Prévia: Capítulo 9


Para os mais ansiosos, desvelamos a prévia do Capítulo 9: Jornada para a grandeza! Estamos ainda no segundo ato do livro. O clímax pode ter sido no capítulo anterior, mas algo muito mais importante está por vir: propósito. Este capítulo e os próximos lida com respostas.


A batalha por Bota do Judas acabou. Tanto coronéis como cangaceiros precisam de um tempo para lamber as feridas, mas a trégua não há de perdurar.


Nesse breve período de paz, Zé Calabros está inconsciente devido aos ferimentos. Sua mente retorna ao passado, relembrando uma importante lição. Mara'iza, ao contrário, aproveita esse tempo para pensar no futuro.



O dia amanheceu nublado sobre a pequena Vila Judiana. Com a tempestade sobre a Baía em fase de expansão, o litoral de toda a Cornália seria turbulento pelos próximos dias. Porém, o mar revolto e as chuvas vindouras não eram as maiores das preocupações dos habitantes.


Dias atrás, os cangaceiros vieram do leste e fizeram da vila sua base para o ataque contra Bota do Judas. Os bandidos confiscaram os barcos e balsas, impedindo a pesca e o comércio pelo rio. Tomaram também os estoques, o gado e as plantações para suprir a tropa. Quando a maioria dos bandidos partiu para Bota do Judas, os habitantes ficaram aliviados, apesar dos capatazes deixados no vilarejo.


Porém, na noite passada, Severino Barriga D'Água e seus homens retornaram em derrota e com ânimos acirrados, deixando os aldeões temerosos. Mais uma vez, Vila Judiana estava à mercê de malfeitores.



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Velho Tição bateu ervas, larvas e seu próprio cuspe num pilão, criando um unguento esverdeado. "Tá pronto, mizifio, me dá sua mão."


Severino Barriga D'Água, sentado sobre a cama confiscada, desenfaixou a mão ferida e a estendeu adiante. "Em quanto tempo isso vai fazer efeito?", perguntou.


"Logo, logo, mizifio, não se avexe", disse o preto velho, aplicando o unguento sobre os ferimentos da mão do capitão. "Suncê não carece de se preocupar, que minhas reza é brava, e os espírito me favorece. Nesse bálsamo tem vida pura, vô passá na sua mão ferida."


Severino mexeu os dedos da mão, fechando-a e abrindo-a repetidamente. A princípio, os movimentos eram dolorosos e difíceis, mas logo se normalizaram. O Rei do Cangaço sorriu satisfeito diante da recuperação milagrosa. "E quanto ao que te pedi, Velho Tição?"


"Ainda não achei eles, mizifio, nem o Zé Calabros, nem a feiticeira. Mandei meus zóio procurá, mas nenhum voltou ainda", respondeu. "Ia sê bom mandá uns hôme pra cidade também. Num lugar daquele tamanhão, pode sê mais fácil ouví a fofoca no mercado do que achá uma pessoa na multidão."


"Vosmecê tá certo, Tição, vou deixar uns homens contigo pra te ajudar", concordou Severino, que então se levantou e pôs o chapéu. "Encontra a feiticeira, o Calabros e os coronéis. Descobre o que estão fazendo e atrapalha como puder. Mas tome cuidado, não se ponha em perigo e me informe de tudo que acontecer."


"Sim, senhô, capitão!"


O Rei do Cangaço abriu a janela e levou a mão recém-curada à frente, sentindo as gotas de chuva "Sou cabra do sertão, nasci e cresci na caatinga. Esse tempo chuvoso não é de meu gosto, não. Vou pegar a tropa e voltar pra São Vatapá. Com os coronéis se ajuntando, a gente vai precisar de mais armas e mais homens."



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Mara'iza despertou confusa e se viu num quarto desconhecido. Estava nua sob os lençóis, e a familiaridade da situação, como quando despertara em Curva do Vento dias antes, só a deixou mais desorientada. Esforçou-se para levantar, incomodada pelo braço esquerdo ferido e pelas pernas doloridas de tanto correr.


Enrolada nos lençóis, Mara'iza analisou o ambiente e tentou ordenar os pensamentos. Já era dia e chovia fraco lá fora. Alguém aplicara curativos alquímicos aos ferimentos do braço. Um armário à frente estava aberto, cheio de roupas femininas. Sobre o criado-mudo, viu sua bolsa, grimório e adaga. Num espelho na parede, seu reflexo revelou a face esquerda contundida.


