Capítulo 7: Eu tenho um plano

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A periferia de Bota do Judas já estava praticamente vazia, mas pequenos grupos de cidadãos ainda seguiam para o centro da cidade sob vigilância de bandidos. "Pra praça! Todos pra praça!", gritavam os cangaceiros, tirando as pessoas de suas casas. "Capitão Severino tem um anúncio a fazer!".


"Mas vai cair um temporal", argumentou uma mulher com filho pequeno nos braços. Um trovão ecoou logo depois.


"Molhar ou levar bala, você escolhe!", ameaçou um malfeitor. "Se água não é do teu agrado, eu posso te passar fogo!"


A mulher aquiesceu, como fizeram todos os que protestaram antes dela. Satisfeitos, os cangaceiros sorriam com a vitória. Bota do Judas era deles! Mais uma cidade liberada da tirania dos coronéis!



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Três cangaceiros patrulhavam o limiar da cidade, onde casebres paupérrimos se misturavam a mato. Notando silhuetas se esgueirando na escuridão, o trio correu para interceptá-las.


"Alto lá! Parem em nome de Severino!", alertou um dos bandidos, com bacamarte em mãos.


Era apenas uma família fugindo do caos em Bota de Judas. A mãe abraçou as três crianças, a maior delas tendo não mais que sete anos de idade. Uma senhora idosa, tremendo de terror, pediu proteção a Padim. O pai se colocou entre seus entes queridos e os cangaceiros. "Por favor, não maltratem minha família!", implorou.


O segundo bandido, vendo as malas e sacolas, inquiriu exaltado: "Cês tavam fugindo, seus mal-agradecidos?". Chutou então a barriga do pai de família, que caiu sem fôlego.


As crianças mais novas começaram a chorar, e a mulher suplicou desculpas.


"Calem a boca e vão agora mesmo pra cidade", ordenou o terceiro bandido, que carregava um lampião, "antes que a gente perca a paciência!".


Um urro raivoso interrompeu as ordens. Os três cangaceiros se voltaram ao mato, de onde veio Zé Calabros muito, mas muito, furioso. Os malfeitores responderam com tiros de bacamarte e garrucha, mas Zé evitou os disparos saltando quase três metros de altura.


"Puta que pariu!", surpreendeu-se o líder do trio. Não conseguiu sacar o facão antes que Calabros caísse sobre ele e o socasse com toda a força. O impacto lançou o bandido longe, e seu corpo rolou inconsciente ao tocar o chão.


Zé Calabros agarrou o segundo pelo pescoço, esmagando sua garganta, e o jogou contra o terceiro, que largava o lampião e tentava sacar um revólver. Com os dois adversários caídos, Calabros finalizou a luta rapidamente, chutando a cabeça de um e esmurrando a cara do outro. Depois, estendeu a mão para a família assustada, ajudando o pai a se levantar.


"Obrigado, senhor, muito obrigado", agradeceu o homem.


"Carece de agradecer não!", disse Zé, pegando o revólver do cangaceiro derrotado e guardando-o em seu embornal. "E vão-se embora, que a coisa vai ficar feia nessa cidade."


"Mas qual o nome do nosso salvador?", questionou o homem, "Para que possamos orar por você ao Divino Pai."


"O nome é Zé Calabros", respondeu com orgulho, então correu para as vielas escuras de Bota do Judas, sem nenhuma hesitação.



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Já era a terceira patrulha que Zé Calabros encontrava nas vielas, e a história se repetia: o grupo de dois ou três cangaceiros o abordava, confundindo-o com um indefeso cidadão botajudense. Como das outras vezes, ele arrebentou os sujeitos antes que esboçassem reação. Depois pôs-se a vasculhar os corpos inertes, tomando para si mais um revólver, o quarto que guardava no embornal naquela noite.


Foi quando Mara'iza surgiu ali perto, apoiada à parede de uma casa. Suava copiosamente e, ofegando de exaustão, se aliviava abanando o chapéu de palha como um leque improvisado. "Finalmente achei você, ogro!", ela reclamou, "Céus, vir sozinho, que idéia estúpida! Sabe quantas vezes tive que interromper o fluxo do tempo só para alcançá-lo?".


"Desculpa, Mala", disse Zé, "Mas eu sabia que você dava um jeito de me alcançar".


