Capítulo 10: A lenda do herói

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Nove anos atrás...


Zeca correu em busca de abrigo sob uma árvore.


O dragão sobrevoou, rugindo e vomitando fogo. O ataque não almejava Svar e Brunnhardt, mas incendiar a relva, formando uma barreira de chamas.


Diante da parede incandescente, Svar riu. "Gahahaha! Ele não quer que fujamos!"


"Bah! Que ofensa nos tratar como covardes!", esbravejou Brunnhardt ao ver o dragão dar meia-volta e retornar voando. "Venha sentir o aço de meu machado, lagarto dos infernos!"


Usando a barreira de chamas para cercar os dois guerreiros, o dragão pousou com tanta violência que fez o chão tremer.


O menino Zeca, de seu esconderijo, se abismou com o tamanho do monstro. Mesmo sobre quatro patas, era três vezes mais alto do que Brunnhardt, superando até mesmo Svar. Na escuridão, era difícil discernir a cor de suas escamas, mas os sulcos entre elas emitiam um leve brilho incandescente. Tinha um chifre sobre o focinho e protuberâncias ósseas sob a mandíbula. Da cabeça nascia uma coroa óssea, seguida por uma série de saliências e espinhos que percorriam a espinha e terminavam em quatro espigões na ponta maciça da cauda.


De asas abertas e encarando-os com os olhos chamejantes, o monstro falou numa voz cavernosa, chamas saltando-lhe da boca a cada palavra. "Vocês estão diante de Voraxadrar'threnox, pequeninos, sou apenas uma sombra diante da escuridão que está por vir. É coragem ou tolice que os traz, criaturinhas? Vieram em busca de morte ou de servidão? Seja o que for, terão seu desejo realizado!"


"Ouviu essa, Brunnhardt?", o gigante exibiu os punhos. "Ele está tentando nos intimidar! Que gracinha!"


Mas o anão, irritado, nem deu atenção. "Ele me chamou de criaturinha? De... PEQUENINO?"


A reação dos dois surpreendeu e frustrou Vorax. Após um instante de confusão, o dragão rugiu estrondosamente e avançou em fúria.


Brunnhardt ergueu o machado e investiu contra o monstro. "Eu vou mostrar quem é criaturinha, lagartixa insolente!", bradou.


Svar saiu do caminho do dragão para flanqueá-lo.


Brunnhardt saltou para desferir a machadada contra o focinho do monstro, mas Vorax desviou a cabeça, evitando o golpe. Antes que o anão pousasse, o dragão se apoiou sobre a cauda, ergueu-se sobre as patas traseiras e golpeou-o com as garras. O impacto perfurou a armadura de Brunnhardt e o jogou longe, fazendo-o cair violentamente e rolar para o incêndio que se propagava pelo campo.


O dragão então girou o corpo, jogando a cauda contra Svar. O gigante conseguiu evitar ser empalado pelos espigões da ponta, mas foi atingido pelo rabo e lançado ao chão. Vorax tentou então esmagá-lo com a ponta maciça do rabo, mas Svar rolou para longe e se levantou num pulo.


O dragão se virou para o gigante e cuspiu uma onda de fogo. Mantendo-se sempre um passo à frente das chamas, Svar correu até que a baforada se esgotasse. A relva, porém, se incendiou ainda mais, espalhando a conflagração numa nova direção.


Sob a árvore, Zeca viu o fogo se aproximar do esconderijo e teve de abandoná-lo. Correu pela relva, buscando novo abrigo, mas a fumaça tornava a tarefa cada vez mais difícil.


Vorax e Svar se encararam. "Você não tem garras ou presas, nem mesmo carrega uma arma! Você não pode sequer me machucar!", provocou o dragão.


"Se é assim, deixe que minhas mãos cheguem ao seu pescoço, monstro!"


O dragão riu, e as chamas em sua bocarra se irradiaram pelos sulcos entre as escamas, até que todo o corpo do monstro fosse delineado por fogo. Até a relva onde ele pisava se incendiava, tornando o incêndio cada vez maior e mais descontrolado.


"Por Ingeborg!", urrou Brunnhardt, que numa investida atravessou a conflagração e, saltando, se agarrou às proeminências da espinha de Vorax. Dependurado nas costas do dragão, o anão cravou o machado várias vezes, arrancando do monstro nacos de carne e escamas. "Quem é a criaturinha agora, seu desgraçado?"


Vorax urrou de dor e recolheu as asas, depois se jogou ao chão, rolando e esmagando Brunnhardt sob seu peso. Após desvencilhar-se do anão, o monstro se ergueu velozmente e, virando-se para Brunnhardt, prendeu-o ao chão sob o peso da pata dianteira.


Svar tentou atacar o dragão pelas costas, mas o monstro aproveitou para golpeá-lo com a cauda. Felizmente, o gigante reagiu com rapidez e se esquivou do rabo com sucesso.


Brunnhardt, mantido caído sob o peso do monstro, deixara escapar o machado de suas mãos. Antes que fosse mordido, sacou uma adaga oculta sob a barba e fincou-a na pata do dragão, que recuou em dor. Libertado, o anão se levantou e recuperou o machado.


Vorax, com a adaga ainda cravada na pata ferida, abriu as asas para alçar voo, mas Svar aproveitou sua desatenção para investir contra ele. O gigante passou por baixo da cauda, evitando outra rabada, agarrou-se às protuberâncias dorsais e escalou-lhe as costas. Quando o monstro começou a se erguer no ar, Svar saltou sobre uma asa, agarrando-se a ela e quebrando-a.


Vorax perdeu sustentação e caiu em pé no chão. Urrando em fúria, o dragão cravou as mandíbulas flamejantes sobre o ombro de Svar. Mesmo perfurado pelos dentes do dragão, Svar golpeou furiosamente a cabeça do monstro com a mão livre.


Com a força do longo pescoço, Vorax ergueu Svar no ar e balançou o gigante de um lado para outro, tentando dilacerá-lo com movimentos intensos. Svar agarrou-se à cabeça do monstro com força, mantendo-se firme em sua mandíbula e reduzindo os danos das sacolejadas.


