Capítulo 6: Vida e morte, Severino

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Quatorze anos atrás...


Faminto, apavorado e cansado, o menino lutou para mover os destroços e alcançar a luz já fraquejante do sol poente.


Ele procurou por sobreviventes, mas todos foram levados. Seu pai, sua mãe, Jão Bentecastro, Nhá Rosa, Dita, Marianita, Bentinho, Quinzinho... Até os cavalos, o gado e os cães. Nada mais restara.


Naquele momento, o menino Zequinha se viu sozinho. E chorou, quebrando o silêncio funéreo da planície desolada. À criança, de apenas sete anos, era revelado um mundo injusto e brutal, tão sombrio quanto a noite vindoura.



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A escuridão já era intensa quando o menino despertou do estupor. Suas lágrimas tinham secado, mas o peso da tragédia ainda recaía sobre seus ombros. Não sabia quanto tempo passara ali no chão empoeirado, nem se lembrava de presenciar o anoitecer. As memórias daquele dia fatídico eram um turbilhão em sua mente, impossibilitando-o de raciocinar.


Demorou algum tempo até que Zequinha recobrasse por completo a consciência, quando então percebeu tochas e lampiões se movendo nos limites da vila ao norte. Levantou-se, mas, com as pernas trêmulas e a cabeça zonza, quase levou um tombo ao tentar correr. Teve de seguir cambaleante na direção das luzes.


Afastando-se das ruínas da casa-grande, o menino viu o caminho bloqueado por um grande obstáculo, difícil de identificar sob a fraca luz das estrelas. Aproximando-se daquele estranho objeto, ouviu o zumbido de moscas e o forte odor de decomposição. Gritou assustado e recuou de supetão, caindo sentado, ao reconhecer que se tratava de um dragão caído. O coração palpitante se acalmou ao notar que a fera inerte já estava morta.


Era o mesmo monstro do qual Jão Bentecastro o salvara naquela manhã. Jão era um homem forte, o mais capaz dos jagunços de seu pai, mas como conseguira matar sozinho, usando apenas um facão, uma criatura daquelas? O menino se levantou boquiaberto, não crendo em seus olhos.


Zequinha percebeu então que seu susto alertara as pessoas que rondavam a vila. Lampiões de um pequeno grupo se separaram da aglomeração e vinham na direção da casa-grande. Aliviado, o menino os aguardou, imaginando-se salvo e fantasiando que talvez fossem seu pai e os jagunços.


Foi quando o menino ouviu gritos na vila, seguidos por tiros que os calaram. E o grupo, já a meio caminho, não se abalou, continuando a passos ligeiros como se nada tivesse acontecido. Mais tiros ecoaram da vila, e novamente o bando não hesitou.


O coração de Zequinha voltou a palpitar forte. Aqueles não eram homens de seu pai, nem sobreviventes como ele! Eram bandidos! Desesperado, o menino correu de volta às ruínas da casa-grande, escondendo-se atrás das paredes que ainda resistiam.


Os malfeitores não tardaram a chegar. "Acho que o grito veio daqui", um homem falou lá fora.


"Capitão", disse outro, "olha só pra isso aqui!"


Zequinha espiou furtivamente o grupo. Eram seis cangaceiros, todos armados. O líder deles, um homem magro, se aproximou do cadáver do dragão, avaliando a fera. "Mas que belezura, Mané! Quero a caveira desse bicho pra mim, pra modo de guardar como troféu!"



"Quer que a gente corte agora, capitão?"


"Agora não, Mané, seu estropício! Deixa pr'antes da gente partir! Esses escombros aqui devem ser da casa do coronel. Deve ter coisa boa demais da conta aí debaixo!"


"Sim, capitão!"


"E olho aberto, todos vocês, que pode ter algum vivo por aqui"


Com a aproximação dos cangaceiros, o menino se esgueirou pelos destroços a fim de evitá-los. Por sorte, o barulho do entulho revolvido pelos bandidos ajudava-o a se mover sem ser ouvido. Atravessando as ruínas, Zequinha esperava sair pelos fundos, de onde poderia correr para o mato.


Contudo, um sétimo bandido, este sem lampião nem tocha para denunciá-lo, apareceu do nada, bloqueando o caminho do garoto. Zequinha tentou evitá-lo, mas ele agarrou violentamente o menino pelo braço e pressionou-lhe a garrucha contra a cabeça.


"Me larga!", Zequinha protestou aos berros e prantos.


"Capitão", gritou o cangaceiro, "Achei um vivo aqui, mas é só uma criança!".


O capitão veio correndo assim que ouviu a comoção. "Homem, criança, mulher ou velho, que diferença faz? Daqui ninguém sai pra contar história. Passa fogo!"