"Sim, mas meus recursos não são infinitos, estou exausta! Mesmo parando o tempo, ainda tenho que correr a distância a pé! Preciso descansar por alguns minutos, e nada de lançar feitiços complexos até me recobrar!", reclamou a moça, então sussurrando para si mesma: "Nota mental: aprender a me teletransportar".


"Só me segue de perto", Zé disse, "Acho que dá pra chegarmos na praça sem dificuldades. Os desgraçados estão confiantes e descuidados, você não precisa se esforçar."


Mara pôs a tira do chapéu ao redor do pescoço e o deixou pender às costas, então tirou da bolsa um odre, do qual bebeu sofregamente. "O que você estava fazendo? Pegando uma arma de fogo?"


Zé sinalizou que sim. "Se eu depender só dos punhos, os malditos levam vantagem a distância."


"É, de vez em quando você tem algum bom senso, pelo menos!", ela sorriu com sinceridade, dando ao semblante uma beleza angelical, mas logo franziu a testa e exibiu o cenho usual. "Correr na frente da tropa sozinho, porém, foi uma idiotice de magnitude colossal!"


"Não foi idiotice, vim limpar o caminho! Quanto menos resistência o Coronel Garrancho tiver ao invadir, melhor pra todos!", refutou. Após breve pausa, porém, Zé desabafou num tom mais sóbrio: "Além do mais, quando notei o que tava pra acontecer, tive que me adiantar."


"O que vai acontecer? Como assim?", ela questionou intrigada.


"Eles tão levando o povo pro centro da cidade. Querem mostrar que a vitória foi completa, pra acabar com a esperança do povo. Você já viu uma pessoa desesperançada, Malinha?"


"Sim", ela respondeu, mas depois hesitou e se corrigiu, confusa quanto ao que ele se referia. "Ou não. Não sei. Como assim?"


"Sem esperança, uma pessoa desiste de lutar", disse Zé, "E pra não morrer, aceita toda crueldade que fizerem contra ela".



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Quatorze anos atrás...


"Coronel, encontramos um sobrevivente!", avisou o jagunço.


"Graças a Padim!", exultou o Coronel Joaquim da Silva, o Silvério, fazendo o sinal de devoção diante do peito. Ele quase perdera a esperança ao ver as ruínas de Itapopó da Mata. Temia não encontrar ninguém vivo, como em Vatapá do Sul, vila a leste também assolada por dragões e cangaceiros.


Guiado pelo capanga, o coronel cruzou a cavalo os destroços da vila até chegar a um casebre arruinado. "Ele tá ali dentro, é só um menino", disse o subalterno, descendo de sua montaria, "mas tá muito assustado e não confia na gente".


Silvério adentrou o quarto. Outro jagunço, que vigiava o cômodo para que o menino não fugisse, apontou para um vão estreito e profundo, pequeno demais para um adulto, sob uma pilha de destroços. O coronel se agachou diante do buraco. "Menino, saia daí, que não vamos lhe fazer mal nenhum!"


O menino não respondeu, ficou ali, encolhido, tremendo e chorando.


"Menino", insistiu o coronel, "A gente veio te salvar!".


Novamente, nenhuma resposta.


"Ele só fica assim, coronel", disse um dos jagunços. "Não fala nada, parece nem entender a gente. Deve tá morrendo de fome e sede, mas nem oferecendo comida ou água quis sair."


O coronel pareceu ignorar o subalterno e ergueu a voz: "Garoto, saia daí já, senão vou te arrancar à força! Eu vou te salvar, por bem ou por mal, pois Padim não me permite ir embora sem você!"


O menino não esboçou reação.


"Ah, moleque da moléstia!", Coronel Silvério reclamou, enfiando o braço no buraco. "Então vai por mal mesmo!"


O garoto gritou, tentando se afastar ainda mais para o fundo, mas não tinha aonde ir. Um dos jagunços tentou conter o coronel: "Calma, patrão, que é só uma criança!".


"Uma criança que não sabe o que é melhor pra ela!", Silvério retrucou, agarrando a perna do garoto e puxando-o à força.


O menino gritou e se debateu inutilmente, ferindo-se contra as paredes irregulares do refúgio.


Arrancando a criança do buraco, Silvério a reconheceu. "Zequinha! Padim seja abençoado, é o filho do Coronel Calabros!", celebrou, segurando o menino com força. "Sou eu, Zequinha! Coronel Silvério, amigo de teu pai!"


