Prévia: Capítulo 10


Ora, mas o que é isso? Uma prévia numa quinta-feira? Pois é! Devido ao feriado, temos a prévia um dia antes. E não acaba aí: semana que vem tem feriado de novo, e o Capítulo 10: A lenda do herói sairá também um dia antes do normal!


E o que teremos nesse capítulo? Zé vai despertar. Mara conhecerá uma história deveras interessante do passado da Cornália. Os coronéis se preparam para a guerra. É passado, presente e futuro, tudo num só pacote.


O Capítulo 10 estará disponível na próxima quinta-feira, dia 20/04/17.

Nove anos atrás...


Zeca correu em busca de abrigo sob uma árvore.


O dragão sobrevoou, rugindo e vomitando fogo. O ataque não almejava Svar e Brunnhardt, mas incendiar a relva, formando uma barreira de chamas.


Diante da parede incandescente, Svar riu. "Gahahaha! Ele não quer que fujamos!"


"Bah! Que ofensa nos tratar como covardes!", esbravejou Brunnhardt ao ver o dragão dar meia-volta e retornar voando. "Venha sentir o aço de meu machado, lagarto dos infernos!"


Usando a barreira de chamas para cercar os dois guerreiros, o dragão pousou com tanta violência que fez o chão tremer.


O menino Zeca, de seu esconderijo, se abismou com o tamanho do monstro. Mesmo sobre quatro patas, era três vezes mais alto do que Brunnhardt, superando até mesmo Svar. Na escuridão, era difícil discernir a cor de suas escamas, mas os sulcos entre elas emitiam um leve brilho incandescente. Tinha um chifre sobre o focinho e protuberâncias ósseas sob a mandíbula. Da cabeça nascia uma coroa óssea, seguida por uma série de saliências e espinhos que percorriam a espinha e terminavam em quatro espigões na ponta maciça da cauda.


De asas abertas e encarando-os com os olhos chamejantes, o monstro falou numa voz cavernosa, chamas saltando-lhe da boca a cada palavra. "Vocês estão diante de Voraxadrar'threnox, pequeninos, sou apenas uma sombra diante da escuridão que está por vir. É coragem ou tolice que os traz, criaturinhas? Vieram em busca de morte ou de servidão? Seja o que for, terão seu desejo realizado!"


"Ouviu essa, Brunnhardt?", o gigante exibiu os punhos. "Ele está tentando nos intimidar! Que gracinha!"


Mas o anão, irritado, nem deu atenção. "Ele me chamou de criaturinha? De... PEQUENINO?"


A reação dos dois surpreendeu e frustrou Vorax. Após um instante de confusão, o dragão rugiu estrondosamente e avançou em fúria.


Brunnhardt ergueu o machado e investiu contra o monstro. "Eu vou mostrar quem é criaturinha, lagartixa insolente!", bradou.


Svar saiu do caminho do dragão para flanqueá-lo.


Brunnhardt saltou para desferir a machadada contra o focinho do monstro, mas Vorax desviou a cabeça, evitando o golpe. Antes que o anão pousasse, o dragão se apoiou sobre a cauda, ergueu-se sobre as patas traseiras e golpeou-o com as garras. O impacto perfurou a armadura de Brunnhardt e o jogou longe, fazendo-o cair violentamente e rolar para o incêndio que se propagava pelo campo.


O dragão então girou o corpo, jogando a cauda contra Svar. O gigante conseguiu evitar ser empalado pelos espigões da ponta, mas foi atingido pelo rabo e lançado ao chão. Vorax tentou então esmagá-lo com a ponta maciça do rabo, mas Svar rolou para longe e se levantou num pulo.


O dragão se virou para o gigante e cuspiu uma onda de fogo. Mantendo-se sempre um passo à frente das chamas, Svar correu até que a baforada se esgotasse. A relva, porém, se incendiou ainda mais, espalhando a conflagração numa nova direção.


Sob a árvore, Zeca viu o fogo se aproximar do esconderijo e teve de abandoná-lo. Correu pela relva, buscando novo abrigo, mas a fumaça tornava a tarefa cada vez mais difícil.


Vorax e Svar se encararam. "Você não tem garras ou presas, nem mesmo carrega uma arma! Você não pode sequer me machucar!", provocou o dragão.


"Se é assim, deixe que minhas mãos cheguem ao seu pescoço, monstro!"


O dragão riu, e as chamas em sua bocarra se irradiaram pelos sulcos entre as escamas, até que todo o corpo do monstro fosse delineado por fogo. Até a relva onde ele pisava se incendiava, tornando o incêndio cada vez maior e mais descontrolado.


