Capítulo 8: Não vou morrer aqui

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O tiroteio seguia intenso. Os guardas da Coronel Malícia eram mais numerosos, mas não podiam avançar além dos portões, e a iluminação da avenida os denunciava. A vantagem estava com os bandidos no topo da muralha, protegidos pelo parapeito e pela escuridão.


A Coronel Adelina Malícia logo percebeu que os tiros dos cangaceiros não eram o único perigo naquela batalha. Gritando, um dos guardas surgiu do beco, coberto de ratos que o devoravam vivo. O pobre coitado tombou antes que conseguisse ajuda, e os roedores, abandonando o cadáver, formaram uma massa preta que avançou na direção da coronel.


"Isso é urucubaca!", exclamou um dos jagunços que a acompanhavam. "Corre, coronel!"


"O caramba que vou correr, cabra medroso!", ela refutou. Pegou o lampião, destampou a câmara de óleo e o jogou contra a rataria. O impacto quebrou o anteparo do instrumento e espalhou as chamas, dispersando os roedores.


"Coronel, ficar aqui é loucura!", o jagunço insistiu. "A gente pode deixar um destacamento pra distrair os bandidos e rodear a periferia, para o norte ou para o sul!"


"Nada disso, homens! Segurem firme!", gritou a coronel, "E se algum d'ocês fugir, eu caço o covarde até o fim do mundo, entendido?". Firmou a espingarda, ajeitou o chapéu e se expôs para abrir fogo. Um tiro, e um cangaceiro na muralha caiu. Em seguida, se protegeu de novo antes que revidassem.


A chuva, até então fraca, começou a ganhar intensidade rapidamente. Com a pólvora molhada, os bacamartes e garruchas logo se tornariam inúteis. Revólveres e espingardas eram mais confiáveis, mas bem menos comuns e nem sempre infalíveis.


Malícia sorriu. Com a tempestade já forte e o tiroteio cessando, a muralha deixava de ser uma vantagem para os cangaceiros. "Tragam os explosivos e ponham esses portões lazarentos abaixo!", ordenou.


Os guardas avançaram. O encarregado dos explosivos, acobertado pelos demais, alcançou os portões e preparou os petardos. Recebeu um lampião e abriu o anteparo com cuidado para não extinguir a chama. Antes que acendesse os pavios, porém, ele e outros guardas próximos foram derrubados por algo que irrompeu do solo, sob os pés da tropa.


Era uma cobra imensa, de escamas escuras e olhos amarelos brilhantes.


A criatura agarrou o encarregado, enrolando-se nele e esmigalhando seus ossos. Depois, numa velocidade sobrenatural, avançou sobre outro guarda, mordendo-o e erguendo-o no ar, para então arremessá-lo longe. Os homens que tinham armas funcionais dispararam contra a cobra, mas suas escamas eram mais resistentes que qualquer armadura.


"Padim do céu!", a coronel murmurou, então gritando para a tropa: "Isso não é cobra! Isso aí é um boitatá!".


Chamas se acenderam na boca do réptil e se espalharam por toda a extensão de seu corpo, fazendo-o fulgurar ofuscante em meio à tormenta. Enrolando parte do corpo, o monstro incandescente se firmou diante dos portões, deixando cauda e cabeça expostos para atacar.

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Velho Tição gargalhava do alto da muralha. Com o advento da tempestade, a batalha chegava a um impasse, mas enquanto os portões permanecessem fechados, a vitória seria dele. "A gente só precisa segurá os desgramado! Quem pudé atirá, atira!", gritou aos bandidos próximos. "O resto fica de prontidão, mas duvido que eles consegue passá pela minha Sônia Regina! He he he he!"


Um capanga veio correndo, em desespero, pela rampa da muralha. "Velho Tição! Velho Tição!", chamava. "Tem uma tropa inimiga vindo do sul!", apontou.


O sorriso sumiu da cara do velho. "Fí de ronquifuça!", vociferou, vendo as lanternas de outro grupo se aproximando por dentro da cidade, cercando os cangaceiros pelos dois lados da muralha. "A gente tem que protegê o portão! Pega facão, peixeira, porrete ou o que for, e mata esse bando desgracento!"

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"Avancem! Abram os portões!", Coronel Garrancho ordenou, e seus homens investiram com destemor, empunhando espadas, sabres e facões. "Por Santa Rita! Pela Cornália!"


Em números, os bandidos tinham ligeira vantagem. Porém, reunidos no alto da muralha, se afunilavam ao descer as rampas de acesso. Alguns arriscaram-se a saltar do alto, mas a queda era dolorosa, e eram facilmente sobrepujados. A batalha se concentrou nas bases das rampas, onde os guardas tinham clara superioridade.


Percebendo que a vitória era apenas uma questão de tempo, Garrancho separou alguns dos homens. "Abram os portões pra Coronel Malícia! Levantem a barra!", gritou, lamentando que o braço imobilizado o impedisse de contribuir com o esforço.


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"Garrancho, sua hora ainda vai chegá...", murmurou o Velho Tição, reconhecendo o coronel. Podia arriscar-se a matá-lo ali mesmo, mas sabia que não venceria a batalha em duas frentes. O mais prudente seria recuar e alertar Severino. "Sônia Regina, vem pro papai, mizifia!", sussurrou.


As chamas que envolviam a cobra imediatamente cessaram, e o imenso réptil serpenteou muralha acima com incrível rapidez. Enrolou Tição em sua cauda, depois desceu e seguiu para o centro da cidade, levando consigo o velho e atropelando quem ficasse em seu caminho.

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"Mas que diabo foi aquilo?", questionou um dos homens de Garrancho, após a imensa cobra sumir de vista.


"Não importa agora!", o coronel respondeu.


Os homens de Garrancho ergueram a barra, abrindo os portões. A tropa de Malícia adentrou, unificando as forças dos dois coronéis. Os cangaceiros, agora sobrepujados por um número cinco vezes maior de guardas, já fugiam saltando para a periferia.


"Samuel", a Coronel Malícia veio sem pressa. Ela era uma bela mulher, alta, morena e de cabelos longos. "Como vai Rosinha? Já pariu o filhote d'ocês?"


"Adelina", Garrancho ergueu o chapéu sutilmente em reverência. "Ainda não, Rosinha ainda tá no oitavo mês. Como vai seu filho?".


"O bichinho tá custoso que só!", ela respondeu. "Mas chega de frivolidade, homem, que não tamos aqui pra papear. Cadê o peste do Severino?"


"Na praça", ele respondeu, voltando-se para o centro da cidade. "Mandei um grupo vigiar o portão leste. A gente vai atacar Severino e encurralar o maldito quando ele tentar fugir."


"Muito bom, muito porreta!", comemorou Malícia, confiante. "Hoje o desgraçado morre!"


Garrancho também estava cheio de esperanças. Entrar na cidade fora muito mais fácil do que esperava, e até os céus ajudaram enviando aquela chuva bendita. Porém, questionava-se onde estariam Zé Calabros e Mara'iza.


