Capítulo 9: Jornada para a grandeza

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O dia amanheceu nublado sobre a pequena Vila Judiana. Com a tempestade sobre a Baía em fase de expansão, o litoral de toda a Cornália seria turbulento pelos próximos dias. Porém, o mar revolto e as chuvas vindouras não eram as maiores das preocupações dos habitantes.


Dias atrás, os cangaceiros vieram do leste e fizeram da vila sua base para o ataque contra Bota do Judas. Os bandidos confiscaram os barcos e balsas, impedindo a pesca e o comércio pelo rio. Tomaram também os estoques, o gado e as plantações para suprir a tropa. Quando a maioria dos bandidos partiu para Bota do Judas, os habitantes ficaram aliviados, apesar dos capatazes deixados no vilarejo.


Porém, na noite passada, Severino Barriga D'Água e seus homens retornaram em derrota e com ânimos acirrados, deixando os aldeões temerosos. Mais uma vez, Vila Judiana estava à mercê de malfeitores.



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Velho Tição bateu ervas, larvas e seu próprio cuspe num pilão, criando um unguento esverdeado. "Tá pronto, mizifio, me dá sua mão."


Severino Barriga D'Água, sentado sobre a cama confiscada, desenfaixou a mão ferida e a estendeu adiante. "Em quanto tempo isso vai fazer efeito?", perguntou.


"Logo, logo, mizifio, não se avexe", disse o preto velho, aplicando o unguento sobre os ferimentos da mão do capitão. "Suncê não carece de se preocupar, que minhas reza é brava, e os espírito me favorece. Nesse bálsamo tem vida pura, vô passá na sua mão ferida."


Severino mexeu os dedos da mão, fechando-a e abrindo-a repetidamente. A princípio, os movimentos eram dolorosos e difíceis, mas logo se normalizaram. O Rei do Cangaço sorriu satisfeito diante da recuperação milagrosa. "E quanto ao que te pedi, Velho Tição?"


"Ainda não achei eles, mizifio, nem o Zé Calabros, nem a feiticeira. Mandei meus zóio procurá, mas nenhum voltou ainda", respondeu. "Ia sê bom mandá uns hôme pra cidade também. Num lugar daquele tamanhão, pode sê mais fácil ouví a fofoca no mercado do que achá uma pessoa na multidão."


"Vosmecê tá certo, Tição, vou deixar uns homens contigo pra te ajudar", concordou Severino, que então se levantou e pôs o chapéu. "Encontra a feiticeira, o Calabros e os coronéis. Descobre o que estão fazendo e atrapalha como puder. Mas tome cuidado, não se ponha em perigo e me informe de tudo que acontecer."


"Sim, senhô, capitão!"


O Rei do Cangaço abriu a janela e levou a mão recém-curada à frente, sentindo as gotas de chuva "Sou cabra do sertão, nasci e cresci na caatinga. Esse tempo chuvoso não é de meu gosto, não. Vou pegar a tropa e voltar pra São Vatapá. Com os coronéis se ajuntando, a gente vai precisar de mais armas e mais homens."



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Mara'iza despertou confusa e se viu num quarto desconhecido. Estava nua sob os lençóis, e a familiaridade da situação, como quando despertara em Curva do Vento dias antes, só a deixou mais desorientada. Esforçou-se para levantar, incomodada pelo braço esquerdo ferido e pelas pernas doloridas de tanto correr.


Enrolada nos lençóis, Mara'iza analisou o ambiente e tentou ordenar os pensamentos. Já era dia e chovia fraco lá fora. Alguém aplicara curativos alquímicos aos ferimentos do braço. Um armário à frente estava aberto, cheio de roupas femininas. Sobre o criado-mudo, viu sua bolsa, grimório e adaga. Num espelho na parede, seu reflexo revelou a face esquerda contundida.


Das memórias da noite anterior, lembrava-se de arrastar Zé Calabros e sentá-lo para evitar que sufocasse na lama. Depois buscara ajuda, sendo reconhecida por guardas de Santa Rita. Levara-os a Calabros e ao Coronel Meneses, mas não se lembrava de nada após. Provavelmente, cedera à exaustão.


Mara'iza caminhou até o armário, onde procurou por uma roupa que lhe servisse. Contentou-se com um vestidinho vermelho, de tecido leve, mangas curtas e sem decote. Depois, pegou suas coisas sobre o criado-mudo e decidiu se aventurar fora do quarto.



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"Vovó! Vovó! Ela acordou!"


Mara'iza se assustou com os gritos eufóricos da menininha, que esperava logo além da porta. Desconcertada, a magista tentou inutilmente acalmar a criança, mas os chamados logo atraíram mais pessoas.


