Capítulo 11: Um homem chamado Barriga D'Água

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A noite caiu sobre a caatinga. Nuvens se concentravam ao norte, denunciando as chuvas intensas que caíam no litoral, além do horizonte. Ao sul, contudo, o céu se apresentava limpo e estrelado.


Ao longo do dia que passara, a tropa de Severino seguira a rota para o sudeste, afastando-se da costa e adentrando as vastidões ermas da caatinga. Embora planejassem alcançar a fazenda mais próxima antes de escurecer, os cangaceiros se viram forçados a acampar na estrada. Sem carroças e montarias para todos, os bandidos a pé atrasaram todo o grupo.


Os homens estavam cansados, feridos e famintos, e as rações de viagem minguavam. Um grupo de cavaleiros fora enviado adiante para buscar ajuda e suprimentos, mas até aquele momento não tinham retornado.


Severino Barriga D'Água permaneceu no acampamento para manter o moral da tropa. Com todos os seus oficiais mortos ou ausentes, queria mostrar que não abandonaria seus homens. Todos ali dariam a vida por ele, afinal, tal lealdade merecia recompensa.


Os homens armavam barracas, arapucas e postos de vigília. Erguiam também uma pilha de lenha no centro do acampamento para acender uma grande fogueira. Conforme o capitão passava para inspecionar os trabalhos, cangaceiros batiam continência e saudavam: "Vida e morte, Severino!".


Em contraponto ao tom melancólico da tropa, o Rei do Cangaço se mantinha altivo e inabalável, inspirando admiração e temor. Ali, ele era mais do que homem ou capitão. Severino era intocável, invencível, imorredouro. Era, com seus chifres e olhos incandescentes, o demônio em pessoa.



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Em Bota do Judas, a tempestade se intensificava. Na casa-grande dos Meneses, um relâmpago iluminou a sala de jantar, seguido pouco depois por seu trovão.


Sob a luz dos lampiões, Coronel Raimundo Meneses baixou a cabeça e levou ao queixo sua mão esquerda, a única que lhe restava. "Você quer saber sobre o passado de Severino? Por quê?", perguntou a Zé Calabros. "Que diferença isso faz?"


"Um cabra como ele não vem de qualquer lugar, nem fica tão forte à toa", Zé respondeu. "Não vou encarar o sujeito às cegas, que não sou tão burro quanto pareço. E você teve um papel na história dele, coronel, você matou o pai de Severino! Então, conta tudo, sem esconder nada!"


Raimundo Meneses respirou fundo, recobrando os detalhes de um tempo já tão longínquo.


Notando o desconforto do pai, André Meneses tentou tomar seu lugar. "O pai de Severino trabalhou pra meu pai", disse.


O coronel interrompeu o filho, porém. "Deixa que eu conto, André, que essa história não é vergonha nenhuma minha. Matei o pai de Severino sim, já faz muito tempo. Mas pra tudo fazer sentido, vocês precisam saber de onde ele veio e que tipo de homem era. Vocês já ouviram falar da Velha Rota, imagino."


Mara'iza foi a única a demonstrar ignorância. "Explique-me o que é isso, por favor."


"É a outra maneira de deixar a Cornália", disse Zé.


"Outra maneira?", ela questionou. "Mas Madre Mirna me disse que a única passagem era por São Vatapá."


"São Vatapá é a única saída segura, e leva pro leste, pra Dragona", explicou Coronel Garrancho, "mas se você seguir as estradas pro coração da caatinga, chega eventualmente a uma vila chamada Abaetê do Sul. É um lugar meio esquecido, longe de qualquer rio".


Meneses deu sequência: "Abaetê é terra da família Ferroso, e só existe por causa do minério que é abundante por lá. Há muito tempo, os Ferrosos sonhavam em abrir um caminho pr'além da Catinga Danada, atravessando o sertão até os reinos ricos no sul distante."


"Era pra ser chamada de Rota Prometida", disse Garrancho. "Só que é uma jornada longa por terra inclemente. Pouca gente conseguia cruzá-la, e o comércio não vingou porque não valia a pena arriscar a vida ali. A trilha acabou esquecida e virou a Velha Rota."


"Quando a rota ainda era explorada", continuou Meneses, "acharam água no solo, lá no meio do caminho. Ali o povo formou uma currutela, sonhando em enricar longe dos coronéis quando aquilo virasse um entreposto comercial. Só que o comércio não vingou, a riqueza nunca veio, e sobrou só o vilarejo paupérrimo no meio do sertão".


"Já ouvi falar desse lugar, chamavam de Seu Menino do Meio do Caminho", disse a Coronel Malícia. "O pai me contou quando eu era criança bem pequena, dizia que era terra sem lei, de bandidos e arruaceiros. Eu nem imaginava que ainda existia."


"Não sei se hoje em dia ainda tem algo por lá", Meneses prosseguiu, "mas faz quase trinta anos que apareceu por aqui um sujeito daquelas bandas, um homem chamado Barriga D'Água".



