Prévia: Capítulo 6


Se você leu o capítulo 5, a ansiedade pelo próximo deve estar alta. Pois bem, vamos amenizar a espera com esta prévia, com as QUATRO primeiras cenas do Capítulo 6: Vida e morte, Severino!

E este capítulo, amigo... Ah, aqui se inicia o segundo ato de nossa história. Acredite, você não viu nada ainda! Você conhece nossos protagonistas, Zé e Mara, mas ainda não sabe nada sobre nossa nêmese. É hora de mudar isso. Entra em cena o Rei do Cangaço!

Quatorze anos atrás...


Faminto, apavorado e cansado, o menino lutou para mover os destroços e alcançar a luz já fraquejante do sol poente.


Ele procurou por sobreviventes, mas todos foram levados. Seu pai, sua mãe, Jão Bentecastro, Nhá Rosa, Dita, Marianita, Bentinho, Quinzinho... Até os cavalos, o gado e os cães. Nada mais restara.


Naquele momento, o menino Zequinha se viu sozinho. E chorou, quebrando o silêncio funéreo da planície desolada. À criança, de apenas sete anos, era revelado um mundo injusto e brutal, tão sombrio quanto a noite vindoura.



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A escuridão já era intensa quando o menino despertou do estupor. Suas lágrimas tinham secado, mas o peso da tragédia ainda recaía sobre seus ombros. Não sabia quanto tempo passara ali no chão empoeirado, nem se lembrava de presenciar o anoitecer. As memórias daquele dia fatídico eram um turbilhão em sua mente, impossibilitando-o de raciocinar.


Demorou algum tempo até que Zequinha recobrasse por completo a consciência, quando então percebeu tochas e lampiões se movendo nos limites da vila ao norte. Levantou-se, mas, com as pernas trêmulas e a cabeça zonza, quase levou um tombo ao tentar correr. Teve de seguir cambaleante na direção das luzes.


Afastando-se das ruínas da casa-grande, o menino viu o caminho bloqueado por um grande obstáculo, difícil de identificar sob a fraca luz das estrelas. Aproximando-se daquele estranho objeto, ouviu o zumbido de moscas e o forte odor de decomposição. Gritou assustado e recuou de supetão, caindo sentado, ao reconhecer que se tratava de um dragão caído. O coração palpitante se acalmou ao notar que a fera inerte já estava morta.


Era o mesmo monstro do qual Jão Bentecastro o salvara naquela manhã. Jão era um homem forte, o mais capaz dos jagunços de seu pai, mas como conseguira matar sozinho, usando apenas um facão, uma criatura daquelas? O menino se levantou boquiaberto, não crendo em seus olhos.


Zequinha percebeu então que seu susto alertara as pessoas que rondavam a vila. Lampiões de um pequeno grupo se separaram da aglomeração e vinham na direção da casa-grande. Aliviado, o menino os aguardou, imaginando-se salvo e fantasiando que talvez fossem seu pai e os jagunços.


Foi quando o menino ouviu gritos na vila, seguidos por tiros que os calaram. E o grupo, já a meio caminho, não se abalou, continuando a passos ligeiros como se nada tivesse acontecido. Mais tiros ecoaram da vila, e novamente o bando não hesitou.


O coração de Zequinha voltou a palpitar forte. Aqueles não eram homens de seu pai, nem sobreviventes como ele! Eram bandidos! Desesperado, o menino correu de volta às ruínas da casa-grande, escondendo-se atrás das paredes que ainda resistiam.


Os malfeitores não tardaram a chegar. "Acho que o grito veio daqui", um homem falou lá fora.


"Capitão", disse outro, "olha só pra isso aqui!"


Zequinha espiou furtivamente o grupo. Eram seis cangaceiros, todos armados. O líder deles, um homem magro, se aproximou do cadáver do dragão, avaliando a fera. "Mas que belezura, Mané! Quero a caveira desse bicho pra mim, pra modo de guardar como troféu!"



"Quer que a gente corte agora, capitão?"


"Agora não, Mané, seu estropício! Deixa pr'antes da gente partir! Esses escombros aqui devem ser da casa do coronel. Deve ter coisa boa demais da conta aí debaixo!"


"Sim, capitão!"


"E olho aberto, todos vocês, que pode ter algum vivo por aqui"


Com a aproximação dos cangaceiros, o menino se esgueirou pelos destroços a fim de evitá-los. Por sorte, o barulho do entulho revolvido pelos bandidos ajudava-o a se mover sem ser ouvido. Atravessando as ruínas, Zequinha esperava sair pelos fundos, de onde poderia correr para o mato.


Contudo, um sétimo bandido, este sem lampião nem tocha para denunciá-lo, apareceu do nada, bloqueando o caminho do garoto. Zequinha tentou evitá-lo, mas ele agarrou violentamente o menino pelo braço e pressionou-lhe a garrucha contra a cabeça.