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Mara'iza, a segunda, conduzia os Menezes e os guardas resgatados para longe do palanque de pedras. "Corram, vamos!", a moça insistia, já que os capangas de Severino, recuperando do baque da teleportação, começavam a persegui-los.


Nem todos podiam correr, contudo. Os guardas, com as mãos amarradas, tinham o equilíbrio prejudicado. Coronel Meneses, fraco, era ajudado por seu filho André. As mulheres auxiliavam as crianças.


Felizmente, a tempestade se intensificara em boa hora, protegendo-os das armas de fogo dos cangaceiros e dispersando a aglomeração de cidadãos na praça. Porém, os bandidos, mais ágeis e desimpedidos, logo reduziriam a distância.


"Cobrirei a fuga!", avisou Mara'iza, assumindo a retaguarda do grupo. Parou por um instante, apontou os dedos contra os cangaceiros, disparou duas lanças cintilantes e voltou a correr, seguindo de perto os Meneses.


As setas voaram pelo ar, atingindo e nocauteando, com explosões prateadas, dois perseguidores. Assustados, os outros bandidos hesitaram por alguns segundos.


Os fugitivos alcançaram a multidão e se misturaram aos muitos cidadãos que ainda deixavam a praça em busca de abrigo. Vários guardas resgatados aproveitaram para se separar do grupo e tentar a sorte sozinhos. Com menos gente e o auxílio da tempestade, os fugitivos despistaram seus perseguidores.


Mara'iza permaneceu com a família Meneses, mas o cansaço começava a sobrepujá-la. Tinha usado muitos feitiços poderosos, e estar em dois lugares ao mesmo tempo exigia muito de sua concentração e vigor.

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Severino avançou contra Mara'iza, a original, e desferiu um golpe incrivelmente rápido de facão, empunhado com a mão esquerda. Manteve a mão direita, ferida por Calabros, junto ao peito.


Surpreendida pela velocidade da investida, Mara'iza mal teve tempo de erguer uma barreira protetora e bloquear o caminho da lâmina.


Para espanto da menina, o cangaceiro era tão ágil, que golpeou-a mais duas vezes antes do fim da curta duração do escudo. A cada golpe, Severino girava o corpo e se reposicionava, buscando falhas na proteção.


Para bloquear os sucessivos ataques, Mara'iza se mantinha sempre voltada ao cangaceiro. Sentindo sua proteção expirar, a menina interrompeu o fluxo do tempo, deixando o mundo estático. "Pensa, Mara, pensa!", murmurou, ofegante. O cangaceiro, inerte logo adiante, estava em via de desferir mais um golpe. Tinha poucos segundos relativos à disposição para formular uma estratégia. "Ele ataca mais rápido do que consigo conjurar um feitiço", concluiu, "Nesse ritmo, ele vai me matar!"


A chuva tornava tudo mais complicado, pois as gotas paralisadas em plena queda ofereciam enorme resistência ao serem empurradas. Com dificuldade, Mara'iza deu dois passos para trás, saindo do alcance do golpe de Severino, e se pôs a conjurar uma nova mágica, preparando-se para liberá-la assim que o tempo se realinhasse.


Com o fluxo temporal retomando seu curso natural, a lâmina de Severino passou inofensivamente onde a jugular de Mara'iza deveria estar. Surpreendido pelo deslocamento súbito dela, o cangaceiro hesitou por um instante antes de retomar a ofensiva.


Mara'iza pronunciou palavras de poder e estendeu a mão adiante. Um globo de intensa energia cintilante saltou, atingindo o adversário a queima-roupa e causando uma explosão fulgurante que o lançou longe.


Severino caiu violentamente e rolou na lama. Sentindo dor, levou um instante para recuperar-se do baque, mas logo se ergueu, colocando-se de novo em postura de combate. "Grizmela da peste, moleca do capeta! Chega de estripulia, agora vosmecê me deixou puto!"

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Zé Calabros socava com força e fúria, mas Petrúquio Fragoso, protegido por um redemoinho de pedregulhos, nem tentava evitar os ataques. Os detritos que orbitavam o canalha se aglomeravam em rochas maiores, bloqueando cada golpe e depois se despedaçando para realimentar o redemoinho.


"Você nem consegue me tocar!", Fragoso gargalhou.


Zé interrompeu os ataques e fitou o adversário com raiva no olhar. "Lute feito homem, seu covarde! Se continuar me zombando, vai se lamentar!"


"O que você vai fazer?", o bandido provocou, "Vai ficar bravinho? Vai xingar minha mãe?".


"Vou usar mais força, abestado!", Zé respondeu. Estendeu a mão a Fragoso, com velocidade, mas sem força para machucar, e as pedras não impediram seu avanço. Agarrou-o pela roupa e puxou-o de supetão. Ao mesmo tempo, cerrou o outro punho, e desferiu um soco tão potente que trespassou a rocha que se formou para interceptá-lo, espatifando-a, e atingiu a cara do bandido ainda com força para machucar.


Aturdido, Petrúquio Fragoso cambaleou para trás. Não fosse sua proteção, aquele golpe provavelmente o nocautearia. "Seu filho duma rameira!", urrou, avançando contra Zé. Pedras voaram para a mão de Fragoso, envolvendo-a numa manopla rochosa, e ele desferiu um soco guiado por força sobrenatural.


A manopla se quebrou ao atingir o rosto de Zé. Lançado pelo impacto, ele caiu e rolou no chão enlameado. Fazia muito tempo que não levava um golpe forte daqueles.


"Viu só? Eu sou superior a você!, disse Fragoso, "Tudo o que você pode fazer, eu faço melhor!"


Zé Calabros se ergueu. O rosto sangrava, cortado pelas pedras. "Já ouvi isso antes, de uma menina bem irritante..."


Fragoso avançou, formando nova manopla rochosa e atacando novamente.


Calabros bloqueou o ataque, espatifando a manopla contra seu braço, e revidou com um soco, superando novamente a barreira de rochas. Atingido no rosto, Fragoso recuou mais uma vez.


"...mas nela eu não tinha intenção de dar uma surra!", disse Calabros, exibindo o punho já esfolado e sangrento de tanto golpear pedras.


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"Vosmecê parece cansada", Severino provocou. Manteve a mão machucada junto ao peito e o facão estendido à esquerda do corpo, pronto para golpear. Contudo, ao invés de se arremeter, aproximava-se a passos curtos e lentos, circundando Mara'iza.


"É claro, você me cansa de tão enfadonho!", Mara devolveu. Mantinha a mão estendida à frente e recuava lentamente, mantendo distância do cangaceiro, "Desista! Eu manipulo as forças primordiais do universo, e você usa um pedaço pontudo de metal!"


Severino analisava cuidadosamente a adversária. Por mais rápido que fosse, estava além da distância ideal para um ataque. "Vosmecê tá apostando a vida aqui, magrela azeda! É matar ou morrer! Então, trate de usar essas forças do universo direito, senão meu pedacinho de metal vai te varar a barriga!"


Mara'iza estava exaurida e só poderia conjurar feitiços simples. Parar o tempo estava fora de questão, bem como criar escudos defensivos. Portanto, precisava mantê-lo longe. "Então, trema, mortal!", gritou, conjurando uma onda de choque que viajou à frente dela.