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Severino Barriga D'Água fitava o horizonte ao sul, onde o céu permanecia desobstruído.


"Capitão", um dos cangaceiros se aproximou, "os preparativos estão prontos".


A princípio, o Rei do Cangaço se irritou com a aparente impertinência e quebra de hierarquia do rapaz. Contudo, antes que o repreendesse, deu-se conta de que não havia nenhum oficial no acampamento a quem os homens pudessem reportar. "Tá muito bem, então, eu já vou pra lá", disse Severino, então questionando: "Qual é seu nome, rapaz?".


"Meu nome de cangaço é Chassi de Grilo, capitão!", respondeu.


"Chassi de Grilo", Severino se virou para encará-lo através daqueles óculos refletivos. "Quem mandou vosmecê falar comigo?"


"Vim por conta própria, capitão", ele respondeu, tremendo de medo diante do escrutínio, "porque os outros não queriam te apoquentar. A gente não sabia o que fazer, já que sempre tratou direto com Virgulino ou com Mané."


Bom, pensou Severino, sem os oficiais por perto, ele teria que se atentar aos homens que demonstrassem liderança ou iniciativa para formar nova hierarquia. "Vosmecê vai ficar do meu lado, então, pra passar minhas ordens aos outros."


"Sim, capitão!", Chassi de Grilo bateu continência, ao mesmo tempo nervoso e empolgado com a nova atribuição.


"Avisa todo mundo que vou num minuto", Severino mandou, depois deu as costas.


O rapaz obedeceu e saiu, retornando ao centro do acampamento.


Com ódio ardendo no peito, tão forte quanto o sol da Cornália, Severino mais uma vez se voltou ao sul, ansiando pelas regiões mais agrestes da caatinga. Afinal, nascera e crescera na desolação da Velha Rota, antes de conhecer a civilização e suas mentiras. Depois, retornara aos sertões para aprender a ser homem. Sua vida foi de secura e privação, mas o sofrimento deu-lhe propósito e tornou-o forte o bastante para destruir aquele mundo injusto.



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"O nome verdadeiro dele era Adamastor, sem sobrenome", continuou o Coronel Meneses, "mas o chamavam de Barriga D'Água, e o apelido acabou pegando. Era um sujeito mal-encarado, parrudo e barrigudo.


Antes de vir a Bota do Judas, ele já tinha passado por outros lugares, até arrumou confusão com os Mendes em Santa Rita, mas dos detalhes não sei nada. Vivia de bicos, bebia muito e tinha péssima reputação. Meu pai, que Padim o tenha, queria expulsar o sujeito da cidade, mas insisti que lhe arranjássemos emprego na nossa fazenda".


"Por quê?", perguntou Mara'iza, "Parece-me irresponsável, para dizer o mínimo, dar assistência a um indivíduo desses".


"Eu me apiedei dele. Adamastor não valia um tostão furado, mas tinha um menino, e eu... eu tinha acabado de virar pai", Coronel Meneses respondeu, pousando a mão no ombro de seu filho, André. "Fiquei compadecido, queria ajudar o menino e achava que o tal do Barriga D'Água se corrigiria se alguém lhe estendesse a mão."


Zé Calabros questionou: "O filho dele era Severino, então?"


Meneses indicou que sim com a cabeça. "Severino era um molequinho mirrado, de uns sete ou oito anos, não me lembro direito. A mãe morreu quando ele era ainda muito pequeno, lá na secura da Velha Rota. Vivia na rua, furtando comerciantes, e apanhava quando o pai bebia demais."


"Que tristeza", murmurou o Coronel Garrancho. "Não é de admirar que Severino se tornou um bandido."


"Pobreza não torna ninguém bandido", Zé Calabros contestou num tom austero. "Pro cabra formar bando e sair matando tem que ter a cabeça cheia de ideia troncha."


"Isso veio do pai", disse Meneses. "Empreguei Adamastor Barriga D'Água, coloquei Severino pra aprender na escolinha da fazenda e cedi um casebre pra morarem. Só que Adamastor era invejoso e ressentido, não tinha gratidão nenhuma. Encheu a cabeça do filho com caraminholas."



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Saudado pelo bando, Severino Barriga D'Água se aproximou do centro do acampamento, onde a grande fogueira estava pronta para ser acesa. Chassi de Grilo estendeu-lhe uma tocha incandescente, que o Rei do Cangaço tomou para si e ergueu no ar. "Vida e morte!", bradou.


"Vida e morte, Severino!", urrou a centena de cangaceiros em resposta.


"Companheiros, tamos aqui pra homenagear nossos mortos", Severino discursou, "Na noite de ontem, a gente sofreu uma derrota quando távamos com a vitória nas mãos. Coronel Meneses ia sofrer nossa justiça, e Bota do Judas tava quase libertada! Cês devem tá se perguntando: O que diabos aconteceu?".


Ninguém ousou responder.