Primeiro vieram correndo outras três crianças: uma mocinha um pouco mais velha e dois meninos. Eram os netos do Coronel Meneses, que Mara'iza salvara no dia anterior. Sorridentes e vibrantes, as crianças lançavam elogios para "a feiticeira" e inundaram-na de perguntas sobre magia.


Acuada e atônita, Mara nem conseguia falar sem ser interrompida por questionamentos. Para sua sorte, logo apareceu uma senhora de cabelos grisalhos e rugas na face, mas ainda bela e vigorosa.


"Calma, crianças! Deixem a moça respirar!", a dona pediu. Assim que conseguiu acalmar os jovenzinhos, voltou-se à magista, sorrindo gentil e emocionadamente. "Bom dia, minha amiga, sou Maria das Graças, esposa do Coronel Meneses, mas pode me chamar de Dona Graça. Você salvou a todos nós, e seremos gratos pela vida toda!"


"Apenas cumpri meu dever, como sam'rai e magista! Eu sou Mara'iza, da família Atsumi", ela se apresentou, curvando-se gentilmente. Apesar das palavras modestas, não conseguia esconder o sorriso orgulhoso.


As crianças tentaram bombardeá-la de perguntas e pedidos de demonstrações mágicas, mas Maria das Graças as interrompeu, pedindo calma. "Perdoe a empolgação das crianças, mas você se tornou a heroína delas, e não é comum vermos gente com seus talentos por estas bandas! Preparamos um farto café da manhã para seu desjejum, e depois você pode tomar um banho e relaxar como nossa convidada."


Mara ainda não sentiria fome por mais um dia, mas certamente tinha vontade de degustar algo, e poderia aproveitar para renovar o feitiço de nutrição. "Fico agradecida", ela sorriu, porém logo assumiu uma postura mais séria, "mas primeiro preciso saber notícias de meu amigo, Tsé Carábu'ros. Ele está aqui? Está bem?".


"Ele está nos quartos inferiores, destinados aos empregados", disse Dona Graça. "Infelizmente, não tínhamos mais quartos livres no andar superior."



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Dona Graça conduziu Mara'iza e as crianças pela casa-grande. A propriedade fora danificada e revirada pelos cangaceiros na noite anterior, e os empregados se esforçavam em arrumá-la.


Passaram brevemente pela sala de jantar parcialmente destruída, seguiram pela cozinha e chegaram ao corredor das dependências de empregados. Dona Graça abriu a porta do quarto, segurou ali as crianças e indicou que Mara entrasse.


Mara'iza suspirou ao ver Zé inconsciente na cama. Ele tinha curativos alquímicos aplicados na barriga e ombro. Tratamento mais mundano foi administrado aos cortes espalhados pelo corpo e aos punhos esfolados. "Ele vai ficar bem?", questionou.


"O socorrista disse que sim", uma voz masculina veio da porta do cômodo. André Meneses, filho mais velho do Coronel, adentrou e cavalheiramente cumprimentou Mara'iza. "Uma bala resvalou na clavícula sem causar fratura, e a outra atingiu a barriga, mas não penetrou fundo e foi fácil de ser retirada. Parece até milagre! Ou esse Zé Calabros é duro feito pedra, ou tem uma sorte da moléstia!"


"Vamos deixá-lo descansar", disse Dona Graça. "Tenho certeza de que acordará em breve! Venha tomar seu desjejum!"


Mara'iza concordou, mas antes de sair ouviu Zé murmurar durante o sono: "Svar?". Ela parou para observá-lo mais um pouco e percebeu que ele dormia inquieto. Mara se encheu de curiosidade. Quem seria Svar? Com o que Zé estaria sonhando? Seriam desejos? Medos? Memórias?



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Nove anos atrás...


Nos planaltos ermos de Vol'kor, o silêncio da noite era quebrado pelo farfalhar da relva ao vento e o canto dos grilos. A lua crescente era apenas um fio de luz entre a vastidão de estrelas acima.


Brunnhardt permanecia imóvel em pé, voltado para a vastidão a leste. Vendo-o pelas costas, o jovem Zeca não tinha certeza se o anão estava vigilante ou dormente. Preferiu então se aproximar do companheiro gigante, que observava as estrelas deitado sobre a relva. "Svar?", o menino chamou.


"O que deseja, jovem Calabros?", o gigante questionou numa voz sonolenta.


"Quando vocês vão começar a me ensinar?"


"Começar?", Svar estranhou.


"A ser forte como um gigante e resistente como um anão!", disse o menino. "Vocês prometeram me ensinar!"


"Gahahaha!", Svar riu. "Seu treinamento já começou! Ou você não percebeu?"


