Capítulo 12: Eu vou te proteger

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Após a noite tempestuosa, os primeiros raios de sol anunciavam outro dia choroso. Para os habitantes de Vila Judiana, começava outra manhã melancólica sob o julgo dos cangaceiros. Com pescadores proibidos de zarpar, comerciantes reclusos nas casas e mantimentos cada vez mais escassos, as ruas pareciam abandonadas.


A torpidez do vilarejo se quebrou, porém, quando as sentinelas no rio tocaram suas cornetas. Alertavam para a aproximação de dois pequenos veleiros vindos de Bota do Judas, na margem oposta do Chico Propício. Embora ainda distantes, as embarcações pareciam cheias de gente.


Diante do alarme, os sonolentos cangaceiros saltaram das camas e redes e pegaram as armas. Sob o chuvisco matinal, corriam para o rio, distribuindo-se nos píeres e palafitas para interceptarem os possíveis invasores antes que pudessem aportar.



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Em um dos barcos, Mara'iza praguejava sem parar: "Néscio inconsequente! Parvo estúpido!". Sua face estava tão enrubescida que parecia queimada de sol. Nas mãos tinha o embornal de Calabros, no qual nervosamente enfiava as roupas deixadas para trás. "Que ideia apalermada! Ele tinha que fazer... aquilo?"


Coronel Adelina Malícia, com espingarda em mãos, chapéu na cabeça e revólver na cintura, gargalhava descontroladamente. "Ah, Mara! Vai dizer que não foi interessante?", provocava.


Desconcertada, Mara'iza desviou o olhar e não respondeu.


André Meneses ainda procurava sinais na água. "Ele é louco!", desabafou. "Pular no rio a essa distância da margem, e embaixo de chuva! Se não se afogar, vai ser levado pro mar!"


"Tenho fé de que Zé vai ficar bem", interrompeu Coronel Samuel Garrancho. O ombro ainda não estava perfeito, mas já conseguia empunhar a espingarda. "Já, já a gente vai estar no alcance das armas dos bandidos. Atentem-se, que vem chumbo grosso aí!"


Nos dois barcos, os coronéis levavam quarenta homens, mas não tinham ideia de quantos cangaceiros os aguardavam em Vila Judiana. Dependendo do tamanho da força inimiga, talvez tivessem que recuar.


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Três dos bandidos, Taturana, Sortudo e Tamborete, correram para a casa sobre palafitas mais ao sul, cujas janelas seriam perfeitas para atirar contra os barcos. Taturana, líder do trio, bateu violentamente na porta gritando ordens. "Abram! A casa tá confiscada em nome de Severino, Rei do Cangaço!"


Um pescador de meia idade abriu a porta, implorando: "Não faz mal pra gente não, por favor!". Nos fundos da sala, que também servia de quarto, uma mulher assustada abraçava duas crianças pequenas.


"A gente só quer a casa! Saiam, que a gente não faz mal!"


Aterrorizado, o pescador meneou positivamente a cabeça e correu para puxar a mulher, enquanto os cangaceiros esperavam à porta.


Foi quando a voz furiosa de Zé Calabros veio de trás, surpreendendo os três malfeitores. "Ei, estropício, me dá suas calças!"


Tamborete e Sortudo foram agarrados e nocauteados um contra o outro antes que se voltassem ao intruso. Taturana se virou, mas a espingarda foi arrancada de suas mãos antes que atirasse, e em seguida o cangaceiro foi prensado contra a parede.


Encharcado e totalmente nu, Calabros ameaçou: "Vai baixando as calças, seu fela-d'égua!".


Imobilizado e encarando o punho do adversário, Taturana implorou: "Por favor, seu moço, me dá uma surra, mas não bolina comigo não!".


A sugestão deixou Zé indignado. "Que ideia mais troncha, ô abestado! Tá pensando o quê? Não vim aqui fazer bobiça, a única coisa que vou lhe meter é a mão na cara!".