O Rei do Cangaço então prosseguiu: "Foi a tempestade, que roubou nossa pólvora e armas? Sim, mas não só isso. Foi a gente que baixou a guarda com a vitória nas mãos? Também, mas não foi o principal.


A verdade é que os coronéis reagiram e vieram com tudo pra cima da gente! Daqui pra frente, não vão nos dar trégua! Mas isso, homens, é desespero de bicho acuado! Eles sabem que acabou a era dos coronéis! Eles sabem que a gente vai finalmente trazer justiça pra essa terra! A gente não perdeu! A batalha de ontem foi o começo da nossa vitória!".


Os homens vibraram.


Severino balançou a tocha, pedindo a palavra e contendo a empolgação da tropa. "Mas a gente tem que tá preparado, que inimigo desesperado luta com mais afinco! E coronel, então, é capaz de tudo, não tem moral nem piedade. Vou contar pr'ocês o que vivi com os coronéis!


Eu cresci no sertão, numa terra que só tinha miséria e morte. Lá, as pessoas se matavam por migalhas e restos e morriam de doença às pencas. O povoado ficou assim porque tinha se formado pra não depender dos coronéis. Daí, eles não deixaram o povo viver em paz, livre, e fizeram de tudo contra a gente. Roubaram nossas riquezas até sobrar só morte e fome.


Um dia, meu pai quis me dar uma vida melhor. A gente veio parar em Bota do Judas, e meu pai, no desespero, se sujeitou a trabalhar pro desgraçado do Coronel Meneses. A gente vivia num casebre caindo aos pedaços, sem o que comer. O pai trabalhava de sol a sol, mas nunca chegava dinheiro em casa. Já o coronel vivia naquele casarão, comendo bem, com a riqueza feita pelos serviçais explorados.


Um dia, meu pai se cansou e resolveu que a gente ia tentar vida nova em outro lugar. Ele foi lá pra casa-grande pegar o que era dele por direito, o que ele construiu com o trabalho dele, pra modo da gente partir. Só que o Coronel Meneses não aceitava que um empregado fosse embora! Ele matou meu pai com um tiro na testa, e eu vi tudo! Eu vi tudo!


Pra coronel, a gente existe pra trabalhar, pra ser explorado e ficar na miséria, enquanto ele tem a vida boa, sem trabalho nenhum! Coronel é assassino! É ladrão! Coronel não é gente, coronel é diabo! É esse inimigo que a gente tá enfrentando, homens!


E pra piorar, tem o povo enganado, que acha que o coronel é justo. E tem os enricados, que puxam o saco de coronel pra ter dinheiro, e em troca ajudam a manter o povo manso. A gente não pode arrefecer, tem que lutar pra matar, pra destruir essa corja toda e libertar o povo.


Vou perguntar de novo! Cês tão comigo?"


E o coro respondeu: "Vida e morte, Severino!".


Severino apontou a tocha para a fogueira que aguardava ser acesa. "Essa fogueira é pra homenagear os companheiros que caíram lutando e pra lembrar que a gente ainda vai ter muita morte pela frente. Ontem, perdemos Virgulino e Mané, bem como muitos outros."


O pesar tomou a tropa após a menção aos oficiais perdidos. Todos sentiriam falta de Virgulino e Mané, verdadeiros heróis da causa.


"Que essa fogueira seja uma luz pra guiar os nossos até Padim lá no céu!", gritou Severino, que então jogou a tocha sobre o óleo e a lenha. "E lembrem-se, homens, que enquanto a gente lutar, o sacrifício deles não vai ser em vão!"


A fogueira brilhou intensamente na noite escura, e os homens bradaram aos céus várias vezes. Entre eles foi passada a aguardente, para beberem em despedida e honra aos mortos. Tocaram então a sanfona, a princípio melancólica.


Aos poucos, contudo, a tristeza foi se tornando alegria. A música se intensificou, a sanfona ganhou a companhia da zabumba, e vários cangaceiros se puseram em fila para dançar o xaxado, arrastando as alpercatas e empunhando armas como parceiras. Essa era a tradição do cangaço: festejar a vida e a morte, sem medo nem de um nem do outro.


Severino permaneceu austero, fitando a fogueira ardente. Sabia que os momentos alegres eram importantes para o moral da tropa, mas não compartilhava deles. Seu coração não necessitava de alegria, a raiva bastava para mantê-lo batendo.



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"O Barriga D'Água era uma influência ruim na fazenda", Coronel Meneses continuou. "Não gostava de trabalhar, vivia de mexerico e maldizia os outros, especialmente os de minha família. E sempre culpava os outros pelas dívidas e dificuldades que passava."


Zé Calabros se lembrou de Trambico Braz. "De gente assim Cornália tá cheia! Tive que tratar com um desses lá em Curva do Vento uns dias atrás."