"Mas capitão..."


"É ordem, cabra, seja homem!", o líder ameaçou. "Passa fogo nele, senão atiro nos dois, que não tenho serventia pra frouxo no meu bando!"


"Sim, senhor!", ele aquiesceu, baixando a cabeça e arrastando o menino para o mato ali perto.


Zequinha se debatia e gritava, mas não conseguia se desvencilhar. Arrastado para o mato, foi arremessado com violência contra o chão. Aos prantos, implorou pela vida. "Não me mata, por favor! Pela piedade de Padim, não me mata!"


"É ordem do capitão...", murmurou o cangaceiro, mirando a garrucha, mas hesitando em apertar o gatilho. Trêmulo, ele olhou para trás, se certificando que nenhum companheiro o seguira, então fez então um sinal de silêncio para o garoto e sussurrou: "Finge de morto, moleque". Afastou a mira do garoto, e o estampido do disparo ecoou pela planície.


Zequinha levou as mãos à boca, segurando-se para não berrar. Encolheu-se ali, aterrorizado, vertendo lágrimas copiosas de seus olhos.


"Está feito, capitão!", o bandido gritou, dando as costas e retornando aos companheiros.


"Tá abalado, cabra?", perguntou o capitão, tão logo o homem voltou às ruínas.


"Não, capitão", mentiu.


"Tá tremendo igual vara verde!", o capitão riu, dando-lhe tapinhas nas costas. "Cê é o novato que luta com os pés, né? Ouvi dizer que já matou gente antes, mas, criança, é a primeira vez?"


"Sim, senhor", gaguejou.


"Tem que fazer sacrifício nessa vida, homem! Um dia, vai se acostumar. Essa tremedeira é só fraqueza!"


O homem se aliviou ao notar que o engodo não fora percebido.


"Cambada!", o capitão chamou a todos, elevando a voz. "Hoje o destino sorriu pra gente! O Coronel Calabros se danou muito bem feito, e a riqueza dele vai ser toda nossa!"


Os cangaceiros urraram animados.


"Com esse dinheiro, a gente vai se armar e crescer! E daí, juro pr'ocês, os coronéis vão pagar por tudo que nos fizeram!"


O bando bradou triunfante. "Viva o capitão!"


"A gente vai começar pelos pequenos. Vamos invadir suas fazendas, tomar suas coisas, mandar bala nos desgracentos! O povo vai passar pro nosso lado quando notar o que tamos fazendo! Daí, a gente parte pros grandões: Silvério, Malícia, Mendes, Meneses... Até que todos tejam a sete palmos debaixo da terra, comendo capim pela raiz! Cês tão comigo?"


"Na vida e na morte, Severino!", gritaram numa só voz.


"A gente vai ter nossa vingança!", urrou Severino Barriga D'Água, sob ovação dos capangas, "Vamo fazer nossa justiça!".


Contrastando com a comemoração vitoriosa dos cangaceiros, ali perto Zequinha permaneceu, encolhido e trêmulo, em pranto silente.



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O presente...


O sol, tão baixo que já se escondia detrás da mata, deixava o céu avermelhado. Sob ordens, os guardas checavam equipamento, conferiam munição, pegavam armas e se preparavam para deixar o acampamento. Cochichos desesperançados, contudo, se espalhavam entre eles.


"Os cangaceiros são fortes demais!"


"Perdemos um terço no ataque desta tarde."


"Vamos fugir! Não faz sentido morrer aqui!"


O comandante e os capitães tentavam censurar os protestos e desabafos, mas o silêncio só veio quando Zé Calabros e Mara'iza atravessaram o acampamento, rumo à tenda do coronel.


"Eles ainda estão aqui? Será que vão com a gente?", os guardas passaram a se perguntar.


Zé, estoico, nem notou a mudança de humor da tropa. Já Mara'iza, percebendo o burburinho, estufou o peito e sorriu de orelha a orelha.



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Em sua tenda de comando, Coronel Garrancho recebeu Zé Calabros e Mara'iza e, ouvindo a decisão deles, agradeceu-os: "Fico satisfeito por nos acompanharem. Certamente o moral da tropa melhorará. Vai soar estranho, mas sua decisão já me era esperada".


"Não ficou surpreso?", questionou Mara'iza, incrédula. "Acha normal que dois completos estranhos decidam arriscar a vida assim?"


"Não, normal não é, mas este mundo está cheio de pessoas incomuns. Os dois me lembram uns viajantes que passaram pela Cornália nove anos atrás..."


Mara ficou curiosa. "Quem eram essas pessoas?"