"Ah, se for assim, então tá bom!", Taturana respirou aliviado. Prontamente, abriu o cinto e tirou as calças.


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Os barcos estavam a menos de cinquenta metros das palafitas quando os cangaceiros começaram o tiroteio. A saraivada inicial rasgou velas, abriu furos na estrutura e feriu alguns dos homens a bordo, levando-os ao chão. Logo, guardas e jagunços dispararam de volta, enquanto Mara'iza e os coronéis se protegeram atrás dos parapeitos do convés.


"Esse é meu tipo de farra!", Malícia riu, depois se levantou para disparar. O tiro de espingarda foi certeiro, derrubando um bandido no píer. Comemorando com um brado vitorioso, ela se abaixou para recarregar a arma em segurança.


Garrancho e André Meneses também revidavam fogo. "Parece haver menos bandidos do que esperávamos", comentou André.


Mara'iza se levantou e, estendendo a mão à frente, conjurou uma barreira diante de si e avaliou a situação. Notou bandidos nas cabanas e no mato junto à margem, mas muitos se concentravam no píer, protegidos por caixas, barris e pilhas de madeira. A magista sorriu discretamente ao ver um bandido ser violentamente defenestrado de uma casa ribeirinha e, sentindo o escudo arcano se esgotar, abaixou-se novamente atrás do parapeito.


"Aquele ogro idiota chegou à margem!", ela respirou aliviada, tentando esconder o sorriso. "Está nas casas à direita do barco!"


"Não acredito!", André Meneses se admirou.


"Eu sabia!", riu Garrancho. "Mandem os guardas evitarem atirar naquela direção!"


"Porreta!", exclamou Malícia, "mas agora a gente precisa duma ajudinha mágica, menina!"


"Há alvos demais, derrubar um a um a esta distância seria ineficiente e exaustivo", Mara retrucou. "Aliás, minha cara coronel, lembra-se quando, ontem pela manhã, me indagou sobre a possibilidade de concentrar mais poder num único disparo?"


"Sim", a coronel confirmou, estranhando o assunto. "Você aprendeu a fazer isso?"


"Não", Mara'iza respondeu com um sorriso arrogante. "Mas o questionamento abriu-me a mente a novas possibilidades. Acelerem essa barcaça para a doca, preciso encurtar a distância. Depois, contemplem!"


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Dois cangaceiros estavam no chão. Um terceiro fora golpeado tão forte que voara pela janela. Sob o olhar de uma família assustada, Zé Calabros deixou o casebre e caminhou pelas passagens suspensas sobre o rio, rumo à próxima moradia.


Um bandido veio da direção oposta e, confundindo Zé com um aldeão, se aproximou vociferando ofensas e ordens para recolher-se. Um soco na cara calou o meliante e lançou-o às águas abaixo.


Calabros prosseguiu. Adentrou a casa seguinte. Surpreendeu o primeiro bandido, golpeando-o na nuca. O segundo teve a mandíbula quebrada. O último sacou um facão para se defender, mas foi facilmente desarmado e nocauteado.


Zé estranhava a quantidade de cangaceiros na Vila Judiana. Os coronéis temiam encontrar uma resistência maior e mais organizada, mas uma vez que os barcos aportassem, os malfeitores seriam sobrepujados facilmente.


Ao invés de questionar-se demais sobre o assunto, Zé Calabros preferiu procurar mais cangaceiros para espancar.


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Mara'iza aguardou ansiosamente na proa do barco, protegida detrás do parapeito. Com o píer se aproximando, os guardas e coronéis começavam a ter dificuldades em deixar a cobertura para revidar fogo. Mara expôs a cabeça brevemente para verificar a distância, constatando que faltavam pouco mais de quinze metros. Ainda era muito.