"E o sujeito era violento, especialmente quando bebia", Meneses seguiu. "Criava confusão com os empregados, ameaçava pessoas, descontava no filho. Discuti muitas vezes com ele, era um sujeito problemático. Meu pai queria demitir o cabra e expulsá-lo da cidade, mas eu discordava e até encobria as coisas. Eu achava que ele podia mudar, e não queria prejudicar os estudos de Severino."


"Não adianta querer mudar as pessoas, são elas que precisam querer. Cada um escolhe seu caminho, mas dificilmente muda depois", disse Zé Calabros. "Esse cabra veio podre lá do sertão, cheio de raiva. Pra ele, era mais fácil culpar os outros do que lutar pra subir na vida. Gente assim não quer mudar!"


"Sim", concordou Meneses. "Barriga D'Água trabalhou pra gente por três anos, e foi piorando com o tempo. Bebia cada vez mais e ficou ainda mais violento. Faltava tanto ao trabalho, que meu pai o mandou embora, mas deixei que ficasse com a casa desde que mantivesse o menino na escola. Foi aí que tudo degringolou.


Uma noite, o desgraçado chamou uns vagabundos pra roubar minha família. Eles mataram um jagunço e entraram na casa-grande durante a madrugada. Meu pai e meu irmão mais novo foram ver o que tava acontecendo, e o Barriga D'Água esfaqueou os dois. Meu irmão morreu, meu pai ficou muito ferido. Os jagunços pegaram os invasores e me chamaram.


Aqui em Bota do Judas, quem tenta matar o coronel é punido com a morte. Meu pai tava muito mal, eu tinha que fazer cumprir a lei. Levei os invasores pra fora da casa e matei cada um com um tiro na testa.


No dia seguinte, fui buscar o menino, mas ele já tinha sumido no mundo. Só depois soube que Severino tava no bosque naquela noite, vendo tudo. O desgraçado do pai tinha trazido o menino com ele, iam fugir depois do assalto.


Fiquei muito triste com aquilo tudo, mas já não tinha mais o que fazer. Quando ouvi de um bandido chamado Severino, anos depois, não liguei uma coisa com a outra. Só fui me dar conta de que era o menino quando ele também passou a se chamar Barriga D'Água."


Meneses se calou logo depois, incomodado pelas memórias que o assombravam. Seguiu-se um silêncio desconfortável, e Zé Calabros estoicamente fitou o coronel.


Num tom incomodado, Meneses fitou Calabros de volta e questionou: "Você acha que sou culpado pelo que Severino se tornou, não acha?".


"Não", disse Zé. "Com ou sem você, Severino ainda ia ser filho do Barriga D'Água. Não tinha muito jeito de mudar isso."



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A fogueira ardia intensamente, mesmerizando Severino. Os óculos refletivos protegiam os olhos dele da luminosidade do fogo ao mesmo tempo em que o permitiam ver na escuridão. As chamas o faziam se recordar dos companheiros perdidos.


Lembrou-se de Mané do Cangaço, seu número dois no bando. Conhecera-o ainda menino nas ruas de Bota do Judas, logo após fugir do Coronel Meneses. Juntos aprenderam a sobreviver, roubar, brigar e matar. Foi Mané quem sugeriu que formassem um bando.


Em seguida, o Rei do Cangaço pensou em Virgulino Cornoaldo, também conhecido como Capoeiro por lutar com os pés. Virgulino entrou jovem e inseguro para o bando há quase quinze anos. Com o tempo, tornara-se forte de corpo e espírito. Sua lealdade era inquestionável, sua fé em Severino inabalável. Viveu e morreu conforme a lei do cangaço.


Veio então uma terceira memória, mais antiga, que sempre assombraria Severino: Maria Formosa, de tão grande beleza e fervorosa devoção. Uma mulher que, como a chama diante dele, desejava reduzir toda a Cornália a cinzas. Ele sempre se lembraria de Maria, seu grande amor...



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Coronel Adelina Malícia tomou a palavra: "Não é de meu interesse saber como Severino começou, pra modo de não ter pena do desgraçado. Sujeito ruim a gente tem que abater que nem cachorro raivoso! Mas me interessa saber como ele conseguiu tanta força. Tem até boitatá no bando dele!"


"O que é Boitatá?", questionou Mara'iza. Zé Calabros já tinha mencionado essa criatura antes, durante a travessia pelo Vale Verde, mas sem explicá-la.


"Isso é coisa do diabo, parece cobra", disse Zé Calabros. "Pode ficar enorme, tem pele forte que nem ferro, é boa pra nadar e cavar. E o pior, a bicha pode pegar fogo sem se queimar. Muito difícil de matar, já encontrei umas por aí, na mata e no sertão."


"Não vi essa criatura na batalha ontem", Mara'iza observou.


"Pois tinha um boitatá sim", a coronel falou, "e era o maior que já vi na vida, devia ter pra lá de quinze metros! Parou minha tropa praticamente sozinho!"


"Severino foi conseguindo muitos seguidores ao longo do tempo", disse o Coronel Garrancho, "mas parece que depois que saí do bando arrumou uns muito perigosos. Essa cobra deve ser coisa do Cafuzo Tição".


