Capítulo 5: Não pensa nem hesita, só age

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Avaliando as pegadas e folhas amassadas, o capanga Sabujo avisou: "Olha isso, Mané! Passou gente por aqui!".


Mané do Cangaço, aproximando-se, questionou: "Achou o Calabros lazarento e a menina?".


"Não, Mané! São uns cinco cabras de bota", respondeu Sabujo, apontando a direção que os rastros seguiam. "Não é só nosso bando que tá perambulando aqui nas redondezas!"


Mané deslizou os dedos sobre a barbicha pontiaguda, seus olhos atentos vasculhando os arredores. "Isso não tá me cheirando bem, não! Bota do Judas tá pra lá", disse, indicando o nordeste, mesma direção dos rastros.


"Não podem ser compadres nossos, a serviço de Severino?"


"Não, Sabujo! Isso aí é gente querendo atrapalhar! Olhos abertos e orelhas em pé, que deve ter jagunço escondido por aí!", Mané concluiu, então ordenando a outro capanga que os acompanhava: "Reúne os outros aqui, que eu mais Sabujo vamos averiguar que cargas d'água tá acontecendo".



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Zé Calabros e Mara'iza, ambos com as mãos amarradas à frente do corpo, foram conduzidos pelos soldados a um acampamento oculto na floresta. As árvores da área tinham sido cortadas e seus troncos usados para improvisar parapeitos para os sentinelas no perímetro. Dezenas de guardas armados se encontravam ali, ocupados em atividades diversas, e o número de tendas indicava que talvez houvesse ainda mais nas redondezas.


A escolta acompanhou Zé e Mara até uma tenda central maior e defendida por jagunços, melhor armados e sem uniformes. "Quem são esses aí?", um jagunço barbudo de espingarda em mãos inquiriu.


O líder da escolta, mostrando a adaga ornada de Mara'iza, respondeu: "Achamos esses dois zanzando pela mata. Falam que são viajantes, e a única arma que tinham era essa faca aqui. Eles querem permissão do coronel pra seguir viagem". O guarda também tinha em mãos o embornal de Zé, a bolsa de Mara'iza e o grimório.


"Eu vou falar com o coronel", informou o jagunço, entrando na tenda.


Mara'iza estava insatisfeita, e sua face não escondia a irritação. "Por que deixou os guardas nos pegarem?", ela sussurrou a Zé, "Eles só vão nos atrasar!".


"Não se avexa, Mala, que é burrice comprar briga sem motivo. A gente fala com o coronel, e ele nos libera ligeiro."


"E se ele recusar?", ela perguntou.


"Daí a gente vai sem permissão mesmo."


O barbudo logo voltou. "Deixa eles comigo", avisou ao chefe da escolta, "que o coronel quer ouvir a história deles."


Os guardas logo se afastaram, levando os pertences confiscados dos dois. "Ei, espera! Devolva o que é nosso!", Mara'iza tentou impedi-los, mas foi segurada pelo jagunço, que a puxou com força.


"A gente devolve as coisas quando o coronel liberar vocês!", o barbudo avisou, num tom ameaçador. "Agora entra, que o homem tá esperando!"


Zé Calabros entrou na tenda, seguido pela relutante e contrariada Mara'iza. Ali dentro estavam três homens sentados no chão, ao redor de um mapa da região. O primeiro, de uniforme e com chifres em seu quepe, só podia ser o comandante da guarda. O segundo, de aspecto mais rústico, provavelmente era o chefe dos jagunços. O terceiro, usando o típico chapéu de vaqueiro adornado com grandes chifres, era obviamente o coronel, um homem negro e baixo, barrigudo, de bigode e cabelos longos e crespos.


"Eu sou o Coronel Samuel Garrancho, de Santa Rita", ele se apresentou, levantando-se para receber Zé e Mara. "Disseram-me que são viajantes, então pergunto e espero que me respondam com sinceridade: quem são vocês?"


Os outros dois homens contornaram os presentes para guardar a entrada da tenda. Mara'iza fitou Zé com claro desconforto.


Calabros se manteve calmo, porém. "Meu nome é Zé Calabros, e estou levando a Malaísa aqui pra Dragona".


Ela suspirou, levando as mãos, mesmo amarradas, à face. "Seu idiota, quando você vai aprender? Meu nome é Mara'iza", corrigiu, "Atsumi Mara'iza!"


"Ela é braba assim mesmo, coronel, liga não.", Zé observou.


Coronel Garrancho quase riu, mas conteve-se em um sorrisinho. Voltando-se a ela, curvou-se respeitosamente. "É um prazer, Senhorita Mara'iza! Você me lembra minha esposa, também vinda de terras estrangeiras, e tão espirituosa e bela quanto a senhorita."


"É um prazer, Coronel Garrancho", ela respondeu, sua expressão irritada traindo a gentileza das palavras. "Mas eu me sentiria melhor em conhecê-lo sem as mãos amarradas."


"Sinto muito pelas amarras e o confisco de seus bens, mas estes são tempos perigosos, e muitas vidas estão em jogo", disse o coronel. "Até que eu me certifique de suas intenções aqui, não posso arriscar nossa segurança. Os cangaceiros não podem saber de nossa presença!"


"Pode ficar tranquilo que a gente não tá com aqueles desgracentos, não!", informou Calabros.


Garrancho fitou Zé com desconfiança, avaliando sua postura, expressão e voz. "E vocês sabem que, pra chegar em Dragona, terão que passar por São Vatapá do Norte, certo? A cidade já caiu pros cangaceiros. É possível que o Coronel Silvério já esteja morto."



Embora não gostasse do Coronel Silvério, Calabros ficou desconfortável ao ouvir sobre sua possível morte. "A gente dá um jeito. Primeiro temos que chegar lá, depois a gente pensa no que fazer".


"Ouvi histórias da sua valentia, Zé Calabros", disse Coronel Garrancho, ainda desconfiado. "Você é o filho do Coronel Calabros, de Itapopó da Mata, certo?"


"Sou eu mesmo sim, senhor!"


"E não está aqui atrás do que é seu por direito?"


"Sei nem do que você tá falando, coronel, e nem fazia ideia de que você estava por estas bandas! Tudo o que quero é levar essa maluca pra Dragona!"


"É, temos pressa! Não vamos atrapalha-lo nem denunciá-lo a ninguém!", frisou Mara'iza, erguendo os braços para exibir as amarras. "Pode, por obséquio, nos soltar e devolver nossas coisas?"