A paciência de Mara se esgotara, porém, ela decidiu reduzir a distância por iniciativa própria. "Não revidem contra a doca! Em um instante, estarei lá!", gritou aos atiradores no barco, já gesticulando o próximo feitiço.


O tempo parou, e as balas que voavam acima ficaram ali, inertes em pleno ar.


Mara'iza saltou do parapeito, caindo no rio abaixo. Com o fluxo temporal paralisado, as ondas se comportavam mais como dunas de areia. A moça pousou rolando sobre as águas semi-sólidas, levantando respingos e ondas que logo se paralisavam no ar. Então, ela se levantou e correu sobre o rio.


Mara sabia que o feitiço se encerraria antes que alcançasse terra firme, mas seu objetivo era apenas encurtar a distância para o truque seguinte. Sentindo o fluxo temporal prestes a se normalizar, pegou impulso e saltou novamente. Em pleno ar, visualizou um destino apropriado a dez metros e conjurou, com um gesto simples, uma de suas novas magias.


O tempo retornou ao normal. As balas recuperaram seus movimentos, novos disparos vieram das docas, e as águas se tornaram líquidas novamente.


Antes que caísse sobre o rio, Mara desapareceu num lampejo. Num segundo clarão, ressurgiu sobre o píer, cercada por doze cangaceiros. Espantados com a súbita aparição da moça, a reação dos bandidos foi desajeitada e tardia.


Mara'iza ergueu a mão ao alto, criando sobre a palma aberta uma explosão luminosa. Do estouro de energia, voaram dezenas de setas prateadas em todas as direções. A maioria dos disparos errou os alvos, dissipando-se após viajar pouco mais do que meia dúzia de metros. As que atingiram cangaceiros e objetos explodiram ao contato.


A mente de Mara'iza retornou brevemente à manhã anterior. Coronel Malícia a questionara se não podia concentrar mais poder num único disparo. Infelizmente, Mara não conseguira tal façanha, mas aprendera a fazer o oposto, dividindo poder numa infinidade de setas. Maior número, ao custo de precisão, alcance e força.


A magista recobrou a atenção ao perceber que nem todos os cangaceiros estavam fora de combate. Embora a maioria estivesse incapacitada, dois feridos já se recuperavam do baque e um terceiro, por sorte ou habilidade, evitara totalmente os ataques e já tinha Mara na mira.


Antes que apertasse o gatilho, porém, o cangaceiro ileso tombou ao chão. Coronel Malícia, do barco, disparara uma bala certeira contra a nuca do malfeitor.


Os outros dois ainda se recobravam quando Mara conjurou lanças arcanas, uma para cada. Atingidos, um tombou inconsciente, o outro foi arremessado para o rio pela explosão.


Fora de perigo, Mara'iza se sentou para descansar. Embora ainda tivesse algum fôlego, usar tantos feitiços complexos em tão pouco tempo tinha seu preço.


Logo, o barco alcançou a doca. Liderados por Malícia, guardas e jagunços saltaram para o píer antes mesmo que a embarcação se alinhasse corretamente. Alguns deles, desastrados, erraram o pulo e caíram na água.


A coronel se aproximou de Mara'iza, claramente impressionada. "Isso que você fez foi porreta demais da conta, menina!"


"Ainda preciso melhorar o controle", Mara respondeu, ofegando um pouco, mas sem perder o olhar altivo e sorriso prepotente. Já contemplava parâmetros alternativos para aquela "tempestade arcana". Talvez reduzir a quantidade de setas e aumentar a precisão...


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Mais ao sul, na mata à margem do rio, Petrúquio Fragoso observava a vila a distância, ouvindo os sons distantes do conflito. "Um dos barcos aportou", ele disse, "Devíamos estar lá! Nossos homens serão massacrados!"


"Suncê se acalma, mizifio, que essa é a sina deles", disse Velho Tição, que permanecia de olhos fechados, sentado no chão da mata. Pássaros negros ocasionalmente pousavam sobre seus ombros, ali ficando por alguns segundos antes de voarem novamente.