Severino sorriu. Era exatamente o que queria: forçá-la a dar a primeira cartada. Evadiu para o lado, rolou no chão e saltou na direção dela, reduzindo a distância que os separava.


Mara percebeu seu erro tarde demais. "Idiota! Idiota!", repreendeu-se. Recuou desesperadamente e disparou uma seta cintilante contra o cangaceiro.


Severino se desviou do disparo mágico sem dificuldades e se arremeteu contra a menina, desferindo seu golpe.


Mara'iza arregalou os olhos, deu mais um passo para trás e improvisou o único feitiço defensivo que podia evocar naquele momento. Uma bolha cintilante a cercou brevemente e explodiu, empurrando Severino para trás e desviando ligeiramente a lâmina dele. O facão errou a barriga dela, mas rompeu a alça de seu livro e cortou superficialmente o braço que o segurava.


Mara gritou de dor, levando a mão ao braço ferido. O grimório dela, contudo, caiu ao chão.


Severino chutou o livro para longe. "Agora, vosmecê tá desarmada, não tá?", ele sorriu sadisticamente.

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Mara'iza, a segunda, protegia a retaguarda dos fugitivos, quando sentiu uma dor intensa no braço e viu a alça de seu grimório se partir. Conseguiu agarrar o livro antes que caísse na lama, mas a dor súbita a fez parar de correr e gritar de dor.


"Você tá bem, moça?", o filho mais jovem do Coronel Meneses, Tadeu, parou para ajudá-la.


"Tem algo acontecendo comigo lá atrás!", ela disse, caindo de joelhos, exausta.


"Como assim? Lá atrás?", perguntou Tadeu, "Aquela outra era você? Pensei que era uma irmã! Como você pode estar em dois lugares?"

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Ofegante, a Mara'iza original tentou se afastar, sem dar as costas a Severino.


O cangaceiro apontou o facão a ela. "Vida e morte, decido eu! Quando vosmecê chegar no inferno, diz pro capeta que quem te enviou foi Severino!"


Mara, porém, disfarçou o medo e forçou-se a sorrir, arrogante. "Não percebeu, bandido energúmeno? Você foi feito de idiota, o que, convenhamos, não é tão difícil assim! Meu plano funcionou! Roubei o que você mais precisava: tempo!"


Enraivecido, Severino urrou, desferindo um golpe contra a garganta da menina. A lâmina passou onde deveria, mas cortou apenas vento e chuva. A magista desaparecera subitamente, causando distorções e ondulações no ar, que não durariam.


"Desgraçada! Eu ainda te pego!", gritou Severino em fúria. "Vosmecê tá morta, cabrita! Morta!"

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Tadeu Meneses auxiliou Mara'iza, a segunda e agora única, a se erguer.


Ela explicou: "Eu posso manipular o tempo, inclusive me puxar de alguns instantes adiante, efetivamente me duplicando. Aquela era meu eu passado. Esta era meu eu futuro".


"Que coisa maluca!", o rapaz disse, e os dois voltaram a correr, alcançando o resto do grupo.


"Mas isso é exaustivo, e o que acontece em uma, reflete nas duas", Mara continuou. "Tive que cancelar o efeito, e isso significa que passado desaparece e futuro permanece. Só eu existo agora."


O grupo de fugitivos deixava a praça pelo leste, adentrando as ruas secundárias. Não havia sinal de perseguidores. "Ali!", André Meneses, que ajudava o pai, apontou para um casarão com a porta arrombada. "Vamos nos abrigar ali!"


Mara'iza estava no fim de suas forças. Precisava descansar, mas preocupava-se mais com Zé Calabros do que com sua própria segurança.

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Contendo a raiva, Severino avaliou os arredores. A maldita feiticeira sumira. O livro dela, que caíra na lama, também. A multidão tinha se dispersado e seus homens estavam espalhados pela cidade. Ali perto, Zé Calabros e Tibúrcio Fragoso ainda pelejavam. Cogitou interferir.


Naquele momento, porém, Velho Tição, carregado pela cobra, chegou. "Severino, mizifio!", o preto velho chamou alarmado. "Tenho notícia urgente pra contá! A cidade tá sendo invadida!"

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Ainda atordoado, Petrúquio Fragoso cuspiu sangue. "Você tem ideia do que posso fazer? Eu tenho um pacto com o diabo!".


"Então some da minha frente e vai pro inferno, cabra lazarento!", Zé retrucou.


"Cansei de brincar contigo!", Fragoso gritou, passando os dedos por seu colar. Subitamente, a terra se abriu sob os pés dele, puxando-o para as profundezas e se fechando em seguida. Pouco depois, ele reemergiu vários metros mais distante.


Zé, pressentindo perigo, assumiu postura defensiva.


"Agora a briga é nos meus termos!", Fragoso bradou, tocando novamente o colar. Uma violenta onda de destruição partiu dele, rachando o solo numa linha à frente e causando uma série de explosões de pedras.


Zé Calabros saltou para o lado, evitando a onda destrutiva, e investiu contra o adversário. "Manda o que você quiser, que eu sempre brigo nos meus termos, fela-d'égua!"


Fragoso gesticulou como se arremessasse um objeto inexistente. Em resposta, uma rocha, tão grande quanto um melão, saltou do chão e voou violentamente contra seu adversário.


Zé Calabros bloqueou a rocha com os braços, mas o impacto interrompeu seu avanço.


Fragoso gesticulou de novo, lançando uma segunda pedra.


Zé golpeou o projétil, desviando-o, e voltou a se arremeter com um grito furioso. Um terceiro bólido saltou do solo para atacá-lo, mas deste ele se esquivou, não perdendo mais velocidade.


Fragoso, vendo o inimigo cada vez mais próximo, gerou uma segunda onda de destruição na direção dele.


Usando o impulso da corrida, Calabros saltou por cima das explosões de rocha e, caindo sobre Fragoso, desferiu um soco poderoso. O redemoinho formou uma rocha para proteger o maldito, mas o punho de Calabros a atravessou e atingiu certeiramente o maldito.


Fragoso caiu sem forças. O redemoinho que o protegia perdeu força, dissipando-se e lançando pedregulhos inofensivos para todos os lados.


Calabros tomou um momento para recuperar o fôlego. Depois, agarrou e ergueu o bandido, preparando o punho para o golpe de misericórdia. "Não me importa se você tem pacto com o capeta. Pode mandar o que for, que resolvo tudo na porrada!"


Petrúquio Fragoso gargalhou. "Se é assim, então toma!"


Repentinamente, duas protuberâncias rochosas se ergueram ao redor dos dois, fechando sobre eles como a boca de um predador que engole a presa. Surpreso, Zé Calabros apenas teve tempo de largar Petrúquio e proteger o rosto antes de ser esmagado. A mandíbula de terra então desabou, soterrando-os sob os destroços.


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Petrúquio Fragoso emergiu do solo ao lado de Severino. "Está feito, capitão", disse, cuspindo mais sangue, e parou para recuperar as forças.