"Ainda não, senhorita, porque talvez tenhamos uma querela a resolver primeiro", disse o coronel, então voltando sua atenção a Zé. "Veja bem, Sr. Calabros, imaginei que você me procuraria algum dia. Afinal, eu tenho governado Itapopó da Mata e as terras de sua família pelos últimos nove anos."



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Esgueirando-se nas proximidades do acampamento, Sabujo avisou: "São da guarda de Santa Rita! Só pode ser coisa do Coronel Garrancho!".


Mané do Cangaço, sentado junto a uma árvore, já foi sacando o revólver. "Ora, mas isso é bom demais da conta!"


"Como que isso é bom, Mané?", o subalterno questionou, "Tamos bem perto de Bota do Judas, e Severino ainda tá lutando pela cidade! Se o Garrancho atacar de surpresa, pode ferrar com tudo e salvar a pele do Coronel Meneses!".


"Por isso mesmo, seu abestalhado!", Mané abriu a arma, rindo, depois girou o tambor. "A gente vai pegar o Garrancho antes dele atrapalhar Severino!"


"Mané, tem uns setenta ou mais homens aí, e com vantagem de terreno! Mesmo que a gente junte o bando todo que tá pelo mato, vai dar o quê? Trinta cabras?"


Mané esbravejou: "Pra isso a gente faz distração, seu cagão! A força maior ataca por um lado e atrai o fogo deles, daí o grupo menor vem da outra direção! A gente não precisa matar todos, basta passar fogo no coronel!".


"Então, qual vai ser o plano, Mané?"


"Faz o seguinte: volta pro bando, avisa pra ficarem preparados. Eu vou rodear o acampamento e atacar pela outra ponta. Quando começarem os tiros, cês se apressam e invadem pelo lado de cá. Já pode cair matando, que eles vão tá concentrados em mim!"


"Mas você vai atacar sozinho, Mané?", Sabujo questionou. "Não é a força maior que chama a atenção?"


"Pois então, seu imbecil!", Mané retrucou, "Quem cê acha que é a força maior? Cês tudo junto não dão um d'eu!".


Sabujo preferiu não contrariar o chefe. "Sim, senhor!", respondeu, correndo de volta ao ponto de encontro do bando.


Mané, já sozinho, se voltou para o acampamento. Notando que o tambor do revólver já parara de girar, contou as balas e fechou a arma. "Severino queria derrubar Garrancho por último, mas Padim mandou esse traidor desgramado direto pras minhas mãos! Ninguém passa a perna em Severino, Garrancho! Hoje o tambor vai tocar a marcha do teu funeral!"



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Zé Calabros ficou confuso com a revelação. "Mas não era o Coronel Silvério quem tava cuidando das terras do meu pai?"


"Você não sabia?", Garrancho se surpreendeu, avaliando as reações de Zé.


"Nem fazia ideia!", Zé respondeu. "Tipo assim, passei por lá uns anos atrás, logo que deixei o orfanato, mas nem me atentei pra quem tava governando, só assumi que ainda era o Silvério!"


"Silvério perdeu aquelas terras pro falecido Coronel Tibúrcio Mendes, que o diabo o carregue", Garrancho explicou. "Como você sabe, pra chegar em Itapopó leva quase quatro dias de viagem saindo de São Vatapá do Norte, mas menos de um dia de Santa Rita. Então, Silvério não teve como reagir quando Tibúrcio resolveu tomar tudo pra ele."


"E depois que derrubaram Tibúrcio, você que tomou o lugar dele", concluiu Zé.


"Isso mesmo, ajudei a derrubar o desgraçado, daí Santa Rita virou minha responsabilidade", Garrancho respondeu, "E acabou que Itapopó ficou comigo também. Mas você que é o dono de direito daquelas terras, e tava esperando que ia me procurar um dia, talvez muito arretado e com sangue nos olhos, porque é na briga que corno costuma resolver as coisas".


"Não sou dono de terra nenhuma", Zé Calabros refutou, "nem quero ser coronel".


"Você está desistindo de suas terras?", o coronel questionou, incrédulo.


Mara'iza se intrometeu na conversa, surpresa com a atitude de Calabros. "Mas o que é isso, ogro? Essas terras não são só uma posse, são o legado dos seus antepassados! Desistir delas é desonrar seu pai e o nome da sua família!"


"Eu honro meu pai todo santo dia", Zé retrucou, "Sou Calabros, e faço questão de lembrar meu nome pra cada pessoa que ajudo e pra todo salafrário que esmurro".


"Uma decisão dessas não é tão simples", Garrancho avisou, "Um dia, seus filhos podem vir cobrar o que seria deles de direito, e o que vai ser então? Você já pensou nisso?".


"Filho meu, se algum dia eu tiver, vai ter o que eu conquistar na vida. O que deixei pra trás antes mesmo de nascerem não é direito deles", Zé respondeu. "Quanto àquelas terras, sabe o que vi quando passei por lá, coronel?"


"E o que você viu, Zé?"


"Vi que o povo vive em paz, escolhe seu prefeito e comercia com quem quiser. Pra mim, é isso que importa! Pode ficar com minhas terras, coronel, desde que o povo fique livre e protegido. Se algum dia eu souber que você não tá cumprindo essa condição, vou lá arrebentar sua cara!"



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Mané do Cangaço se esgueirou pela mata até chegar ao nordeste do acampamento. À frente, com seus olhos de águia, percebeu uma dupla de batedores furtivamente posicionados entre as raízes e árvores. "Ah, hoje vai ter fartura de bala e chuva de sangue pra regar essa terra seca! Fecha meu corpo, Padim, pra modo d'eu mandar muita gente pra tua companhia, hi hi hi hi!"


Um estampido ecoou na mata, e o primeiro batedor tombou com um tiro certeiro na têmpora. O companheiro, surpreso, se desesperou e demorou demais para aprontar sua espingarda. O segundo estampido anunciou sua morte antes que ele sequer encontrasse o atirador.


Mané do Cangaço correu até os guardas abatidos e se abaixou entre as raízes em busca de cobertura. Abriu o tambor da arma, recarregou-a e então a guardou, para em seguida pegar o revólver de um dos cadáveres e a espingarda do outro. Notou movimento na mata, de guardas alarmados pelos disparos. "Vem em mim, bando de frouxo, que o cabra cá tá avexado!"