Na noite anterior, Tição separara oito subalternos entre os mais capazes, experientes e bem armados, mas todo o resto fora deixado para morrer. Fragoso estava claramente irritado com aquele desperdício de vidas. "Mas que diabo, Tição da peste! Se era para deixar tomarem a vila, que recuássemos com toda a tropa! Estamos sacrificando gente à toa!"


"À toa, não, mizifio", o velho retrucou. "Pros coroné pensá que vencêro, nossos hôme tem que morrê. Os fracote nem vai fazê falta! Se te incomoda tanto, para de olhá, que meus zóio já estão vendo tudo."


Fragoso abominava tais táticas, preferia confrontos diretos. Seu objetivo no cangaço sempre fora enricar, nunca tivera os planos grandiosos de Severino, nem a disposição de sacrificar amigos e companheiros. Desconfortável, ficou a andar de um lado para o outro.


Era Tição quem estava no comando, porém, e ele nunca se preocupara com as vidas de lacaios. Para o velho mandingueiro, os fortes deviam ser constantemente postos à prova. Já os fracos, eram sacrificados sem qualquer piedade.


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O segundo barco acabava de aportar, e os guardas, a maioria com o uniforme azul de Curva do Vento, se espalhavam pela vila. Sobrepujados, os bandidos se rendiam ou fugiam; os que resistiam eram facilmente abatidos. Os cidadãos, aliviados, deixavam a clausura de suas moradias para recepcionar a tropa dos coronéis.


Sob a chuva fina, Mara'iza encontrou Zé sentado calmamente, escorado numa das casas e rodeado por cinco cangaceiros desacordados. Ele sorriu ao vê-la, contudo ela se mostrou deveras irritada. "Aí está você, ogro pervertido!", reclamou, jogando o embornal para ele. "Pelo menos teve a decência de colocar calças!"


Zé pegou o embornal arremessado antes que caísse no chão, então riu. "Desculpa aí, Malinha, mas nadar de calças é complicado! Quando te salvei no mar, as danadas tentavam escapar o tempo todo! Perigava do rio levar tudo e eu sair pelado de todo jeito!"


"Podia ter ficado no barco então, seu desmiolado!", ela retrucou, com o rosto vermelho, sabe-se lá de raiva ou vergonha. "Respeite-me, pelo menos!"


"A gente tava indo pra peleja, Malinha. Não sabia que a luta ia ser tão fácil", Zé disse, levantando-se, e completou num tom cômico: "quis me adiantar pra modo de pegar os danados com as calças arriadas!".


O trocadilho não melhorou o humor dela. Na verdade, entendera-o literalmente e fez uma careta desaprovadora. "Não quero mais saber dessa conversa pudenda!"


"Arre égua! Tá bom! Então fica aí, que vou ali atrás pra modo de me trocar! Essa calça que arrumei me aperta os fundilhos", Zé avisou, então caminhou até virar a esquina da casa mais próxima.


Mara'iza cruzou os braços, mostrando indiferença até que ele sumisse de vista. Porém, na posição em que o sol estava, era possível ver a sombra dele tirando a calça e abrindo o embornal para pegar suas roupas.


Mara nunca vira um homem adulto nu antes e, curiosa, sentia a tentação de espiá-lo. No barco, diante de todos e cheia de vergonha, desviara o olhar após breve vislumbre. Uma ideia saltou-lhe à mente: bastaria paralisar o tempo, então poderia dar uma boa olhada sem que ninguém soubesse.


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"O que te deu, menina?", Zé questionou ao retornar, já vestido com calças apropriadas, a camisa aberta e sandálias. "Sua cara tá toda vermelha, até mais que o normal!"