Vendo o companheiro vulnerável, Brunnhardt avançou sem pensar. O dragão, porém, virou-se de repente, golpeando-o com a cauda. Os espigões perfuraram a armadura do anão, e o impacto afastou-o violentamente.


Foi quando uma pequena voz desesperada se fez ouvir em meio ao confronto. "Svar! Brunnhardt! Socorro!", gritava o menino Zeca, cercado pelas chamas que dominavam a relva.


O dragão percebeu o menino e, com um movimento intenso do pescoço, largou Svar, arremessando o gigante para a conflagração. "Essa criança humana...", murmurou o dragão, "é parte de nosso rebanho...? Não! É um presente!".


Brunnhardt atravessou o fogo e agarrou o menino, protegendo-o contra seu peito. Ergueu o machado com a mão livre, pondo a lâmina entre si e o dragão, e alertou: "Não ousa tocar neste menino! Ele ainda há de ser o flagelo desta terra!"


Vorax, a despeito de todos os ferimentos sofridos, gargalhou. "Flagelo desta terra? Vocês, com todo o seu tamanho e força, são apenas um incômodo para Vol'koragrashtedarr! Sequer me feririam se não me sobrepujassem em número! O que um humano pode fazer?"


Svar surgiu das chamas atrás do dragão. Mesmo sangrento e chamuscado, o gigante ainda tinha energias para lutar.


Após perceber o companheiro, Brunnhardt se voltou ao dragão e recitou num tom solene: "De Terra e Fogo nasceram os anões".


"E Terra e Água geraram os gigantes", disse Svar, na mesma entonação.


O anão prosseguiu: "O Ar e Água se uniram nos pequeninos. E Ar e Fogo ardem no coração dos alados".


E o gigante proferiu: "Sobre os quatro elementos reinam os dragões, sob os quatro elementos existe a criação. Quatro são os pilares que erguem o mundo. Sete são os sábios que guardam os segredos!".


"E ainda assim, todos são parte do todo. Todos são regidos pelo destino. Todos, exceto os mortais!"


"Pois o destino não os controla, não dita seus caminhos."


"Pois são eles capazes de desafiar o destino, de conquistá-lo e domá-lo e tomá-lo para si."


"Pois é deles a ambição capaz de curvar o mundo e a força de espírito capaz de restaurá-lo!"


E então, os dois proferiram numa só voz: "Eles têm mil vidas, nós temos uma! E em cada uma dessas vidas, são capazes de fazer o que não faríamos em mil!"


Vorax ouviu os versos com atenção, mas logo perdeu a paciência. Avançou furiosamente sobre Brunnhardt, sabendo que o anão não lutaria eficientemente empunhando o machado com apenas uma mão.


Brunnhardt, porém, jogou o machado por cima do dragão, para as mãos de Svar, que saltou para agarrá-lo. Em seguida, desviou-se da mordida do dragão e socou-lhe a cabeça com tanta força que atordoou o monstro. "Você não entende, não é, fera estúpida? Como os dragões, somos raças imortais!"


Com o machado em mãos, Svar circundou o dragão a uma distância cautelar. "E o destino de todo imortal... é morrer!", gritou, então arremessou a arma. A lâmina voou velozmente e, encontrando em seu caminho o pescoço do dragão, decapitou-o violentamente e seguiu seu curso à frente, desaparecendo além da conflagração.


Cabeça e corpo de Voraxadrar'threnox tombaram separados, e as chamas que revestiam-no se apagaram. O fogo no campo, porém, continuava a arder e se espalhar, erguendo colunas de fumaça aos céus.


Levando Zeca consigo, Brunnhardt arrancou a adaga da pata do dragão morto, depois correu pelas chamas na direção em que o machado voara. Svar o seguiu de perto, contando com os sentidos do anão para guiá-lo pela fumaça. O machado os aguardava logo além da conflagração, cravado ao solo em meio a uma cratera criada por seu impacto.


O anão passou o menino ao companheiro, depois guardou a adaga e recuperou o machado. Svar colocou Zeca gentilmente em seu embornal. Por fim, os dois se afastaram por cautela do local da batalha. As chamas deixadas para trás continuariam a crescer.



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Quando a conflagração já estava distante, Zeca pôs a cabeça para fora do embornal. "Aquilo foi incrível!", disse, então percebeu que os dois guerreiros estavam muito feridos. "Vocês estão bem?"


Svar tinha queimaduras pelo corpo e levava a mão ao ombro, que sangrava muito. "Descobrimos nosso limite, José do Clã Calabros. Ainda não somos fortes o bastante."


Brunnhardt não parecia tão mal quanto o gigante, mas caminhava com dor. "O dragão falou a verdade. Sobrepujamos a fera em número, mas sob outras circunstâncias talvez ela se saísse vitoriosa."


"É hora de voltar", disse Svar. "Antes que esta terra nos mande outros como ele."


Foi quando um som trazido pelo vento chamou-lhes a atenção. Ambos pararam, perscrutando a vastidão ao redor.


O menino então também ouviu. O bater de centenas de asas, acompanhadas por uivos, rugidos e vozes cavernosas. Como naquele dia fatídico em que eles vieram, cinco anos antes. A lembrança o paralisou de medo. Vorax fora apenas uma sombra diante da escuridão por vir.


"Parece-me que despertamos a ira dos senhores de Vol'kor", murmurou Svar.


Com os olhos capazes de ver perfeitamente na escuridão, Brunnhardt avaliou: "Posso vê-los se erguendo aos céus. São dezenas, talvez centenas, de infantes, jovens e maduros, mas nenhum adulto até agora!"


"Estão se reunindo, se organizando, chamando por mais", observou Svar. "Dragões são solitários, nunca os vi se comportando assim! Seremos sobrepujados!"


"Talvez tenhamos cometido um erro, velho companheiro", disse o anão. "A montanha que desafiamos talvez seja mais alta do que prevíamos."


"Temos de partir antes que venham a nós. Sem descanso esta noite! Se alcançarmos a Catinga Danada até o amanhecer, os vapores venenosos do dia podem forçá-los ao chão!"


"Então toma a frente, velho amigo", Brunnhardt pediu. "E vamos sem medo porque só a morte pode nos deter!"