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"Você muito me surpreende, Senhor Calabros", disse Coronel Garrancho, ainda incrédulo. "Um homem comum não entregaria suas terras desta maneira, nem ameaçaria um coronel assim, cara a cara, de mãos amarradas. Dou a você, pois, minha palavra que honrarei esse trato. Como prova, visite Santa Rita algum dia, e verá que cuido de lá com igual esmero."


"Ótimo!", interrompeu Mara'iza. "Agora que tudo foi resolvido, que tal nos liberar?"


"Farei isso, mas não ainda, senhorita", disse o coronel, "Vocês serão liberados ao anoitecer".


"Mas por que não agora?", ela insistiu.


"Porque é quando eu e meus homens partiremos pra Bota do Judas."


"Por mim, tá bom", disse Zé, "A gente aproveita pra descansar, Mala. Passado o rio, vem a caatinga, e viajar à noite vai ser mais fácil do que durante o dia".


"Tudo bem, tudo bem!", Mara'iza suspirou. "Pode pelo menos, por favor, desamarrar nossos pulsos?"


Coronel Garrancho sorriu e ensaiou uma resposta positiva, mas naquele instante um jagunço adentrou a tenda, trazendo más notícias: "Coronel! Ouviram tiros na floresta!"



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Três guardas vieram averiguar os tiros. Mané do Cangaço surgiu do esconderijo, disparando o revólver roubado. A bala atravessou o pescoço do guarda do meio, que tombou de imediato. Um de seus companheiros apontou seu bacamarte para revidar, mas foi alvejado no peito antes que disparasse. O outro saltou para trás de uma árvore buscando proteção.


Mané avançou, correndo agachado entre os obstáculos da mata, usando-os como cobertura contra revides.


O guarda sobrevivente puxou duas garruchas e contou até três, deixando a proteção da árvore para contra-atacar. Antes que atirasse, foi alvejado por uma bala que transpassou seu ombro, fazendo-o soltar uma das armas. Recolheu-se novamente, urrando de dor. Para sua surpresa, viu Mané surgir ao seu lado e, sem conseguir reagir, levou bala à queima-roupa, bem no olho.


"Hi hi hi hi!", gargalhava Mané, abaixando-se para pegar as armas dos derrotados. Enfiou duas garruchas e mais um revólver no cinto e dependurou o bacamarte junto com a espingarda nas costas. Abriu o revólver roubado, contou as balas, girou o tambor e o fechou de novo.


Mais batedores se aproximavam, quando apitos soaram no acampamento. Em resposta, os homens recuaram, atravessando o descampado que cercava o perímetro. Dois foram alvejados pelas costas, um deles bem na nuca, e morreram antes que completassem a travessia. Os outros saltaram para detrás dos parapeitos improvisados, onde poderiam revidar fogo em segurança.


Mané permaneceu no limiar das árvores, abaixado detrás das raízes. Uma salva de tiros veio dos parapeitos, mas nenhum o atingiu. Findadas as rajadas, o cangaceiro surgiu, correndo de uma árvore para a próxima e atirando no meio do trajeto. Mais um defensor tombou.


Os guardas iniciaram uma nova salva de tiros, enquanto mais defensores vinham de outros cantos do acampamento para reforçar aquele flanco. Melhor assim, pensou Mané. Menos defensores para a retaguarda, e mais gente para ele matar.



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O ruído do tiroteio se intensificou logo que o jagunço trouxe o aviso, e o Coronel Garrancho puxou a espingarda que levava às costas. "Vocês dois fiquem aqui! Deitem-se no chão e não saiam desta tenda!", ele disse para Zé e Mara.


"Espera! Nossos braços ainda estão presos!", Mara'iza insistiu em vão. O coronel, os jagunços e o comandante da guarda deixaram a tenda apressadamente, ignorando os apelos da moça. Frustrada, ela fitou Zé com uma expressão acusatória: "Belo plano, seu idiota! Por que não enfrentamos os guardas na mata? Que hora incrível para você querer raciocinar, ao invés de resolver com os punhos como sempre faz!".


Zé Calabros riu descontraidamente.


"Está rindo de quê?", ela questionou sem a menor paciência.


"Da sua cara", ele gargalhou, "Mas que desespero, hein?".


"Talvez seja difícil para você perceber, mas estamos presos, desarmados, com os braços amarrados e cercados de bandidos!"


Ele conteve o riso, levando alguns segundos antes de recobrar a compostura. "Presos? De jeito nenhum. Desarmados? Com certeza não. Amarrados? Por pouco tempo!". E dito isso, pôs força nos pulsos, forçando as amarras.


"Ei, para com isso, ogro!", ela tentou impedir. "Quanto mais você forçar, mais o nó aperta!"


Ele a ignorou, concentrando-se em arrebentar as cordas, empregando tamanho esforço que a face se avermelhava e as veias saltavam nos braços.


"Seu idiota! Você vai se ferir antes que a corda comece a ceder!"


E a corda dele se partiu. Zé, ofegante, fez uma pausa para recuperar o fôlego.


Mara'iza ficou boquiaberta e de olhos arregalados. "Mas... como é que você...? Isso é... Tudo bem, eu admito! Isso foi impressionante!"


Zé Calabros se pôs a desamarra-la. "E quanto aos bandidos", ele avisou, "fica tranquila que desta vez resolvo com os punhos!"



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Mais um disparo. Mais um guarda tombou. Mané largou o revólver, totalmente descarregado, e tratou de sacar a arma seguinte, saltando para trás de cobertura antes que a próxima salva viesse. "Hi hi hi hi", ele ria, arrastando-se entre as raízes enquanto balas zuniam à sua procura. "Que tropa de estrupício, Garrancho! Tudo moleque burro, a maioria nem deve ter matado na vida! Se continuar assim, acabo com seus homens antes que meu bando apareça!"



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"O que está acontecendo?", o Coronel Garrancho exigiu saber, gritando para se fazer ouvir no meio da cacofonia de disparos.


"Há um atirador na mata, coronel!", respondeu um jagunço.


"Um atirador? Vocês precisam de tanta bala pra matar um homem?"


"Ele se move que nem fantasma, coronel! E atira como ninguém! A gente já perdeu pelo menos nove homens!"


Garrancho correu até os atiradores, abaixando-se entre eles junto ao parapeito e ordenando o cessar-fogo. "Todo mundo para de atirar! Seus idiotas, estão só gastando munição! Não estamos enfrentando um grupo, atirar a esmo é estupidez!"


Os disparos foram parando, até haver silêncio.


