Prévia: Capítulo 7


Agora você conhece contra quem nossos heróis estão lutando. Então, está na hora de ter uma pequena prévia do que está por vir, com as três primeiras cenas do Capítulo 7: Eu tenho um plano!

Severino Barriga D'Água tomou Bota do Judas! A execução pública do Coronel Meneses e de toda sua família está para começar. Dois outros coronéis cercam a cidade, prestes a invadi-la. E, no meio do fogo cruzado, estarão Zé Calabros e Atsumi Mara'iza!

O segundo ato de nossa história começa a pegar fogo. E o fim deste capítulo o deixará com os cabelos da nuca em pé!

A periferia de Bota do Judas já estava praticamente vazia, mas pequenos grupos de cidadãos ainda seguiam para o centro da cidade sob vigilância de bandidos. "Pra praça! Todos pra praça!", gritavam os cangaceiros, tirando as pessoas de suas casas. "Capitão Severino tem um anúncio a fazer!".


"Mas vai cair um temporal", argumentou uma mulher com filho pequeno nos braços. Um trovão ecoou logo depois.


"Molhar ou levar bala, você escolhe!", ameaçou um malfeitor. "Se água não é do teu agrado, eu posso te passar fogo!"


A mulher aquiesceu, como fizeram todos os que protestaram antes dela. Satisfeitos, os cangaceiros sorriam com a vitória. Bota do Judas era deles! Mais uma cidade liberada da tirania dos coronéis!



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Três cangaceiros patrulhavam o limiar da cidade, onde casebres paupérrimos se misturavam a mato. Notando silhuetas se esgueirando na escuridão, o trio correu para interceptá-las.


"Alto lá! Parem em nome de Severino!", alertou um dos bandidos, com bacamarte em mãos.


Era apenas uma família fugindo do caos em Bota de Judas. A mãe abraçou as três crianças, a maior delas tendo não mais que sete anos de idade. Uma senhora idosa, tremendo de terror, pediu proteção a Padim. O pai se colocou entre seus entes queridos e os cangaceiros. "Por favor, não maltratem minha família!", implorou.


O segundo bandido, vendo as malas e sacolas, inquiriu exaltado: "Cês tavam fugindo, seus mal-agradecidos?". Chutou então a barriga do pai de família, que caiu sem fôlego.


As crianças mais novas começaram a chorar, e a mulher suplicou desculpas.


"Calem a boca e vão agora mesmo pra cidade", ordenou o terceiro bandido, que carregava um lampião, "antes que a gente perca a paciência!".


Um urro raivoso interrompeu as ordens. Os três cangaceiros se voltaram ao mato, de onde veio Zé Calabros muito, mas muito, furioso. Os malfeitores responderam com tiros de bacamarte e garrucha, mas Zé evitou os disparos saltando quase três metros de altura.


"Puta que pariu!", surpreendeu-se o líder do trio. Não conseguiu sacar o facão antes que Calabros caísse sobre ele e o socasse com toda a força. O impacto lançou o bandido longe, e seu corpo rolou inconsciente ao tocar o chão.


Zé Calabros agarrou o segundo pelo pescoço, esmagando sua garganta, e o jogou contra o terceiro, que largava o lampião e tentava sacar um revólver. Com os dois adversários caídos, Calabros finalizou a luta rapidamente, chutando a cabeça de um e esmurrando a cara do outro. Depois, estendeu a mão para a família assustada, ajudando o pai a se levantar.


"Obrigado, senhor, muito obrigado", agradeceu o homem.


"Carece de agradecer não!", disse Zé, pegando o revólver do cangaceiro derrotado e guardando-o em seu embornal. "E vão-se embora, que a coisa vai ficar feia nessa cidade."


"Mas qual o nome do nosso salvador?", questionou o homem, "Para que possamos orar por você ao Divino Pai."


"O nome é Zé Calabros", respondeu com orgulho, então correu para as vielas escuras de Bota do Judas, sem nenhuma hesitação.



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Já era a terceira patrulha que Zé Calabros encontrava nas vielas, e a história se repetia: o grupo de dois ou três cangaceiros o abordava, confundindo-o com um indefeso cidadão botajudense. Como das outras vezes, ele arrebentou os sujeitos antes que esboçassem reação. Depois pôs-se a vasculhar os corpos inertes, tomando para si mais um revólver, o quarto que guardava no embornal naquela noite.


Foi quando Mara'iza surgiu ali perto, apoiada à parede de uma casa. Suava copiosamente e, ofegando de exaustão, se aliviava abanando o chapéu de palha como um leque improvisado. "Finalmente achei você, ogro!", ela reclamou, "Céus, vir sozinho, que idéia estúpida! Sabe quantas vezes tive que interromper o fluxo do tempo só para alcançá-lo?".


"Desculpa, Mala", disse Zé, "Mas eu sabia que você dava um jeito de me alcançar".


"Sim, mas meus recursos não são infinitos, estou exausta! Mesmo parando o tempo, ainda tenho que correr a distância a pé! Preciso descansar por alguns minutos, e nada de lançar feitiços complexos até me recobrar!", reclamou a moça, então sussurrando para si mesma: "Nota mental: aprender a me teletransportar".


"Só me segue de perto", Zé disse, "Acho que dá pra chegarmos na praça sem dificuldades. Os desgraçados estão confiantes e descuidados, você não precisa se esforçar."


Mara pôs a tira do chapéu ao redor do pescoço e o deixou pender às costas, então tirou da bolsa um odre, do qual bebeu sofregamente. "O que você estava fazendo? Pegando uma arma de fogo?"


Zé sinalizou que sim. "Se eu depender só dos punhos, os malditos levam vantagem a distância."


"É, de vez em quando você tem algum bom senso, pelo menos!", ela sorriu com sinceridade, dando ao semblante uma beleza angelical, mas logo franziu a testa e exibiu o cenho usual. "Correr na frente da tropa sozinho, porém, foi uma idiotice de magnitude colossal!"


"Não foi idiotice, vim limpar o caminho! Quanto menos resistência o Coronel Garrancho tiver ao invadir, melhor pra todos!", refutou. Após breve pausa, porém, Zé desabafou num tom mais sóbrio: "Além do mais, quando notei o que tava pra acontecer, tive que me adiantar."


"O que vai acontecer? Como assim?", ela questionou intrigada.


"Eles tão levando o povo pro centro da cidade. Querem mostrar que a vitória foi completa, pra acabar com a esperança do povo. Você já viu uma pessoa desesperançada, Malinha?"


"Sim", ela respondeu, mas depois hesitou e se corrigiu, confusa quanto ao que ele se referia. "Ou não. Não sei. Como assim?"


"Sem esperança, uma pessoa desiste de lutar", disse Zé, "E pra não morrer, aceita toda crueldade que fizerem contra ela".

Livro Atual
Zé Calabros na Terra dos Cornos
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As Crônicas Anímicas

© 2016 Tiago Moreira