O garoto, porém, continuava a tentar escapar.


O coronel puxou violentamente a criança, forçando-a a se pôr em pé, e desferiu-lhe uma bofetada dolorosa no rosto. "Acorda, moleque! Sai desse desespero!", ele ordenava, batendo de novo e de novo. "Olha pra minha cara! Você sempre se escondia atrás da saia da mãe quando me via, mas agora vai ter que agir que nem homem! Olha pra minha cara, traste, bem nos olhos!"


A princípio, Zequinha permaneceu naquele estado de desespero irracional. Mas após várias bofetadas, com o rosto vermelho de tanto apanhar, parou de se debater e devolveu ao coronel um olhar choroso, misto de medo e raiva.


"Isso mesmo! Encara sem fugir, moleque! Sinta raiva, mas não medo!", Silvério esbravejou. "E agora me escuta! Você tá salvo e ainda vai ter uma vida inteira pela frente!"



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Cinco anos depois, nove anos atrás...


Daquela vez, eram dois dragões, um pouco menores que o último que os atacara.


Svar urrou ferozmente e se jogou contra o dragão de escamas negras e alaranjadas, fazendo-o cair de costas e esmagando uma das asas sob o peso do corpo. Pondo-se sobre o monstro e agarrando seu pescoço para impedi-lo de se levantar, o gigante desferiu seguidos socos contra a cabeça da fera.


Brunnhardt investiu contra o outro dragão, este marrom-esverdeado. A criatura vomitou um jato de ácido, surpreendendo o anão, que se viu forçado a evadir e interromper seu avanço. "Este não cospe fogo!", resmungou, agradecendo pelas roupas e luvas grossas protegerem-no dos respingos corrosivos.


Vendo vantagem em atacar a distância, o marrom-esverdeado alçou voo. Porém, foi atingido pelo outro dragão, arremessado por Svar, e ambos caíram de volta à terra.


"Ei, baixinho!", provocou Svar, "É assim que se faz um arremesso! Gahahaha!"


"E é assim que se mata dois dragões, gigante exibido!", bradou Brunnhardt, saltando sobre as criaturas com o machado erguido acima da cabeça. A lâmina desceu velozmente, decapitando o negro-alaranjado e penetrando profundamente no torso do marrom-esverdeado num só golpe. O segundo dragão urrou de dor, mas logo sucumbiu à morte.


Zeca veio correndo de seu esconderijo em meio às pedras e comemorou. "Vocês foram incríveis! Dois de uma vez!"


"Apenas dois dragões jovens", disse Brunnhardt, vasculhando os arredores. Tinham deixado a Catinga Danada há dois dias, e agora se encontravam nos planaltos ermos da temida Vol'kor. Vastas cadeias montanhosas tomavam os horizontes norte e sul. O norte, em particular, era coberto por nuvens de fumaça vulcânica.


"Ainda não encontramos nenhum adulto, José. Esses sim são perigosos", Svar completou. Notou, a distância, pequenos bandos de dragões infantes, menores que cães. As criaturas deixavam seus esconderijos nas rochas e ruínas e fugiam aos céus, emitindo guinchados. "Isso não é bom", o gigante murmurou.


Zeca, porém, dava mais atenção às proximidades. O calor e a aridez eram intensos, mas com abundante vegetação rasteira e árvores esparsas. O gado numeroso corria para longe do local da batalha. Além dos pastos, o menino viu uma ruína antiga, cercada por uma aglomeração de casebres. "Parece que tem gente ali", apontou.



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Brunnhardt e Svar se aproximaram daquela vila decrépita, com Zeca a tiracolo no embornal do gigante. As casas eram amontoados de alvenaria, rocha e madeira, circundando os restos de uma fortaleza arruinada em eras passadas, uma lembrança do antigo império.


"Há alguém aí?", o gigante questionou em voz estrondosa. "Não desejamos mal a vocês!"


"Saiam! Saiam!", insistiu Brunnhardt. "Somente os dragões precisam nos temer! Huá huá huá!"


Espiando para fora do embornal, Zeca notou pessoas amedrontadas nos casebres, trêmulas e cheias de medo. "A gente veio salvar vocês!", o menino gritou, "Vamos libertar todo mundo!".


A despeito dos apelos, os moradores permaneceram recolhidos.


"Svar!", pediu Zeca, "Deixa eu descer!".