"Achei que ele ia te dar um couro, Fragoso!", Severino murmurou, observando o amontoado de terra que sepultava Zé Calabros. "Agora, se apressa, que vamos pro portão leste. Essa noite infernal não acabou."


Petrúquio estranhou a ordem. "O que está acontecendo?"


"Garrancho e Malícia juntaram forças e trouxeram uns trezentos homens ou mais pra cá. Vosmecê vai cobrir nossa fuga."


"A gente vai fugir? Temos tantos homens quanto eles!"


"Não temos mais, seu lesado! Perdemos um monte defendendo a muralha oeste, e o resto tá espalhado pela cidade! Mandei Tição chamar Virgulino, e a gente vai reunir todo mundo que puder pra capar o gato daqui. Agora segue pro portão, que aposto que os fí-de-quenga vão tentar cercar a gente lá!"


"Sim, capitão", obedeceu Petrúquio Fragoso. Mesmo cansado, correu para o leste.


Severino fitou a mão ferida, que sangrava profusamente, e se amaldiçoou pelo descuido. Se tivesse as duas mãos, poderia lutar com facão e revólver, teria matado a feiticeira e evitaria a fuga dos Meneses.


Porém, não havia muito tempo para lamentar a derrota, e logo o Rei do Cangaço seguiu na mesma direção de Petrúquio.

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Os fugitivos passaram pelo salão de entrada do casarão e se refugiaram no cômodo posterior.


Encharcada e tremendo de frio, Mara'iza primeiro se certificou que ninguém os seguia. Depois, uniu a alça partida do grimório com os dedos, restaurando-a com uma conjuração rápida. Colocou o livro a tiracolo e, apoiando-se na parede, avaliou o resto do grupo.


Ali, na escuridão, a família Meneses e oito guardas se recuperavam. Ajudado por seu filho Tadeu, o Coronel Meneses se recolhia no chão. A mão decepada custara-lhe muito sangue. O filho do meio, Bento, ajudava a mãe, a esposa e a cunhada a acalmarem as crianças. O filho mais velho, André Meneses, tentava livrar um dos guardas das amarras em seus pulsos.


"Deixe isso comigo", disse Mara'iza, aproximando-se de André e tocando as amarras. A corda sumiu num lampejo, libertando o guarda, e ressurgiu no chão ali perto. Felizmente, remover as amarras era um feitiço simples, que Mara'iza se pôs a repetir com os outros.


"Feiticeira?", André Meneses a chamou durante o processo. "Pode me emprestar essa sua faca? Preciso de algo para defender minha família."


Mara'iza olhou para a adaga, que mantinha embainhada junto ao cinto. "Muito bem", ela concordou, desamarrando a faixa na cintura e retirando adaga e bainha para entregá-las a André, "mas saiba que isto é um kai'ken, um símbolo de minha posição como sam'rai de meu clã. Separar-me dela seria desonroso, por favor não a perca."


André Meneses recebeu a adaga em mãos. "Prometo que a devolverei, muito obrigado!"


"Há mais uma coisa que posso fazer", Mara'iza informou, então pegou uma das amarras tiradas dos guardas e murmurou uma palavra mágica. Em resposta, a corda se iluminou em luz branca. "Tome, vai brilhar por uma hora", disse, dando-a a André. "Vasculhe a casa, procure qualquer coisa que sirva de arma para seus homens, mas cuidado para que o brilho não alerte os bandidos."


André Meneses agradeceu mais uma vez. "Os cangaceiros agora controlam Bota do Judas, e cedo ou tarde vão nos achar. Devíamos fugir antes do amanhecer."


"Não, permaneceremos aqui, escondidos", ela discordou. "Os Coronéis Malícia e Garrancho estão invadindo a cidade nesse instante. Os bandidos não ficarão nesta cidade por muito tempo."


A notícia animou André Meneses, que se virou aos presentes e relatou a boa nova. Os guardas comemoraram. A esperança da família se renovou.


Mara'iza concluiu a liberação dos guardas e voltou à porta do cômodo, pondo-se em vigília. Estava tão exausta que, se não tivesse preocupações, cairia num sono profundo. Ali, porém, era seu dever proteger os Meneses, e não descansaria até que estivessem em segurança.

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Severino e dez capangas guardavam a avenida para o portão leste, quando um grupo de cerca de quarenta cangaceiros apareceu. À frente deles, vinham Virgulino Cornoaldo e o Velho Tição.


As luzes da tropa inimiga já eram visíveis do outro lado da praça.


"Tição!", ordenou Severino, "Manda a cobra guardar esta ponta da avenida!"


"Cê ouviu o hôme, Sônia Regina", murmurou Velho Tição à cobra, e o réptil gentilmente o pôs no chão, depois se incendiou, virando um clarão na tempestade, e se pôs de guarda.


Severino recuou para trás da cobra, mantendo distância para evitar o calor emanado dela. "Vou ficar aqui com a cobra pra segurar a tropa dos coronéis. Virgulino, põe dez dos seus cabras mais ajegados pra ajudar!"


"Meu rei", Virgulino se aproximou, ajoelhando-se diante do capitão. "Não se arrisque! Eu posso lutar aqui também!"


"Vosmecê acha que tô fraco, cabra? Olha o respeito! Uma mão tá arrebentada, mas ainda tenho a outra!", retrucou Severino, embainhando o facão e tocando o ombro do subalterno.


"Mas o que vou fazer, então?"


"Vosmecê e Tição, cada um toma conta de um lado da avenida, pra impedir os guardas de chegar pelas ruelas!", o Rei do Cangaço respondeu. "Manda os homens se espalharem por toda a extensão e bloquear os acessos! E põe alguns pra soprar chifre, pra modo de chamar os nossos que ainda estão perdidos por aí."


"Sim, capitão!", Virgulino se ergueu, bateu continência e correu para repassar as ordens.


Vendo a tropa inimiga atravessar a praça, Severino Barriga D'Água sacou o facão e aguardou.

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A tropa dos coronéis passava naquele instante pelo centro da praça. Coronel Garrancho percebeu as pilhas de pedras e rachaduras imensas que cortavam o solo. "Houve conflito aqui", murmurou, então voltou-se para a avenida leste, onde um objeto grande parecia queimar intensamente apesar da chuva. Uma barricada, talvez?


"Os batedores informam que os cangaceiros estão se concentrando na avenida leste!", informou Coronel Malícia.


"Perfeito! Eu sabia que não tentariam fugir pelo norte. O mar não é confiável quando tem tempestade!", Garrancho comemorou. "Com meus homens cercando-os no portão, vamos prensar os malditos e acabar com a raça deles!"


"Hoje morre o Rei do Cangaço! Minha tropa vai encarar os desgraçados de frente!", informou Malícia. "Samuel, leva seus homens pras ruas secundárias!"

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"Abram os portões, seus inúteis!", Petrúquio Fragoso ordenou aos capangas que encontrara pelo caminho, depois parou para descansar. Correra por toda a avenida, e os ferimentos da luta na praça ainda doíam. Só podia imaginar o que teria acontecido se suas mágicas não tivessem reduzido a força dos golpes.


Obedecendo-o, os cangaceiros removeram a barra e escancararam os portões, abrindo a passagem para o leste da cidade.