"Até a morte, então!", bradou Svar. "De um jeito ou de outro, nosso fim será triunfante!"


Os dois apressaram o passo rumo ao oeste.


Nos céus, mais e mais monstros se uniam à revoada.



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O presente...


As lembranças se confundiam, formando um terrível pesadelo. Dragões no céu. O bater de centenas de asas. Misturavam-se num só pesadelo a manhã em que perdera a família e a noite terrível em Vol'kor. Via-se ora como o indefeso menino de sete anos, ora como o garoto de doze que aprendia a ser homem. A angústia e o terror venceram o torpor, e Zé Calabros despertou ofegante.


Estava num quarto desconhecido, mas em segurança. O fim do pesadelo, porém, não o tranquilizou. A mente ainda se focava nos dragões, e as memórias o fizeram se recordar das palavras do cangaceiro das tranças, na noite anterior: "Não foi coincidência nem acaso, foi justiça! Severino mandou os bichos pra lá!"


Zé Calabros se levantou, ignorando as dores no corpo. Estava nu, logo vestiu uma calça deixada sobre a cadeira ao lado da cama, mas ignorou outras peças de roupa. Sentia-se angustiado, queria ar fresco, tinha de distrair a cabeça e extravasar a frustração.


Mais tarde procuraria respostas. Naquele momento, desejava apenas moer alguma coisa na porrada.



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Chovia fraco. Zé deixara a casa-grande sem chamar atenção, queria solidão. Aprofundou-se no bosque do Coronel Meneses e escolheu a palmeira mais alta que encontrara para desferir socos e pontapés. Ali permaneceu exercitando-se por pouco mais de uma hora, até sua solidão ser interrompida por uma Mara'iza furiosa.


"Finalmente achei você, ogro idiota!", ela surgiu esbravejando. Como ele, trazia marcas da noite anterior: braço com curativos e o rosto machucado. Ao contrário dele, que não ligava para a chuva, ela protegia a cabeça com um chapéu de palha. "Todos estão procurando-o! O que diabos está fazendo aqui?"


Zé Calabros parou de golpear a pobre árvore, que já colecionava danos, e se virou para ela. "Oi, Malinha!", disse, feliz em vê-la e com um aspecto lamentável: cheio de ferimentos, encharcado de chuva, com barba já engrossando e cabelos desgrenhados.


"Não me venha com 'oi, Malinha', não!", ela reclamou indignada. "Por que você desapareceu sem avisar? E na sua condição, como pode fazer esse tipo de esforço? Não basta levar dois tiros, também quer quebrar as mãos nessa árvore?"


"Na verdade", ele exibiu o punho esfolado, "vou é quebrar a árvore com as mãos!".


Ela levou a mão ao rosto e suspirou profundamente. "Céus, e eu estava preocupada com você! A idiota deve ser eu mesma!"


Zé sorriu. "Você não se preocupe, Malinha, que minhas mãos são mais duras que esse tronco! Eu só tava precisando espairecer um pouco!"


"Até para pensar você precisa quebrar alguma coisa?"


"É pra descontar a frustração. A gente pensa melhor quando não tá aperreado, entende?"


"Frustração? Frustração sofro eu cada vez que tento entendê-lo!"


Ele riu e apontou para o tronco danificado. "Desconta na árvore, então!"


"Eu devia descontar em você, isso sim!", ela desabafou. "Talvez lançar um raio nessa sua cara lerda!"


A sugestão fez Zé se empolgar. "É uma boa ideia! Manda ver, Malinha!"


Mara o fitou descrente. "Não, seu idiota, é uma ideia horrível! Magia não é brinquedo!"


"Seria um bom treinamento!", ele contestou.


"Você vai se machucar!", ela retrucou.


"Mala, ontem fui esmurrado, apedrejado, enterrado, chutado e baleado", ele enumerou nos dedos. "A vida machuca, e você tem que ser casca-grossa pra aguentar. Não nasci socando árvores, tive que endurecer os punhos na marra! Manda ver, que eu aguento!"


"Não seja idiota! Você vai acabar se quebrando inteiro!", ela rebateu. Fitando-o por acaso, notou uma cicatriz de corte de lâmina no peito dele. Acanhada, Mara'iza nunca tinha reparado no corpo dele antes, então tentou disfarçar o interesse. "Há quanto tempo você tem treinado dessa maneira insana?"


"Já faz oito... não, nove anos!", ele disse. "Quatro passei no orfanato, dando trabalho pras madres e criando confusão na vila de lá. Depois saí viajando pela Cornália, pra enfrentar todo tipo de bicho e bandido. Essa cicatriz minha, por exemplo, quem fez foi um salteador que desafiei ainda moleque!"


Mara ficou vermelha quando ele se mostrou ciente do olhar dela, então virou os rosto para esconder o rubor. "Você é maluco! Não usarei magia contra você!", esbravejou.


"Você que sabe", Zé desanimou. Parecia alheio à vergonha dela, ou pelo menos fingiu não notar. Virou-se para a árvore e desferiu mais um soco, fazendo a casca, já danificada, afundar com o impacto.


"Pare de bater nessa árvore, ogro! Dá agonia só de olhar!", ela protestou, olhando-o indiretamente. "Afinal, o que está te consternando?"


"Acho que matei aquele sujeito ontem, o bandido das tranças", Calabros respondeu.


Sem compreender a preocupação dele, Mara'iza se irritou. "Você 'acha'? Você bateu tão forte que abriu um rombo na alvenaria atrás dele! E por que está preocupado com isso? Se não parasse o sujeito, ele nos mataria!"


"Eu sei, por isso bati forte. Se aposto minha vida numa luta, não pego leve! Não gosto de matar, mas ponho a força que precisar pra derrubar o sujeito. Se ele morreu, é porque não quis parar de nenhum outro jeito."


"Então, qual é o problema?"


"O desgramado disse uma coisa sobre o meu pai que me deixou encafifado", ele respondeu, socando a árvore de novo. "Agora não descanso até descobrir toda a verdade, mas com ele morto não tenho a quem perguntar!"