O gigante concordou, abaixando-se até que o embornal tocasse o chão. O menino saltou dali e correu entre os casebres, chamando pelas pessoas. Insistiu por vários minutos, e Brunnhardt e Svar, inspirados por sua perseverança, se juntaram aos apelos.


"Num queremos vocês aqui!", uma senhora corcunda e desdentada, apoiada num cajado, apareceu. Falava muito mal a língua comercial, e fazia gestos bruscos e agressivos para manter Zeca afastado. "Vocês só vão trazer desgraça pra gente! Vão-se embora!"


O menino a fitou sem entender. "Mas... a gente tá aqui pra ajudar!"


Diante da iniciativa da velha, outros habitantes começaram a deixar suas casas. Era gente maltrapilha e desnutrida, em sua maioria crianças e jovens com olhares de profundo medo. Tomavam o lado da velha, formando um coro cada vez mais forte: "Sumam daqui!", "Os dragões estão vindo!", "Vai todo mundo morrer se vocês ficarem aqui!".


"Eu não entendo!", Zeca gritou. "Vocês vão ficar? Não querem ser livres?"


"José do Clã Calabros", interrompeu Svar, se abaixando e estendendo o embornal. "Volte. Precisamos partir."


"Mas não podemos deixá-los!", insistiu o menino. "Eles precisam da gente! Por que não querem ajuda?"


"Fizeste o que pôde", disse Brunnhardt. "Mas não é que não queiram se salvar. Eles não acreditam que possam ser salvos."


"Estas pessoas perderam toda a esperança", Svar elaborou.


Voltando-se à multidão, o menino questionou: "Isso é verdade?".


"Ninguém escapa daqui", a velha avisou. "Nenhuma rebelião deu certo, quem lutou foi devorado. A gente serve aos mestres sem reclamar. Vocês vão morrer, menino!"


Svar levou a imensa mão a Zeca, gentilmente fazendo-o entrar no embornal. "Medo devora a alma", disse o gigante. "Um homem sem espírito não acredita na vitória, portanto não luta."


Zeca se entristeceu. Olhou para o céu, tão azul e brilhante, e pensou em Madre Magnólia. "Esperança é como o céu", murmurou.


Brunnhardt ergueu a voz para a multidão: "Escutai-nos, homenzinhos covardes! Salvar-vos-emos, queirais ou não! Apontai-nos para o maior dos dragões desta terra maldita, e lá coletaremos a cabeça do maldito!"


"Vocês não precisam ir atrás dele, não", disse a velha, num tom mais melancólico do que ameaçador. "Ele vai encontrar vocês. Ninguém escapa de Vol'kor."



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O presente...


A tropa do Coronel Garrancho avançou pelas ruelas da periferia, evitando a avenida até que se aproximassem da muralha interna de Bota do Judas. Para sua surpresa, encontrou pouquíssima resistência e agradeceu a Padim por haver tão poucas patrulhas de cangaceiros. Também se questionava se Calabros e Mara'iza não estavam por trás daquela boa sorte.


"Coronel", um batedor se aproximou. "O portão do sul da muralha foi derrubado, a gente não vai ter dificuldade pra passar!"


Garrancho agradeceu a informação, virando-se para o comandante dos guardas. "Pegue duas dúzias de homens e segue pro portão leste, pela periferia. Quando Severino perceber o cerco, vai tentar fugir pelo rio. Não deixe nenhum deles passar!"


"Sim, coronel!", obedeceu o comandante.


Garrancho então se voltou aos demais. "Coronel Malícia vem pela estrada, a oeste. Ela vai ser a primeira a chamar a atenção dos bandidos, que tentarão segurá-la na muralha. Vamos entrar na cidade pelo sul e cercar os cangaceiros que a estiverem enfrentando. Com a gente se ajuntando ao grupo dela, vamos atacar a praça e encurralar os desgramados!"


Os guardas bateram continência. Apesar da tensão, estavam dispostos a lutar.



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Deixando a casa-grande do Coronel Meneses, Severino olhou para os céus. "Quando tempo temos, Velho Tição?", questionou, notando os raios cada vez mais frequentes.


"Uns vinte minuto, mizifio, não vai muito mais que isso."


"Apressem-se, seus trastes! Pra praça, que nosso tempo tá no fim!", Severino ordenou, elevando a voz. Dez capangas levavam o Coronel Meneses e sua família sob a mira de armas. "Cadê Virgulino?"