Subitamente, uma pequena tropa de guardas avançou da periferia. Usavam o uniforme marrom de Santa Rita. Com facões e sabres nas mãos, atacaram os bandidos com ferocidade. "Tomem os portões! Não deixem que ninguém passe!", gritou o comandante.


"É uma armadilha!", surpreendeu-se Fragoso, evocando seu redemoinho de pedregulhos a tempo de bloquear um golpe de sabre. Furioso, fez então o chão se partir numa onda de devastação à frente, engolindo seu atacante e quem mais, aliado ou inimigo, se encontrasse no caminho.


"É o maculado, Petrúquio Fragoso! Matem o desgraçado!", ordenou o comandante dos guardas.


Embora os inimigos superassem seus capangas em três para um, Fragoso não recuou. "Venham, desgraçados! Vou matar todos vocês!", urrou. Passando os dedos em seu colar, fez uma mandíbula de pedra se erguer na retaguarda da tropa adversária e engolir o comandante e outros guardas próximos. "Seu sangue vai pagar minha dívida com o capeta!"


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"Passem pelo boitatá!", gritou a Coronel Malícia.


A cobra incandescente avançou, atropelando vários guardas, agarrou um nas mandíbulas e o arremessou longe. A cauda da fera oscilava de um lado para o outro, golpeando quem se aproximasse.


Enfrentar o monstro parecia impossível. Os golpes de facão resvalavam nas escamas, raramente penetrando-as, e as chamas que envolviam a criatura ofuscavam e queimavam quem se aproximasse. Felizmente, a chuva impedia que o fogo se transformasse numa conflagração.


O réptil nunca ficava muito tempo num só lugar. Movia-se conforme as tropas tentavam contorná-la para invadir a avenida. Alguns guardas conseguiam passar por ela, mas eram rapidamente interceptados e sobrepujados pelos cangaceiros que aguardavam logo atrás.


Um dos cangaceiros se destacava dos demais, movendo-se como um raio, com cambalhotas, saltos e giros, e decapitando e degolando guardas com golpes precisos. Surgia, desferia um golpe letal, então desaparecia, ofuscado pelo brilho da cobra. Era como um demônio, com chifres e olhos incandescentes.


"Severino!", Malícia murmurou, reconhecendo-o. Os guardas tombavam num ritmo alarmante, mas a coronel mantinha a pressão contra os cangaceiros. Se Garrancho conseguisse entrar na avenida pelas ruas secundárias, as tropas cercariam o Rei do Cangaço e dariam fim a seu reinado.


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"Começou!", Mara'iza sussurrou ao perceber, apesar da chuva intensa, sinais da batalha nas proximidades. Voltou-se aos Meneses, avisando: "Os coronéis chegaram!"


"Temos que alcançar a tropa de Garrancho e Malícia", disse André Meneses, se aproximando da magista. "Só assim estaremos em segurança."


Mara'iza olhou para o Coronel Meneses, já desacordado, e para as crianças e mulheres indefesas. "Num grupo grande desses, chamaremos muita atenção! Não se arrisquem, fiquem aqui, trarei ajuda!"


"Eu vou com você", insistiu André.


"Eu não preciso de sua proteção, sou uma magista!", Mara'iza o encarou, insistindo, "E seu dever é ficar aqui e proteger sua família!"


André Meneses aquiesceu e, empunhando a adaga emprestada, assumiu a vigília à porta.


Mara tomou fôlego e correu para fora, expondo-se novamente à tempestade.

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Escuridão. Não conseguia respirar direito, pois o ar se misturava a lama. Enclausurado por rocha sob um peso esmagador, mal conseguia se mexer.


Naquela situação desesperada, uma antiga oração veio à mente.

Ó Pai Santo, Divino Pai

A ti, proponho uma aliança.

Ao mundo, levarei esperança.

Prometo ajudar os carecidos

E lutar pelos combalidos

Até minha morte chegar.

E quando em tua casa eu entrar,

Prometa-me, meu Padim,

Que, como santo, receberás a mim.

Entregar-se à morte seria fácil. A sobrevivência parecia impossível. "Eu não vou morrer aqui!", pensou, negando-se a desistir. Tomado por um ímpeto transcendente, negou-se a sentir dor e cansaço, nada mais sentiu além da força que tomava que seu corpo.


Firmou os pés, apesar da lama deslizante, lutou contra o peso avassalador sobre suas costas. Ergueu-se lenta e inexoravelmente, e o solo acima cedeu, deslizando para longe as pedras que o sepultavam. Levou então a mão ao alto, brotando-a do chão e expondo-a à chuva.


"Tá me ouvindo, Padim? Decidi que não vou morrer aqui!", Zé Calabros gritou ao se puxar para fora do túmulo rochoso. Arrastou-se na lama, parou para recuperar o fôlego e, abrindo os olhos, viu as luzes no limiar da praça. A batalha estava em andamento.


Ele se ergueu então, sangrento, enlameado e ferido, mas ainda com força nos braços e pernas, e isso bastava. Cerrou os punhos e bradou aos céus: "Morte matada ou morte morrida, não importa! Enquanto eu tiver promessa a cumprir, nada vai me parar, seja homem, deus ou a própria morte!".

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Guardas cruzavam as ruas paralelas à avenida, procurando meios de invadi-la. A maioria deles usava o uniforme marrom de Santa Rita, mas eram reforçados por homens de Curva do Vento, trajados em uniformes azuis.


As ruelas de acesso à avenida, porém, eram estreitas, mal permitindo a passagem de uma carroça. Os bandidos bloqueavam ou afunilavam a passagem com quaisquer coisas que tivessem à disposição. A chuva, que forçava o combate corpo-a-corpo, desta vez dava vantagem aos malfeitores.


"Espalhem-se!", mandou o Coronel Garrancho, "Dividam-se entre as ruas de acesso, eles não têm como defender todas as passagens!". Com a tipóia no braço, não podia fazer muito além de coordenar os esforços, então manteve-se na retaguarda, buscando um ponto fraco nas defesas inimigas.


Foi quando ouviu uma voz inesperada, vinda de trás. "Encontrei suncê, traidor!"


Antes que se virasse, Garrancho foi atingido por um impacto repentino nas costas, que jogou-o à frente e o fez cair, aturdido.


"Até pensei em matá suncê ali mesmo quando te vi da muralha, Garrancho", disse Velho Tição, emergindo das sombras. "Mas não era a hora, eu precisava saí vivo pra avisá Severino."


O coronel, gemendo, tentava se levantar, mas sentia a força das pernas ser roubada, como que sob efeito de alguma mandinga. "Você é o eremita Cafuzo Tição, não é? Por que está seguindo Severino?"


Os guardas correram para ajudar Garrancho. "Protejam o coronel!", gritou um. Alguns o ajudaram a se levantar, outros avançaram contra o velho.


Tição bateu o cajado retorcido contra o solo, e todos os guardas que vinham atacá-lo foram derrubados por uma força invisível. "Suncê qué sabê por causa de quê procurei Severino? Pra vingar minha fia, que morreu por culpa d'ocê!"


