Prévia: Capítulo 11


O fim do segundo ato se aproxima, e para reduzir (ou aumentar?) sua ansiedade, eis a prévia do Capítulo 11: Um homem chamado Barriga D'Água .


É hora de nos aprofundarmos no passado de Severino Barriga D'Água. O que alimentou sua sede de vingança? Como ele adquiriu tamanho poder? O que o fez ascender ao reinado sobre o cangaço? Quais são os objetivos do grande terror da Cornália?

As respostas se desvelam em uma semana, dia 05/05!

A noite caiu sobre a caatinga. Nuvens se concentravam ao norte, denunciando as chuvas intensas que caíam no litoral, além do horizonte. Ao sul, contudo, o céu se apresentava limpo e estrelado.


Ao longo do dia que passara, a tropa de Severino seguira a rota para o sudeste, afastando-se da costa e adentrando as vastidões ermas da caatinga. Embora planejassem alcançar a fazenda mais próxima antes de escurecer, os cangaceiros se viram forçados a acampar na estrada. Sem carroças e montarias para todos, os bandidos a pé atrasaram todo o grupo.


Os homens estavam cansados, feridos e famintos, e as rações de viagem minguavam. Um grupo de cavaleiros fora enviado adiante para buscar ajuda e suprimentos, mas até aquele momento não tinham retornado.


Severino Barriga D'Água permaneceu no acampamento para manter o moral da tropa. Com todos os seus oficiais mortos ou ausentes, queria mostrar que não abandonaria seus homens. Todos ali dariam a vida por ele, afinal, tal lealdade merecia recompensa.


Os homens armavam barracas, arapucas e postos de vigília. Erguiam também uma pilha de lenha no centro do acampamento para acender uma grande fogueira. Conforme o capitão passava para inspecionar os trabalhos, cangaceiros batiam continência e saudavam: "Vida e morte, Severino!".


Em contraponto ao tom melancólico da tropa, o Rei do Cangaço se mantinha altivo e inabalável, inspirando admiração e temor. Ali, ele era mais do que homem ou capitão. Severino era intocável, invencível, imorredouro. Era, com seus chifres e olhos incandescentes, o demônio em pessoa.



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Em Bota do Judas, a tempestade se intensificava. Na casa-grande dos Meneses, um relâmpago iluminou a sala de jantar, seguido pouco depois por seu trovão.


Sob a luz dos lampiões, Coronel Raimundo Meneses baixou a cabeça e levou ao queixo sua mão esquerda, a única que lhe restava. "Você quer saber sobre o passado de Severino? Por quê?", perguntou a Zé Calabros. "Que diferença isso faz?"


"Um cabra como ele não vem de qualquer lugar, nem fica tão forte à toa", Zé respondeu. "Não vou encarar o sujeito às cegas, que não sou tão burro quanto pareço. E você teve um papel na história dele, coronel, você matou o pai de Severino! Então, conta tudo, sem esconder nada!"


Raimundo Meneses respirou fundo, recobrando os detalhes de um tempo já tão longínquo.


Notando o desconforto do pai, André Meneses tentou tomar seu lugar. "O pai de Severino trabalhou pra meu pai", disse.


O coronel interrompeu o filho, porém. "Deixa que eu conto, André, que essa história não é vergonha nenhuma minha. Matei o pai de Severino sim, já faz muito tempo. Mas pra tudo fazer sentido, vocês precisam saber de onde ele veio e que tipo de homem era. Vocês já ouviram falar da Velha Rota, imagino."


Mara'iza foi a única a demonstrar ignorância. "Explique-me o que é isso, por favor."


"É a outra maneira de deixar a Cornália", disse Zé.


"Outra maneira?", ela questionou. "Mas Madre Mirna me disse que a única passagem era por São Vatapá."


"São Vatapá é a única saída segura, e leva pro leste, pra Dragona", explicou Coronel Garrancho, "mas se você seguir as estradas pro coração da caatinga, chega eventualmente a uma vila chamada Abaetê do Sul. É um lugar meio esquecido, longe de qualquer rio".


Meneses deu sequência: "Abaetê é terra da família Ferroso, e só existe por causa do minério que é abundante por lá. Há muito tempo, os Ferrosos sonhavam em abrir um caminho pr'além da Catinga Danada, atravessando o sertão até os reinos ricos no sul distante."


"Era pra ser chamada de Rota Prometida", disse Garrancho. "Só que é uma jornada longa por terra inclemente. Pouca gente conseguia cruzá-la, e o comércio não vingou porque não valia a pena arriscar a vida ali. A trilha acabou esquecida e virou a Velha Rota."


"Quando a rota ainda era explorada", continuou Meneses, "acharam água no solo, lá no meio do caminho. Ali o povo formou uma currutela, sonhando em enricar longe dos coronéis quando aquilo virasse um entreposto comercial. Só que o comércio não vingou, a riqueza nunca veio, e sobrou só o vilarejo paupérrimo no meio do sertão".


"Já ouvi falar desse lugar, chamavam de Seu Menino do Meio do Caminho", disse a Coronel Malícia. "O pai me contou quando eu era criança bem pequena, dizia que era terra sem lei, de bandidos e arruaceiros. Eu nem imaginava que ainda existia."


"Não sei se hoje em dia ainda tem algo por lá", Meneses prosseguiu, "mas faz quase trinta anos que apareceu por aqui um sujeito daquelas bandas, um homem chamado Barriga D'Água".



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Severino Barriga D'Água fitava o horizonte ao sul, onde o céu permanecia desobstruído.


"Capitão", um dos cangaceiros se aproximou, "os preparativos estão prontos".


A princípio, o Rei do Cangaço se irritou com a aparente impertinência e quebra de hierarquia do rapaz. Contudo, antes que o repreendesse, deu-se conta de que não havia nenhum oficial no acampamento a quem os homens pudessem reportar. "Tá muito bem, então, eu já vou pra lá", disse Severino, então questionando: "Qual é seu nome, rapaz?".


"Meu nome de cangaço é Chassi de Grilo, capitão!", respondeu.


"Chassi de Grilo", Severino se virou para encará-lo através daqueles óculos refletivos. "Quem mandou vosmecê falar comigo?"


"Vim por conta própria, capitão", ele respondeu, tremendo de medo diante do escrutínio, "porque os outros não queriam te apoquentar. A gente não sabia o que fazer, já que sempre tratou direto com Virgulino ou com Mané."


Bom, pensou Severino, sem os oficiais por perto, ele teria que se atentar aos homens que demonstrassem liderança ou iniciativa para formar nova hierarquia. "Vosmecê vai ficar do meu lado, então, pra passar minhas ordens aos outros."


"Sim, capitão!", Chassi de Grilo bateu continência, ao mesmo tempo nervoso e empolgado com a nova atribuição.


"Avisa todo mundo que vou num minuto", Severino mandou, depois deu as costas.


O rapaz obedeceu e saiu, retornando ao centro do acampamento.


Com ódio ardendo no peito, tão forte quanto o sol da Cornália, Severino mais uma vez se voltou ao sul, ansiando pelas regiões mais agrestes da caatinga. Afinal, nascera e crescera na desolação da Velha Rota, antes de conhecer a civilização e suas mentiras. Depois, retornara aos sertões para aprender a ser homem. Sua vida foi de secura e privação, mas o sofrimento deu-lhe propósito e tornou-o forte o bastante para destruir aquele mundo injusto.


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Zé Calabros na Terra dos Cornos
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As Crônicas Anímicas

© 2016 Tiago Moreira