"Aqui, meu rei!", Virgulino Cornoaldo respondeu, batendo continência.


"Coloca os homens pra saquear a casa, depois nos encontra na praça."


"Pode ficar tranquilo, capitão, que vamos achar ligeiro as riquezas do coronel."



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Atravessando o bosque, Severino e seu grupo conduziam os prisioneiros com ameaças e pontapés. Quase chegando à praça, um grupo de morcegos surgiu da escuridão, guinchando alto e voando em círculos ao redor do Velho Tição. O grupo parou. "Algo errado, velho?", Severino perguntou.


"São meus zóio, mizifio!", Tição avisou, "Tão dizendo que a tropa da Coroné Malícia tá vindo atacar nóis agora mesmo!".


"É estupidez dela atacar à noite, logo antes da tempestade", analisou Petrúquio Fragoso, coçando a barba. "Estamos numa posição mais vantajosa."


"Vadia desgraçada!", amaldiçoou Severino, "Se ela quer morrer, a gente mata com prazer!"


"Te preocupa não, capitão! Vai falá com o povo, que eu ajunto os capanga pra mode pará a coroné", disse o preto velho, gargalhando. "Vô mandá a desgramada pros quintos dos inferno! He he he he he!"


Dito isso, a cobra de Tição envolveu a cintura do velho, o ergueu no ar e deslizou para longe numa velocidade incrível, levando-o consigo. A risada sinistra dele ecoou até sumirem na escuridão.



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Zé Calabros e Mara'iza chegaram à praça, onde se concentrava praticamente toda a população. As pessoas se espremiam numa massa densa, e mais chegavam a cada instante. "Vão entrando, bando de cão!", ordenava uma dupla de cangaceiros no limiar da aglomeração.


Zé Calabros caminhou até os cangaceiros, agarrou-os pela cabeça e esmagou os cocurutos deles um contra o outro.


As pessoas próximas, ao verem a cena, se desesperaram. "Você está louco, homem?", questionavam. "Se Severino souber, ele mata você!".


Zé fez sinal de silêncio aos cidadãos que reclamavam. "E te digo que Severino vai saber, porque vou lá contar pra ele agora mesmo!", avisou, e foi adentrando a multidão. Assustadas, as pessoas davam passagem.


Mara'iza seguia Zé bem de perto, aproveitando o caminho que ele abria. Sentia-se sufocada e desconfortável, e ter de se esfregar em corpos alheios só a deixava ainda mais incomodada.


A resistência da multidão aumentava conforme avançavam, mas se Zé não conseguia prosseguir pedindo licença, abria passagem à força, empurrando e afastando as pessoas, sob muitas reclamações, até alcançar o outro lado.


A aglomeração circundava o centro da praça, deixando um vão de uns trinta metros de diâmetro livre. Bem no meio desse vão, havia um amontoado de pedras cercado por um círculo de lampiões. Atrás das pedras, o que restava da guarda da cidade era mantida sentada, sob a mira de malfeitores. Uns poucos bandidos patrulhavam os limites dessa área central, impedindo que os cidadãos avançassem mais.


Do outro lado, os cangaceiros mantinham livre uma passagem. Severino vinha por lá, empurrando o Coronel Meneses, que mal conseguia se manter em pé. Atrás, a família do coronel, inclusive mulheres e crianças, eram trazidas por Petrúquio Fragoso e vários capangas.


"Tá pior que eu imaginava, ele vai matar toda a guarda da cidade e até a família do coronel!", concluiu Zé. Estalou os dedos, fechou os punhos e respirou fundo, mas Mara'iza o agarrou pelo braço antes que se arremetesse.


"Para e pensa, ogro!", ela disse, pondo-se na frente dele. "Eles têm toda a vantagem ali! Você vai morrer sem conseguir salvar a família!"


"Eu não vou deixar aquele traste fazer o que bem entende, Mala!", ele insistiu. "E mesmo que eu morra, tenho que fazer alguma coisa!"


"E vai fazer, mas não sozinho. Já estou descansada. E eu tenho um plano!"



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Mais de cinquenta cangaceiros corriam para a muralha oeste, e outros tinham sido enviados para arregimentar reforços. À frente do bando, o Velho Tição era levado pela cobra, que se movia com ligeireza sem par, apesar do comprimento descomunal. Chegando aos portões que separavam os bairros internos da periferia, o imenso réptil pousou o velho no chão e se enrolou gentilmente ao redor dele.