"Todos a postos! Apontem as armas pra floresta!", o coronel comandou, "Esperem que ele denuncie sua posição, aí revidem! Salvas curtas, e só quando puderem vê-lo!"



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O súbito cessar dos tiros alarmou Mané. Se os guardas continuassem desesperados, ele seria capaz de matar um a um até sobrepujá-los. Mas a situação se invertera, e revelar-se para abater o próximo alvo concentraria o fogo inimigo contra sua posição.


Subitamente, uma cacofonia de disparos ecoou do outro lado do acampamento, e Mané voltou a gargalhar. Seus homens tinham chegado.



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"O que foi isso?", um jagunço perguntou.


"Tiros, pelo outro flanco!", o comandante da guarda respondeu.


"Desta vez, é mais gente atacando", disse Coronel Garrancho, erguendo a voz para ditar ordens: "Jagunços ficam aqui comigo, que cuidamos do atirador fantasma! Guardas, protejam os flancos! Contenham a situação!".


Mais de vinte guardas se levantaram em bando e correram para o flanco sudoeste. Bastou aquele instante de desatenção para que três fossem alvejados nas costas pelo atirador na mata. Dois morreram antes de tocar o chão, e o terceiro tombou e ali ficou agonizando.


Coronel Garrancho e seus oito jagunços apontaram armas para a floresta, mas o atirador fantasma já havia desaparecido de novo.



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"Melhor apressar, ogro, que a confusão lá fora está aumentando!", ela informou, notando o tiroteio repentino no flanco sudoeste e a movimentação frenética de guardas pelo acampamento.


Finalmente Zé conseguiu livrar Mara das cordas. "Pronto, fica aqui escondida, que vou procurar teu livro!"


Mara'iza fechou os olhos e começou a traçar símbolos no ar. "Nem se preocupa, que ele está a uns dez metros à minha direita."


"Como você sabe disso?"


"Primeira lição de um abjurador: um magista e seu foco têm um elo independente de distância", Mara explanou, abrindo os olhos, sorrindo e estendendo as mãos à frente. "Segunda lição: estando o foco abandonado nas proximidades e sua mente concentrada nele..."


Num lampejo, o livro se materializou nas mãos dela.


"Pronto, agora pegamos o resto de nossas coisas", a menina sugeriu, "e fugimos enquanto guardas e bandidos se enfrentam!"


"Você não tá entendendo, Mala", Zé Calabros estalou os punhos, "Não sou cabra de arregar em briga, e aqui tá cheio de cangaceiro pra esmurrar!", e concluiu, batendo o punho cerrado sobre a palma aberta da mão: "Então, já tá decidido!"


Mara'iza, consternada, levou a mão à face em descrença. "Você sempre tem a ideia mais idiota possível para cada situação...", murmurou, mas logo concluiu que não adiantaria discutir e se resignou. "Está bem, está bem! Faremos do seu jeito..."



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O tiroteio se intensificou do outro lado do acampamento, mas no flanco nordeste, onde estava o Coronel Garrancho, o silêncio imperava. Os oito jagunços, mais experientes em combate do que os guardas, procuravam com apreensão crescente por sinais do atirador fantasma, que desaparecera entre a folhagem.


"Coronel, temos que recuar!", avisou o chefe dos jagunços.


"Não!", recusou Garrancho. "Se o cabra na mata for o desgramado que imagino, ele vai matar todo mundo, um a um, assim que a gente der as costas."


Naquele momento, um disparo de espingarda atingiu a têmpora do jagunço mais à direita, estourando sua cabeça e fazendo jorrar uma chuva de sangue.


"Ali!", apontou o coronel, correndo agachado junto ao parapeito. Os jagunços o seguiram, disparando a esmo contra a mata, a fim de suprimir um contra-ataque do atirador. Logo se reposicionaram na nova direção e buscaram por sinais do oponente, mas o silêncio novamente dominou aquele flanco.


Enquanto isso, na floresta, Mané do Cangaço já se reposicionava, adentrando a mata e percorrendo um arco de volta à sua posição original. Jogou fora a espingarda no meio do caminho e sacou novamente o revólver roubado. Ao parar, escondeu-se entre as raízes, abriu a arma, girou o tambor, contou as balas que restavam e fechou o revólver. Entre ele e o Coronel Garrancho restavam só sete jagunços. E ele já sabia como derrubar a maioria deles num único lance. "Hoje vai ter fila na entrada do inferno!", riu baixinho.



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Com o flanco sudoeste sobrepujado pela investida inesperada dos cangaceiros, os bandidos inverteram o propósito das toras que delimitavam o acampamento, usando-as como cobertura para atacarem os defensores que vinham do outro lado.


Os guardas se escondiam detrás das tendas, mas muitos estavam indefesos, atirados ao chão para evitar as balas que atravessavam sem dificuldade suas frágeis proteções. Outros, feridos, permaneciam em campo aberto, indefesos em meio aos cadáveres de companheiros.


A maior parte dos guardas se concentrava nas proximidades do centro do acampamento, onde o grande número de tendas fornecia fácil esconderijo desde que se andasse agachado. Ali, o comandante da guarda bradava ordens, em meio ao zunido de balas que cortavam os ares.


Um guarda, ajudando um companheiro ferido, alcançou o comandante. "Senhor", disse, "parte deles avançou pro flanco sul, e a gente não conseguiu segurar".


"Sul e sudoeste tomados, e o atirador no nordeste. Isso é péssimo, se nos cercarem estaremos perdidos!", analisou o comandante. "Reforcem os flancos que não caíram!", vociferou, apontando para grupos de guardas e designando-os para o oeste e sudeste. "Aos demais, não permitam que tomem o centro do acampamento! Somos maioria! Eles não têm como ganhar por atrito!"


"Céus, que estratégia imbecil é essa?", veio a voz de Mara'iza, saindo da tenda junto com Calabros, "Ficar levando tiros até eles se cansarem? Não é melhor reunir todo mundo num único flanco e sobrepujá-los? Por que tentar defender uma posição que não é estrategicamente vantajosa?".


"Se esse plano significa descer o sarrafo neles, por mim parece bom demais!", Zé comentou, estalando os punhos. "Cabra-macho não arrega pra briga. Vai pra cima e senta a mão!"


O comandante os olhou irritado. "Como vocês se soltaram? Calem a matraca e voltem pra tenda! Ordens do coronel, e se desobedecerem vou tratá-los como inimigos!".