"Tu deverias prestar atenção em nós, menino!", Brunnhardt se revelou desperto, virando-se aos dois e encarando o menino com aqueles olhos vermelhos e brilhantes. "Não nos viste matar dragões? Não aprendeste nada?"


"Claro que aprendi, mas cansei de só olhar! Quero ser útil também!"


"Tu não tens como te fazer útil a nós nesta viagem, garoto!", esbravejou o anão. "Lembra-te de nosso pacto: tu não te exporás a perigo algum, e em retorno ensinar-te-emos! Teu treinamento, por enquanto, é observar. Aguarda o fim da viagem, aí trataremos de pôr-te à prova!"


Zeca se calou, desanimado pela resposta, e o anão se pôs de costas novamente para vigiar o longínquo horizonte.


Svar, notando a tristeza do menino, sentou-se e apontou para o norte. "Jovem Calabros, vê aquela montanha?"


O menino forçou a vista na direção indicada, mas mal conseguia discernir a silhueta da vasta cadeia montanhosa. "Não consigo ver nada! Tá muito escuro!"


"Ah, às vezes me esqueço que vocês humanos não têm uma visão tão apurada quanto nós gigantes", Svar desabafou.


Brunnhardt, ainda de costas, aproveitou para se jactar: "E nós, anões, temos uma visão ainda mais abençoada, capaz de enxergar perfeitamente mesmo nas profundezas mais escuras da terra!"


"Claro, anões são como ratos!", Svar gazeteou, "Seres pequenos e peludos que se refugiam em buracos! Gahahaha!"


"Ora, seu maldito espichado!", reclamou Brunnhardt, virando-se para Svar e sacando seu machado, "Tua sorte é estarmos em terreno inimigo! Quando deixarmos esta terra maldita, descontarei em ti todas as ofensas com as quais me desonraste!"


"Gahahaha, anões não sabem brincar!", provocou o gigante.


"E gigantes são uns tolos que nada levam a sério!", retrucou o anão, guardando a arma.


Zeca se intrometeu antes que as provocações continuassem. "Mas porque apontou a montanha, Svar?"


"Bem, meu jovem, você já escalou uma montanha?"


"Não", respondeu.


"Em seu estado atual, talvez um pequeno morro ou uma árvore você seja capaz de desafiar. Já uma montanha? Uma montanha não se move, mas o matará se for desafiada. Aquela ali no horizonte, então, poderia parecer-lhe um desafio impossível! Ser mais forte, jovem Calabros, é como escalar montanhas!"


"Como assim? Não entendo!"


"A princípio, tudo o que você pode fazer é observar a montanha. Ela não sairá dali, estará sempre o aguardando. Sua primeira tarefa é observá-la, identificar seus perigos e comprometer-se a superá-los. É nesta etapa da jornada que você se encontra."


"Observar é aprender, sabedoria é o começo da grandeza", Brunnhardt ponderou. "Avalia os detalhes que importam. Considera os erros que podes cometer. Conheça a ti e a teu objetivo."


"Então vem a parte mais árdua", o gigante continuou. "Você tem que começar pequeno. Suba cem morros, cada um maior que o outro, até conseguir fazê-lo sem se cansar. Depois escale mil árvores, cada qual mais alta que a anterior. E se cair uma única vez, recomeça do zero. Continua até se tornar capaz de escalar veloz e sem dificuldades."


"Aí eu vou ser forte?", o menino questionou.


"Gahahaha, não!", riu o gigante. "Aí poderá desafiar as montanhas mais baixas! Escale-as todas, conquistando uma a uma, até um dia estar pronto para a maior delas. Aí, poderá vencer aquela montanha que vislumbrou no começo! E sabe o que acontecerá então, ali no topo?"


"Aí sim serei forte!"


"Ainda não! Ali no topo, você terá uma perspectiva que nunca tivera antes. E vai ver um mundo muito mais vasto do que imaginava, cheio de montanhas até então desconhecidas à sua espera, ainda mais altas e perigosas!"


"É uma jornada incerta e interminável, e tu podes falhar em qualquer momento", Brunnhardt acrescentou. "Um só descuido, lá na primeira árvore, pode causar uma queda fatal! Tal é o risco para todos que aspiram à grandeza!"


"Olhe para nós! Você nos acha poderosos, José do Clã Calabros?", perguntou Svar. "Pois não nascemos fortes! Venho de um clã de pedreiros!"


E Brunnhardt adicionou: "E minha linhagem é de ferreiros!".


"Pusemos nossas vidas à prova e vencemos inúmeros desafios! Você mal começou a jornada, então nos observe com atenção e aprenda conosco!"


O menino sorriu empolgado. "Vou fazer isso, sim! Mas... Svar! Brunnhardt! Quero ser mais forte que vocês! Vou fazer milagres, como os santos das histórias! Não quero só escalar a montanha mais alta, quero ir além! Meu objetivo... é alcançar o céu!"