Apesar da ventania e trovões, Velho Tição ouviu tiros distantes. Viu a luz de uma massa de tochas e lampiões seguir a avenida, avançando rápido. Logo chegariam aos portões. "Fecha logo esse portão, que os maldito tão vindo!", ordenou.


Os cangaceiros fecharam os portões, trancando-os com uma pesada barra de madeira, e subiram as rampas para o topo da muralha. Mais bandidos chegavam, vindos dos bairros internos, reforçando o grupo de Tição. Não demorou para que um tiroteio começasse.


Com um gesto suave, Velho Tição fez a cobra liberá-lo, então caminhou lentamente, apoiando-se no cajado retorcido. Subiu a rampa para o topo da muralha para avaliar as forças inimigas. "Deve de tê uns duzentos hôme aí embaixo", murmurou.


A tropa da Coronel Malícia, vendo o caminho bloqueado, se dispersou em busca de cobertura para revidar fogo contra as muralhas.


"O que fazemos, Velho Tição?", perguntou um dos capangas.


"Num deixa eles chegá no portão", instruiu.


"Mas quando a chuva começar, os bacamartes e garruchas vão falhar! E eles podem tentar derrubar o portão!"


"Faz o que mando, hôme, que do resto cuido eu", disse Velho Tição.


Lá embaixo, uma massa negra surgiu, deslizando pelas vielas como um carpete de escuridão. Quebrava-se e juntava-se para evitar obstáculos, até alcançar um dos atiradores da Coronel Malícia. O homem foi recoberto pela massa e caiu, debatendo-se e gritando em desespero. Os companheiros atiraram em vão contra a negritude, antes que ela se movesse para o alvo seguinte.


Eram ratos. Centenas deles, movendo-se como uma só entidade, mordendo e roendo cada vítima que cobriam.


Velho Tição se pôs a gargalhar. "Tem muito bicho nos canto escuro dessa cidade. E eles tão com fome, he he he he he!"



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Severino caminhou até o topo do palanque de pedras. Ali, pôs o Coronel Meneses de joelhos, sob a mira de seu revólver. À base das rochas, também de joelhos, estavam os familiares do coronel, cada um acompanhado por um cangaceiro armado. Um pouco atrás, os guardas capturados da cidade, cerca de vinte, eram mantidos indefesos, de mãos atadas e cercados por bandidos.


Petrúquio Fragoso subiu as pedras. "Tudo pronto, capitão."


Severino percebeu as primeiras gotas d'água caírem do céu. Tinham pouquíssimo tempo antes que a chuva forte começasse. "Então repete o que vou dizer pra multidão, palavra por palavra, traste."



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"Cidadãos de Bota do Judas", a voz ecoou, superando a ventania, os trovões e o burburinho. "Eu sou Petrúquio Fragoso, o maculado, e este é meu capitão, Severino Barriga D'Água!"


Mara'iza cruzava os limites da multidão, tentando se posicionar o mais perto possível da família do coronel. Parou ao ouvir aquela voz e questionou às pessoas ao redor: "Ei, esse que está falando, como ele faz essa voz?".


"Dizem que ele tem pacto com o diabo", uma senhora respondeu. "Ele é maculado!"


"Tocado pelo Destino?", Mara se perguntou. Analisando a voz, concluiu: "Não, isso não é nenhuma maldição sobrenatural, é magia! Céus, os cangaceiros têm um magista!"


Mara se voltou para trás, procurando Zé na multidão, mas já o tinha perdido de vista. Era tarde demais para voltar. O jeito era seguir o plano e improvisar quando fugisse ao controle.



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Zé Calabros cerrou o punho ao ouvir Petrúquio falar. O coração batia forte. Ele estava preparado.


"Vocês agora estão livres", Fragoso continuou. "Bota do Judas foi liberada da tirania dos Meneses, que oprimiu o povo por gerações! Agora, quem governa é Severino, pelo povo e com justiça!


Sim, justiça, que finalmente será feita, bem diante de vocês. Hoje, cada guarda que lutou pelo coronel vai morrer! A família Meneses vai deixar de existir! E Raimundo Meneses, esse coronel desgraçado, que matou o pai de Severino e explorou o sangue e o suor do povo, vai ser mandado para o inferno! Vida e morte, Severino!"