"Sua filha? Nunca matei nenhuma mulher senão por ordens de Severino!", Garrancho retrucou. A mandinga que roubava-lhe as forças o impedia de ficar em pé sem a ajuda de seus homens.


"Suncê não se alembra de minha Mariazinha, então?", Tição questionou com ódio no olhar. Apontou o cajado para o coronel, e uma massa negra de ratos vorazes surgiu das sombras atrás dele, espalhando-se sobre os guardas caídos.


Garrancho arregalou os olhos, assustado e incrédulo. "Maria Formosa... Ela era sua filha?"

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Mara'iza corria pelas ruas escuras e labirínticas, tentando se lembrar por qual caminho viera. Precisava voltar à praça, mas não conhecia a cidade. Evitava a batalha sem se distanciar demais, circundando o conflito na esperança de chegar à retaguarda da tropa dos coronéis.


A população tinha se recolhido às casas, e a viela estava vazia, embora guardas e bandidos estivessem se confrontando numa rua paralela. Ouviram-se apitos dos guardas e cornetas dos bandidos. A tempestade se mantinha intensa.


Mara'iza parou quando, à frente, veio de uma ruela um guarda cambaleante, trajado em azul, fugindo do conflito, ferido. "Corre, moça!", o guarda gritou ao ver Mara'iza.


Três cangaceiros vieram logo atrás, perseguindo-o. Um deles era um homem sem camisa, de cabelos longos trançados e uma comprida trança pendendo no queixo. Ele correu até o guarda, saltou e, girando no ar, desferiu-lhe um chute nas costas.


O guarda, jogado pelo impacto, foi derrubado. O bandido deu uma cambalhota, concluindo-a com um chute contra a cabeça do homem caído, que imediatamente perdeu a consciência.


"Céus!", murmurou Mara'iza diante da cena. Aquele bandido, que agia sem pensar nem hesitar, não era um homem qualquer.


O cangaceiro das tranças se ergueu numa acrobacia, encarando-a. "Mata a menina, se tá na rua é inimigo!", ordenou, apontando para ela, aos dois bandidos que o acompanhavam. Depois, deu as costas e se pôs a afastar.


Um dos capangas avançou sobre a moça, facão em punho. O outro apenas observou.


"Contemplem!", Mara'iza bradou, disparando uma seta cintilante contra o atacante. Derrubado pela explosão resultante, o bandido ficou gemendo no chão. O outro capanga recuou assustado.


Virgulino Cornoaldo, o cangaceiro das tranças, parou intrigado e voltou a encarar a menina. "A feiticeira!", murmurou para si.


Mara'iza não ficou para lutar. Cansada e sem disposição, fugiu para outra viela ao notar a pausa dos cangaceiros.


Virgulino puxou o capanga que restara. "Volta pra avenida e avisa Severino que achei a feiticeira! Vou descobrir onde o Coronel Meneses se enfurnou!"


"Mas, Virgulino, e se vier o sinal pra fugir?"


"Daí me viro sozinho! Faz o que mando, cabra!", respondeu irritado, largando o subalterno.


O capanga aquiesceu, correndo de volta à avenida.


Virgulino Cornoaldo então se arremeteu atrás da menina, mas não seguiu pela mesma viela. Ao invés, correu parede acima do casarão mais próximo e, numa acrobacia, agarrou a beira e se lançou para o alto. Pousando sobre o telhado, continuou a perseguição pelo topo das casas.

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A despeito de todo o esforço, Severino, Sônia Regina e os bandidos na linha de defesa recuavam, cedendo aos poucos a avenida à tropa inimiga. O portão leste ainda estava distante, mas os cangaceiros seriam eventualmente sobrepujados se a situação perdurasse.


"Capitão!", chamou um dos cangaceiros. "Temos mais um ferido! Tá cada vez mais difícil segurar esses guardas!"


"Aguenta firme, cabra, até Fragoso dar sinal!", insistiu Severino.


A cobra era uma vantagem fabulosa, mas não infalível. Um grupo de oito guardas conseguiu passar por Sônia Regina. Quatro foram abatidos pelos capangas. Os outros foram rapidamente despachados pelo facão do Rei do Cangaço.


Foi quando a voz trovejante de Petrúquio Fragoso ecoou nos ventos. "Capitão, está cumprido conforme mandado!"


"Homens, recuem ao portão!", Severino ordenou, então correu. Os capangas obedeceram sem pestanejar.


Sônia Regina permaneceu, contudo, atrasando os guardas para cobrir a fuga dos cangaceiros.

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Velho Tição avançava a passos lentos, seguido pela massa de roedores. Quando alguém tentava atacá-lo, ele tocava o cajado contra o agressor, que imediatamente era repelido por um impacto intenso ou perdia as forças e caía aturdido. Os ratos então avançavam sobre os homens derrubados.


"Protejam o coronel!", gritou um dos guardas que carregavam Garrancho para longe.


"Suncê tem sorte, mizifio", disse Tição, "Sem minha Sônia Regina, sô só um véio fraco! Se eu tivesse ela comigo agora, suncê já tava esmagado, assado e devorado!"


Um dos guardas puxou o revólver do coronel e gastou todas as balas atirando contra o preto velho. Os tiros, porém, passavam zunindo como se desviassem dele.


Foi quando veio a voz ecoante. "Capitão, está cumprido conforme mandado!"


Ouvindo o aviso, Tição parou e apontou para o coronel, gargalhando. "He he he he! Suncê tem muita sorte mesmo, mizifio, que meu tempo acabô! Mas sô paciente, e sua hora vai chegá!". Recuou então de volta às sombras e desapareceu como se engolido pela escuridão. Os ratos, sem seu mestre, se dispersaram.


Sentindo a força das pernas retornar, Garrancho dispensou a ajuda dos guardas e tomou um instante para se equilibrar em pé. "Eles estão fugindo, homens! Vamos avançar!"

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Mara'iza manteve o passo apressado mesmo após ouvir a voz arcana do magista cangaceiro. Olhando para trás e vendo que ninguém a seguira, concluiu, aliviada, que os bandidos estavam se retirando.


O alívio cessou subitamente quando Virgulino Cornoaldo veio do alto, saltando do telhado de um casarão próximo e dando uma cambalhota no ar.


Mara'iza parou bruscamente e saltou para longe, quase perdendo o equilíbrio, mas evitando que o cangaceiro de tranças a interceptasse com um chute.


Em movimentos fluidos e acrobáticos, ele pousou diante dela, rolou pelo chão para atenuar a queda e se levantou de imediato. "Cadê o Coronel Meneses?", encarou-a, mexendo os ombros e pernas como se ouvisse um ritmo musical lento e repetitivo.


Mara'iza recuou um passo e estendeu o braço à frente. "Pensei que vocês, cães, já estavam fugindo com o rabo entre as pernas!", provocou, "Ainda não se cansou de latir?"


Virgulino manteve o ritmo lento de dança, movendo-se à frente conforme ela tentava se afastar. "Você fala grosso pra uma menina tão pequena, mas não tenho medo dos seus abracadabras! Você ou o Coronel Meneses, escolhe quem vou matar hoje."