"Me larga!", Zequinha protestou aos berros e prantos.


"Capitão", gritou o cangaceiro, "Achei um vivo aqui, mas é só uma criança!".


O capitão veio correndo assim que ouviu a comoção. "Homem, criança, mulher ou velho, que diferença faz? Daqui ninguém sai pra contar história. Passa fogo!"


"Mas capitão..."


"É ordem, cabra, seja homem!", o líder ameaçou. "Passa fogo nele, senão atiro nos dois, que não tenho serventia pra frouxo no meu bando!"


"Sim, senhor!", ele aquiesceu, baixando a cabeça e arrastando o menino para o mato ali perto.


Zequinha se debatia e gritava, mas não conseguia se desvencilhar. Arrastado para o mato, foi arremessado com violência contra o chão. Aos prantos, implorou pela vida. "Não me mata, por favor! Pela piedade de Padim, não me mata!"


"É ordem do capitão...", murmurou o cangaceiro, mirando a garrucha, mas hesitando em apertar o gatilho. Trêmulo, ele olhou para trás, se certificando que nenhum companheiro o seguira, então fez então um sinal de silêncio para o garoto e sussurrou: "Finge de morto, moleque". Afastou a mira do garoto, e o estampido do disparo ecoou pela planície.


Zequinha levou as mãos à boca, segurando-se para não berrar. Encolheu-se ali, aterrorizado, vertendo lágrimas copiosas de seus olhos.


"Está feito, capitão!", o bandido gritou, dando as costas e retornando aos companheiros.


"Tá abalado, cabra?", perguntou o capitão, tão logo o homem voltou às ruínas.


"Não, capitão", mentiu.


"Tá tremendo igual vara verde!", o capitão riu, dando-lhe tapinhas nas costas. "Cê é o novato que luta com os pés, né? Ouvi dizer que já matou gente antes, mas, criança, é a primeira vez?"


"Sim, senhor", gaguejou.


"Tem que fazer sacrifício nessa vida, homem! Um dia, vai se acostumar. Essa tremedeira é só fraqueza!"


O homem se aliviou ao notar que o engodo não fora percebido.


"Cambada!", o capitão chamou a todos, elevando a voz. "Hoje o destino sorriu pra gente! O Coronel Calabros se danou muito bem feito, e a riqueza dele vai ser toda nossa!"


Os cangaceiros urraram animados.


"Com esse dinheiro, a gente vai se armar e crescer! E daí, juro pr'ocês, os coronéis vão pagar por tudo que nos fizeram!"


O bando bradou triunfante. "Viva o capitão!"


"A gente vai começar pelos pequenos. Vamos invadir suas fazendas, tomar suas coisas, mandar bala nos desgracentos! O povo vai passar pro nosso lado quando notar o que tamos fazendo! Daí, a gente parte pros grandões: Silvério, Malícia, Mendes, Meneses... Até que todos tejam a sete palmos debaixo da terra, comendo capim pela raiz! Cês tão comigo?"


"Na vida e na morte, Severino!", gritaram numa só voz.


"A gente vai ter nossa vingança!", urrou Severino Barriga D'Água, sob ovação dos capangas, "Vamo fazer nossa justiça!".


Contrastando com a comemoração vitoriosa dos cangaceiros, ali perto Zequinha permaneceu, encolhido e trêmulo, em pranto silente.



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O presente...


O sol, tão baixo que já se escondia detrás da mata, deixava o céu avermelhado. Sob ordens, os guardas checavam equipamento, conferiam munição, pegavam armas e se preparavam para deixar o acampamento. Cochichos desesperançados, contudo, se espalhavam entre eles.


"Os cangaceiros são fortes demais!"


"Perdemos um terço no ataque desta tarde."


"Vamos fugir! Não faz sentido morrer aqui!"


O comandante e os capitães tentavam censurar os protestos e desabafos, mas o silêncio só veio quando Zé Calabros e Mara'iza atravessaram o acampamento, rumo à tenda do coronel.


"Eles ainda estão aqui? Será que vão com a gente?", os guardas passaram a se perguntar.


Zé, estoico, nem notou a mudança de humor da tropa. Já Mara'iza, percebendo o burburinho, estufou o peito e sorriu de orelha a orelha.



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Em sua tenda de comando, Coronel Garrancho recebeu Zé Calabros e Mara'iza e, ouvindo a decisão deles, agradeceu-os: "Fico satisfeito por nos acompanharem. Certamente o moral da tropa melhorará. Vai soar estranho, mas sua decisão já me era esperada".


"Não ficou surpreso?", questionou Mara'iza, incrédula. "Acha normal que dois completos estranhos decidam arriscar a vida assim?"


"Não, normal não é, mas este mundo está cheio de pessoas incomuns. Os dois me lembram uns viajantes que passaram pela Cornália nove anos atrás..."