"É uma longa história", disse o coronel, notando o interesse da menina, "lá do tempo do Coronel Tibúrcio Mendes. Com máquinas matrixianas e mercenários, ele formou um exército como nunca se viu antes nestas bandas e, forçando a rendição dos outros coronéis, dominou a Cornália".


"Esse Tibúrcio Mendes", ela lembrou, "foi o coronel que você sucedeu, não?".


"Exatamente! Naquela época, eu era cangaceiro, capanga de Severino Barriga D'Água. Estávamos saqueando Bota do Judas, essa mesma cidade que vim hoje defender, quando nos defrontamos com um pequeno grupo de viajantes. Mesmo em menor número, eles protegeram a cidade e puseram o bando de Severino pra correr."


"E somos parecidos com eles?", Mara questionou com um sorriso envaidecido.


"Há semelhanças, sim, mas a história não termina aí. Entre eles, estava um amigo de infância, que saiu da Cornália anos antes, depois de perder o pai pro Tibúrcio. Ele me convenceu a abandonar o cangaço, e me juntei ao grupo como guia. Poucos dias depois, vi fazerem o que nem coronéis nem cangaceiros conseguiram em anos: derrubaram Tibúrcio Mendes!"


"Isso é incrível!", exclamou Mara'iza, tendo uma súbita conclusão logo após, deixando escapar o pensamento: "Nove anos? Será que são os mesmos...?".


"Eu tava pra Catinga Danada naquela época, só ouvi essa história bem depois", Zé informou, questionando num tom mais severo logo depois: "Mas, coronel, por que diabos você tava mancomunado com o desgraçado do Severino?".


Coronel Garrancho respirou fundo e fez uma pausa antes de se explicar. "Eu era de Santa Rita, minha família trabalhava pros Mendes, mas tudo desandou quando Tibúrcio sucedeu o pai. Ele proibiu o comércio livre, derrubou prefeitos e mandou matar gente, inclusive da própria família, pra tomar as terras. Eu fugi de Santa Rita e virei sertanejo, mas queria justiça."


"Você se uniu aos cangaceiros para derrubar o Coronel Mendes", intuiu Mara'iza.


"Coronel Tibúrcio, Malinha", Zé corrigiu, "Ninguém chama o maldito de Mendes, pois ele desgraçou a família."


Garrancho concordou com a correção de Zé, então prosseguiu: "O povo tratava Severino como herói, dizia que o bando era de gente humilde e injustiçada lutando contra ricos, fazendeiros e coronéis. Eu queria derrubar Tibúrcio e fui levado por essa estória, achando que podia tornar a Cornália melhor, mais justa... mais igual..."


Zé ficou indignado. "Matando gente inocente, até crianças?"


"Severino é um diabo carismático, que fala com convicção. Pra ele, tudo é necessário, nada é condenável. Ele te faz se sentir um herói vingador", disse Garrancho, desconfortável. "Quem não está com ele é inimigo, e com inimigo não se tem piedade nenhuma."


Houve uma pausa. Mara'iza e Calabros aguardaram o coronel se recompor.


"Eu matei gente inocente. Mais de uma vez", confessou. "Diziam o tempo todo: 'está fazendo a coisa certa', 'os fins justificam', 'é justiça', 'eles mereceram'... E se você fala contra ou tenta sair do bando, vira traidor. Daí quando vi aqueles viajantes... aqueles heróis... darem uma coça em Severino, aproveitei a chance e abandonei aquela vida."


"E agora você é coronel", apontou Calabros. "Se tornou o que mais odeiam."


"É. Quando os heróis foram embora, o povo achou que eu era um deles. Fiquei pra reconstruir Santa Rita e dei o melhor de mim pra ser um bom coronel. Tentei ser justo, dei liberdade, fiz o possível pra melhorar a vida das pessoas. Ainda assim, muitos dizem que me tornei igualzinho aos outros."


A conversa, contudo, foi interrompida quando o comandante da guarda adentrou a tenda. "Com licença, senhor, vim avisar que a tropa está pronta pra partir."


"Então a gente vai agora mesmo", disse o coronel, levantando-se com dificuldade devido ao braço imobilizado. "E que Padim esteja conosco essa noite!"


"Não se preocupe", Mara'iza sorriu daquele jeito arrogante dela. "Se alguém já pôs o Severino para correr uma vez, podemos fazer de novo!"


"Já se passaram nove anos, Mara'iza", lembrou o coronel. "De lá pra cá, muito bandido infame se juntou a ele. Sabe-se lá quanta força o desgraçado tem agora. Não é à toa que o chamam de Rei do Cangaço!"



