Prévia: Capítulo 8


Mais uma sexta-feira chega, e se não tem um capítulo, tem a prévia de um! Então, segure-se, que adiante você tem as primeiras cenas do Capítulo 8: Não vou morrer aqui!


E este capítulo é explosivo! A batalha por Bota do Judas segue intensa, com os Coronéis Garrancho e Malícia unindo forças contra o bando do Barriga D'Água. Mas perigo real mesmo correm nossos dois heróis, Mara'iza e Zé Calabros, que estão diante do Rei do Cangaço em pessoa!

O tiroteio seguia intenso. Os guardas da Coronel Malícia eram mais numerosos, mas não podiam avançar além dos portões, e a iluminação da avenida os denunciava. A vantagem estava com os bandidos no topo da muralha, protegidos pelo parapeito e pela escuridão.


A Coronel Adelina Malícia logo percebeu que os tiros dos cangaceiros não eram o único perigo naquela batalha. Gritando, um dos guardas surgiu do beco, coberto de ratos que o devoravam vivo. O pobre coitado tombou antes que conseguisse ajuda, e os roedores, abandonando o cadáver, formaram uma massa preta que avançou na direção da coronel.


"Isso é urucubaca!", exclamou um dos jagunços que a acompanhavam. "Corre, coronel!"


"O caramba que vou correr, cabra medroso!", ela refutou. Pegou o lampião, destampou a câmara de óleo e o jogou contra a rataria. O impacto quebrou o anteparo do instrumento e espalhou as chamas, dispersando os roedores.


"Coronel, ficar aqui é loucura!", o jagunço insistiu. "A gente pode deixar um destacamento pra distrair os bandidos e rodear a periferia, para o norte ou para o sul!"


"Nada disso, homens! Segurem firme!", gritou a coronel, "E se algum d'ocês fugir, eu caço o covarde até o fim do mundo, entendido?". Firmou a espingarda, ajeitou o chapéu e se expôs para abrir fogo. Um tiro, e um cangaceiro na muralha caiu. Em seguida, se protegeu de novo antes que revidassem.


A chuva, até então fraca, começou a ganhar intensidade rapidamente. Com a pólvora molhada, os bacamartes e garruchas logo se tornariam inúteis. Revólveres e espingardas eram mais confiáveis, mas bem menos comuns e nem sempre infalíveis.


Malícia sorriu. Com a tempestade já forte e o tiroteio cessando, a muralha deixava de ser uma vantagem para os cangaceiros. "Tragam os explosivos e ponham esses portões lazarentos abaixo!", ordenou.


Os guardas avançaram. O encarregado dos explosivos, acobertado pelos demais, alcançou os portões e preparou os petardos. Recebeu um lampião e abriu o anteparo com cuidado para não extinguir a chama. Antes que acendesse os pavios, porém, ele e outros guardas próximos foram derrubados por algo que irrompeu do solo, sob os pés da tropa.


Era uma cobra imensa, de escamas escuras e olhos amarelos brilhantes.


A criatura agarrou o encarregado, enrolando-se nele e esmigalhando seus ossos. Depois, numa velocidade sobrenatural, avançou sobre outro guarda, mordendo-o e erguendo-o no ar, para então arremessá-lo longe. Os homens que tinham armas funcionais dispararam contra a cobra, mas suas escamas eram mais resistentes que qualquer armadura.


"Padim do céu!", a coronel murmurou, então gritando para a tropa: "Isso não é cobra! Isso aí é um boitatá!".


Chamas se acenderam na boca do réptil e se espalharam por toda a extensão de seu corpo, fazendo-o fulgurar ofuscante em meio à tormenta. Enrolando parte do corpo, o monstro incandescente se firmou diante dos portões, deixando cauda e cabeça expostos para atacar.

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Velho Tição gargalhava do alto da muralha. Com o advento da tempestade, a batalha chegava a um impasse, mas enquanto os portões permanecessem fechados, a vitória seria dele. "A gente só precisa segurá os desgramado! Quem pudé atirá, atira!", gritou aos bandidos próximos. "O resto fica de prontidão, mas duvido que eles consegue passá pela minha Sônia Regina! He he he he!"


Um capanga veio correndo, em desespero, pela rampa da muralha. "Velho Tição! Velho Tição!", chamava. "Tem uma tropa inimiga vindo do sul!", apontou.


O sorriso sumiu da cara do velho. "Fí de ronquifuça!", vociferou, vendo as lanternas de outro grupo se aproximando por dentro da cidade, cercando os cangaceiros pelos dois lados da muralha. "A gente tem que protegê o portão! Pega facão, peixeira, porrete ou o que for, e mata esse bando desgracento!"

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"Avancem! Abram os portões!", Coronel Garrancho ordenou, e seus homens investiram com destemor, empunhando espadas, sabres e facões. "Por Santa Rita! Pela Cornália!"


Em números, os bandidos tinham ligeira vantagem. Porém, reunidos no alto da muralha, se afunilavam ao descer as rampas de acesso. Alguns arriscaram-se a saltar do alto, mas a queda era dolorosa, e eram facilmente sobrepujados. A batalha se concentrou nas bases das rampas, onde os guardas tinham clara superioridade.


Percebendo que a vitória era apenas uma questão de tempo, Garrancho separou alguns dos homens. "Abram os portões pra Coronel Malícia! Levantem a barra!", gritou, lamentando que o braço imobilizado o impedisse de contribuir com o esforço.


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"Garrancho, sua hora ainda vai chegá...", murmurou o Velho Tição, reconhecendo o coronel. Podia arriscar-se a matá-lo ali mesmo, mas sabia que não venceria a batalha em duas frentes. O mais prudente seria recuar e alertar Severino. "Sônia Regina, vem pro papai, mizifia!", sussurrou.


As chamas que envolviam a cobra imediatamente cessaram, e o imenso réptil serpenteou muralha acima com incrível rapidez. Enrolou Tição em sua cauda, depois desceu e seguiu para o centro da cidade, levando consigo o velho e atropelando quem ficasse em seu caminho.

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"Mas que diabo foi aquilo?", questionou um dos homens de Garrancho, após a imensa cobra sumir de vista.


"Não importa agora!", o coronel respondeu.


Os homens de Garrancho ergueram a barra, abrindo os portões. A tropa de Malícia adentrou, unificando as forças dos dois coronéis. Os cangaceiros, agora sobrepujados por um número cinco vezes maior de guardas, já fugiam saltando para a periferia.


"Samuel", a Coronel Malícia veio sem pressa. Ela era uma bela mulher, alta, morena e de cabelos longos. "Como vai Rosinha? Já pariu o filhote d'ocês?"


"Adelina", Garrancho ergueu o chapéu sutilmente em reverência. "Ainda não, Rosinha ainda tá no oitavo mês. Como vai seu filho?".


"O bichinho tá custoso que só!", ela respondeu. "Mas chega de frivolidade, homem, que não tamos aqui pra papear. Cadê o peste do Severino?"


"Na praça", ele respondeu, voltando-se para o centro da cidade. "Mandei um grupo vigiar o portão leste. A gente vai atacar Severino e encurralar o maldito quando ele tentar fugir."


"Muito bom, muito porreta!", comemorou Malícia, confiante. "Hoje o desgraçado morre!"


Garrancho também estava cheio de esperanças. Entrar na cidade fora muito mais fácil do que esperava, e até os céus ajudaram enviando aquela chuva bendita. Porém, questionava-se onde estariam Zé Calabros e Mara'iza.



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Zé Calabros na Terra dos Cornos
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As Crônicas Anímicas

© 2016 Tiago Moreira