Mara'iza reconhecia aquela situação. Ela estava cansada demais para feitiços complexos e precisava manter distância. Se cometesse algum descuido, como fizera com Severino, o bandido das tranças reduziria a distância e atacaria impunemente. "Eu sou sam'rai, plebeu idiota, minha honra é mais preciosa que minha vida!", respondeu, completando com um grito em voz arcana, que ecoaria por vários quarteirões: "Se quer me matar, mate logo ou vá se danar!".


A resposta irritou Virgulino, que urrou e avançou num traçado de cambalhotas e saltos, preparando um chute voador.


No calor do momento, Mara'iza não pensou nem hesitou: afastou-se num pulo e conjurou uma seta cintilante, que explodiu contra o oponente ainda no ar.


O impacto arremessou o cangaceiro para longe, mas ele caiu dando piruetas e cambalhotas e pousou em pé. Virgulino tomou um instante para se recuperar do baque, depois a fitou furioso.


Mara'iza também levou um segundo para se recompor, surpresa com sua reação instintiva. Voltou a apontar a mão para ele, então, desta vez com o sorriso arrogante no rosto. "No linguajar dos cornos: abracadabra na sua fuça, abestado!"

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Petrúquio Fragoso guardava os portões para o leste, por onde levas de cangaceiros passavam. O grupo de Severino foi um dos últimos a chegar. A tropa inimiga, atrasada pela cobra e pelas barricadas, vinha não muito atrás.


"Fecha esse portão, Fragoso!", ordenou o Rei do Cangaço, vendo os inimigos cada vez mais próximos, "Quem não passou, não passa mais! E o resto dos homens, pro rio! Peguem os barcos! A gente vai picar a mula!"


"Capitão", Petrúquio chamou-lhe a atenção, " Virgulino e Tição não passaram ainda!".


"Tição não é problema, ele consegue atravessar a muralha", Severino disse, "mas cadê o peste do Virgulino?".


Um capanga se aproximou. "Capitão, Virgulino me mandou te avisar! Ele achou a feiticeira e foi atrás dela, mas disse pra não se preocupar, que ele se vira sozinho!"


"Desgraça! Então, ele que se vire!", Severino praguejou, lembrando-se de ter ouvido brevemente a voz da feiticeira carregada pelo vento, momentos antes. "Fecha essa passagem, Fragoso!"


Petrúquio gesticulou, tocando o colar. Uma parede de rocha emergiu repentinamente do solo, preenchendo a brecha dos portões, selando a muralha e bloqueando o caminho da tropa adversária. Sob ordens, os cangaceiros seguiram para as margens do Chico Propício, o rio a leste que delimitava Bota do Judas.

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"Tá na retranca, moleca? Acha que distância é vantagem?", Virgulino questionou Mara'iza, voltando a dançar num ritmo inaudível. Sacou então um dos revólveres que levava à cintura, mas não disparou, nem sequer apontou a arma.


Mara'iza recuava a passos lentos. A arma de fogo retirava dela a vantagem da distância, e tinha poucas opções de feitiços, nenhum deles forte o suficiente para nocautear num só golpe um lutador treinado. "Pensa, Mara'iza", murmurava para si, analisando o ambiente em busca de alguma vantagem.


Ele intensificou os movimentos da dança, movendo-se em giros e cambalhotas, mas mantendo a distância. "Tá confusa? Hesitante? Isso é fraqueza, menina!". Trocava a arma entre as mãos com fluidez, conforme precisava liberar alguma mão para suas acrobacias.


Sem opções, Mara decidiu arriscar e gesticulou um feitiço. "Seu ogro idiota, você está aí?", gritou com voz arcana e lançou uma seta cintilante para o alto. O disparo voou uns trinta metros acima e explodiu iluminando a rua.


Virgulino avançou em saltos e acrobacias. "Chamando ajuda? Pois Zé Calabros tá morto!", ele disse, logo antes de desferir um chute.


Ela protegeu o rosto com os braços logo antes de ser atingida. O golpe a lançou aturdida ao chão.


Ele saltou sobre a menina, caindo com a perna esticada à frente, pronta para golpeá-la, mas uma bolha de energia envolveu Mara'iza e estourou, empurrando o cangaceiro para longe antes que a atingisse. Lançado para trás, Virgulino rodou no ar, caiu em pé, e avançou de novo.


Mara'iza levou um chute no peito enquanto tentava se levantar. Foi jogada para trás, contra uma parede, e caiu sentada.


Ele avançou num giro e desferiu um chute lateral, traçando um arco com a perna.


A menina disparou outra seta para o alto um instante antes de ter o rosto atingido pelo pé do cangaceiro. O impacto a jogou violentamente para o chão, mas a seta cintilante voou desimpedida, explodindo luminosamente no céu.


Abandonando o ritmo de dança, Virgulino Cornoaldo caminhou lentamente até ela. "Já falei que ele tá morto, Fragoso matou o desgraçado! Pena, eu queria ter corrigido meu erro. Afinal, é culpa minha vocês aparecerem aqui hoje."


Mara'iza não conseguia se levantar. A cabeça zunia. Peito e braços doíam muito. Sentia o gosto quente do sangue na boca. Não conseguia recuperar o equilíbrio.


"Vou perguntar pela última vez. Cadê o coronel?", ele apontou a revólver para ela.


"Já disse que não falarei!", ela balbuciou, enfraquecida. "Um animal como você não entende o que é honra!"


"Você acha que estou blefando?", ele perguntou. "Eu não tenho mais esse tipo de fraqueza! Vou achar o Coronel Meneses sem ajuda, então! Na vida ou na morte, estou com Severino!"


Ele puxou o gatilho sem hesitar.


A arma disparou. A bala se desviou do alvo, porém.


Virgulino sentiu uma mão agarrar seu ombro por trás e puxá-lo, fazendo-o perder a mira. Virou-se para o intruso, mas não teve tempo de desviar do punho dele. Atingido na face, o cangaceiro foi jogado longe e, para não tombar, recuou numa série de cambalhotas e piruetas.


"Carábu'ros-san!", Mara'iza exclamou, reconhecendo seu salvador.


"Vem em mim, fela-d'égua!", disse Zé Calabros, pondo-se entre Mara e o cangaceiro. "Você tá acostumado a bater em mulher, ameaçar criança e matar camponês, mas agora vai ter que brigar com cabra-macho de verdade!"


"Zé Calabros", Virgulino murmurou, então ergueu a voz. "Que bom que tá vivo, assim posso terminar o serviço! A gente tem assunto a tratar, sabe? Você me deve a vida, e sempre quis te cobrar!"


"A bandido que nem você, que não vale nem um cento, devo coisa nenhuma!", Zé afirmou, aproximando-se dele.


Virgulino voltou a dançar naquele ritmo lento, dando passadas de um lado para o outro, mas mantendo distância. "Faz muito tempo, mais de uma década! Se tenho um arrependimento na vida, foi não ter te matado quando meu rei mandou! Eu era fraco naquela época, não tive coragem de puxar o gatilho!"


Zé Calabros não se abalou. "Então foi você!"