"É", complementou Meneses, "eu vi o Cafuzo Tição ontem. E também aquele outro bandido que tem pacto com o diabo, o tal de Petrúquio Fragoso".


"Deve ser o barbudo caolho que me puxou pra arenga", murmurou Zé, estalando os punhos. "Fazia uns truques bizarros com pedras, mas dei-lhe uma surra ainda assim!"


"E ele não tem pacto com o diabo", informou Mara'iza, "é um magista, como eu! Magia e maldição são coisas muito distintas!".


"É feiticeiro, então?", Coronel Malícia se surpreendeu. "Mas onde diabos o sujeito aprendeu a fazer feitiçaria, então? Aqui na Cornália a gente não tem escola disso."


"Trata-se de raridade, mas há pessoas com aptidão natural à magia. Desenvolvem-na inatamente, mas sem estudo seus feitiços ficam um tanto rudimentares", disse Mara. "Tenho absoluta certeza de que esse magista é naturalmente afinado com elementalismo terrestre."


"Mas Fragoso tinha seu próprio bando, por que ia seguir Severino?", Malícia questionou.


Garrancho arriscou um palpite: "Na minha época de cangaceiro, Severino procurava outros bandos pra recrutar. Desafiava e até matava os líderes, foi assim que virou Rei do Cangaço. Eu aposto que Fragoso se viu convencido a juntar forças."


"Isso pode explicar o caso do Fragoso", Coronel Meneses interrompeu, "Mas e o Cafuzo Tição? Ele sempre foi perigoso, mas nunca bandido, e nem Severino intimida aquele mandingueiro!".


"Ele é o pai de Maria Formosa", revelou Garrancho, surpreendendo os demais coronéis.


"Então é daí que veio aquela diaba!", murmurou Malícia, "isso explica muita coisa!".


"E quem é essa daí?", perguntou Zé Calabros.


"Era a mulher de Severino. Já morreu, graças a Padim!", Malícia respondeu.


"E era mandingueira, que nem o pai", Garrancho complementou.


"Mandingueiro?", Mara'iza repetiu o termo com dificuldade, em seu sotaque carregado. "Perdão, mas desconheço o termo. Do que se trata?"


"São sacerdotes de uma tradição antiga", explicou Garrancho. "Falam com animais e plantas e lançam maldições. Por estas bandas, a gente chama isso de mandinga, que pode ser boa ou má."


"Era coisa dos cafuzos", Malícia acrescentou, "um povo que vivia no sertão, lá no começo da Cornália. Muito difícil achar um puro-sangue deles hoje em dia."


Garrancho então retomou o assunto principal: "Maria Formosa era a seguidora mais devotada de Severino. Morreu anos atrás, atacando Bota do Judas, no mesmo dia em que deixei o bando. Acho que Severino e o Cafuzo Tição me culpam, mas não tive nada a ver com a morte dela."


Coronel Meneses externou uma preocupação. "Um feiticeiro e um mandingueiro. Fico pensando aqui com meus botões: que vantagem mais Severino tem que ainda não sabemos?"



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"Maria", Severino murmurou diante da chama, perdido nas memórias da juventude. Ele e Mané mal tinham começado o bando, quando ouviram falar do velho cafuzo ermitão. Para ter sua vingança, Severino queria fechar o corpo com mandinga, então procurou a benção do sábio do agreste.


Tição e a filha desdenhavam das cidades, viajavam de canto em canto. Eram puros de intenção, sem a subserviência aos coronéis ou a necessidade de dinheiro. Quando Severino os encontrou, Tição disse que não poderia fechar-lhe o corpo, mas ensinou-lhe o caminho para se tornar invencível. Severino se submeteu às provações impostas e, cada vez mais forte, continuou a visitar Tição ano após ano, em busca de novos desafios. O velho cafuzo, porém, se recusava a fazer parte do bando.


Maria, por outro lado, sonhava com uma Cornália refeita, retornada a uma vida mais simples em que dinheiro nada significasse. Quando Severino partiu, após a primeira lição de Tição, ela o seguira sob a benção do pai. Tornaram-se amantes e lideraram o bando juntos por muitos anos. Os cangaceiros a chamavam "Formosa" por sua beleza ebânea e selvagem.


Maria morrera há nove anos, uma perda que para sempre marcaria o Rei do Cangaço. Desde então, ele recrudescera ainda mais, fechara seu coração para qualquer coisa que não fosse a raiva. Pior, jamais poderia vingá-la de verdade, pois os estrangeiros que a mataram partiram há muito tempo. Restava apenas a possibilidade de vingar-se do traidor, Samuel Garrancho.


"Capitão?", chamou-o Chassi de Grilo, que se aproximava cautelosamente.


Saindo de seu transe, Severino se virou para fitar o subalterno. A figura encolhida e intimidada do capanga se refletiu nas lentes de seus óculos.