Svar e Brunnhardt riram. "Esse é o espírito de um grande homem, garoto!", disse o anão.


"Mas palavras sem ação não passam de vento!", acrescentou o gigante. "Você terá que desafiar cinco montanhas! A primeira montanha a conquistar é a força: você vai treinar seu corpo para suportar cargas cada vez mais pesadas, até conseguir carregar o mundo nas costas!"


"A segunda é a resiliência", disse Brunnhardt. "Correrás até não saberdes mais o que é cansaço, e golpearás teu próprio corpo contra obstáculos cada vez mais duros, até te tornares mais resistente do que aço!"


"A terceira, jovem Calabros, é a celeridade. Você tem que ser rápido, então aprenda a se mover sem desperdício de esforço, e repita os movimentos infinitas vezes, até que seus músculos os executem tão instintivamente que nem precisará pensar antes de agir!"


"A quarta é a técnica, menino! Golpear e se proteger! Treinarás contra objetos, depois lutarás com os arruaceiros e fanfarrões que encontrar. Procura então adversários cada vez maiores, sejam homens, animais ou monstros, até te tornares capaz de enfrentar os deuses!"


"E qual é a última montanha?", Zeca perguntou.


"Perseverança!", disse Svar. "A verdadeira força está em seu espírito, jovem Calabros. A derrota o espera a cada passo da jornada, e quanto maior você se tornar, mais terríveis serão as consequências de seus erros. Você precisará de determinação para se reerguer!"


"E nem toda derrota será aparente!", completou Brunnhardt. "Muitos são os que sucumbem à própria força e se tornam assassinos ou tiranos. Pior ainda são aqueles que pactuam com o destino, sacrificando vontade por poder. Quanto mais forte te tornares, mais serás tentado!"


"O destino...", murmurou Zeca. "Nunca entendi o que é isso de que as pessoas tanto falam. Tem a ver com o Diabo Velho de tempos longínquos, não tem? Chamavam o rabudo de rei-destino."


"O destino é a escravidão sem correntes, o inevitável que governa até os deuses", disse Svar. "Khem, o seu 'Diabo Velho', tentou controlar o destino, mas sucumbiu à loucura. Este mundo que conhecemos hoje é obra da insanidade do rei-destino, a ruína de algo grandioso que existiu um dia."


"Mas o destino não é invencível!", o anão complementou. "Um homem forte o bastante pode desafiar o destino e realizar o impossível!"


"É por isso que quando alguém se põe na jornada para a grandeza, o destino tentará impedi-lo de todas as formas", o gigante continuou. "Você encontrará obstáculos cada vez maiores e, mesmo que os supere, nunca se esqueça: é fácil se perder do caminho. Se o destino não puder derrotá-lo, tentará corrompê-lo."


Brunnhardt se virou de costas, mais uma vez fitando a escuridão além. "Esta conversa está se tornando lúgubre demais para meu gosto. Deveríamos tratar de assuntos mais amenos."


"É!", concordou o menino. "Quando se fala no diabo, aparece o rabo!"


"Quer um tópico mais alegre?", Svar questionou, pensando por um momento. "Que tal comida e bebida? Quanta falta sinto dos prazeres de nossas terras natais, velho companheiro! Gahahaha!"


"Finalmente falou agradável, seu boquirroto!", riu Brunnhardt. "Estou sóbrio há meses! Que pecado! Quando esta aventura terminar, vou comemorar por muitas semanas, afogando-me na cerveja de Ingeborg!"


"Pois vou matar e assar um javali de Garganth!", Svar estendeu os braços para mostrar o tamanho de tal criatura. "Jovem Calabros, um dia o levaremos para conhecer nossas terras! Aí o incumbiremos de decidir qual comida, gigante ou anã, é mais saborosa!"


Zeca riu descontraidamente. Imaginava como seriam tais terras longínquas, com pessoas e animais tão descomunais!


Subitamente, porém, Brunnhardt interrompeu a conversa numa entonação grave: "Quieto, Svar!".


"Gahahaha! Está temendo que a comida anã seja rejeitada?"


"Não é hora de chistes e provocações! Levanta-te sem estardalhaço", o anão respondeu, sacando o machado e fitando a escuridão além. "E você, menino, esconda-te! Estamos em perigo!"


O gigante se levantou e fitou na mesma direção. Mesmo não tendo visão noturna tão apurada quanto a de um anão, notou uma forma massiva voar cada vez mais próxima. Um dragão, muito maior do que qualquer outro que enfrentaram na viagem. "É um adulto!", murmurou, cerrando os punhos. "Finalmente!"


"Este sim será um desafio e tanto!", sorriu Brunnhardt.