Mara ficou curiosa. "Quem eram essas pessoas?"


"É uma longa história", disse o coronel, notando o interesse da menina, "lá do tempo do Coronel Tibúrcio Mendes. Com máquinas matrixianas e mercenários, ele formou um exército como nunca se viu antes nestas bandas e, forçando a rendição dos outros coronéis, dominou a Cornália".


"Esse Tibúrcio Mendes", ela lembrou, "foi o coronel que você sucedeu, não?".


"Exatamente! Naquela época, eu era cangaceiro, capanga de Severino Barriga D'Água. Estávamos saqueando Bota do Judas, essa mesma cidade que vim hoje defender, quando nos defrontamos com um pequeno grupo de viajantes. Mesmo em menor número, eles protegeram a cidade e puseram o bando de Severino pra correr."


"E somos parecidos com eles?", Mara questionou com um sorriso envaidecido.


"Há semelhanças, sim, mas a história não termina aí. Entre eles, estava um amigo de infância, que saiu da Cornália anos antes, depois de perder o pai pro Tibúrcio. Ele me convenceu a abandonar o cangaço, e me juntei ao grupo como guia. Poucos dias depois, vi fazerem o que nem coronéis nem cangaceiros conseguiram em anos: derrubaram Tibúrcio Mendes!"


"Isso é incrível!", exclamou Mara'iza, tendo uma súbita conclusão logo após, deixando escapar o pensamento: "Nove anos? Será que são os mesmos...?".


"Eu tava pra Catinga Danada naquela época, só ouvi essa história bem depois", Zé informou, questionando num tom mais severo logo depois: "Mas, coronel, por que diabos você tava mancomunado com o desgraçado do Severino?".


Coronel Garrancho respirou fundo e fez uma pausa antes de se explicar. "Eu era de Santa Rita, minha família trabalhava pros Mendes, mas tudo desandou quando Tibúrcio sucedeu o pai. Ele proibiu o comércio livre, derrubou prefeitos e mandou matar gente, inclusive da própria família, pra tomar as terras. Eu fugi de Santa Rita e virei sertanejo, mas queria justiça."


"Você se uniu aos cangaceiros para derrubar o Coronel Mendes", intuiu Mara'iza.


"Coronel Tibúrcio, Malinha", Zé corrigiu, "Ninguém chama o maldito de Mendes, pois ele desgraçou a família."


Garrancho concordou com a correção de Zé, então prosseguiu: "O povo tratava Severino como herói, dizia que o bando era de gente humilde e injustiçada lutando contra ricos, fazendeiros e coronéis. Eu queria derrubar Tibúrcio e fui levado por essa estória, achando que podia tornar a Cornália melhor, mais justa... mais igual..."


Zé ficou indignado. "Matando gente inocente, até crianças?"


"Severino é um diabo carismático, que fala com convicção. Pra ele, tudo é necessário, nada é condenável. Ele te faz se sentir um herói vingador", disse Garrancho, desconfortável. "Quem não está com ele é inimigo, e com inimigo não se tem piedade nenhuma."


Houve uma pausa. Mara'iza e Calabros aguardaram o coronel se recompor.


"Eu matei gente inocente. Mais de uma vez", confessou. "Diziam o tempo todo: 'está fazendo a coisa certa', 'os fins justificam', 'é justiça', 'eles mereceram'... E se você fala contra ou tenta sair do bando, vira traidor. Daí quando vi aqueles viajantes... aqueles heróis... darem uma coça em Severino, aproveitei a chance e abandonei aquela vida."


"E agora você é coronel", apontou Calabros. "Se tornou o que mais odeiam."


"É. Quando os heróis foram embora, o povo achou que eu era um deles. Fiquei pra reconstruir Santa Rita e dei o melhor de mim pra ser um bom coronel. Tentei ser justo, dei liberdade, fiz o possível pra melhorar a vida das pessoas. Ainda assim, muitos dizem que me tornei igualzinho aos outros."


A conversa, contudo, foi interrompida quando o comandante da guarda adentrou a tenda. "Com licença, senhor, vim avisar que a tropa está pronta pra partir."


"Então a gente vai agora mesmo", disse o coronel, levantando-se com dificuldade devido ao braço imobilizado. "E que Padim esteja conosco essa noite!"


"Não se preocupe", Mara'iza sorriu daquele jeito arrogante dela. "Se alguém já pôs o Severino para correr uma vez, podemos fazer de novo!"


"Já se passaram nove anos, Mara'iza", lembrou o coronel. "De lá pra cá, muito bandido infame se juntou a ele. Sabe-se lá quanta força o desgraçado tem agora. Não é à toa que o chamam de Rei do Cangaço!"

Livro Atual
Zé Calabros na Terra dos Cornos
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As Crônicas Anímicas

© 2016 Tiago Moreira