"Vida e morte, Severino!", todos os cangaceiros presentes repetiram.


O povo entrou em comoção. Uns vibravam e bradavam com os bandidos. A maioria se recolhia ao silêncio e ao medo. Muitos choravam ou oravam a Padim.


"Mas não acaba aí não!", Fragoso prosseguiu. "A gente sabe que, no meio do povo de verdade, tem os traidores que estão do lado do coronel! Vamos encontrar esses covardes, que se põem contra a justiça e contra o povo, e daremos o mesmo fim a eles! Quem está do nosso lado, grita conosco! Vida e morte, Severino!"


"Vida e morte, Severino!", parte da multidão gritou.


"Não ouvi direito! Mais uma vez!", insistiu.


"Vida e morte, Severino!", o coro veio mais forte, de toda a multidão. A maioria, contudo, o repetia por medo.


"Vejam como o povo está do nosso lado! E quem está contra nós? Quem quer morrer junto com o coronel? Vamos, digam! Apresentem-se!"


A princípio, somente o vento uivou. Alguns instantes se passaram, sem que ninguém se manifestasse. Mas então, Zé Calabros deu dez passos para fora da multidão, bateu no peito e gritou com toda a força dos pulmões: "Eu, seu bando de fela-d'égua!"


Severino sinalizou para o capanga mais próximo de Zé. "Pega esse desgraçado e traz pra cá!", ordenou.


O capanga se aproximou. Zé avançou sobre ele, arrebentou sua mandíbula com um gancho de direita e, antes que o corpo dele tocasse o chão, puxou dois revólveres do embornal. Ao invés de dispará-las, arremessou as armas em rápida sucessão, fazendo-as rodopiar pelo ar em direções diferentes.


A primeira arma atingiu a cabeça de outro capanga próximo, nocauteando-o.


A segunda voou mais de vinte metros e acertou com força a mão de Severino. O impacto fez o revólver de Severino escapulir de suas mãos, caindo para fora do palanque de rochas. A arma arremessada por Calabros, porém, caiu aos pés do cangaceiro.


Zé deu mais passos à frente, avançando alguns metros, já com outro revólver em mãos, mas segurando-o pelo cano ao invés da empunhadura.


Após um instante estupefato, Severino gargalhou. "Hehahaha! Mas que diabos é isso, cabra? E isso é lá jeito de usar uma arma?"


"Fazer o quê?", questionou Calabros. "Eu não sei atirar!"



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Vendo a cena de longe, Mara'iza levou a mão ao rosto. "Era para ISSO que você estava se armando, seu ogro idiota?", murmurou a si mesma.



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Severino pegou o revólver aos seus pés e apontou-o para Zé. "Vosmecê só me deu uma arma pra dar cabo de ti. Ou vosmecê é um completo idiota ou o cabra mais corajoso que já vi! Qual é teu nome?"


"Meu nome é Zé Calabros, e o cabra cá é MACHO!"


O nome ressoou, tanto na multidão como entre os bandidos. "Zé Calabros?", perguntou Severino, "Já ouvi histórias sobre vosmecê! Ouvi dizer que meu colega Mané do Cangaço tava atrás de ti! Respeito um sujeito que é que nem eu, que não sabe o que é medo! Junte-se ao meu bando, Zé Calabros! Vamos limpar essa terra e dar vida nova pro povo daqui!"


Avançando lentamente, Zé alcançava metade da distância até o palanque. "A única coisa que vou juntar, seu covarde, é minha mão na tua cara! Já dei cabo do tal Mané, agora é tua vez! Desce daí, pra modo da gente conversar feito homem!"


Severino perdeu a paciência. "Eu vou é te ensinar como se usa uma arma!", ameaçou, apontando o revólver e puxando o gatilho.


A arma explodiu na mão do cangaceiro. Com a mão ferida, Severino se retraiu em dor.


"Eu entortei o cano!", Zé alertou, imediatamente arremessando o revólver que tinha em mãos. O objetou rodopiou pelo ar, mas Severino, mesmo distraído pelo ferimento, se esquivou sem dificuldades.


Petrúquio Fragoso deu uma risadinha, segurando-se para não gargalhar.


