechadas, Madre?", perguntou Calabros. "A casa de Padim sempre foi aberta a todos."

"Não respeitam mais nem o Divino Pai, José", ela respondeu, adentrando os aposentos posteriores. "Havia ladrões furtando oferendas e bêbados dormindo nos bancos, fazendo as necessidades aí nos cantos."

"Bando de cagão fela-d'égua", murmurou Zé, seguindo-a.

"Quem mais sofre com a desordem são os necessitados que batem à porta", Mirna desabafou, conduzindo-os à sala de jantar, que dava acesso a dez quartos laterais e à cozinha na outra ponta, a partir da qual se chegava a um quintal.

Os quartos eram destinados aos clérigos, bem como a doentes e feridos em tratamento, mas Madre Mirna era naqueles tempos a única sacerdotisa residente. Dois dos quartos estavam ocupados naquela noite, e deles ouvia-se tosse, gemidos e orações. Mirna indicou um terceiro para acolher o náufrago.

"Ora, mas o que é isso?", uma voz irritante e contrariada veio da cozinha, "Mas que cara de pau aparecer aqui!". De barba desgrenhada e pança saliente, Trambico Braz veio para a sala comendo caju e confrontando Zé Calabros: "Primeiro nega remédios aos necessitados, e depois vem procurar a casa do Pai?"

Imediatamente Zé sentiu uma forte vontade de socá-lo bem no meio da fuça. "O que esse traste tá fazendo aqui?", questionou com clara irritação.

"Não quero confusão aqui dentro!", Madre Mirna os interrompeu, voltando-se a Trambico Braz: "O José, além de ser bem-vindo nesta casa como qualquer outra pessoa, trouxe um necessitado para nós". Depois, explicou-se a Calabros: "Quanto ao Trambico, eu o acolhi há alguns dias. Ele tem me ajudado a fazer as compras, limpar os cômodos e cuidar dos desamparados".

Os dois se entreolhavam com clara animosidade. "Madre, por acaso foi você que mandou o Trambico comprar remédios lá na praia hoje cedo?", Zé questionou.

"Sim, fui eu que pedi a ele", a jovem clériga respondeu.

"Uma pena que os preços estavam tão altos", lamentou Trambico num tom irônico, "Só deu de trazer um tantico de coisa, tudo muito aquém do desejado. E esse Zé Calabros aí, ô cabra intrometido, nem me deixou pechinchar!".

Calabros quis confrontar Trambico ali mesmo, mas se conteve porque a saúde do náufrago em seus braços era mais importante do que qualquer querela. Preferiu, portanto, levar o jovem desacordado à cama, sendo seguido por Mirna. Trambico ficou na sala, resmungando desaforos.

"Ele está todo molhado! Coloque-o na cama, tire as roupas dele e cubra-o. Quando despertar, prepararei alguma comida quente", instruiu a clériga.

Calabros pousou suavemente o jovem na cama e retirou dele a sacola que tinha presa ao torso e o estranho livro lacrado. Entregando os objetos a Mirna, questionou: "Que roupas estranhas ele usa! Madre, você já viu coisa assim em algum lugar?".

Mirna avaliou as vestes, aproximando o lampião. O jovem usava uma calça larga, meias e uma espécie de roupão com mangas longas e largas amarrado por uma faixa à cintura, feitas de um tecido macio e reluzente de cor azul com detalhes brancos. "Isso parece seda", notou.

"Seda? O que é isso?", perguntou Zé.

"É um tecido caríssimo de uma terra distante. Já vi uma ou duas vezes."

"Terra distante? Não sabe qual?"

Madre Mirna balançou a cabeça negativamente. "Era um nome esquisito, não consigo lembrar. Madre Magnólia, que o Padim a tenha, com certeza saberia."


Livro Atual
Zé Calabros na Terra dos Cornos
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As Crônicas Anímicas

© 2016 Tiago Moreira