Mara'iza se lembrou de Madre Mirna citar os Calabros entre os coronéis que não estavam mais no poder. Também se recordou de que o Coronel Garrancho cuidava das terras da família de Zé. "O que aconteceu com seu pai?", ela questionou, aproximando-se dele.


"Dragões de Vol'kor. Vieram e levaram todo mundo da vila. Meu pai, minha mãe, meus amigos... E ontem, o bandido me disse que Severino tava por trás de tudo, mas não entendo como! Não faz o menor sentido!"


Mara'iza ouvira falar de Vol'kor, terra de dragões escravagistas. "Bom, não tenho respostas", ela falou num tom suave. Aproximou-se dele e tocou-lhe o ombro e, quando Zé se virou, sorriu daquele jeito arrogante que tanto o irritava. "Mas pense com a cabeça ao invés dos punhos, seu brutamontes! Uma história dessas deve ser conhecida por mais gente do bando!"


"Você tá certa!", ele cerrou os punhos. "Vou quebrar muito cangaceiro, até algum deles cuspir a verdade junto com os dentes!"


"Não, céus! Você é um completo idiota!", ela recuou irritada. "Pergunte ao Coronel Garrancho, ogro estúpido! Ele era do bando, não era?"


Zé Calabros fez um sinal positivo com o polegar e sorriu de alegria. "Melhor ainda! Viu como pensar com raiva não dá certo? Eu sabia que tava esquecendo alguma coisa! Malaísa, você é porreta!"


"Mara'iza! Meu nome é Mara'iza!", ela balançou negativamente a cabeça. Teve vontade de descontar a frustração lançando um raio nele, mas logo suprimiu esse desejo rude.



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Os dois voltavam à casa-grande quando a chuva ganhou mais força. Mara'iza apressou o passo e correu à frente, enquanto Zé, despreocupado, manteve o ritmo da caminhada e seguiu-a de longe.


Dona Graça, que esperava na varanda, sorriu ao ver a magista retornar. "Ah, você o achou!"


Mara parou sob a proteção da varanda e, recuperando o fôlego após a breve corrida, tirou o chapéu e abanou-o para tirar a água acumulada. "Aquele idiota vive igual a um bicho do mato!", reclamou, depois virou-se para Zé, que vinha ainda distante.


"Agora que ele está crescido, parece com o pai", disse Dona Graça, observando-o. "De rosto, digo. O pai era mais refinado."


"Você conheceu o pai dele?", Mara questionou.


"Sim, faz muito tempo! Vi esse rapaz ainda bebê!", Dona Graça respondeu. "Meu marido tratava negócios com o pai dele de vez em quando. Os Calabros nunca foram muito amigos da gente, mas depois que começaram a seguir as Leis de São Silvério, a gente se aproximou."


Curiosa, Mara'iza ficou interessada. "Leis de São Silvério? Do que se tratam?"


"É uma história bem longa", Graça respondeu.


Foi quando Zé Calabros chegou, interrompendo a conversa. "Pra quê correr tanto, sua mala? É só uma chuvinha!"


Mara se voltou a ele. "Eu já tomei meu banho, seu ogro, não quero ter de cometer a indelicadeza de requisitar um segundo banho aos nossos anfitriões! Agora, vá se lavar, que seu fedor está insuportável, parece um cão encharcado!"


Zé cheirou o próprio sovaco. Fez uma careta diante do odor desagradável.


"Vou pedir que os serviçais aqueçam a água", disse Dona Graça com delicadeza.


"Careço de água quente não, senhora!", ele recusou. "Pode ser fria mesmo, pra modo de acordar de vez!"


Mara'iza aproveitou para continuar a reclamar: "E corte essa barba horrível para ficar apresentável! Você está parecendo um animal selvagem!"


"Ora, mas agora você vai encrencar com isso, menina dos infernos?", ele se rebelou, passando a mão no queixo peludo. Deu as costas a ela e já se punha a adentrar, quando ela o segurou.


"Limpe esses pés enlameados antes de entrar", ela brigou. "Mais respeito com nossos anfitriões! Onde já se viu sair descalço desta maneira? Em minha terra, um plebeu que se comportasse assim seria decapitado!"


Zé respirou fundo, impaciente, e fechou o punho. Conteve-se, porém, e limpou os pés no capacho. "Onde fica o banho, senhora?", perguntou a Dona Graça, ignorando Mara'iza.


Dona Graça indicou o caminho. "Pegue suas coisas no quarto, enquanto isso pedirei que os serviçais encham a banheira."


Zé Calabros agradeceu e adentrou.


Assim que ele saiu de vista, as duas se encararam e, após um instante se contendo, riram da cena que acabara de ocorrer. Após recuperar a compostura, Dona Graça perguntou: "Ainda interessada na história de São Silvério?".


"Mas é claro!", Mara respondeu.


"Espere-me na sala de jantar, então. Conversaremos assim que eu der as ordens aos empregados."



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Um cheiro delicioso vinha da cozinha, indicando que logo o almoço estaria pronto. Mara'iza aguardou à mesa, mas Dona Graça não demorou a retornar.


"O que são essas Leis de São Silvério?", Mara perguntou. "Lembro-me de ouvir Coronel Garrancho mencionar um Coronel Silvério. Há alguma relação?"


"Ah, é que os coronéis da família Silva, de São Vatapá do Norte, adotam o nome como um título de honra. O último Coronel Silvério foi Joaquim da Silva, que ninguém sabe se tá vivo ou morto."


"Silvério foi um ancestral dos Silva, então?"


"Sim."


"E se o chamam de 'São' Silvério, presumo que se tratava de um santo?"


"Ah, você já sabe sobre nossos 'santos'?", Dona Graça sorriu. "Pra alguns, São Silvério foi o maior santo depois do fundador da Cornália, São Vatapá. Aliás, você sabe por que chamamos os donos de terras de 'coronéis'?"


"Não", disse Mara, cada vez mais curiosa.


"Há muito, muito tempo, Vatapá trouxe um monte de gente pra Cornália, pra salvar do Diabo Velho. Ele era soldado do velho império, tinha o posto de coronel, daí acabou que quem virasse líder depois dele passava a ser chamado assim também. Só que o povo foi rachando entre vários coronéis, que ficaram brigando por terra, comida e gente. Cornália era terra de ninguém, um deus nos acuda!"