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A noite caiu em Bota do Judas. Na rede ao centro de um quarto escuro, dormia um homem, sob silêncio que contrastava com a comoção de fora.


A porta se abriu então, deixando passar um feixe de luz, e por ela adentrou um negro de cabelos e barba já brancos pela idade. "Acorda, mizifio, que acabou a sesta", o velho avisou, aproximando-se da rede para sacudir o homem nela jacente. "Tá na hora de suncê se avivá!"


Sem abrir os olhos, o homem ali deitado agarrou o pulso do velho antes que este pudesse tocá-lo. "Carece de encostar, não", disse.


"He he he he! Suncê é chei de num-mi-toque, capitão! Da próxima, te acordo com bordoada de meu cajado!", o negro disse, recuando e liberando seu braço. Em seguida, deu uma tragada no cachimbo e acariciou a cobra enrolada nele, uma constritora tão imensa que ainda se estendia pelo chão para fora do quarto.


Erguendo-se da rede, o capitão, homem magro e de cabelos longos e cacheados, deu as costas ao velho e se aproximou do criado-mudo onde deixara seus pertences. Primeiro pegou os óculos de lentes redondas e refletivas, tratadas alquimicamente, um artigo de luxo dos nobres da distante Dragona. "Como tá a situação, Velho Tição?"


Encarando olhos brilhantes da cobra, o velho informou: "Nóis conseguiu derrubá os portão e invadí os muro interno da cidade, capitão. O coroné tá enfurnado lá na casa-grande, prontin pra suncê tê sua vingança!"


O capitão calçou botas, vestiu o colete e pôs as bandoleiras de munição. Por fim, colocou sobre a cabeça o chapéu, adornado com grandes chifres e medalhas. "E da Coronel Malícia, algum sinal?"


"Meus zóio viu ela sim, lá na estrada!", Velho Tição respondeu. "Vinha pra cá, mas parou a tropa antes de escurecê. Parece que num qué atacá di noite."


"Era pr'aquele fí-de-quenga do Mané ter parado a maldita lá em Curva do Vento!", o capitão reclamou, afivelando o cinto. "Mas tem problema não! Amanhã já vai ser tarde pr'ela se intrometer!"


Velho Tição, apoiando-se no cajado retorcido, observou: "A lua vermelha tá no céu, o mar tá vomitando uma tempestade, e suncê tá com a alma ardendo, mizifio! Nóis vai purificá essa cidade e liberá o povo!"


O capitão guardou o revólver no cinto, embainhou o facão e, pegando a espingarda, se virou finalmente ao idoso. Ali na penumbra, as lentes refletivas e os chifres no chapéu davam a ele a silhueta de um demônio de olhos incandescentes. "Essa noite vai ser de justiça, fogo e sangue, Velho Tição! Ou não me chamo Severino Barriga D'Água!"



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Os cangaceiros sitiavam Bota do Judas há dias, desde que tomaram a periferia. Por algum tempo, os guardas mantiveram a salvo a área murada da cidade. Naquela tarde, contudo, os portões finalmente caíram, e os bandidos invadiram os bairros interiores. Comoção tomava as ruas, e incêndios se espalhavam pelas áreas nobres.


Augusto Pechincha, comerciante, fitava a garrucha em suas mãos trêmulas, enquanto sua esposa e filho caçula choramingavam abraçados em um canto da sala. Dos dois filhos mais velhos, não tivera notícias desde que as defesas da cidade foram sobrepujadas. E agora, os bandidos batiam à porta.


"Abra, homem", exigia um cangaceiro, batendo com intensidade crescente, "ou eu mesmo vou botar a porta abaixo!".


"Não tem nada aqui pra vocês! Vão embora!", gritava o comerciante. Augusto ouvia a comoção das ruas e imaginava que esta fosse sua última noite vivo. Não podia fraquejar, porém, pois como homem e marido precisava defender sua família.


"Você tá mentindo!", avisou o bandido, parando de bater. "O que tem aí é coisa tomada do povo, e a gente vai pegar de volta! Não quer abrir? Não tem problema! Eu abro à força!"


A porta se abriu violentamente, arrombada por um chute poderoso, e o cangaceiro adentrou sozinho. O bandido era um homem moreno, alto e musculoso. Os cabelos eram presos em dezenas de tranças, e até a barba tinha sido cuidada para parecer uma longa trança pendente em seu queixo.


"Não se aproxime, ou atiro!", o comerciante ameaçou, interpondo-se entre seus entes queridos e o invasor.


O cangaceiro fitou Augusto Pechincha com desdém e sem medo. A despeito de portar dois revólveres na cintura, não os sacou, apenas fazia um gingado lento com os ombros e pernas, como se dançasse ao som de uma música inexistente. "Mãos trêmulas não deviam segurar uma arma. É com essa fraqueza que quer proteger sua família?"