"Aí vira problema seu", provocou Zé Calabros, se sentando no chão com as pernas cruzadas. "Quebrar a cara de mais um não vai ser dificuldade nenhuma!"


Mara'iza sorriu. Era tão baixinha que mal precisava se agachar ali. "Mande seus homens atentarem ao flanco sul. Vamos eliminar a vantagem deles num instante."


"Vocês estão loucos?", o comandante questionou. "Nem estão armados!"


"Então fica aí olhando, abestado!", provocou Zé.


"Exato!", concordou Mara'iza, exibindo o seu típico sorriso arrogante. "Recolha-se à sua insignificância... e contemple!"



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Doze cangaceiros dominavam o flanco sul, usando as toras do perímetro para se protegerem de revides. Uns dez metros separavam o parapeito e as barracas mais próximas e, embora a movimentação dos defensores tivesse cessado, os malfeitores urravam provocações e ocasionalmente disparavam a esmo.


Confiantes pela vitória, os bandidos se surpreenderam ao verem a frágil e desarmada Mara'iza surgir entre duas tendas adiante. Com semblante temerário, a menina esticou a mão na direção deles, como que desafiando-os a atacar.


Por reflexos, uma salva de tiros foi lançada contra a menina, mas para surpresa dos atiradores as balas provocaram apenas lampejos inofensivos ao atingirem a barreira de energia translúcida que se formara adiante da moça.


"Perfeito, estão de joelhos! Posição digna para capachos!", ela provocou, gesticulando ligeiramente e saltando para detrás das tendas.


Os bandidos voltaram a atirar em vão, perfurando a lona da barraca, mas Mara se protegera jogando-se ao chão. Na comoção, não perceberam se formar uma redoma intangível e translúcida, notável apenas por leve refração nas bordas. O construto mágico, de cerca de sete metros de diâmetro, englobou boa parte do trajeto entre o parapeito e as tendas, incluindo os três cangaceiros mais ao centro da linha de atacantes.


Competindo com os estampidos dos tiros, Mara'iza gritou a Calabros, escondido atrás da tenda vizinha: "Ei, ogro! Conta até três e vai!".


Mara então estalou os dedos, e os cangaceiros sob a redoma sumiram em lampejos luminosos, ressurgindo de imediato na borda oposta, de costas para as tendas. Os três, enjoados e aturdidos pelo teleporte, largaram as armas e se apoiaram no chão. Os demais bandidos, pasmos com o evento, pararam de disparar.


Com a trégua nos tiros, Zé Calabros se revelou, investindo contra os três e chutando as costas do cangaceiro do meio. O malfeitor voou uma bela distância antes de tombar inerte. Calabros então agarrou os outros dois pelas roupas e os ergueu à força, usando-os como escudos para continuar sua arremetida.


Os bandidos no parapeito, recuperados da surpresa, dispararam nova salva de balas, mas atingiram apenas os escudos humanos, incapacitando-os mortalmente.


Alcançando o outro lado, Zé Calabros largou os dois bandidos e chutou uma tora do parapeito com toda a força, lançando-a cerca de um metro e meio e atingindo os nove cangaceiros protegidos atrás dela. Cinco malfeitores acabaram esmagados sob a peça de madeira, e os demais foram atirados para o descampado além.


Após rolar para longe, um dos bandidos se ergueu, apontando o revólver para revidar. "Tu é um homem morto, caboclo!", ameaçou.


Zé o alcançou antes que fizesse mira, agarrando seu pulso e forçando-o a apontar para longe. "O nome é Zé Calabros, fela-d'égua, e se a morte vier me pegar, eu quebro a cara dela!", bradou, nocauteando-o com uma cabeçada, arrancando-lhe o revólver e arremessando-o contra outro malfeitor que se levantava ali perto.


Um último bandido ainda teve forças para se levantar e sacar seu facão. Do acampamento, Mara'iza lançou uma seta de energia cintilante contra esse valente. O raio mágico explodiu ao atingi-lo, tirando-o de combate.


Com o cessar das hostilidades, Mara'iza veio correndo e, ao entrar na área da redoma mágica, se transportou num lampejo para o parapeito. "Nada mal", disse ela, "mas lembre-se que sem mim, você estaria recheado de balas antes de alcançar o primeiro deles".


"Eu dava um jeito", ele retrucou, "que nem vou fazer com aquele bando de cabrunquento ali". Apontou para o flanco sudoeste, de onde mais cangaceiros vinham contornando os limites do acampamento.


Uma saraivada de balas partiu do acampamento, atingindo os cangaceiros que se aproximavam. Alguns tombaram mortos, outros, feridos ou não, se jogaram atrás da proteção do parapeito. O comandante e seus guardas avançaram contra o flanco sudoeste para retomá-lo.


Vendo que os defensores sobrepujariam os bandidos, Mara'iza relaxou, fazendo sua redoma mágica desaparecer, e riu. "Pelo visto, quando a proporção sobre os adversários sobe a quatro contra um, o coeficiente de coragem dos guardas se torna positivo."


Zé fez cara de quem não entendeu.


Ela revirou os olhos. "É uma piada, seu idiota!"


"Parece que aqui as coisas vão se resolver logo", Zé comentou, cruzando os braços e olhando para o nordeste, "Mas acho que ainda tem treta pra lá".



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O Coronel Garrancho e seus jagunços se espalharam ao longo do parapeito, procurando o "atirador fantasma", a partir da direção de seu último ataque.


Mané do Cangaço, contudo, retornara ao ponto inicial de sua investida. Adiante, no descampado entre as árvores e o acampamento, estavam os corpos de dois guardas que matara mais cedo, com suas armas abandonadas ao chão, prontas para serem tomadas. "A brincadeira acabou, Garrancho", Mané murmurou, respirando fundo e assumindo feições sérias.


O cangaceiro saltou da mata e correu na direção do acampamento, descarregando as cinco balas que restavam naquele revólver. Duas atingiram o adversário mais próximo, ferindo-o e matando-o em rápida sucessão. Outra atingiu de raspão a cabeça de um segundo jagunço, que tombou com o susto, ainda vivo e apto a combater. Os demais disparos se perderam, com os alvos se protegendo atrás do parapeito.


Mané largou a arma e saltou ao chão quando veio o revide, evitando a salva de balas. Rolou entre os dois cadáveres, pegando seus revólveres, e se ergueu sem perder velocidade. Continuou a travessia, pulando o parapeito, e atirou sucessivamente com um dos revólveres tomados até sumir entre as tendas. Os tiros a esmo visavam evitar o avanço dos adversários, mas atingiram um jagunço azarado, incapacitando-o.