Sentindo familiaridade com o relato, Mara comentou: "Em minha terra natal, também houve um passado assim. Os sam'rai guerrearam entre si até o shogun unificar a nação".


"Aqui nunca teve rei ou coisa que o valha", disse Dona Graça. "Se bem que o miserável do Coronel Tibúrcio bem que tentou conquistar tudo. O desgramado queria se fazer pela força e mandar ou desmandar como bem entendesse, igual aos coronéis de antigamente."


"Não estamos digressando?", questionou Mara, retomando o assunto original, "E quanto a São Silvério?".


"Calma, que ainda chego lá, moça! Você primeiro tem que entender como era antes dele! Sabe por que coronéis nem sempre são benquistos pelo povo?"


"Não", Mara'iza respondeu.


"Por causa dos coronéis das antigas, que tratavam gente como servo, quase escravo. Antigamente, não tinha nem comércio por estas bandas. Moedas, só as de ferro, e cada coronel reconhecia só a sua! Essas cidades grandes de hoje, como nossa Bota do Judas, eram fazendas pequenininhas. Mas então, faz mais ou menos uns duzentos anos, as coisas começaram a mudar, graças a São Silvério!"


"Duzentos anos? É bem recente!", observou Mara. "Conte-me a lenda do herói, por favor!".


"Bom, Silvério da Silva nasceu lá pro leste, nas terras da família, onde hoje fica São Vatapá do Norte. O menino cresceu forte e valente e, sendo segundo filho, não tava destinado a ser coronel. Decidiu, então, correr o mundo logo jovem.


Ele partiu pra Dragona e sumiu por muitos anos. Dizem que rodou esse mundão afora, passando pelas terras mais esquisitas e distantes: Atallantys, Biorca, Kalimnor, Toscânia, Miscelânea e tantas outras. Foi viajante, soldado, mercenário, mercador... Até que um dia, mais de dez anos depois de partir, decidiu ver como tava sua terrinha.


E quando ele voltou... vixe! Tava tudo lascado! O pai tinha morrido faz anos, e o irmão, tornado coronel, tinha acabado de ser morto por uma rebelião do povo. Silvério, então, se pôs a lutar, e como tava forte aquele homem! Salvou a família, matou os líderes rebeldes e acalmou as coisas. Assim, virou o novo coronel.


Só que ele tinha ficado sábio nessas andanças pelo mundo e viu que tava tudo errado aqui na Cornália. Silvério percebeu que os coronéis faziam mal pro povo, mesmo quando queriam fazer bem. 'Coronel não é deus pra saber o que é melhor pros outros', foi a primeira lição que ele deu, 'A gente tem que deixar cada pessoa cuidar de si mesma'.


Daí Silvério mudou como as coisas funcionavam naquela fazenda. Ele reuniu o povo e falou: 'Vocês não têm mais obrigação comigo. Quem quiser ir embora, pode ir. Quem quiser ficar, vou pagar por cada serviço que me prestar. E com o dinheiro, você pode fazer o que quiser, até comprar sua parte da terra. De agora em diante, vocês estão livres!'.


No início foi esquisito, mas logo o povo se acostumou com a liberdade. A fazenda São Vatapá foi crescendo porque ninguém era obrigado a ficar ali. As pessoas passaram a trabalhar com gosto e podiam negociar com quem quisessem, não só com o coronel. Silvério dizia: 'Coronel não manda em nada, tem só que resolver as brigas de vizinhos, pra todo mundo viver em paz!'.


E isso horrorizava os outros coronéis, sabe? Falavam que Silvério tava incitando anarquia e que as pessoas não podiam se cuidar sem um coronel mandando nelas. Tentaram matar Silvério um monte de vez, mas o homem era forte que nem um diabo, e ainda tinha a proteção do próprio povo, coisa impensável pros outros!


São Vatapá virou vila, depois cidade, e continuou crescendo. Nenhum outro coronel entendia como o lugar prosperava tanto, apesar do terreno lá ser seco e duro. Não viam que era o povo que tava fazendo comércio e criando riqueza.


E quanta riqueza, viu! O artesanato e a manufatura ficaram fortes, e os vatapenses negociavam muito com estrangeiros. Traziam de fora as coisas que outros coronéis queriam, e acabou que toda Cornália passou a depender do povo de lá.


São Vatapá ficou tão grande que já tava difícil manter a ordem lá. Então, Silvério falou: 'Alguém precisa cuidar pra cidade crescer bem, mas não tem que ser o coronel. Vocês escolham um prefeito e façam um conselho pra discutir os problemas. Também reúnam uma guarda pra cidade, que meus jagunços sozinhos não dão conta mais. Só vou me meter quando alguém de fora vier nos importunar!'.


Todo mundo falava que ia dar errado, que ia virar bagunça, que era preciso coronel pra governar, mas deu certo, entende? Ele esvaziou o poder de coronel, deu liberdade pras pessoas, e o povo fez a cidade prosperar.


Com o tempo, outros começaram a fazer parecido. Os primeiros foram os Malícia, de Curva do Vento. Em seguida fomos nós, os Meneses. Bem depois, os Mendes de Santa Rita. E por fim, faz só uns trinta anos, foi a vez dos Calabros. Foi o avô de Zé que começou o processo, e o pai continuou até acontecer a tragédia de Itapopó da Mata."


"É uma história e tanto!", disse Mara'iza. "Mas existem outros além desses, não? Ouvi falar em dezenas de coronéis."


"Tem muito coronel das antigas por aí ainda, em fazendas e vilas espalhadas pelo sertão. Eles não deixam o povo esquecer dos velhos tempos, e muita gente acha que 'coronel' é tudo a mesma coisa."


"Então, esse foi o milagre de São Silvério", a magista sorriu.


"Ele fez muitos milagres. Era um sujeito forte, capaz de desafiar o destino, mas o maior milagre dele foi outro. São Silvério não só mudou a Cornália, também acabou com a grande praga dos dragões."