Augusto Pechincha não respondeu, apenas disparou.


O malfeitor evitou a bala saltando para o lado e avançou velozmente numa série de pulos e giros corporais. Concluiu sua aproximação chutando a mão do comerciante, fazendo-o largar a garrucha.


Desarmado, Augusto Pechincha tentou golpear o agressor, mas o cangaceiro se esquivou sem dificuldade e agarrou o comerciante, aplicando-lhe uma sequência de joelhadas contra virilha, barriga e queixo. A esposa e o filho caçula nada puderam fazer além de gritar por piedade.


"Antes, eu só ia dar ao povo o que é dele!", disse o bandido, "Mas agora, vou ter que te levar pra julgamento!". Arrastou então Augusto para fora, a despeito dos protestos da família. Ali, sob um céu negro de nuvens tempestuosas, uns poucos cangaceiros impediam a entrada de uma multidão da periferia. Os cidadãos, a maioria pobre, pareciam fora de si, atiçados numa turba desesperada e raivosa.


"Vasculha a casa e o armazém desse merda", o cangaceiro ordenou a um comparsa à porta. "O dinheiro é de Severino, comida e bens são do povo!"


"E o comerciante?", perguntou o subalterno, já sinalizando aos outros bandidos que o seguissem.


"Vai virar exemplo", respondeu, colocando Augusto Pechincha de joelhos diante da multidão.


Os demais bandidos entraram na residência, deixando apenas o líder para segurar a turba raivosa.


"Esse aqui é mais um que explorava vocês!", bradou o cangaceiro, sacando um revólver e apontando para a nuca do comerciante. "Vocês passando fome, e ele cobrando caro pela comida. Seus parentes doentes, e ele se negando a vender remédio!"


Mesmo atordoado, Augusto tentou erguer a voz, mas a mandíbula deslocada o impedia de falar coerentemente.


O bandido continuou a atiçar os cidadãos. "Esses enricados são todos iguais! Roubam o dinheiro que vocês ganharam com trabalho honesto, mas já chega! Severino vai tomar essas terras, e todos vão ser iguais! Ninguém mais vai ter seu trabalho explorado!"


A multidão urrou. Uns xingavam o comerciante, pedindo sua punição, outros exaltavam Severino e os cangaceiros. Os poucos que sentiam compaixão ficavam calados, temendo agressões de seus próprios vizinhos.


"Tá na hora de tirar dos ricos o que foi tomado do povo!", anunciou o cangaceiro. "Entrem e peguem o que quiserem!"


O cangaceiro puxou o comerciante para o lado, desobstruindo a passagem, e as pessoas invadiram a casa, empurrando umas às outras e brigando entre si para decidir quem teria o privilégio de saquear primeiro. Somente alguns cidadãos se recusaram a entrar, conscientes da cumplicidade que dariam aos malfeitores.


Indefeso, Augusto Pechincha chorou. O povo não percebia que era o bloqueio comercial dos cangaceiros que tornava os preços tão altos? Não sabiam que seu armazém já estava praticamente vazio? Não entendiam que ele também precisava trabalhar duramente todos os dias para manter sua família?


As questões se calaram quando o revólver disparou, estourando sua nuca. Para horror das pessoas que permaneceram do lado de fora, o corpo caiu sem vida, deixando viúva e três órfãos para trás.


O cangaceiro de tranças, manchado de sangue alheio, não se abalou. Guardou a arma e limpou o rosto como se a violência fosse corriqueira. Tampouco se importava com as pessoas se comportando como animais, nem com os prantos de uma família arrasada. Não foi a primeira vez que executara seu dever, nem seria a última.


Nesse instante, um mensageiro do bando veio correndo da periferia, procurando pelo cangaceiro das tranças. "Virgulino, o capitão tá convocando todos os oficiais!"


Virgulino Cornoaldo, o Capoeiro, sorriu. "Chegou a hora do Coronel Meneses!"



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A despeito dos trovões e relâmpagos, uma multidão se formava na praça principal de Bota do Judas. Sob ordens dos cangaceiros, vinham tanto dos bairros interiores como da periferia para testemunhar um anúncio vindouro. Ao centro, bandidos cercavam as duas dezenas de guardas capturados, mantidos sentados e indefesos, com as mãos amarradas.


Aproximava-se dos guardas um homem baixo e barrigudo, com um tapa-olho adornado com o desenho de uma caveira. Sobre a cabeça, levava um chapéu de couro em forma de cuia. Na face, barba longa e desgrenhada. Pendurado no pescoço, um colar de ossos de animais e pedras de tamanhos diversos.