"Por Ingeborg!", urrou Brunnhardt, que numa investida atravessou a conflagração e, saltando, se agarrou às proeminências da espinha de Vorax. Dependurado nas costas do dragão, o anão cravou o machado várias vezes, arrancando do monstro nacos de carne e escamas. "Quem é a criaturinha agora, seu desgraçado?"


Vorax urrou de dor e recolheu as asas, depois se jogou ao chão, rolando e esmagando Brunnhardt sob seu peso. Após desvencilhar-se do anão, o monstro se ergueu velozmente e, virando-se para Brunnhardt, prendeu-o ao chão sob o peso da pata dianteira.


Svar tentou atacar o dragão pelas costas, mas o monstro aproveitou para golpeá-lo com a cauda. Felizmente, o gigante reagiu com rapidez e se esquivou do rabo com sucesso.


Brunnhardt, mantido caído sob o peso do monstro, deixara escapar o machado de suas mãos. Antes que fosse mordido, sacou uma adaga oculta sob a barba e fincou-a na pata do dragão, que recuou em dor. Libertado, o anão se levantou e recuperou o machado.


Vorax, com a adaga ainda cravada na pata ferida, abriu as asas para alçar voo, mas Svar aproveitou sua desatenção para investir contra ele. O gigante passou por baixo da cauda, evitando outra rabada, agarrou-se às protuberâncias dorsais e escalou-lhe as costas. Quando o monstro começou a se erguer no ar, Svar saltou sobre uma asa, agarrando-se a ela e quebrando-a.


Vorax perdeu sustentação e caiu em pé no chão. Urrando em fúria, o dragão cravou as mandíbulas flamejantes sobre o ombro de Svar. Mesmo perfurado pelos dentes do dragão, Svar golpeou furiosamente a cabeça do monstro com a mão livre.


Com a força do longo pescoço, Vorax ergueu Svar no ar e balançou o gigante de um lado para outro, tentando dilacerá-lo com movimentos intensos. Svar agarrou-se à cabeça do monstro com força, mantendo-se firme em sua mandíbula e reduzindo os danos das sacolejadas.


Vendo o companheiro vulnerável, Brunnhardt avançou sem pensar. O dragão, porém, virou-se de repente, golpeando-o com a cauda. Os espigões perfuraram a armadura do anão, e o impacto afastou-o violentamente.


Foi quando uma pequena voz desesperada se fez ouvir em meio ao confronto. "Svar! Brunnhardt! Socorro!", gritava o menino Zeca, cercado pelas chamas que dominavam a relva.


O dragão percebeu o menino e, com um movimento intenso do pescoço, largou Svar, arremessando o gigante para a conflagração. "Essa criança humana...", murmurou o dragão, "é parte de nosso rebanho...? Não! É um presente!".


Brunnhardt atravessou o fogo e agarrou o menino, protegendo-o contra seu peito. Ergueu o machado com a mão livre, pondo a lâmina entre si e o dragão, e alertou: "Não ousa tocar neste menino! Ele ainda há de ser o flagelo desta terra!"


Vorax, a despeito de todos os ferimentos sofridos, gargalhou. "Flagelo desta terra? Vocês, com todo o seu tamanho e força, são apenas um incômodo para Vol'koragrashtedarr! Sequer me feririam se não me sobrepujassem em número! O que um humano pode fazer?"


Svar surgiu das chamas atrás do dragão. Mesmo sangrento e chamuscado, o gigante ainda tinha energias para lutar.


Após perceber o companheiro, Brunnhardt se voltou ao dragão e recitou num tom solene: "De Terra e Fogo nasceram os anões".


"E Terra e Água geraram os gigantes", disse Svar, na mesma entonação.


O anão prosseguiu: "O Ar e Água se uniram nos pequeninos. E Ar e Fogo ardem no coração dos alados".


E o gigante proferiu: "Sobre os quatro elementos reinam os dragões, sob os quatro elementos existe a criação. Quatro são os pilares que erguem o mundo. Sete são os sábios que guardam os segredos!".


"E ainda assim, todos são parte do todo. Todos são regidos pelo destino. Todos, exceto os mortais!"


"Pois o destino não os controla, não dita seus caminhos."


"Pois são eles capazes de desafiar o destino, de conquistá-lo e domá-lo e tomá-lo para si."


"Pois é deles a ambição capaz de curvar o mundo e a força de espírito capaz de restaurá-lo!"