"Capitão", gaguejou o rapaz, "os homens que ocê mandou pra buscar mantimentos voltaram, mas tem mais gente com eles, e um faz questão de te ver."


"Acho que sei quem é, vou lá tratar com ele", disse o Rei do Cangaço. Tomou então a dianteira e se pôs a caminhar para a beira do acampamento.


A estrada adiante passava por Beira da Larica, a fazenda em que a tropa descansaria se não se atrasasse na estrada. Quase dois anos antes, Severino matara o dono das terras, Coronel Hermenegildo Bocarra, e deixara um preposto para cuidar do povo de lá. Era esse aliado, um homem de sua total confiança, que esperava encontrar logo adiante.



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Dona Graça e uma empregada adentraram a sala de jantar, trazendo bebidas aos coronéis em reunião. "Avisem-me assim que terminarem", ela instruiu ao filho André, "pra eu buscar a janta e chamar o resto da família". Os presentes agradeceram, depois continuaram a discussão tão logo as duas se ausentaram.


"É, não dá pra subestimar Severino", disse Coronel Malícia. "O bando dele sempre surpreendeu a gente."


"Severino é um cabra arguto", observou Coronel Garrancho. "Ficou se preparando por anos, juntando dinheiro, armas e gente. De começo, só saqueava as cidades maiores, sempre com ataques rápidos e usando menos homens do que tinha à disposição. Fazia questão do bando parecer pequeno."


Coronel Meneses então concluiu: "Por isso que ninguém tava preparado para enfrentar o bandido depois que Coronel Tibúrcio caiu. Severino aproveitou a bagunça que Cornália virou naquela época pra tomar as fazendas mais isoladas. Quando a gente percebeu, já dominava as quatro rotas entre o Velho Chico e o Catengão".


"Ele já vinha atrapalhando as caravanas pro leste desde então, mas depois se moveu pr'além do Catengão", acrescentou Malícia. "Aí, faz quase um ano, conquistou São Vatapá do Norte e bloqueou o comércio com Dragona."


"Ele sabia que não dava de começar pelas cidades do Vale Verde", disse Garrancho. "Curva do Vento, Bota do Judas e Santa Rita são todas muito próximas, podiam se ajudar. Então primeiro conquistou São Vatapá, lá na ponta da Cornália, distante de todo mundo."


"Disso tudo eu sei", interrompeu Zé Calabros. "Viajei por toda Cornália nos últimos cinco anos, o povo ia me contando as coisas conforme aconteciam. O que quero saber é da minha Itapopó da Mata e de Vatapá do Sul."


Coronel Meneses explicou: "Itapopó da Mata está nas mãos de Garrancho, isso você deve saber. Vatapá do Sul foi ocupada pelos cangaceiros pouco depois que Tibúrcio Mendes caiu."


"Não, Coronel Meneses. Digo, Raimundo", Garrancho se corrigiu, depois murmurou: "Ele fala dos dragões que devastaram as duas vilas".


"Isso mesmo", Zé confirmou. "Quero saber o que Severino teve a ver com eles."


"Isso é loucura", Meneses retrucou, "não há como Severino controlar aquelas criaturas! Por que você acha que ele teria algo a ver com o ataque?"


"Porque o cangaceiro das tranças disse que tinha", Calabros respondeu. "E eu tava lá quando aconteceu. Os cangaceiros chegaram logo depois que os dragões se foram."


Malícia os interrompeu. "Oxente, não faz sentido! Os volkoritas não obedecem ninguém! Praqueles lagartos cabrunquentos, não tem diferença entre cangaceiro, camponês ou gado!"


"Faz sentido sim", Garrancho contestou, "se você considerar onde Severino fez seu esconderijo."


"O esconderijo que você nunca quis revelar", Meneses lembrou.


"Sim, o bando tava logo onde os volkoritas teriam mais medo de atacar", respondeu Garrancho, que então surpreendeu a todos: "Severino se escondia no Forte Viracopos".



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Dois carros de boi aguardavam no limite do acampamento, acompanhados por quatro cangaceiros a cavalo. Severino Barriga D'Água chegou logo, seguido pelo jovem auxiliar, Chassi de Grilo. Sob a luz dos lampiões, bastava a silhueta demoníaca do Rei do Cangaço para intimidar os camponeses que conduziam as carroças.


O homem que se sentava ao lado do condutor do primeiro veículo, porém, não tinha medo. Pelo contrário, se levantou de braços abertos para recepcionar o capitão. "Padim seja louvado, Rei do Cangaço, e que te abençoe sempre!", o sujeito disse em voz esganiçada.


Severino Barriga D'Água exibiu um raro e discreto sorriso. "Frei Militão, é sempre bom ver vosmecê!"


Frei Militão usava óculos de armação grossa e era baixo, mulato e de cabelos muito curtos. Vestia a batina vermelha e branca típica dos sacerdotes do Divino Pai, mas as vestes estavam encardidas e maltratadas. Desceu do carro de boi e, com lampião em mãos, cumprimentou o Rei do Cangaço reverentemente. "Trago-lhe comida, bebida e medicamentos, bem como minha assistência, Severino, meu rei."