"Aquele é o maculado!", alguém na multidão apontou, iniciando os boatos. "Dizem que tem pacto com o diabo!"


"Ele tinha o próprio bando!", alguém se lembrou.


"Como Severino domou um sujeito desses?", alguns se perguntavam.


"Padim do céu! É Petrúquio Fragoso!", murmurou um dos guardas, referindo-se ao homem.


Petrúquio observou os guardas com desprezo. "Quem é o de mais alta patente entre vocês?", questionou em voz alta, insistindo impacientemente: "Apresente-se se tem coragem, ou mato todos!".


"Eu", disse um dos guardas. "Eu sou capitão".


"E eu", disse outro. "Também sou".


Petrúquio Fragoso, o Maculado, riu. "Levantem-se!", ordenou, passando os dedos sobre o colar, que fazia ruído com o bater de contas e ossos.


Alguns cangaceiros foram até os capitães, forçando-os a caminhar até que ficassem isolados dos demais guardas, mas visíveis à multidão. Para destacá-los na escuridão, os bandidos deixaram um lampião no chão, logo à frente deles.


"Povo da Bota do Judas!", chamou Petrúquio Fragoso, e sua voz soou como um trovão, alcançando a todos na praça a despeito de todo o burburinho. "Vejam seus defensores... e se desesperem!"


Petrúquio e os cangaceiros se afastaram, deixando os capitães ali expostos. A multidão os observava apreensiva, e por instantes nada parecia acontecer. De repente, porém, a terra tremeu, e o solo se deformou como se fosse a boca de um predador, abrindo-se ao redor dos dois homens e se fechando sobre eles, esmagando-os. A bocarra macabra de rocha então desmoronou, deixando apenas uma pilha de entulho.


O pânico se alastrou na multidão, e a risada de Petrúquio ecoou no vento. "Esta cidade agora é nossa! Ajoelhem-se!", bradou, repetindo com mais ênfase, "AJOELHEM-SE!".


E o povo apavorado se pôs de joelhos.


Petrúquio sorriu satisfeito, ainda passando os dedos sobre os ossos e pedregulhos de seu colar. Porém, uma voz vinda de trás tirou o sorriso de sua face.


"Trate de lembrar, cabra da peste, que não é pr'ocê que eles tão se ajoelhando", disse Severino Barriga D'Água, acompanhado de Virgulino Cornoaldo. Pouco atrás, a passos lentos e com a ajuda do cajado, vinha o Velho Tição.


"Que animosidade é essa?", Petrúquio provocou, "Está se sentindo ameaçado por mim, Barriga D'Água?".


Com os olhos ocultos detrás das lentes refletivas dos óculos, Severino encarou seu subalterno. "Só quem tem medo se sente ameaçado, Fragoso, e medo só conheço de ouvir falar, nunca me foi apresentado. Por acaso vosmecê tá me ameaçando, é isso?"


Petrúquio fitou Severino, mas não conseguia decifrar as emoções dele sem poder olhá-lo nos olhos. Viu, porém, seu próprio rosto refletido nos óculos, e instintivamente levou a mão ao tapa-olho, deslizando o dedo sobre a cicatriz que passava pelo olho perdido. "Não, capitão", respondeu, baixando o tom, e apontou para a pilha de destroços que sepultava os dois capitães. "Eu só estava preparando um palanque para a grande execução."



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A casa-grande ficava em área cercada e arborizada adjacente à praça central de Bota do Judas. Os bandidos tinham conquistado o bosque e cercado a mansão ao longo do dia, mas não atacaram diretamente a propriedade. Ali, se refugiavam o coronel, sua família, os jagunços e os últimos guardas livres da cidade.


O Coronel Raimundo Meneses, espingarda em punho e revólver na cintura, percorria os corredores e quartos, organizando as defesas, distribuindo munições e repassando informações pessoalmente. Era acompanhado de seu filho mais velho, André.


Um homem de idade, com os cabelos e bigode já alvos, Coronel Meneses não tinha medo de morrer lutando, mas temia pela vida dos familiares. Sua esposa, duas noras, dois outros filhos já adultos e quatro netos ainda crianças se escondiam num porão oculto, com uma passagem para o bosque que cercava a casa-grande. Ele esperava que a tempestade viesse logo, pois tentaria tirar a família da cidade. A chuva demorava a vir, porém.


Pouco mais de uma hora após o anoitecer, os cangaceiros lá fora começaram a bradar repetidamente: "Vida e morte, Severino! Vida e morte, Severino!". Era sinal de que atacariam em breve.