Mara se virou imediatamente de costas, repreendendo-se por não esconder o rubor. Seu plano funcionara, ninguém a tinha descoberto, mas a culpa lhe era explícita na face. "Nada! Não vi nada... Digo, nada aconteceu...", gaguejou, "Deve ser o sol... é, o sol!". Imediatamente, deu-se conta de que o céu estava nublado, e que sua resposta não era nada convincente.


Zé Calabros ficou sem entender. Felizmente para a moça, em certos aspectos o rapaz era de fato um idiota.


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"Entre rendidos e feridos, tem uns trinta, o resto morreu ou fugiu", Coronel Malícia avaliou, diante dos cangaceiros capturados. "A vila é nossa!"


"Muito estranho", observou Coronel Garrancho, coçando o bigode com desconfiança. "Não é do feitio de Severino deixar homens pra trás assim."


André Meneses arriscou um palpite: "A derrota deve ter deixado o cabra desacertado".


"É", riu Malícia, "o covarde deixou esses aí pra segurar a gente enquanto punha o rabo entre as pernas e corria de volta pra São Vatapá!".


"Vocês estão subestimando Severino!", Garrancho alertou. "Alguma coisa aqui não está direita! Ou Severino ia por um bando competente pra nos atrasar, ou ia levar todo mundo com ele."


"Que seja, pouco me importa!", Malícia retrucou. "Tô doida pra dar cabo do Rei do Cangaço! É bom seus homens chegarem logo, Garrancho, pra modo da gente seguir viagem!"


"Seu André! Seu André", dois guardas de verde-oliva, uniforme de Botas do Judas, vieram correndo avisar o futuro coronel. "Zé Calabros e a feiticeira pegaram a estrada!"


"Oxente!", Malícia ficou perplexa, "mas o que diacho aqueles dois vão fazer?".


Garrancho não se conteve e começou a rir. "Vi os dois tramando alguma coisa na reunião de ontem! Eu sabia que não iam se contentar em esperar!"


"Esse Zé Calabros só pode ser lesado das ideias! E ainda levou a Mara com ele!", André Meneses desabafou, não escondendo a insatisfação.


Garrancho tocou o ombro de André e forçou-o a encará-lo. "Zé Calabros não é louco, é cabra muito macho! Pra um homem daquele calibre, uma tropa só atrapalha."


"Cabra-macho ele é mesmo!", Malícia observou. "Mas tem uma estrada perigosa pela frente! Você acha que os dois vão ficar bem, Samuel?"


"Disso, só o destino sabe!", Garrancho respondeu. "Daqui até o Catengão, era só terra de coronéis das antigas, então acho que até o povo vai estar do lado de Severino. O que a gente pode fazer pra ajudar os dois é deixar a tropa pronta pra partir tão logo cheguem meus homens!"


"E orar a Padim", complementou André. "Pra que os dois tenham boa viagem."


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Mais um dos pássaros negros pousou sobre o ombro do Velho Tição. Intrigado, o mandingueiro sussurrou algo para o pássaro, que voou para longe, depois começou a gargalhar. "He he he he! Zé Calabros tem colhão mesmo!"


Petrúquio Fragoso se voltou ao velho. "Do que você está falando, Tição? O que aconteceu?"


O ancião abriu os olhos, acendeu o cachimbo e deu uma boa tragada. "Ele e a tal feiticeira pegaram a estrada e deixaram os coroné pra trás!"


Fragoso parecia não acreditar. "Então, os coronéis estão sozinhos e com poucos guardas! Devíamos atacá-los agora mesmo!"


"Suncê acha que Severino tá preocupado com coroné, mizifio?", Tição protestou. "Não pode perdê a chance, nóis vai é atrás daqueles dois! Chama os hôme, deixa todo mundo de prontidão pra sair quando eu mandá. Depois volta aqui pra escrivinhá uma carta pra Severino."


"Deixar de prontidão?", Fragoso questionou. "Não vamos atacar agora?"