"Mané do Cangaço!", murmurou o Coronel Garrancho, confirmando seus medos ao reconhecer o atacante. "Homens, juntos!", ordenou, e os cinco jagunços restantes o cercaram.


Escondido no interior de uma tenda, Mané parou para recuperar o fôlego. Lamentou a perda do chapéu durante a corrida, mas evitara as balas inimigas. Jogou fora a arma descarregada e passou o outro revólver tomado para sua mão direita, abrindo-o, contando as balas e armando-o novamente.


"Derrubem as tendas", ordenou o coronel.


Mané avançou de barraca em barraca e, notando o grupo inimigo se aproximando como uma só unidade, apontou o revólver às cegas e o descarregou numa salva de balas. Os tiros a esmo atravessaram sem dificuldade a lona das tendas, alvejando o grupo sem nenhuma precisão. Ainda assim, dois jagunços caíram, feridos na perna e na barriga, e um terceiro levou um ferimento de raspão no braço.


"Pro chão!", o chefe dos jagunços avisou, jogando-se e levando o coronel consigo. Os outros dois que ainda estavam em pé não reagiram tão rápido.


Mané do Cangaço surgiu se erguendo a menos de seis metros deles, já com o seu próprio revólver em mãos. Com a visão desimpedida, deu dois tiros certeiros e sumiu de novo, rolando pelo chão para evitar um possível revide que não ocorreu. Os dois jagunços tombaram mortos.


Notando que restavam apenas ele e o coronel, o jagunço-chefe, Tomás, se levantou com a espingarda em mãos, com cuidado para não dar mira ao inimigo. "Patrão, ponha-se a correr daqui!", ordenou, "Eu seguro o desgramado!".


"Não, corra você, Tomás!", insistiu Garrancho, ainda caído, ao subalterno. "Esse aí é o braço direito de Severino Barriga D'Água! Só vai parar de matar quando me pegar! Foge e me deixa aqui, é uma ordem!"


"Com todo o respeito, patrão, mas pro inferno com essa ordem! Esse desgraçado não vai parar de matar enquanto for vivo, e o que vai ser de Santa Rita sem você?"


O jagunço tinha razão, mas doía ao coronel abandonar um homem tão leal. "Tomás, que Padim te abençoe", disse, erguendo-se e pondo-se a correr na direção do centro do acampamento.


Mas Mané já tinha dado a volta, surgindo no caminho do coronel e disparando duas vezes com seu revólver. Uma bala atingiu o ombro de Garrancho, fazendo-o largar a espingarda e cair com o baque. A outra foi direcionada ao jagunço Tomás, mas este conseguiu se jogar para trás das tendas, evitando-a.


"Ah, finalmente um jagunço bom de serviço!", disse Mané do Cangaço, chutando para longe a espingarda do coronel e pisando no peito dele. "Achei que cê tava cercado só de moleques que nunca mataram um cabra na vida, Garrancho!"


"Meus homens são pessoas comuns, Mané, que só querem defender suas terras e famílias de bandidos como você!", provocou o coronel.


Mané o ignorou e, mantendo-se atento aos arredores, chamou pelo jagunço. "Aparece, cabra, ou o coronelzinho morre! Vou contar até três!"


Silêncio.


"Um..."


Os olhos de águia de Mané notaram uma movimentação entre as barracas.


"Dois..."


O jagunço Tomás surgiu, já com o dedo no gatilho da espingarda. Mané, porém, foi mais rápido, atingindo o homem no peito. Tomás caiu no chão, ainda vivo, mas ferido gravemente.


"Hi hi hi hi!", Mané gargalhava quando notou o coronel tentar sacar o revólver, preso ao coldre do cinto. "Nem tenta nada, que cê sabe que essa ferida no ombro não foi erro nem piedade da minha parte!", disse, apontando a arma para a cabeça de Garrancho e tomando o revólver dele.


"Então me mate logo de uma vez!", ordenou Garrancho.


"Não se avexe, coronel, que traidor não merece morte rápida!", disse Mané do Cangaço, guardando o próprio revólver e empunhando o de Garrancho. Foi quando percebeu, pelo canto da visão, que duas pessoas, um homem alto e uma moça baixinha, vinham correndo do centro do acampamento. "Ora, mas hoje é meu dia de sorte! Apareceram os dois que eu tava procurando!", murmurou, mostrando o sorriso desdentado.



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"Os tiros pararam", disse Mara'iza, seguindo para o flanco nordeste. "Acho que chegamos tarde, grandalhão."


Acompanhando-a, Zé Calabros notou vinte metros à frente um único sujeito visível naquele lado do acampamento. Algo não cheirava bem.


O homem estava de costas, mas se virou na direção deles num movimento rápido, já disparando duas vezes com o revólver.


"Cuidado!", Zé gritou, empurrando Mara'iza para o lado e saltando pro chão na direção oposta.



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"Olha só, e não é que o sujeito é rápido mesmo?", murmurou Mané do Cangaço, perdendo o sorriso dos lábios. Errara os dois tiros, quando tinha certeza de que pelo menos a menina já estaria morta. "Vem em mim, Zé Calabros! Vamos ver se tu é digno das histórias que contam!"



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O empurrão súbito de Zé jogou Mara'iza ao chão, machucando-a. Recobrando-se da surpresa, gritou com Calabros, que estava abaixado atrás de uma tenda ali perto. "Seu ogro estúpido! Que ideia foi essa?"


"Shhh!", Calabros pediu silêncio. "E me agradeça, que é só por isso você ainda tá viva!"


"O que há? Ficou acovardado igual aos guardas, ogro?", perguntou ela, ajoelhando-se. "Cadê toda a sua bravata agora?"


"Esse sujeito aí na frente não é capanga qualquer não!", disse Zé.


"Você é um inútil quando sua mão não alcança a cara das pessoas, né?", resmungou Mara. "Deixa que eu cuido desse aí!"


"Ei, Mala, nem tenta! Você não sabe como é cabra desse tipo!", pediu Zé.


Mara'iza gesticulou, desaparecendo no instante seguinte.


"Mala?", Zé perguntou por ela, então gritando: "Volta aqui, Malaísa dos infernos!!!"



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Com o tempo paralisado, Mara'iza correu pelo acampamento, circundando o bandido. Infelizmente, o feitiço não duraria mais do que alguns segundos relativos, e ela não conseguiria alcançá-lo. "Coisa horrorosa", murmurou ao notar as feições do atirador, e então se atirou ao chão ao pressentir que logo se realinharia ao tempo natural.