"André, filho, escute-me!", disse o coronel, "É a mim que querem, então ficarei e morrerei aqui. Por favor, proteja a família!"


André Meneses, porém, recusou. "Não, pai! Meus irmãos podem cuidar de todos sem ajuda! Eu não deixarei o senhor sozinho!"


"Isso é uma ordem, rapaz! Não temos chance alguma de vencer, o máximo que podemos é segurá-los por algum tempo. Não se engane, eu vou morrer aqui, mas você ainda tem uma vida longa pela frente. Leva a família a salvo, é meu pedido como pai e minha ordem como coronel!"


André Meneses engoliu em seco. Não queria abandonar o pai, homem que tanto admirava, mas sabia que ele tinha razão. "Sim, senhor", acabou por ceder. Deixando o coronel a sós, desceu ao porão secreto, onde o resto da família aguardava.



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Dezenas de cangaceiros saudavam os quatro oficiais que vinham pelo bosque: "Vida e morte, Severino! Vida e morte, Severino!".


"He he he!", ria o Velho Tição, cuja cobra de estimação seguia de perto, serpenteando numa velocidade anormal para seu tamanho. "Que belezura, tá todo mundo reunido!"


"Todo mundo, não. Faltam Mané e Chicó", corrigiu Virgulino Cornoaldo.


"Chicó não faz falta alguma, é um inútil!", Petrúquio Fragoso protestou. "Não sei por que cargas d'água vocês toleram aquele traste!"


Severino retrucou: "Todo mundo nesse bando tem uma razão de ser, até vosmecê, Fragoso. Chicó mexe com o dinheiro, sabe comprar coisas e pessoas como ninguém!". Então, voltou-se ao Velho Tição: "Quanto tempo pra chuva começar?"


Tição olhou para o céu. "Mais uma hora, capitão."


"Esse é nosso limite de tempo", disse Severino, empunhando a espingarda e se pondo à frente. A uns vinte metros de distância, perscrutou a casa-grande, imersa em escuridão. O tratamento alquímico dos óculos não só tornava as lentes refletivas, como também melhorava a visão sob baixa luz, embora tudo aparecesse num intenso tom azulado. Notou atiradores em seis janelas. "Abre caminho, Fragoso, que te cubro."


"Vai ser um prazer, capitão!", Petrúquio respondeu, caminhando tranquilamente na direção da propriedade.


Severino disparou e recarregou a espingarda seis vezes em rápida sucessão. Em cada janela, os atiradores tombaram com ferimentos fatais.


Fragoso parou a uns dez metros da porta de entrada, quando então passou os dedos sobre as contas e ossos do colar. O chão diante dele se partiu, estourando e atirando pedras numa linha de destruição que se propagou à frente, danificando tudo no caminho. A devastação se chocou com a porta da casa-grande, despedaçando-a, e continuou além, destruindo uma barricada na sala e atingindo os guardas de tocaia atrás dela.


"Velho Tição, acha a família do desgraçado!", Severino ordenou, guardando a espingarda nas costas e sacando revólver e facão.


"He he he he!", riu o velho, "Sim, sinhô, meus zóio vão achá eles!".


Severino avançou, seguido por Virgulino, com um de seus revólveres na mão, e um grupo de capangas. Passaram por Petrúquio e adentraram a propriedade. Tiros e gritos não tardaram a ecoar.


"Eu podia derrubar a casa sobre todos...", Petrúquio Fragoso murmurou, externando pensamentos. Sem pressa, caminhou para a casa-grande.



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Escuridão. Protegidos por uma barricada de móveis, Coronel Raimundo Meneses e dois jagunços apontavam as armas para a única porta do cômodo e oravam a Padim por proteção. A tensão no ambiente era tão palpável que os presentes se sentiam esmagados por ela.



Então, algo golpeou a porta com força, e os homens do coronel, já desesperados, crivaram-na de balas. Aguardaram alguns instantes, incertos se tinham atingido quem quer que estivesse detrás.


Um segundo golpe intenso atingiu a porta, novamente acompanhado por disparos dos defensores e mais um momento de calmaria.


Eis que a porta se partiu com o terceiro impacto, e um vulto, que usou o próprio corpo como aríete, adentrou sob uma chuva de balas. Como um demônio de olhos incandescentes e chifres, o invasor rolou no chão, disparando o revólver. Um dos homens do coronel tombou, atingido no peito.


O coronel e o jagunço restante continuavam a atacar, mas o vulto se movia como um raio na escuridão. Nos lampejos dos disparos, Meneses viu o invasor cruzar a sala, saltar a barricada, degolar o jagunço com o facão e investir em sua direção. Então as balas acabaram, restando apenas trevas.