"Não, que aqueles dois é perigoso! Nóis vai seguí de longe, pra modo dos desgramado não vê o perigo. Quando vié a noite e tiverem dormindo na estrada, aí sim nóis dá cabo deles! He he he he he!"


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Vila Judiana já sumia de vista. A estrada ia para o leste, um caminho aberto entre as árvores da mata. Em algumas horas, porém, conforme o rio ficasse distante, a vegetação se tornaria rarefeita e daria lugar à caatinga.


"Não pensei que você ia aceitar tão de imediato!", admitiu Zé, sorrindo sutilmente. Não admitia, mas havia se afeiçoado à moça.


"Se eu recusasse, você seguiria viagem sozinho", Mara'iza suspirou, "Você é como um burro teimoso, da sua cabeça só saem ideias estúpidas."


Ele parou e encarou-a com irritação. "Ah, menina da moléstia, você gosta de me deixar cabreiro, hein?"


Calmamente, ela ajeitou o chapéu, arrumou o colete que lhe cobria a parte superior do vestido e, por fim, devolveu o olhar, com sua soberba usual. "Eu te protejo, você me protege, lembra-se?"


O confronto de olhares continuou por alguns instantes, mas a testa de Zé foi se desfranzindo, e ele começou a rir. "Arre égua! Você é de lascar o cano!", desabafou, contendo o riso.


"E isso é bom ou ruim?", ela ficou em dúvida.


"Quer dizer que é insuportável, sua peste!"


"Prefiro me avaliar como 'insuperável', 'irrefreável' ou 'irresistível'!", ela devolveu numa risada descontraída e, por um momento, angelical.


Ele respirou fundo, balançou negativamente a cabeça e, desistindo da discussão, retomou a caminhada.


Ela o seguiu de perto, contendo o riso. Não sabia bem a razão, mas ela de fato gostava de irritá-lo. Assuntos mais importantes vieram à mente, contudo, então perguntou: "O que encontraremos à frente?".


"Tem outro rio que corta a Cornália, o Catengão. Na outra margem desse rio fica a Vila Maria, que é pra onde tamos indo. Daqui pra lá, o terreno é restinga, perto do mar, e caatinga no sertão, tudo muito agreste."


"Lembro-me dos coronéis mencionarem quatro rotas, todas tomadas por Severino."


"É. Duas partem lá do sul, de Itapopó da Mata, minha terra. Já as outras você vai ver mais pra frente, quando a estrada se dividir. Um caminho vai pro leste, o outro pro sudeste."


"E qual a diferença?"


"Pro leste passa mais perto do litoral e chega num vilarejo costeiro, na margem do Catengão. De lá, tem que seguir o rio pro sul. O caminho é mais longo, mas muita gente prefere porque a rota não é tão seca. Só que com a Baía da Tempestade arrotando chuva, a gente ia atrasar ainda mais."


"Então seguiremos pelo sudeste, presumo?"


"É. Vai tomar uns três dias cruzando o sertão, mas chega direto em Vila Maria."


"Três dias...", Mara'iza considerou. Então, tocou o grimório e conjurou um feitiço.


"O que você tá fazendo?", ele questionou.


"Eu não vou ficar cheia de bolhas no pé de novo!", a moça retrucou, e um disco de energia translúcida surgiu à frente, flutuando centímetros acima do solo. Ela saltou sobre o disco e sentou-se nele, deixando que a manifestação mágica a levasse.


"Desse jeito, você não treina as pernas nem ganha fôlego", Zé a repreendeu.


"É óbvio que não usarei o feitiço o tempo todo, ainda mais que mantê-lo exige certo esforço", ela explicou. "Alternarei entre caminhada e descanso, senão vou me exaurir e acabar nos atrasando, como aconteceu no Vale Verde. Odeio ser um estorvo!"


Ele sorriu, lembrando-se que a considerava um estorvo no começo. As experiências juntos, contudo, provaram que a moça, por mais irritante que fosse, era capaz de carregar seu próprio peso. "Você não é estorvo, Malinha. Não tem mais ninguém em que eu confiaria pra ir comigo nessa viagem."