O fluxo do tempo se restaurou, e ela pôde ouvir Zé gritar por ela. "Sinto muito, grandalhão, mas não quero te ver levando tiro", sussurrou, seguindo furtivamente a fim de surpreender o cangaceiro pelas costas.



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Mané manteve o revólver pronto para disparar, recuando um pouco e deixando o Coronel Garrancho estirado no solo, mas ainda em sua linha de visão. "Cês tão mancomunado, Garrancho? Cê, esse Zé Calabros, a feiticeira... Cês vieram parar o Severino, não é? Não querem a gente em Bota do Judas. Mas vai ser inútil, porque vou matar cada um de vocês! Daí só vai sobrar a Coronel Malícia pra gente derrubar."


O coronel não respondeu, ficou caído, gemendo de dor.


"Aparece, Zé Calabros! Aparece se for macho!", o cangaceiro urrou provocante.


Uma repentina explosão prateada atingiu as costas de Mané, jogando-o para a frente. "Para dar-lhe um jeito, basta uma menininha, covarde!", bradou Mara'iza, revelando-se alguns metros atrás do bandido.


Mané rolou no chão e, nem um pouco aturdido, se ergueu num pulo, disparando contra ela.


A velocidade de reação dele surpreendeu Mara, mas ela estendeu a mão adiante, criando a barreira mágica para impedir as balas. "Uau, pedaços de metal! Que sofisticado!", provocou, atirando sucessivamente duas lanças cintilantes contra o bandido.


Ao invés de continuar atirando, Mané se arremeteu contra ela, esquivando-se habilmente dos dois raios mágicos sem reduzir a velocidade de avanço.


"Impossível!", murmurou ela, surpresa com a agilidade do bandido. Sentiu a curta duração do escudo arcano esgotar, e tentou gesticular mais um feitiço.


O cangaceiro, alcançando-a, chutou a barriga de Mara'iza com tremenda força, fazendo-a cair no chão. Antes que ela se levantasse, ele pisou sobre o peito dela e apontou a arma para sua cabeça. "Já matei feiticeiros antes, menina!", disse, puxando o gatilho.


Mara'iza desapareceu.


O tiro atingiu o chão, e sem a moça sob seu pé, Mané perdeu o equilíbrio por um instante, mas logo se recobrou e perscrutou a área. Notou-a agachada, tentando recuperar o fôlego, atrás da tenda mais próxima e, mesmo não podendo vê-la claramente, disparou o revólver.


A bala feriu-a de raspão no braço esquerdo. Com o susto, ela fritou de dor e se jogou ao chão. Só não perdeu seu grimório por levá-lo a tiracolo, preso pela alça.


Mané riu, rodeando a barraca para obter uma mira desimpedida. "Hi hi hi!"


Caída, Mara'iza criou um globo de energias luminosas do tamanho de uma melancia, que voou velozmente na direção do cangaceiro, destruindo a tenda que se interpunha entre eles.


Mané evadiu a orbe de energia e apontou a arma para ela. "Não adianta, você vai morrer aqui, menina!"


O globo de energia fez a volta no ar, atingindo as costas de Mané e explodindo. O impacto fez o cangaceiro perder a mira e puxar o gatilho, desperdiçando uma bala, e o jogou contra outra barraca à frente, que se desfez diante do peso do bandido.


"Não me subestime, seu insignificante!", Mara'iza urrou, sentando-se no chão. Ela sorriu vitoriosa, mas sua expressão mudou para espanto quando o cangaceiro se levantou. Os ataques dela o feriram, mas ele provara ser mais resiliente do que pressuposto.


"Cê parece cansada", disse ele com clara expressão de dor e raiva, então apontou o revólver e disparou novamente.


Ela ergueu o braço, e o escudo mágico parou a bala. Em seguida, disparou uma seta cintilante, da qual o cangaceiro se esquivou sem dificuldades.


"Esse raio foi mais lento e menor. Tá acabando suas forças, né? Mas eu ainda tenho duas balas neste revólver e três no outro, e duas garruchas e um bacamarte", Mané provocou, "E você? O que tem?"


"O que eu tenho...?", murmurou Mara, ofegante. Já começava a sentir fadiga, após usar tantos feitiços complexos. Manteve o braço erguido, pronto para criar mais uma barreira, mas sabia que não teria forças por muito mais tempo.


Mané do Cangaço sorriu ao notar que ela estava encurralada. "Você não tem nada que vá me derrubar, não é?"


A menina parecia sem resposta. Mas então a face dela expressou espanto, e seu olhar se desviou espontaneamente para algo atrás do bandido.


Mané, pressentindo perigo, se virou a tempo de ver um tronco de madeira de uns dois metros de comprimento vir em sua direção num arco descendente. O cangaceiro mal conseguiu evadir a tora, saltando e rolando para longe antes que ela o esmagasse.


"Ela tem um amigo, seu fela-d'égua!", Zé Calabros bradou em arremetida, vindo da direção de origem da tora.


Mané se levantou num pulo, apontou o revólver e apertou o gatilho.


Calabros girou o corpo, mudando sua posição, e continuou a investida sem perder velocidade, enquanto a bala passou inofensivamente a centímetros de sua cabeça. Mané mirou de novo, mas antes que disparasse foi atingido por Zé num encontrão.


Arremessado pelo impacto, Mané caiu sentado. Recobrando-se do baque, apontou o revólver para retaliar, mas um chute de Calabros fez a arma voar para longe. O bandido então rolou para se afastar e prontamente se levantou, puxando o bacamarte que levava às costas.


Zé agarrou o cano da arma, arrancando-a das mãos do adversário, e golpeou a cara do cangaceiro. "Luta que nem homem, desgramento!", provocou, jogando o bacamarte para longe.


Cambaleante e estonteado, Mané se afastou e sacou o outro revólver, mas demorou demais a mirar. Alcançando-o de novo, Zé o socou no estômago e, torcendo-lhe a mão, forçou-o a largar a arma. Sem forças, o bandido só não tombou porque Calabros o agarrou pelo colarinho e o forçou a encará-lo.


"Cê é ajegado mesmo, cabra da peste! Bate que nem um touro!", admitiu Mané, no limite da consciência. "Mas se meteu com a gente e protegeu aquele traíra do Garrancho! Severino vai te caçar até o fim do mundo, seu desgraçado, e não vai ter buraco nessa terra em que cê possa se esconder!"