"Chassi de Grilo!", Severino chamou o capanga. "Pega uns homens pra descarregar as carroças e avisa os tarefeiros pra distribuírem os suprimentos."


"Sim, meu capitão!", o rapaz bateu continência e se pôs a obedecer.


Severino então se voltou novamente ao sacerdote. "Como estão as coisas em Beira da Larica, Militão?"


"A seca anda forte, meu rei, e passamos por muita dificuldade", respondeu, "mas o povo se compadece com a luta de vocês, nossos salvadores! Todos ficaram mais do que felizes em mandar essa ajuda! Aí tem mais que o suficiente para a noite, e quando sua tropa passar pela fazenda amanhã, podem pegar mais, pra ter o bastante pra toda a viagem!"


"A gente vai por essa ajuda em bom uso", agradeceu Severino. "A tropa tá cansada, precisa voltar logo a São Vatapá pra modo de se recuperar. A guerra com os coronéis tá só começando!"


O sacerdote pigarreou, perguntando em seguida: "Perdão pela curiosidade, meu rei, mas se mal não pergunto, como foi a campanha em Bota do Judas? O Coronel Meneses já foi levado à justiça de Padim?"


"Meneses fí-de-quenga escapuliu de minhas mãos!", Severino respondeu, a raiva transparecendo em cada palavra. "Os coronéis estão desesperados e se uniram contra a gente. Agora a guerra vai ser pra valer, e o sangue vai lavar todo o sertão!"


Frei Militão não escondeu a frustração com a notícia, mas reuniu palavras de encorajamento. "Não se preocupa, meu rei, que o Divino Pai está do seu lado! Você vai libertar nosso povo e trazer justiça pras nossas terras! Cornália será a terra prometida, finalmente! Os coronéis não têm chance alguma!"


Severino então revelou: "Tô me lixando pros coronéis, Militão, que o tempo deles já tá no fim! O que me aporrinhou de verdade foram dois desgraçados da moléstia que apareceram do nada. Não fossem eles, a vitória já tinha acontecido ontem mesmo, lá em Bota do Judas!".


"Mas quem são esses sem-pai que se puseram no caminho da justiça, meu rei?", Militão perguntou indignado. "Conte-me tudo, por favor! Não me esconda nada sobre esses malditos!"


Severino confiava no Frei Militão, um homem santo que via a necessidade da luta armada. Por anos, o sacerdote o ajudara a arregimentar soldados entre os injustiçados. Fora também ele quem, quinze anos atrás, quebrara seus votos e revelara a Severino o segredo do esquecido Forte Viracopos.


"Muito bem, Militão", disse o Rei do Cangaço, "vosmecê já ouviu falar de Zé Calabros?".



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"Filho de uma égua!", Zé Calabros bateu na mesa. "O desgramado se escondia em Viracopos!"


"Mas como ele chegou ao forte?", perguntou Coronel Meneses. "Os registros foram perdidos, ninguém nunca mais encontrou o lugar!"


"Não faço ideia", disse Garrancho. "O forte fica sobre uma ilhota voadora, movendo-se com a época do ano. Pra achar a rota, Severino e os oficiais procuravam um certo vento sul..."


"Pouco me importa como chegar lá", Zé interrompeu, já impaciente. "Como os dragões entram nessa história?"


Garrancho pausou por um instante. "Está bem, Zé, está bem", ele suspirou profundamente. "É um causo difícil até de acreditar, mas por favor se lembre que é de antes da minha época no bando. Eu ouvi a história muitas vezes, sempre a repetiam pros novatos, usavam pra mostrar que Severino tava destinado à grandeza.


Era mais ou menos assim: uns meses depois que Severino encontrou o Forte Viracopos, teve uma noite em que o bando acordou com urros monstruosos por toda parte. Os sentinelas olharam pros céus e viram as baforadas de chama e uma infinidade de sombras no céu estrelado.


Eram dragões volkoritas, numa quantidade como nunca se viu antes. Ninguém sabia porque estavam ali, naquela noite, nem se aquilo era frequente naquele sertão amaldiçoado. Sem saber o que fazer, os homens, desesperados, correram até Severino.


Foi Maria Formosa que explicou: 'Seu bando de covarde, a gente tá pisando em Viracopos! Pra dragão, duzentos anos é um piscar de olho, eles nem devem de ter noção do tempo que passou! Se não atacaram ainda é porque são eles que estão com medo, e se ninguém for lá fora desafiar os desgramados, vão criar coragem e atacar'.


Severino, vendo que os homens tavam se borrando todos, falou: 'Vocês estão com medo? Pois medo só conheço de ouvir falar, nunca me foi apresentado!'. Daí pegou a espingarda, o revólver e o facão e foi lá fora. Os únicos que tiveram coragem de sair com ele foram Maria Formosa e Mané do Cangaço.