"É minha culpa a gente ter perdido hoje!", revelou Virgulino, "Severino tinha posto tudo pra andar. Teu pai foi o primeiro coronel que a gente deu cabo. A riqueza que a gente tomou dele foi o começo! Mas daí estraguei tudo, te deixei vivo, e agora vou consertar!"


As palavras dele fizeram Zé hesitar. "Do que você tá falando, cabra da moléstia? Quem levou meu pai foram os dragões!"


"Você acha que aqueles monstros apareceram por acaso? A gente sabia que aquilo ia acontecer, tanto que chegamos lá logo depois! Não foi coincidência nem acaso, foi justiça! Severino mandou os bichos pra lá!"


"Não sei do que você tá falando, nem me interessa!", Zé Calabros urrou, sentindo o coração disparar, "Tudo o que quero é te moer na porrada!". Fechou os punhos e avançou, bradando furiosamente.


Virgulino esperou que Zé se aproximasse, então deu uma cambalhota para trás, evitando o ataque e no mesmo movimento revidando com um chute contra o queixo de Calabros, forçando-o a recuar. Tão logo pousou, o cangaceiro apontou o revólver e disparou, atingindo a barriga do adversário.


Mesmo alvejado, Zé avançou de novo em fúria cega. O bandido se esquivou para o lado, girou o corpo e traçou um chute em arco contra a nuca de Calabros. Atingido, Zé perdeu o equilíbrio e caiu na lama.


Virgulino saltou, rodopiou no ar e desceu chutando, mas Zé se jogou para o lado, evitando o ataque, e se ergueu num pulo. O cangaceiro então se afastou com giros e cambalhotas, disparando a arma duas vezes entre as acrobacias.


Para evitar os disparos, Calabros se jogou no chão, rolou e, no mesmo impulso, se levantou. "Você é rápido!", admitiu.


"E você nem consegue se mover!", Virgulino provocou, lançando-se à frente. Durante o avanço, disparou o revólver mais uma vez, atingindo o ombro de Zé, e saltou girando para desferir um chute acrobático.


"Uma montanha não se move", disse Zé. Cerrou o punho e golpeou a perna do cangaceiro antes que ela o atingisse. O embate quebrou os ossos da perna como se fossem gravetos.


Virgulino caiu gritando de dor. No chão, ainda reuniu forças, apontou a arma e disparou.


Zé se esquivou do tiro e avançou sobre o bandido. Segurou-lhe a mão que empunhava o revólver e a torceu, quebrando-lhe o pulso e fazendo-o largar a arma.


Mais uma vez o cangaceiro urrava de aflição. "Desgraçado! Maldito! Severino vai matar você!", praguejou.


"Eu não tenho medo de Severino", disse Calabros. Agarrou Virgulino pela cara, puxou-o e, girando o corpo, bateu a cabeça do cangaceiro contra uma parede próxima, que rachou com a pancada.


Mão e perna inutilizados, pressionado contra a parede e sem chance de fuga, Virgulino forçou uma risada e implorou: "Eu te deixei vivo uma vez, cabra! Você me deve a vida!"


"Você é um traste que acha que matar uma criança é sinal de força", disse Calabros, "A única coisa que te devo é uma surra!". Furioso como nunca antes, esmurrou o bandido com tanta força que o impacto abriu um buraco na alvenaria da parede atrás. Virgulino Cornoaldo, vulgo Capoeiro, tombou inerte logo após.


Mara'iza se ergueu com dificuldade e cambaleou na direção de Zé. Revelou um sorriso de alívio quando ele a fitou de volta.


Calabros estava ofegante. Com a fúria desvanecendo, sentiu a dor dos ferimentos e perdeu a força nos braços e pernas. Tentou caminhar até Mara, mas se desequilibrou e caiu.


"Ogro!", ela o chamou preocupada, apressando-se para ampará-lo. "Você está bem?"


"Preocupe-se não, Malinha. Eu não vou morrer aqui!", ele sorriu. Então, desmaiou ali mesmo, numa poça de sangue sob a chuva intensa.

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O Chico Propício estava turbulento devido à tempestade, mas ainda assim uma opção melhor do que navegar no mar. Naquele trecho, próximo ao oceano, a largura do rio era de cerca de dois quilômetros, e tudo o que se podia ver da pequena vila na margem oposta eram algumas luzes. Sem uma ponte para extensão tão vasta, os cangaceiros tomaram todos os barcos que puderam, desde pequenos pesqueiros às balsas de transporte. Muitos já se adiantavam e faziam a travessia.


A balsa de Severino, porém, ainda aguardava aportada. Velho Tição chegara há alguns minutos, trazido por Sônia Regina. A cobra estava levemente ferida. Uns poucos cortes de facão e perfurações à bala conseguiram transpor suas escamas, mas nada grave.


"Algum sinal de Virgulino, Velho Tição?", questionou o Rei do Cangaço.


Tição, apoiado no cajado, retrucou. "Não tem como sabê, mizifio. A chuva atrapaia meus zóio."


"Capitão", interferiu Petrúquio Fragoso, "Temos que partir. As tropas dos coronéis já devem estar derrubando minha barreira, ou dando a volta pela periferia. Quem ficou para trás vai ter que se virar por conta própria."


"Homens!", Severino urrou, "vamos embora daqui, mas não pensem que fomos derrotados! Não sobrou nada da guarda de Bota do Judas, e o Coronel Meneses tá na porta da morte. Quando a gente voltar, vai acabar o serviço! Cês tão comigo?".


"Vida e morte, Severino!", urraram os homens. Correram então para suas posições, preparando a partida da balsa. Com o vento tão forte, precisariam remar.


"Sônia Regina, protege o barco", pediu Tição. A cobra se lançou na água e passou a acompanhar a balsa.


Severino fitou a mão ferida, depois se voltou a Tição e Petrúquio. "Hoje muita coisa causou nossa derrota. A tempestade nos atrapalhou. Não esperávamos o ataque surpresa de Garrancho. Mas nada disso era suficiente pra nos bater. Duas pessoas! Duas pessoas venceram a gente!"


"Zé Calabros e a feiticeira", disse Tição.


"Sim. O nome dela é Azumi Mariza, acho", Severino murmurou. "Velho Tição, quero saber se os dois estão vivos. Descobre pra mim, tão logo puder."


"Eu enterrei o Zé Calabros, capitão", Petrúquio Fragoso interrompeu. "Mesmo que sobrevivesse ao peso das rochas, ele ia sufocar."


"Cala a boca, traste!", ordenou Severino. "Já vi de tudo nesse mundo, até sujeito que é tão burro ou teimoso que não consegue nem morrer! Anotem aí o que vou falar: se esses filhos desgraçados duma quenga ainda estiverem vivos, não descanso até matar os dois! Ou não me chamo Severino Barriga D'Água!"


Os presentes ficaram em silêncio. A tempestade continuou intensa. A balsa seguiu viagem, guiada pelas luzes da vila na margem oposta.

A seguir: Jornada para a grandeza

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Zé Calabros na Terra dos Cornos
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As Crônicas Anímicas

© 2016 Tiago Moreira