"Então diz a Severino que vou quebrar a cara dele", Zé Calabros bradou, exibindo o punho cerrado. "Aliás, deixa que eu mesmo falo com ele, já que é na tua fuça feia que vou sentar a mão agora!"


Aturdido, Mané do Cangaço não teve como reagir ao golpe seguinte. O punho de Calabros foi a última coisa que o cangaceiro viu.



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O anoitecer estava próximo, e os homens do coronel tentavam se reorganizar. No centro do acampamento, dois socorristas administravam tratamentos e remédios aos feridos. O Coronel Garrancho, com uma tipóia no braço, supervisionava a situação, acompanhado do comandante da guarda.


"Vinte e três mortos, coronel, mais oito incapacitados", disse o comandante, "Estamos reduzidos a cinquenta e um homens, dos quais quinze estão feridos, mas podem lutar."


"E Mané do Cangaço?", Garrancho perguntou.


"Inconsciente, mas dessa noite não passa. Zé Calabros bateu tão forte que esmigalhou o crânio dele."


"Que o diabo o carregue!", desabafou o coronel, "Não fosse esse cangaceiro desgraçado, não teríamos perdido tanta gente!".


"Senhor, é melhor não atacarmos esta noite. O moral da tropa está baixo, e não sabemos se Severino tem ciência de nossa presença aqui. Devíamos voltar pra Santa Rita, para recrutar mais homens e nos reorganizarmos."


"Não, a gente vai pra Bota do Judas!", refutou Garrancho. "Esta noite é nossa última chance de mudar os rumos dessa guerra! Prepare os homens para partir em trinta minutos."


"Sim, senhor!"


"Comandante, onde estão Zé Calabros e Mara'iza?"


"A menina recebeu tratamento no braço, e devolvi os pertences a eles conforme ordenado. Zé Calabros estava por aqui até agorinha, acho que foi pro flanco leste", respondeu.



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"Como tá o braço?", Zé perguntou, aproximando-se da menina.


Mara'iza, sentada sobre o parapeito, olhou para as bandagens alquímicas que cobriam a ferida. "Está bem, o remédio fez parar de doer", murmurou desanimadamente, voltando a fitar a floresta à frente.


"Que foi que te deixou aperreada?", questionou, se sentando ao lado dela.


Ao invés de responder, Mara fez uma pergunta. "Como você sabia que aquele sujeito era tão perigoso?"


"É instinto, já vi gente assim, que não pensa nem hesita, só age. É sujeito que já treinou tanto na vida, tá tão habituado com briga, tão acostumado a matar, que se move igual um raio."


"Como você", ela sussurrou.


"É, que nem eu, mas brigo pra proteger, não pra matar!"


"Nunca vi alguém tão forte quanto você", confessou Mara.


"Ah, mas nesse mundão deve ter gente muito mais forte que eu. Estou longe de ser santo!"


Mara'iza não entendeu. "Santo? O que isso tem a ver com ser santo?"


"Aqui na Cornália, a gente diz que o cabra que faz milagre, pro bem ou pro mal, é santo. Por isso que tem lugares chamados São Vatapá ou Santa Rita. Fizeram milagres, e um dia vou fazer também. Com meu punho!"


Mara'iza o fitou, não conseguindo esconder a admiração. Ela já ouvira histórias de feitos impossíveis, inclusive em sua terra natal, onde os guerreiros sam'rai, supostamente capazes de milagres com a espada, eram exaltados.


"Aí estão!", a voz do Coronel Garrancho veio de trás, intrometendo-se. "Vim agradecê-los. Devemos nossas vidas a vocês."


"Carece de agradecimento não", disse Zé, se levantando e virando para o coronel.


"Precisam sim. Vocês salvaram minha vida, meus homens e talvez toda a Cornália. Esta noite romperemos o cerco de Bota do Judas, graças a vocês!"


"Então é pra isso que você tá aqui no mato?", perguntou Calabros.


"Sim. Severino espera um ataque de Curva do Vento, mas não de Santa Rita! Combinei com a Coronel Malícia, que apenas esperava um carregamento de armas para fazer sua investida. Não duvido que já esteja a caminho! Se formos bem-sucedidos, resgataremos o Coronel Meneses, e teremos uma união de coronéis como não se vê desde a grande praga dos dragões, há duzentos anos!"


Por um instante, Calabros se perdeu em memórias ao ouvir sobre a praga, mas logo se recobrou, questionando: "Sua tropa tá em condições?"


"Sim. Não tão boas quanto gostaria, mas eu iria ainda que sozinho! Conheço Severino Barriga D'Água e sei o que fará se não o detivermos. Esta noite será decisiva, e não posso desperdiçar tal oportunidade!"


"Conhece Severino?", Zé estranhou, lembrando-se do que Mané dissera durante a briga. "Aquele cangaceiro lazarento te chamou de traíra."


"Sim", confirmou Garrancho, "anos atrás, fiz parte do bando de Severino. Tenho pecados a expiar e uma parcela de culpa na situação atual. Não vou descansar em paz se não impedi-lo."


Mara'iza, ainda sentada e sem olhar para os dois, interrompeu a conversa. "Coronel, estamos liberados para ir?"


"Claro! Que Padim os abençoe, pois por certo foi ele quem os pôs em meu caminho! Foi um imenso prazer conhecê-los!", disse o Coronel Garrancho, despedindo-se educadamente e se afastando.


Zé ficou pensativo, vendo Garrancho se distanciar. "Ele é um bom homem", murmurou.


Levantando-se, Mara'iza olhou para Zé e suspirou. "Já sei, você quer ajudá-lo."


"Como você sabe?", ele perguntou, surpreso.


"Você é tão misterioso e insondável quanto um pergaminho em branco", ela resmungou.


"Deixa que eu cuido disso", disse ele, "Você tá ferida. Fica no acampamento e descansa".


"Ferida? Você chama isso aqui de ferimento? Ao inferno sua preocupação!", ela esbravejou. "Percebi que tenho muito a me aprimorar antes de seguir a Dragona! Se está preocupado, façamos assim: eu te protejo, você me protege, e juntos ensinaremos a esses cangaceiros uma lição que nunca esquecerão!"


Zé sorriu, batendo o punho fechado sobre a palma aberta da outra mão. "Então tá decidido!"


A seguir: Vida e morte, Severino

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As Crônicas Anímicas

© 2016 Tiago Moreira