Severino seguiu até o pátio e acenou com um lampião, pra modo dos dragões verem que ele tava ali, sem medo nenhum deles. Um dos maiores desceu e pousou fazendo tudo tremer. Daí o monstro provocou: 'Só três humanos? É isso que restou de Viracopos?'.


E Severino tirou o chapéu e encarou o dragão, fez o bicho olhar no olho dele. Quando o monstro não viu medo nenhum na cara de Severino, recuou todo assustado, sem certeza se aquele montão de dragões tinha alguma chance de vencer.


E foi aí que Severino teve uma ideia. 'O povo da Cornália não tá mais do nosso lado', ele disse, 'A gente vai deixar vocês passarem. Se seguirem o vento pro norte, vão achar dois vilarejos que traíram a nossa confiança. Podem fazer o que quiserem lá, pra modo de ensinar uma lição àquele povo ingrato. Mas a gente só vai dar passagem desta vez! Depois, não voltem nunca mais!'.


E os dragões tiveram tanto medo de Severino que nem teimaram em escafeder dali. Preferiram aproveitar a chance a arriscar uma luta. Seguiram o vento e acharam Itapopó da Mata pro noroeste e Vatapá do Sul pro nordeste. E Severino foi logo atrás, pra saquear o que restasse.


Aliás, foi nesse episódio que nasceu o grito de guerra do bando. Quando os dragões partiram sem lutar e os homens saíram maravilhados de dentro do forte, Severino perguntou: 'E agora, seus covardes, ainda estão com medo? Ou estão comigo?'.


E eles responderam sem hesitar: 'Na vida e na morte, Severino'."



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"Você está sendo testado, Severino", disse Frei Militão, após ouvir toda a história. "É nessas horas que nossa fé não pode fraquejar."


"Fraquejar? Vosmecê tá me entendendo errado, Militão", retrucou Severino. "Não sei o que é fraqueza, nem medo, nem morte. Esses Zé Calabros e Azumi Mariza não me ameaçam, só me deixaram mais puto."


"Sei muito bem quem você é, meu rei. Eu não revelaria o segredo de Viracopos a qualquer um", disse o sacerdote. "Você é o filho de toda injustiça dessa terra, é sua a mão da retribuição! Quando te conheci, disse a mim mesmo: 'dentre os santos, este menino será um dos grandes'. Mas, ainda assim, esses dois novos inimigos não são pra se subestimar!"


"Eles só estão vivos porque a tropa dos coronéis tá no meu caminho, Militão", O Rei do Cangaço retrucou. "Uma hora, vou pegar os dois de frente, e aí te juro que trucido os desgraçados, ou não me chamo Severino Barriga D'Água!"


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A reunião já se delongava. Os coronéis então passaram a planejar seus próximos passos. Concluíram que Severino retornaria a São Vatapá do Norte, e que a melhor maneira de derrotá-lo seria contra-atacar o quanto antes.


Meneses praticamente não tinha mais homens à disposição, mas pediu que o filho, André, tomasse seu lugar na ofensiva contra os cangaceiros. "Meu filho, em breve você será coronel", disse, "e já não tenho mais condições de lutar. É hora de você assumir a liderança."


Garrancho ainda estava com o ombro ruim, mas os curativos alquímicos já faziam efeito e logo o restaurariam. Mais cedo, enviara mensagem à esposa em Santa Rita, pedindo por mais homens. Calculava que, se viessem pelo rio, a barco, chegariam no fim do dia seguinte.


Malícia estava na posição mais vantajosa, tendo a maior tropa, menos baixas e nenhum ferimento sério. Apesar de ansiosa por perseguir Severino, aceitou aguardar alguns dias antes que avançassem pelo sertão, rumo a São Vatapá do Norte.


Os três concordaram, contudo, que o primeiro passo seria retomar a Vila Judiana, do outro lado do rio. Os cangaceiros tinham levado a maioria dos barcos na fuga da noite anterior e com certeza aguardavam em emboscada. Uma vez removidas as ameaças, a vila se tornaria o ponto perfeito para reunir as forças e seguir viagem para o leste.


Zé Calabros, porém, mal prestava atenção. Estalava os dedos e se perdia em pensamentos raivosos e memórias dolorosas.


Mara'iza, percebendo a angústia do companheiro, levou a mão ao ombro dele e sorriu gentilmente, num raro momento de empatia.


"Malinha", Zé sussurrou para não chamar a atenção dos coronéis. "Não vou ficar esperando esse pessoal se decidir, nem vou deixar essa tropa deles me atrasar. Amanhã mesmo vou atrás daquele Severino da moléstia. Você vem comigo?"


O sorriso dela, até então gentil, imediatamente assumiu aquele abominável aspecto arrogante que ele tanto detestava. Ela piscou para ele e, imitando-o, bateu o punho fechado sobre a palma da outra mão. Estava decidido.

A seguir: Eu vou te proteger

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As Crônicas Anímicas

© 2016 Tiago Moreira