O réptil titânico desceu dos céus num rasante e, ao sobrevoá-los, urrou cuspindo fogo.



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O presente...


André Meneses e sua mãe, Dona Graça, conduziram Mara'iza de volta à sala de jantar. As quatro crianças seguiam a magista, ansiosas por verem algum de seus feitiços.


A sala de jantar era longa e grande. Na ponta oposta, havia uma pequena antessala que levava ao exterior. Foi por ali que os bandidos invadiram a casa na noite anterior, deixando a porta e o assoalho destruídos. Felizmente, os danos não se chegavam à mesa de refeições.


Mara'iza deixou sua bolsa e grimório sobre uma mesinha lateral, e já puxava uma cadeira para se sentar quando uma mulher alta e morena veio dos cômodos superiores e chamou-lhe a atenção.


"Então, esta é a feiticeira de que tanto ouvi falar! Eu sou Adelina Malícia, Coronel de Curva do Vento! Soube que passou por minha cidade!", apresentou-se, fitando Mara'iza com um olhar curioso e penetrante. Aproximou-se então da magista e a abraçou, beijando-a na bochecha.


Mara'iza recebeu o cumprimento com estranheza e desconforto. Não era afeita a ser tocada daquela maneira e acabou se afastando rapidamente sem devolver o beijo.


"A bichinha é arredia!", riu Malícia diante da reação inesperada.


"Na terra dela, não devem cumprimentar dessa maneira", observou Dona Graça.


"É mesmo, é?", Coronel Malícia pareceu surpresa. "Então você me desculpe se te ofendi, que não foi essa a intenção!"


"Não houve ofensa alguma, só estranheza", disse Mara, curvando-se gentilmente. "Sou visitante em terras estranhas, é de se esperar que eu encontre muitas diferenças exóticas. Perdão pela minha falta de jeito e de apresentação. Sou Mara'iza, da família Atsumi, da terra de Gaz'zira."


Coronel Malícia sorriu. "Olha que sou curiosa! Sente-se e tome seu desjejum enquanto a gente conversa! Quero saber mais sobre você, sobre sua terra, tudo!"


André Meneses pediu licença. "Infelizmente, preciso me ausentar. Com meu pai acamado, terei de cuidar de tudo em sua ausência. Bota do Judas está de pernas para o ar, portanto vou à cidade encontrar-me com o prefeito e os conselheiros."


"Vá lá ver o que o seu povo tá precisando", disse Adelina Malícia, sentando-se à mesa. "Mas fique sabendo que meus homens e os de Garrancho já estão mantendo a ordem nas ruas. Pelo menos com bandidos e arruaceiros cê não precisa se preocupar."


André Meneses perguntou: "E cadê o Coronel Garrancho? Não o vi ainda esta manhã."


"Foi à mata, trazer os guardas feridos do acampamento dele. Logo mais retorna."


"Precisaremos nos reunir mais tarde, tão logo meu pai esteja melhor", André comentou, depois pôs o chapéu e, antes de partir, agradeceu mais uma vez: "Muito obrigado por tudo, Adelina. E a você também, Mara'iza. Não fossem vocês, Bota do Judas estaria perdida".


Assim que André Meneses saiu, a magista se sentou à mesa, sem esconder o sorriso orgulhoso. Dona Graça serviu-lhe café quente, pão com manteiga e frutas frescas, depois pediu às crianças que não a incomodassem durante o desjejum.


Coronel Malícia puxou assunto: "Então conte-me, Mara'iza, o que tem achado da nossa Cornália?".


Antes de responder, Mara'iza tomou um gole de café quente. Tinha gostado muito daquela bebida preta, cheirosa e forte, desde que a bebera pela primeira vez em Curva do Vento. "Tenho pouco a dizer. Passei quase todo o tempo na mata ou lutando com cangaceiros. Tudo o que pude apreciar dos cornos vivendo sua rotina foi numa única manhã, em Curva do Vento."


"Só uma manhã?", Adelina Malícia ficou desapontada. "Tá certo que mesmo a minha Curva do Vento não tá nos melhores dias por causa do bloqueio comercial, mas você tinha que ter passado uma noite por lá, ora essa! Ia festar, dançar e provar nossa comida! E bonita como é, até conseguia um namorado por lá!"


Mara ficou ruborizada com o comentário. "Eu tinha pressa em partir", desconversou, tomando mais um gole de café.


"E você e Zé Calabros?", a coronel se atreveu a perguntar. "Não tem um namorico aí não?"


Mara'iza engasgou e tossiu. "Não! Claro que não!", enfatizou ao recuperar o fôlego. "Que ideia absurda é essa? Ele é meu guia, somente isso!"