E então, os dois proferiram numa só voz: "Eles têm mil vidas, nós temos uma! E em cada uma dessas vidas, são capazes de fazer o que não faríamos em mil!"


Vorax ouviu os versos com atenção, mas logo perdeu a paciência. Avançou furiosamente sobre Brunnhardt, sabendo que o anão não lutaria eficientemente empunhando o machado com apenas uma mão.


Brunnhardt, porém, jogou o machado por cima do dragão, para as mãos de Svar, que saltou para agarrá-lo. Em seguida, desviou-se da mordida do dragão e socou-lhe a cabeça com tanta força que atordoou o monstro. "Você não entende, não é, fera estúpida? Como os dragões, somos raças imortais!"


Com o machado em mãos, Svar circundou o dragão a uma distância cautelar. "E o destino de todo imortal... é morrer!", gritou, então arremessou a arma. A lâmina voou velozmente e, encontrando em seu caminho o pescoço do dragão, decapitou-o violentamente e seguiu seu curso à frente, desaparecendo além da conflagração.


Cabeça e corpo de Voraxadrar'threnox tombaram separados, e as chamas que revestiam-no se apagaram. O fogo no campo, porém, continuava a arder e se espalhar, erguendo colunas de fumaça aos céus.


Levando Zeca consigo, Brunnhardt arrancou a adaga da pata do dragão morto, depois correu pelas chamas na direção em que o machado voara. Svar o seguiu de perto, contando com os sentidos do anão para guiá-lo pela fumaça. O machado os aguardava logo além da conflagração, cravado ao solo em meio a uma cratera criada por seu impacto.


O anão passou o menino ao companheiro, depois guardou a adaga e recuperou o machado. Svar colocou Zeca gentilmente em seu embornal. Por fim, os dois se afastaram por cautela do local da batalha. As chamas deixadas para trás continuariam a crescer.



------------------------------------------



Quando a conflagração já estava distante, Zeca pôs a cabeça para fora do embornal. "Aquilo foi incrível!", disse, então percebeu que os dois guerreiros estavam muito feridos. "Vocês estão bem?"


Svar tinha queimaduras pelo corpo e levava a mão ao ombro, que sangrava muito. "Descobrimos nosso limite, José do Clã Calabros. Ainda não somos fortes o bastante."


Brunnhardt não parecia tão mal quanto o gigante, mas caminhava com dor. "O dragão falou a verdade. Sobrepujamos a fera em número, mas sob outras circunstâncias talvez ela se saísse vitoriosa."


"É hora de voltar", disse Svar. "Antes que esta terra nos mande outros como ele."


Foi quando um som trazido pelo vento chamou-lhes a atenção. Ambos pararam, perscrutando a vastidão ao redor.


O menino então também ouviu. O bater de centenas de asas, acompanhadas por uivos, rugidos e vozes cavernosas. Como naquele dia fatídico em que eles vieram, cinco anos antes. A lembrança o paralisou de medo. Vorax fora apenas uma sombra diante da escuridão por vir.


"Parece-me que despertamos a ira dos senhores de Vol'kor", murmurou Svar.


Com os olhos capazes de ver perfeitamente na escuridão, Brunnhardt avaliou: "Posso vê-los se erguendo aos céus. São dezenas, talvez centenas, de infantes, jovens e maduros, mas nenhum adulto até agora!"


"Estão se reunindo, se organizando, chamando por mais", observou Svar. "Dragões são solitários, nunca os vi se comportando assim! Seremos sobrepujados!"


"Talvez tenhamos cometido um erro, velho companheiro", disse o anão. "A montanha que desafiamos talvez seja mais alta do que prevíamos."


"Temos de partir antes que venham a nós. Sem descanso esta noite! Se alcançarmos a Catinga Danada até o amanhecer, os vapores venenosos do dia podem forçá-los ao chão!"


"Então toma a frente, velho amigo", Brunnhardt pediu. "E vamos sem medo porque só a morte pode nos deter!"


"Até a morte, então!", bradou Svar. "De um jeito ou de outro, nosso fim será triunfante!"


Os dois apressaram o passo rumo ao oeste.


Nos céus, mais e mais monstros se uniam à revoada.


Livro Atual
Zé Calabros na Terra dos Cornos
Categorias
RSS Feed
Posts Recentes
Procure por Tags
Procure por Mês
  • Facebook Black Round
  • Twitter Black Round

As Crônicas Anímicas

© 2016 Tiago Moreira