Mara'iza ficou ainda mais curiosa. "Grande praga dos dragões?"


"É uma história de quando ele já tava velho, vou te contar essa lenda também!", Dona Graça revelou. "A lenda de Viracopos!"



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"Menina do capeta!", Zé Calabros resmungava, sentado dentro da banheira. A água não estava aquecida, mas tampouco era fria a ponto de incomodá-lo. Cortava a barba com o auxílio de navalha e um pequeno espelho em mãos, ambos pertences que levava no embornal. Era um ritual que fazia uma vez por semana, mas acabara por antecipar por insistência da irritante Mara'iza. "Onde já se viu, achar que não tenho modos?"


Tão logo terminou, deixou os utensílios de lado e passou a esfregar a bucha ensaboada no corpo. Limpou o peito, barriga e braço esquerdo, ignorando as dores no ombro e barriga. Quando foi lavar o braço direito, porém, as duas fitas de Padim nele amarradas, uma branca e a outra vermelha, o fizeram parar e refletir.


A faixa branca estava ali há quatorze anos. A vermelha, pusera há nove. Desamarrava-as apenas uma vez por mês para limpá-las e logo as punha de volta. Permaneceriam no braço até que ele cumprisse as promessas feitas.


A mente de Zé Calabros era focada, ágil e objetiva em combate ou treinamento, mas dispersa nos momentos mais tranquilos. E ali, no banho, ao fitar as fitas no braço, ele acabou mais uma vez revivendo o passado.



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Nove anos atrás...


Zeca cambaleava a passos lentos, mais morto do que vivo. Estava esturricado pelo sol, emaciado pela fome e coberto por poeira, feridas e sangue seco. Seus ombros pesavam e as mãos estavam vermelhas de tão machucadas. Os cabelos crescidos caíam-lhe ao rosto, mas apesar da exaustão, o menino tinha a expressão determinada, zangada, ardente, e os olhos... os olhos em nada pareciam com os de um moribundo.


Madre Magnólia saltou a cerca de imediato, indo de encontro ao menino. Hildinha foi buscar água e medicamentos, mas mandou Mirna ajudar Magnólia. Algumas das crianças seguiram Mirna, outras foram com Hildinha, e o resto permaneceu ali, junto à cerca, ansiosas e preocupadas.


Magnólia se ajoelhou diante de Zeca, segurando-o pelos braços, e naquele momento as pernas do menino fraquejaram, forçando-o a se apoiar na venerada sacerdotisa. "José! O que aconteceu, José? Vem comigo! A gente vai cuidar de você! Vem!"


"Madre...", o menino balbuciou, resistindo aos apelos dela e exibindo o braço direito com a fita branca ali amarrada. "Quero outra... me traz mais uma fita...", implorava, buscando conforto no ombro da clériga. Aos prantos, insistiu como se a própria vida não importasse: "Uma fita... pra outra promessa...". Repetiu o pedido incontáveis vezes, silenciando-se apenas ao perder a consciência por exaustão.



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Quando o menino acordou, repousava na cama. Já era noite, e a escuridão só era contida pela luz de uma vela. Demorou a organizar os pensamentos, depois percebeu que Madre Magnólia dormia sentada numa cadeira ao lado, com o terço do Divino Pai em mãos.


"Madre...?", o menino chamou.


Magnólia, sob sono leve, despertou facilmente. "José! Graças ao Divino Pai, você acordou!", ela exclamou ao saltar da cadeira e se ajoelhar ao lado dele. "Aleluia, Padim!"


Ele sentia o corpo pesado e dolorido, tinha até dificuldade de se mover. A barriga roncava, e a boca estava seca de tanta sede. Apesar de toda a penúria, ele se esforçou em sentar-se e exibiu o braço direito com a fita branca amarrada.


Magnólia sabia o que aquele ato significava. "Você ficou desacordado por quase dois dias, meu filho. Gemia muito. Repetia esses nomes sem parar: 'Svar'... 'Brunnhardt'... Quem são esses, José? Diga-me o que aconteceu naquela caatinga maldita."


O jovem Calabros não respondeu, mas ao ouvir os nomes dos dois companheiros, fechou os olhos para conter as lágrimas.


Madre Magnólia estendeu a mão a ele, segurando uma fita vermelha. "É isso o que você me pediu, não é? Quando o Coronel Silvério te trouxe ao orfanato, achei que você não compreendia a seriedade da fita no seu braço. Achei que era apenas raiva infantil, frustração pela perda, mas não era, né? Você foi para lá, não foi? Para Vol'kor."


Zeca pegou a fita vermelha e segurou-a firme. Não respondeu, pois estava quase chorando.


Madre Magnólia já sabia a resposta, porém. Ela baixou a cabeça, diante da tristeza palpável do menino, e permaneceu em silêncio.


"Madre, eu não pude fazer nada...", Zeca desabafou, inadvertidamente deixando escapar as lágrimas que tentava conter. "Mas vou ficar forte! E um dia vou voltar lá... pra cumprir a promessa, Madre... porque agora sei... que impossível é somente uma palavra!"


Madre Magnólia suspirou profundamente. "Ah, José. Já te contei tantas histórias, mas uma em particular escondi de você, por receio de te estimular nesse caminho. Agora que vejo que você já se decidiu, está na hora de te contar a lenda de Viracopos."


Viracopos. Zeca já ouvira o nome ser mencionado aqui e acolá, especialmente por Coronel Silvério, mas somente quando ele achava que o menino não estava presente.


"Há uns duzentos anos", começou Magnólia, "nossa terra foi assolada pela grande praga dos dragões".


"Dragões...?", o menino murmurou.


"Sim. A proximidade com Vol'kor sempre foi um fardo para a Cornália. Os volkoritas vinham sozinhos ou em pequenos bandos, e raptos de camponeses eram muito comuns no passado. Faz duzentos anos, porém, as incursões se tornaram cada vez mais frequentes. Homens, mulheres, até mesmo famílias inteiras eram levadas em todos os cantos da Cornália."


"Como com minha família?"