A coronel e as crianças riram da reação. Dona Graça se conteve para não fazer o mesmo.


"Não deixei minha terra por romance, eu o fiz para me aprimorar!", disse Mara'iza. "Conquistarei o respeito do mundo com meu próprio mérito, sem me esconder atrás de um homem!"


"Ora essa, gostei de ti, menina! Entendo perfeitamente, oxente!", a coronel falou empolgada. "Mãinha queria me casar logo, mas o pai dizia: 'Adelina, você é mais forte que muito cabra por aí! Quando eu me for, quem vai mandar vai ser você, então não deixa nenhum vagabundo te dizer o que fazer!'".


Mara sorriu, simpatizando-se com a coronel. "Meu irmão maior queria me arranjar um casamento, mas meu futuro quem decide sou eu!"


"Oxente, moça arretada!", Coronel Malícia riu. "E esses poderes mágicos que ouvi falar? Pois agora quero ver esses feitiços!"


Aquele pedido foi o estopim para as crianças saltarem das cadeiras e correrem para perto da magista, insistindo: "Mostra, tia Mara! Mostra suas mágicas!".


Mara'iza não podia perder a chance de exibir suas habilidades para uma plateia. Não estava com o grimório em mãos, mas não precisaria de um foco arcano para fazer alguns truques básicos. "Está bem!", disse, transparecendo a arrogância no sorriso, "Mas primeiro, alguém pegue aquele utensílio ali!". Apontou então para um garfo sobre a mesa, além de seu alcance.


Prontamente, o menino mais velho correu para apanhar o garfo. Antes que fosse pego, porém, o utensílio saltou da mesa por força própria e voou para a mão da magista, que o agarrou diante dos olhares impressionados das crianças. Sob aplausos, Mara'iza fez então o garfo flutuar no ar, sobre a palma da mão, e depois o pousou gentilmente sobre a mesa.


Dona Graça, ao mesmo tempo fascinada e descrente, empolgou-se tanto quanto as crianças. A Coronel Malícia, porém, divertia-se com a façanha sem demonstrar assombro. Provavelmente, já testemunhara feitos mágicos antes.


Mara então tocou o vestido da menina mais nova e deslizou a ponta do indicador por ele. Onde o dedo passava, a roupa mudava de cor, para um azul vivo. Depois, a magista estalou os dedos, e o vestido voltou à cor original.


As crianças arregalavam os olhos e riram, pedindo mais.


Cada vez mais cheia de si, Mara se levantou da cadeira. "Vejam só isso!", anunciou e, com a ponta dos dedos, desenhou no ar, deixando rastros brilhantes de energia prateada. Os desenhos e símbolos formados gradualmente perdiam o brilho, até desaparecerem por completo.


As crianças tentavam em vão tocar nos desenhos efêmeros. Dona Graça, maravilhada, permanecia boquiaberta. Coronel Malícia manteve-se sorridente, mas nada surpresa.


Mara'iza então fez uma pausa e estendeu as mãos gentilmente à frente, explicando: "A energia mágica, mesmo em sua forma mais simples, pode ser manipulada em ilusões e imagens". Então, das palmas abertas, saltaram meia dúzia de pássaros cintilantes e silentes. As aves, simples ilusões, voaram ao redor da magista e das crianças por vários segundos antes de se dissiparem.


A platéia mais uma vez aplaudiu com empolgação.


Mas Mara queria impressionar também a Coronel Malícia. "Até agora, fiz apenas ilusões e truques dos mais simples", disse, depois concentrou-se, e o grimório surgiu num lampejo em suas mãos. "Quero mostrar algo mais impressionante, mas creio que é melhor fazê-lo lá fora."



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Dona Graça levara Mara'iza e a Coronel Malícia para o quintal dos fundos. Chuviscava bem fraco, mas a água não incomodava.


"Vovó, olha pra mim, eu tô voando!", gritava a netinha mais nova de Dona Graça. A menina parecia estar em pé em pleno ar, mas na verdade se apoiava sobre uma espécie de disco translúcido que flutuava a alguns centímetros do solo.


Dona Graça ria maravilhada, e cada criança insistia que era a vez dela subir no incrível objeto mágico. Com pouco mais de um metro de diâmetro, o disco infelizmente não era largo o bastante para que todas subissem ao mesmo tempo com segurança.


Mara'iza mantinha o disco através de concentração e, com um pensamento, podia deslocá-lo lentamente em qualquer direção. A construção mágica parecia vidro e sustentava no ar o que fosse posto sobre ela, mas era intangível por baixo ou pelas laterais. Foi com esse feitiço, Mara se recordou, que conseguira sobreviver ao mar revolto da Baía da Tempestade.