Das memórias da noite anterior, lembrava-se de arrastar Zé Calabros e sentá-lo para evitar que sufocasse na lama. Depois buscara ajuda, sendo reconhecida por guardas de Santa Rita. Levara-os a Calabros e ao Coronel Meneses, mas não se lembrava de nada após. Provavelmente, cedera à exaustão.


Mara'iza caminhou até o armário, onde procurou por uma roupa que lhe servisse. Contentou-se com um vestidinho vermelho, de tecido leve, mangas curtas e sem decote. Depois, pegou suas coisas sobre o criado-mudo e decidiu se aventurar fora do quarto.



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"Vovó! Vovó! Ela acordou!"


Mara'iza se assustou com os gritos eufóricos da menininha, que esperava logo além da porta. Desconcertada, a magista tentou inutilmente acalmar a criança, mas os chamados logo atraíram mais pessoas.


Primeiro vieram correndo outras três crianças: uma mocinha um pouco mais velha e dois meninos. Eram os netos do Coronel Meneses, que Mara'iza salvara no dia anterior. Sorridentes e vibrantes, as crianças lançavam elogios para "a feiticeira" e inundaram-na de perguntas sobre magia.


Acuada e atônita, Mara nem conseguia falar sem ser interrompida por questionamentos. Para sua sorte, logo apareceu uma senhora de cabelos grisalhos e rugas na face, mas ainda bela e vigorosa.


"Calma, crianças! Deixem a moça respirar!", a dona pediu. Assim que conseguiu acalmar os jovenzinhos, voltou-se à magista, sorrindo gentil e emocionadamente. "Bom dia, minha amiga, sou Maria das Graças, esposa do Coronel Meneses, mas pode me chamar de Dona Graça. Você salvou a todos nós, e seremos gratos pela vida toda!"


"Apenas cumpri meu dever, como sam'rai e magista! Eu sou Mara'iza, da família Atsumi", ela se apresentou, curvando-se gentilmente. Apesar das palavras modestas, não conseguia esconder o sorriso orgulhoso.


As crianças tentaram bombardeá-la de perguntas e pedidos de demonstrações mágicas, mas Maria das Graças as interrompeu, pedindo calma. "Perdoe a empolgação das crianças, mas você se tornou a heroína delas, e não é comum vermos gente com seus talentos por estas bandas! Preparamos um farto café da manhã para seu desjejum, e depois você pode tomar um banho e relaxar como nossa convidada."


Mara ainda não sentiria fome por mais um dia, mas certamente tinha vontade de degustar algo, e poderia aproveitar para renovar o feitiço de nutrição. "Fico agradecida", ela sorriu, porém logo assumiu uma postura mais séria, "mas primeiro preciso saber notícias de meu amigo, Tsé Carábu'ros. Ele está aqui? Está bem?".


"Ele está nos quartos inferiores, destinados aos empregados", disse Dona Graça. "Infelizmente, não tínhamos mais quartos livres no andar superior."



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Dona Graça conduziu Mara'iza e as crianças pela casa-grande. A propriedade fora danificada e revirada pelos cangaceiros na noite anterior, e os empregados se esforçavam em arrumá-la.


Passaram brevemente pela sala de jantar parcialmente destruída, seguiram pela cozinha e chegaram ao corredor das dependências de empregados. Dona Graça abriu a porta do quarto, segurou ali as crianças e indicou que Mara entrasse.


Mara'iza suspirou ao ver Zé inconsciente na cama. Ele tinha curativos alquímicos aplicados na barriga e ombro. Tratamento mais mundano foi administrado aos cortes espalhados pelo corpo e aos punhos esfolados. "Ele vai ficar bem?", questionou.


"O socorrista disse que sim", uma voz masculina veio da porta do cômodo. André Meneses, filho mais velho do Coronel, adentrou e cavalheiramente cumprimentou Mara'iza. "Uma bala resvalou na clavícula sem causar fratura, e a outra atingiu a barriga, mas não penetrou fundo e foi fácil de ser retirada. Parece até milagre! Ou esse Zé Calabros é duro feito pedra, ou tem uma sorte da moléstia!"


"Vamos deixá-lo descansar", disse Dona Graça. "Tenho certeza de que acordará em breve! Venha tomar seu desjejum!"


Mara'iza concordou, mas antes de sair ouviu Zé murmurar durante o sono: "Svar?". Ela parou para observá-lo mais um pouco e percebeu que ele dormia inquieto. Mara se encheu de curiosidade. Quem seria Svar? Com o que Zé estaria sonhando? Seriam desejos? Medos? Memórias?


Livro Atual
Zé Calabros na Terra dos Cornos
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As Crônicas Anímicas

© 2016 Tiago Moreira