A empunhadura do facão atingiu o rosto de Meneses, jogando o coronel contra a parede. Antes que se recuperasse, ele sentiu um cano de revólver pressionando-lhe a testa.


"Lembra-se de mim, coronel?", perguntou o invasor.


"Severino", murmurou o coronel, "seu monstro!"


"Todo mundo é monstro, coronel! Vosmecê também, mas posa de homem direito pra esconder seus pecados. Eu sou mais honesto, não finjo ser o que não sou. Descobri que essas leis dos coronéis, essa civilidade que impõem, são só mentiras pra manter o povo cativo, de cabeça baixa. E não baixo a cabeça pra ninguém!"


"Se vai me matar, mata logo de uma vez, desgraçado!"


"Não, coronel, ainda não! Sua família tá com a gente, e vosmecê primeiro vai assistir um por um morrer, igual te vi matar meu pai!"


A revelação deixou Raimundo Meneses sem palavras. Com força e velocidade que só o desespero pode conceder, o coronel empurrou Severino e arrancou o revólver de suas mãos. Antes que disparasse, contudo, sua mão foi decepada pelo facão do cangaceiro. Meneses caiu de joelhos, segurando o ferimento e gritando de dor.


"Desde criança, cresci no lixo e na pobreza, enquanto vosmecês tavam em castelos, cercados de bem-bom. Prometi que ia tomar tudo d'ocês, cada pedaço de dignidade, todo cadinho de esperança!", disse o cangaceiro, chutando o adversário caído. "Foi um caminho difícil, várias vezes fui derrubado, apunhalado, esfaqueado, baleado e até envenenado, mas sempre me levantei mais forte! Agora, ninguém nessa terra é capaz de me parar! Eu decido quem vive e quem morre, e todo mundo vai tremer pro nome de Severino!"



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"Padim do céu!", exclamou o Coronel Garrancho, tão logo atravessou o limiar da floresta e vislumbrou Bota do Judas, adiante, além de campos de plantio. Focos de incêndio se espalhavam pela cidade, e colunas de fumaça se erguiam aos céus tempestuosos.


Zé Calabros ficou calado diante da cena. Claramente inquieto, respirou fundo, estalou os punhos e levou a mão às fitas no braço. Seu coração batia cada vez mais forte.


Mara'iza fitou as luzes da cidade. "Parece que já tomaram o centro. Talvez tenhamos chegado tarde demais."


"Espero que não", disse Garrancho, entregando um envelope a um de seus homens. "A Coronel Malícia deve estar na estrada a oeste. Procure-a e entregue esta mensagem!"


O guarda assentiu e sumiu na escuridão. Enquanto isso, o comandante organizava as tropas em fileiras, e os homens cobriam os lampiões para reduzir a luminosidade.


"Homens!", urrou o Coronel Garrancho. "Sei que estão assustados, mas lembrem-se do que mais amam! Pensem em suas famílias, em suas terras, em seus vizinhos, em tudo que não desejam perder!


Severino diz que veio pra salvar o povo dos coronéis, mas olhem pra Bota de Judas! Aquilo ali é o que ele vai fazer com nossa terra se a gente não impedir! Esses cangaceiros vão destruir tudo o que nós construímos com nosso trabalho e esforço! Eles querem a lei do mais forte, de quando os cornos se matavam por terra, por comida e por mulheres!


A gente vai lá pra lutar, mas não vamos sozinhos! A Coronel Malícia também tá trazendo a tropa dela! E juntos, santa-ritenses e ventocurvenses, vamos expulsar esses bandidos frouxos, afinal somos cor


nos! E pergunto a vocês: o que um corno de verdade é?"


A tropa bradou triunfante, numa só voz: "Cabra-macho! Casca-grossa! Pica-grande!"


Mara'iza se enrubesceu, envergonhada pelo grito de guerra.


"Então, venham comigo!", continuou o Coronel Garrancho, "Vamos viver e morrer como cornos! Pela nossa terra!"


E eis que Zé Calabros bateu o punho fechado sobre a palma aberta e, num urro furioso, correu a toda velocidade na direção de Bota do Judas, deixando todos para trás.


"Não! Junto com a tropa, Calabros!", Garrancho gritou para impedi-lo, mas já era tarde. Zé já sumia na escuridão, e a tropa confusa ficou a se entreolhar. O coronel então se voltou a Mara'iza: "O que diabos ele tá fazendo? Por que tá indo sozinho? Ele endoidou?".


"Não!", respondeu Mara, levando a mão ao rosto e suspirando bem fundo, "Ele é só um idiota, mesmo!"

A seguir: Eu tenho um plano

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As Crônicas Anímicas

© 2016 Tiago Moreira