Dona Graça apontou adiante para uma palmeira alta e de folhagem ressequida. "Aquela árvore está doente, íamos derrubá-la. Você pode usá-la para sua demonstração, Mara'iza."


A magista agradeceu. Embora a manutenção do disco mágico exigisse um esforço módico, decidiu preservá-lo para manter as crianças distraídas. Então, explicou sobre a prática de magia para os presentes. "Um feitiço primeiro se forma como uma imagem na mente do conjurador. A gesticulação e as palavras mágicas ajudam a concentração, representando diversos parâmetros que são definidos e tecidos mentalmente. Através de um foco arcano, então, o conjurador materializa a imagem e a torna real."


Mara'iza apontou a mão para a árvore. "Nós somos cercados por energia arcana. É invisível e imperceptível, mas com um feitiço simples, eu posso concentrar e dar forma a ela, e até usá-la como arma!"


Então, gesticulou rapidamente, e de sua mão saltou uma seta cintilante, que voou rapidamente e atingiu o caule da árvore. A explosão prateada fez a árvore tremer, mas não causou danos notáveis.


Dona Graça aplaudiu empolgada. Coronel Malícia, embora interessada, continuou sem se impressionar. "Isso bate muito forte?", perguntou curiosa.


"É como levar um golpe de bastão", Mara elucidou. "Mas este é um feitiço simples, para usar quando eu quiser poupar minhas forças. Agora, mostrarei uma forma mais poderosa, porém mais exaustiva, do mesmo princípio."


Mara fez uma gesticulação um pouco mais intrincada, e o disparo desta vez foi uma sequência de duas lanças de energia, mais longas e brilhantes que a seta original. Ambas voaram pelo ar e atingiram o mesmo ponto do caule. Desta vez, além de tremer de alto a baixo, a árvore teve a casca seriamente danificada.


"Vixe! Agora sim você mandou bem, menina!", sorriu Coronel Malícia. "Esse aí deve doer!"


"Sim, e posso mirar as setas em alvos diferentes e até fazer pequenas correções de direção enquanto voam", explicou Mara'iza, depois tentou fingir modéstia: "Mas isso não é nada! Magistas realmente poderosos podem criar maior número de setas em uma única conjuração. Meu limite, por enquanto, é de duas."


"E porque não fazer uma única dessas, bem mais forte?", Adelina perguntou.


"Infelizmente, manter a forma do feitiço se torna mais difícil conforme se concentra mais energia, portanto é mais seguro dividir o efeito", a magista explicou, adicionando após: "Porém, posso sim criar algo mais poderoso, e esse é o próximo feitiço que vou demonstrar".


Desta vez, fez gestos ainda mais complexos e ligeiramente mais demorados. Apontou a mão à frente, e um globo de energia se formou, lançando-se adiante e deixando um rastro cintilante sutil. O orbe mágico era mais intensamente brilhante que as setas, mas não viajava tão veloz. Para surpresa de todos, não atingiu a árvore, passando ao lado dela inofensivamente e seguindo adiante.


"Você errou", disse a coronel.


"Não, é parte da demonstração! Isto é um orbe inescapável!", Mara'iza sorriu arrogante. Em seguida, gesticulou a mão, e o orbe fez uma curva no ar, traçando um arco e retornando. Desta vez, a árvore foi atingida, e a explosão intensa partiu o caule e derrubou a planta.


Adelina Malícia aplaudiu, finalmente impressionada. "Não tem muito cabra que aguenta isso não!"


Dona Graça e as crianças aplaudiram também. A eles se juntaram alguns serviçais curiosos da casa-grande, que se acumularam ao longo das demonstrações. Mara'iza, com o ego inflado, agradeceu a atenção recebida. Porém, não percebeu que vários pássaros negros também a espiavam do alto das árvores.



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"Tenho muita coisa a fazer", disse a coronel. "Mas conversaremos mais esta noite, Mara'iza."


Mara sorriu e se despediu, retornando ao quarto. Enquanto esperava pelo banho quente que Dona Graça prometera-lhe preparar, folheou o grimório, refletindo sobre seu treinamento, suas capacidades e ambições.


Quando começou a estudar magia, Mara'iza se interessou por feitiços ofensivos apenas como defesa contra bandidos e assediadores. Ouvira falar a respeito de magistas de guerra, especializados em feitiços ofensivos, e guerreiros arcanos, que treinavam artes tanto marciais como mágicas. Imaginava, contudo, que eram caminhos limitados e desinteressantes.


A noite anterior, porém, mostrara o quão difícil era conjurar sob pressão. Em adição ao esforço do feitiço, era necessário tomar decisões táticas e mover-se defensivamente. Lançar um feitiço contra uma árvore doente era completamente diferente de fazê-lo contra um oponente como Severino Barriga D'Água.