"Fragoso, seu inútil!", Severino o chamou, "eu quero esse cabra morto! Quero a cabeça dele exposta na praça, pra todo mundo saber o que acontece com quem desafia Severino! E quero AGORA!".


Fragoso recuperou a compostura, dizendo em sua voz ecoante para que toda a população ouvisse: "Sim, capitão! Esse homem vai morrer agora!". Em seguida, passou os dedos sobre as pedras e ossos de seu colar e saltou do palanque, pondo-se a uns dez metros de Calabros. Os dois se encararam.


Um relâmpago intenso iluminou os céus.



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Calabros criara a distração que ela precisava.


Mara'iza se concentrou. Expirando após profunda inspiração, ela gesticulou rapidamente, conjurando seu feitiço, o primeiro de uma sequência meticulosamente planejada.


Uma redoma intangível, quase imperceptível, envolveu o palanque, Severino Barriga D'Água, o Coronel Menezes, a família cativa, os guardas capturados e os cangaceiros que os vigiavam. Dentro daquela barreira intangível de caos, podia teleportar coisas à vontade. Era bem maior do que uma de suas conjurações normais, exigindo esforço para ser mantida, e não duraria muito tempo.


Em seguida, Mara'iza correu para fora da multidão, na direção da família capturada. Assim que os bandidos a notaram, invocou o segundo feitiço, parando o tempo e, com o mundo estático ao redor, continuando a investida até adentrar a redoma.


Conjurou então o terceiro feitiço. Fora da redoma, perto dos guardas capturados, fez surgir uma distorção da realidade na forma de ondulação intensa. Três feitiços de extrema complexidade, e ela já começava a se cansar. Respirou fundo para retomar fôlego, pressentindo que seu tempo pessoal estava se realinhando ao natural.


O mundo voltou a se mover. Para os observadores, Mara desaparecia do caminho e ressurgia próxima aos cativos.


Um trovão ecoou, e a jovem magista estalou os dedos, desencadeando os eventos planejados.



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Calabros e Fragoso ainda se defrontavam, quando uma série de lampejos chamaram a atenção dos dois. No palanque e além, dentro dos limites da redoma, Coronel Meneses e sua família desapareceram, ressurgindo de imediato, confusos, mas ilesos, junto aos guardas capturados.


Ao mesmo tempo, Severino sentiu uma força inexplicável puxá-lo, mas foi capaz de resisti-la. Os capangas, porém, desapareciam de suas posições de vigília, ressurgindo com dores e enjoo nos arredores do palanque. Os de vontade mais fraca reapareciam no ar e caíam violentamente contra as pedras.


Mara'iza também sumiu num lampejo, ressurgindo entre o palanque de Severino e os cativos. Com dificuldades de manter a redoma de caos, porém, deixou que se dissipasse.


Confusos, a família Meneses e os guardas não compreendiam o que acontecia. Diante deles, o feitiço da ondulação fez materializar uma segunda Mara'iza, que estendeu-lhes a mão e ordenou: "Rápido, venham! O tempo urge!".


Severino parou um instante para compreender a situação. Virando-se lentamente e fitando a Mara'iza original, disse: "Vosmecê deve ser a feiticeira de que a mensagem de Mané falava".


"Eu sou Atsumi Mara'iza!", disse ela, numa voz ecoante, como a de Petrúquio, para que todo o povo pudesse ouvi-la. "Tremam, mortais, e CONTEMPLEM!"


"Seu bando inútil, não deixem o coronel escapar!", ordenou Severino Barriga D'Água ao ver a segunda Mara'iza conduzir a fuga dos guardas e dos Meneses. Sacou então o facão com a mão ilesa e encarou a Mara'iza original, seus óculos refletindo a imagem dela.


Mara'iza, a original, sorriu provocadora e arrogante, erguendo a mão na direção de Severino e gesticulando seu próximo feitiço.



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Voltando-se novamente a Calabros, Petrúquio Fragoso riu, passando os dedos no colar de contas e ossos. Em resposta ao gesto, dezenas de pedras e pedregulhos saltaram do chão e passaram a orbitar o malfeitor, como um redemoinho protetor.


Zé Calabros encarou Fragoso, estalou os punhos e, num grito furioso, se arremeteu contra ele.



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Mais um relâmpago veio, seguido por estrondoso trovão, e a chuva ganhou intensidade.



A seguir: Não vou morrer aqui

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As Crônicas Anímicas

© 2016 Tiago Moreira