Prévia: Capítulo 3



Mais uma palhinha para quem não gosta de esperar! Eis a primeira cena do Capítulo 3: Está decidido.


O capítulo integral estará disponível para leitura na próxima sexta-feira, dia 13/01. E acreditem, aqui começa a grande aventura! Cangaceiros, perigos, ação! E descubram os segredos da misteriosa Mara'iza!


Madre Mirna logo trouxe uma bandeja com pão e queijo, frutas e uma xícara de café. Mara'iza, que esperava à mesa, agradeceu unindo as mãos e se curvando gentilmente.


Sentando-se ao lado da moça, Madre Mirna a avaliou cuidadosamente. Mara'iza tinha um aspecto meio infantil, mas não era criança, provavelmente tinha uns quinze ou dezesseis anos. "Pelos seus pertences, maneirismos e reações, presumo vir de uma aristocracia com tradições muito rígidas", a sacerdotisa comentou.


Mara'iza olhou de relance para a clériga, vendo-a encará-la com um sorriso gentil, esforçou-se em fitá-la nos olhos e devolver um breve sorriso. Desviou o assunto, contudo: "Que cidade é esta? Em que região estamos?"


Mirna respondeu: "Você está em Curva do Vento, na Cornália".


"Cornália...", a moça repetiu o nome, que soava como "Coru'nária" em seu sotaque carregado. "Essa região fica ao sul da Baía da Tempestade, não? Dragona está ao leste, correto?".


"Exatamente", confirmou a sacerdotisa.


"Preciso ir a Dragona", Mara'iza informou, provando o café. O gosto pareceu agradá-la. "Era o destino de meu navio, mas eu... caí no mar."


"Lamento, mas no momento ninguém pode viajar para o leste. Infelizmente, sua jornada terá de esperar", Madre Mirna relutou em dizer. "Você já ouviu falar dos cangaceiros?"


Mara'iza indicou não conhecer aquela palavra e tomou outro gole de café. Segurava a xícara e levava-a à boca de forma bem delicada e minuciosa, quase ritualística.


"São bandidos do sertão, sempre foram um problema nessas terras", a sacerdotisa explicou. "Mas apareceu um, chamado Severino Barriga D'Água, que se tornou o 'Rei do Cangaço' ao juntar vários bandos sob seu comando. Ele e seus cangaceiros controlam as estradas ao leste."


"Basta evitar as estradas, não?", Mara'iza interrompeu. Seu olhar tímido por um instante se transformou, revelando determinação. "Minha jornada é deveras importante para ser interrompida por simples bandidos."


"Você não entende!", a madre insistiu. "Esta é uma terra muito isolada, e para deixá-la você precisa seguir por uma trilha estreita nas montanhas. A cidade que guarda a passagem, São Vatapá do Norte, foi tomada há meses, e os cangaceiros bloqueiam o contato com o exterior. Ninguém entra ou sai da Cornália sem aprovação de Severino. Passar por lá seria loucura!"


"Isso é um absurdo! Como a situação pôde chegar a esse ponto? Vocês não têm um rei? Um exército que enfrente esses bandidos?"


Mirna meneou a cabeça negativamente. "As terras são divididas entre os coronéis, e cada um impõe a sua lei. Curva do Vento, por exemplo, é terra da Coronel Malícia".


"Esses coronéis são como nobres, então?"


"Sim, cada um tem poder de acordo com sua riqueza e terras. Existe mais de uma dezena deles, mas as famílias mais fortes eram cinco: Malícia, Meneses, Mendes, Calabros e Silva. Desses, só os Coronéis Malícia e Meneses ainda resistem".


"Calabros?", a menina se espantou, o nome soando como "Carábu'ros" em seu sotaque. "Aquele que estava aqui não tinha esse nome? Ele é um nobre, então?"


Madre Mirna nunca tinha pensado em Zé Calabros daquela maneira. "É, assim considerando, ele é sim."


"Será que algum coronel pode me ajudar?", Mara'iza perguntou. "É imperativo que eu vá a Dragona!"


"Não creio. Eles estão preocupados com o avanço dos cangaceiros. Se nem os coronéis conseguem fazer comércio com o exterior, dificilmente ajudariam alguém a atravessar o bloqueio. Seria um desperdício de recursos para eles."


A menina então pensou em outra alternativa: "E para o oeste? Não há como chegar à Adaghália? Ou a Biorca? Eu poderia procurar um porto e seguir para Dragona".


"Não, infelizmente não", Mirna lamentou. "Se seguir a costa a oeste, a estrada passa pela vila de Santo Despedido e termina numa currutela chamada Terra dos Pobres. Depois disso é só restinga até a cordilheira do 'Grande Tê', onde acaba a Cornália. Mesmo que continue além das montanhas, encontrará só as Vastidões Verdes. Levaria semanas, talvez meses, antes que visse qualquer alma viva."


Mara'iza baixou a cabeça, pensativa. "Hmmmm...", murmurou, e então ergueu-se determinando: "Então não tem jeito! Com bandidos ou não, seguirei para o leste!".


A conclusão da menina espantou Mirna. "Você tem noção do perigo que corre? Espere um pouco! Talvez em alguns dias apareça uma oportunidade, não há necessidade de tamanha pressa!"


"Sinto muito, sacerdotisa, mas esses tais 'cangaceiros' não interromperão minha viagem!", afirmou com punho cerrado e um ligeiro, mas confiante, sorriso.


Diante de tanta teimosia, Mirna levou a mão ao rosto em descrença. "Está bem! Está bem!", desistiu, confessando com certa relutância: "Há uma pessoa que talvez possa ajudá-la".


Livro Atual
Zé Calabros na Terra dos Cornos
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As Crônicas Anímicas

© 2016 Tiago Moreira