"Parecido, José. Ainda não entendemos porque aconteceu, mas no seu caso os dragões vieram num número nunca visto antes, num só dia. Atacaram Itapopó e Vatapá do Sul, vilas próximas entre si e da Catinga Danada, e depois não voltaram mais. Na época da grande praga era diferente, os dragões vinham em grupos pequenos e atacavam em lugares diversos, cada vez mais frequente, até chegar num ponto em que havia ataques todos os dias.


Os coronéis se odiavam naquela época, mas a situação ficou tão terrível que acabaram se juntando pra combater a praga. Eles caçaram os dragões, mas os monstros eram muito difíceis de se pegar, quanto mais matar!


Mas um coronel conseguia defender sua terra melhor que os outros: São Silvério. Mesmo já velho, com quase sessenta anos, o homem era forte como um touro, e treinou seus jagunços para enfrentar os monstros."


"Ele conseguia matar os dragões?", Zeca se surpreendeu.


"Sim! Os que não conseguiam fugir, pelo menos!", riu Magnólia. "Ele punha os bichões para correr, meu filho, até pararem de importunar São Vatapá do Norte. Mas como São Silvério não tinha como proteger toda a Cornália, ele procurou um outro jeito de acabar com a praga de dragões."


"E o que ele fez?"


"Ele juntou informações com outros coronéis e estudou os ataques. Descobriu que os dragões usavam uma rota para atravessar os céus da Catinga Danada à noite, um caminho cujo vento os ajudava a voar depressa. E aí, viajou para aquela caatinga lazarenta, procurando um jeito de parar os monstros."


"E ele achou?", o menino perguntou.


"Sim, ele achou uma pequena ilha flutuante no meio do sertão, acima dos venenos que exalam da terra, mas bem no caminho dos dragões", Magnólia respondeu, "e aí voltou para os coronéis e propôs: 'vamos juntar um exército e, naquela ilha flutuante, erguer um baluarte contra os monstros!'.


Mas vários coronéis acharam aquela ideia insana. 'Nunca vai funcionar', disseram. 'Como vamos parar os dragões voando alto nos céus?'. 'Como um exército viveria numa terra venenosa daquelas?'


Então, São Silvério, sendo o cabra-macho que era, disse que iria ele mesmo e saiu pela Cornália procurando gente valente para acompanhá-lo. Juntou camponeses que perderam família, vagabundos, viajantes em busca de aventura e até bandidos e pistoleiros! Os coronéis então resolveram ajudá-lo e mandaram jagunços e mercenários estrangeiros para acompanhá-lo. No final das contas, reuniram um exército de duzentos homens!"


"E aí foram pra Catinga Danada!"


"Sim, foram e ergueram uma fortaleza, o Forte Viracopos."


"Por que 'Viracopos', Madre?"


"Coisa de adulto, José, isso não importa!", Magnólia sorriu. "Os coronéis se comprometeram a levar mantimentos para Viracopos, mas São Silvério ficou lá com os homens, para enfrentar os dragões que atravessavam a caatinga."


"E eles conseguiram? Pararam os dragões?"


"Sim", Magnólia disse, mas a voz dela se tornou mais séria. "Mas esta é a parte que você precisa compreender, José. Não há vitória sem sacrifício, e muitos homens não são capazes de carregar esse fardo.


Duzentos homens acompanharam São Silvério para Viracopos. Desses duzentos, não demorou nem três meses, um terço não resistiu. Uns morreram em combate, mas muitos desertaram, incapazes de reunir a coragem ou a força necessárias para sobreviver ali. Dragões ainda conseguiam passar por Viracopos, mas os ataques na Cornália se reduziram drasticamente.


Então, nem um ano depois, o exército já se reduzira à metade. A maioria destas baixas, contudo, foi de homens que tiveram a coragem de lutar até o fim, morrendo de doença ou em batalha. Nesse ponto, os bravos homens de Viracopos já estavam tão fortes que os dragões raramente conseguiam atravessar o bloqueio.


Passaram-se dois anos desde a construção de Viracopos, e menos de cinquenta defensores restavam. E, mesmo com tão poucos homens na defesa, nenhum monstro mais conseguia chegar vivo à Cornália.


E assim seguiu, José. Logo os defensores se reduziram a vinte, depois a quinze, mas dragão nenhum passava por eles. O povo foi se acostumando com a paz, e os coronéis deixaram de mandar comida para os heróis.


Apesar de esquecidos, os valentes de Viracopos, cada vez em menor número, mantiveram sua vigília. Quando o último desistente voltou à Cornália, dez anos após o exército marchar para aquela terra desolada, ele disse que apenas cinco defensores restavam, São Silvério entre eles.


Depois disso, nunca mais ouvimos falar dos homens de Viracopos. Eles permaneceram ali, na vigília em algum lugar perdido da caatinga venenosa, até o fim de suas vidas. Não sabemos como morreram, nem quando. Não sabemos se foi São Silvério ou outro dos cinco o último a perecer, mas de uma coisa sabemos, José."


"De quê, Madre?", o menino perguntou ansioso pela resposta.


"Por duzentos anos, até aquele dia terrível em que sua família foi levada, nenhum dragão voltou a aterrorizar a Cornália. Este, José, foi o maior milagre de São Silvério."


José Calabros ficou calado e pensativo.


Madre Magnólia tocou-lhe o ombro. "Essa é a lição que você precisa aprender, meu filho: duzentos homens foram para aquele sertão desafiar o destino, mas somente cinco ficaram até o fim, dando suas vidas para realizar o impossível. É assim, José, que milagres acontecem. Poucos são capazes de tal ato, e há sempre um preço a pagar. Você compreende?"


"Eu entendo, Madre", disse o jovem Calabros, amarrando a fita vermelha no braço. "Tem muitas montanhas na minha frente, vou precisar de muita força e coragem. Mas te garanto uma coisa: quando estiver pronto, vou fazer milagres."


Madre Magnólia o fitou com tristeza, sabendo que o menino estava se condenando a uma vida de sacrifício. "Você voltou diferente, aprendeu muito, não é mais só um menino. Conte-me sua história, por favor. Conte-me o que aconteceu em sua viagem, José."



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O presente...


Quando Dona Graça terminou de contar a história, Mara'iza ficou calada por um instante, murmurando após refletir bastante: "Que história incrível!".