A demonstração feita pouco antes também servira para que ela refletisse sobre suas habilidades. Ao ver o estrago causado pelo orbe inescapável, a Coronel Malícia dissera que poucos resistiriam a tal ataque. Porém, tanto Mané do Cangaço como Severino Barriga D'Água foram atingidos por aquele feitiço e não só sobreviveram, como continuaram lutando.


"Precisarei treinar muito", Mara'iza murmurou em seu idioma natal. "Cada feitiço deve ser conjurado instintivamente, como um guerreiro sam'rai empunha sua espada."


Mara concluiu que, se quisesse de fato se tornar uma grande magista, não bastaria estudar. Teria de treinar muito mais, e em condições adversas. O caminho para a grandeza seria ainda mais árduo do que imaginara.



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Severino Barriga D'Água seguia para o cavalo. Adiante, a tropa já o esperava para partir. Quando viera para Bota do Judas, trouxera consigo mais de quatrocentos homens. Agora, retornaria para São Vatapá do Norte com um terço disso.


Petrúquio Fragoso já estava montado, à frente da tropa. "Não devíamos aguardar por mais dos nossos? Muitos podem ter se escondido na cidade ou escapado para a mata. Logo cruzarão o rio."


"Tô avexado, Fragoso", respondeu Severino, subindo na sela. "Os que ainda estiverem por aí conseguem voltar pra São Vatapá por conta própria. A gente tá em desvantagem numérica agora, não pode dar bobeira aqui não."


"E Mané e Virgulino? Nenhum sinal dos dois?"


"Nada até agora. O Zé Calabros disse ter dado cabo de Mané. E Virgulino foi atrás da feiticeira e não voltou. Enquanto não tiver sinal deles, a gente vai considerar os dois mortos."


Já iam partir, quando Severino viu uma revoada de pássaros pretos vir do oeste e descer para a cabana onde o Velho Tição descansava. "Os olhos de Tição voltaram", murmurou, depois voltou-se a Petrúquio: "Manda a tropa esperar. Chegou notícia."



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Velho Tição veio até a tropa, caminhando o mais rápido que podia com a ajuda do cajado. "Capitão, meus zóio voltô com muita novidade. Nóis achô Garrancho, Malícia e a feiticeira."


"Então Virgulino não deu cabo daquela grizmela", Severino concluiu.


"Virgulino tá morto, mizifio. Tava no meio dos cadáver estirado na praça da cidade", disse Tição. "E meus zóio seguiro Coroné Garrancho na mata. Tinha um acampamento lá, cheio de hôme nosso, tudo morto. Mané tava no meio, mortinho da silva."


Do alto do cavalo, Severino não escondeu a raiva. Mané estava com ele desde o começo. Conhecera-o ainda menino. Cresceram, mataram e se tornaram fortes juntos. Já Virgulino entrou no bando muito depois, mas era leal e dedicado como nenhum outro capanga. "E de Zé Calabros? Algum sinal do desgraçado?", perguntou, cheio de ódio ardente em cada palavra.


"Não, mizifio. Esse nóis não viu. Também não vimo o Coroné Meneses. Mas digo pra suncê que acho que os dois tá vivo."


"Impossível!", interrompeu Petrúquio Fragoso. "Zé Calabros está morto! Eu enterrei o maldito!"


"Suncê enterrou ele vivo, Fragoso, então ele pode tê saído vivo! Nóis viu a feiticeira, os dois coroné e a família do Meneses. Nenhum deles tava com cara de lamento. Aliás, a danada da feiticeira tava numa alegria só, toda exibida! Isso não é jeito de quem perde companheiro!"


Severino tomou um momento para pensar. "A gente vai seguir conforme o planejado, mas com uma mudança. Eu vou pra São Vatapá com a tropa. Tição fica pra vigiar e me avisa de tudo que acontecer. Mas vosmecê, Fragoso, vai ficar também."


"Ficar aqui? Se quer que eu fique, é porque quer que eu use meus poderes", Petrúquio Fragoso deduziu a intenção do capitão. "Você quer sangue, não é mesmo, capitão? Temos sua permissão para matar?"


"Quero sangue sim, Fragoso. Sangue e vingança! Não é pra se arriscar à toa, tem que ser esperto, que esses cabras não vão cair sem luta. Mas se a chance aparecer, cês têm minha permissão pra matar. E guarda as cabeças dos desgraçados, que quero mostrar pra todo mundo o que acontece com quem desafia o Rei do Cangaço!"


Dito isso, Severino ergueu o facão e deu sinal à tropa. "Vida e morte, Severino!", os cangaceiros bradaram, depois se puseram em marcha para o leste.

A seguir: A lenda do herói

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As Crônicas Anímicas

© 2016 Tiago Moreira