Uma empregada veio da cozinha, procurando Dona Graça: "Patroa, o almoço está pronto!"


"Ótimo! Chamarei as crianças e os rapazes!", disse Dona Graça, depois voltou-se a Mara'iza: "Fique aí, chamarei Zé Calabros também, pra modo de almoçarmos todos juntos!".


Mara sorriu, curvando-se levemente em agradecimento. Logo, Dona Graça retornou com as noras, os dois filhos mais novos e as crianças. Zé Calabros não tardou a chegar, com a barba devidamente feita e, surpreendentemente, bem vestido e com a camisa abotoada.


Mara'iza foi o centro das atenções durante a refeição. Zé, por outro lado, permaneceu quieto e pensativo. O Coronel Meneses, recuperando-se no quarto, não estava à mesa. Faltavam também o primogênito dele, André, bem como Malícia e Garrancho, que estavam fora. Uma pena, pensou Calabros. Queria muito ter uma conversa com eles.



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O dia passou. Anoitecia sobre Bota do Judas quando finalmente o Coronel Raimundo Meneses deixou o quarto. Tinha um gancho no lugar da mão decepada, e caminhava com a ajuda de seu filho André. Desceram as escadarias e foram à sala de jantar, onde Coronéis Garrancho e Malícia os esperavam à mesa. Chovia forte lá fora, e jagunços guardavam a entrada da casa, cuja porta ainda não tinha sido restaurada.


Meneses se esforçava para não se mostrar fraco diante de seus pares. "Adelina", curvou-se diante da Coronel Malícia, tomando-lhe a mão e beijando-a gentilmente. "Continua bela e forte! Como vai o filho?"


"Está um homenzinho, já!", respondeu ela. "Quando crescer, vai ser um coronel e tanto, de arrebatar corações! Cuidado com suas netas, viu?"


Raimundo Meneses riu em resposta.


"É bom vê-lo, Coronel Meneses!", disse Garrancho, levantando-se para cumprimentá-lo.


"Samuel, chame-me de Raimundo, que agora sei que posso baixar a guarda pra você", disse Meneses num ar melancólico, "Você mais do que ninguém sabe do quanto desconfiava de sua pessoa, que veio de família humilde e foi cangaceiro. Eu te odiava especialmente por não você querer revelar o esconderijo de Severino! Mas agora que se provou ser um cabra de confiança e salvou minha família e minha terra, sinto muito por duvidar de sua integridade!"


"Obrigado, Coronel Meneses... digo, Raimundo", Garrancho agradeceu. "Eu sinto muito por esconder de vocês o segredo de Severino, mas de início achei que podia tirá-lo da vida de cangaceiro. Quando vi que não tinha jeito, já era tarde demais. No fim, causei todo esse sofrimento a vocês."


"Mas lhe serei sempre grato, pois salvou minha vida!", insistiu Meneses.


"E derrubou Coronel Tibúrcio, tantos anos atrás, não nos esqueçamos!", acrescentou Malícia.


"Eu não derrubei Tibúrcio", Garrancho corrigiu. "Só guiei os heróis que o fizeram."


André Meneses também cumprimentou a todos, depois ajudou o pai a se sentar e ficou ao lado dele. "Com todos os coronéis presentes, podemos tratar de nossa aliança contra Severino Barriga D'Água."


"Mas faltam Zé Calabros e Mara'iza", corrigiu Garrancho. "Eles deveriam participar."


"Não estão sob seu comando, Samuel?", Malícia perguntou.


"Não, apenas tive a sorte de encontrá-los em meu caminho. Lutar por Bota do Judas foi decisão deles, tomada por iniciativa própria. Não tive nem que pedir!"


"Você confia no Zé Calabros?", questionou Meneses. "Será que ele não vai querer as terras da família de volta? Pelo que soube, você assumiu aquelas terras."


"Pois ele deixou Itapopó da Mata aos meus cuidados, Raimundo. Zé não está atrás de terra. E se confio nele? Mas é claro, oxente! Não sei o que ele quer, nem qual é o destino do rapaz, mas sei que foi Padim quem o pôs no nosso caminho! Talvez tivéssemos perdido tudo ontem, se ele e Mara'iza não tivessem aparecido."


"Quanta reverência", comentou Malícia num tom admirado, mas meio jocoso.


"Todos nós já vimos gente do calibre deles antes", disse Garrancho, referindo-se aos heróis que derrubaram Coronel Tibúrcio. "Não acho certo nem justo conversarmos sem os dois."


"Ainda bem!", a voz de Mara'iza interrompeu a conversa, e ela logo surgiu da cozinha, sorrindo arrogantemente. "Ficaria ofendida se minha participação fosse reduzida a espioná-los!"


"E eu não ia só ficar ouvindo não!", disse Zé, vindo logo atrás dela. "Tenho umas coisas pra conversar com vocês!"


Coronel Garrancho sorriu ao vê-los adentrarem. Malícia riu. Meneses os saudou, meio desconfiado. "Fique à vontade, Coronel Calabros."


"Com todo o respeito, seu Meneses, mas coronel é o cacete! Não sou nada disso, nem quero ser!", Zé respondeu rispidamente, então se apoiou na mesa, mas ficou em pé. "Vim perguntar umas coisas sobre Severino! Sobre o pai dele, que você, Coronel Meneses, matou. E quero ouvir de Garrancho o que Severino teve a ver com os dragões que destruíram minha terra. Preciso saber tudo sobre o desgramado, pois já me decidi que vou atrás do cabra!"


"Pode contar conosco, Zé", Garrancho observou, "mas saiba que Severino nunca vai se entregar sem luta. Ele é o homem mais perigoso que já conheci, vai tentar de tudo pra nos matar".


Zé Calabros bateu no peito e exibiu o punho. "Eu sei. Em toda Cornália, não tem montanha mais alta do que Severino Barriga D'Água. E eu tô pronto pra desafiar o sujeito!"

A seguir: Um homem chamado Barriga D'Água

Índice de Capítulos

Livro Atual
Zé Calabros na Terra dos Cornos
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As Crônicas Anímicas

© 2016 Tiago Moreira