A declaração provocou um sorriso incontido de Mara'iza.


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Os dois viajantes seguiram viagem. Felizmente, o céu nublado e a chuva tímida ajudavam a conter o calor. Raios e trovões ao norte indicavam que mais tempestades viriam sobre o litoral, mas logo Zé Calabros e Mara'iza estariam além de seu alcance.


Conforme se afastavam do Chico Propício, a mata se tornava mais esparsa e o terreno mais rochoso. Algumas horas após deixarem Vila Judiana, alcançaram a bifurcação na estrada e seguiram para o sudeste. Embora naquele ponto ainda houvesse abundância de arbustos e árvores, o terreno se tornaria cada vez mais árido e poeirento a partir de então.


Não pararam para almoçar. Zé Calabros comeu a ração sem perder o ritmo da caminhada, e Mara'iza não necessitava de comida. As horas passavam, mas ele não se cansava, para admiração dela. O céu permaneceu nublado, mas já não havia chuvisco algum. A vegetação deu lugar a árvores retorcidas, mato ralo e cactos. Entravam definitivamente na caatinga.


Avançavam em silêncio, mas às vezes ele puxava algum assunto da Cornália. Já ela, quando usava o disco arcano para viajar, aproveitava para estudar o grimório e exercitar algumas gesticulações mágicas. Mantinham-se atentos a quaisquer perigos, mas a viagem ia tranquila.


Não repararam, contudo, nos pássaros negros que os seguiam pelo céu. Havia sempre uma ave a sobrevoar em círculos, só retornando ao noroeste quando outra vinha tomar-lhe o lugar. Alternavam-se para que seu mestre recebesse informações constantes sobre os dois viajantes.


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O sol já começava a baixar no oeste quando Zé Calabros e Mara'iza passaram pelos restos de um grande acampamento. Lá, havia marcas de carroças e cavalos, muitas pegadas e as sobras de uma grande fogueira.


"Os cangaceiros passaram por aqui", Zé observou.


"Pelo visto, acamparam na noite passada", Mara'iza concordou, então concluindo: "Estão com um dia de vantagem sobre nós".


"Não, menos de um dia", ele corrigiu. "O bando se move tão rápido quanto o homem mais lento. Eles devem ter parado ao anoitecer, mas pra gente ainda tem sol pra seguir adiante. Nesse ritmo, alcançamos Severino em alguns dias, quando a tropa estiver atravessando o Catengão."


"Você quer enfrentá-los ainda na estrada?", Mara'iza questionou com descrença. "Seremos só nós contra uma centena deles, em campo aberto. Acho imprudente."


"Aí a gente decide na hora. Não fico pensando muito nessas coisas."


Ela revirou os olhos. "Não me diga..."


"A gente sempre dá um jeito, Malinha! Você é esperta, vai pensar num plano bom! Então, bora seguir viagem pra aproveitar a luz que resta!"


"Você já sabe onde descansaremos?"


"Mais pra frente tem umas nascentes e o mato fica um pouco mais abundante, bom pra esconder. Se apressar o passo, a gente chega logo depois da noite. Fica nos arredores da fazenda da família Bocarra, um lugar chamado Beira da Larica."


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Andaram por mais de uma hora, mesmo após o anoitecer. Para se guiarem na escuridão, Mara'iza conjurou um globo flutuante de luz. Deixaram a estrada e adentraram a mata de Beira da Larica, onde encontraram um bom local para descansar, cercado de árvores e com pouco mato no chão. O som de água indicava a presença de uma nascente próxima.


"Ah, finalmente!", desabafou Mara, sentando-se junto a uma árvore e abrindo a bolsa. "Minhas pernas estão exauridas, e esse mato pinica."


"Perna cansada de quê?", Zé provocou, "Largue de frescura, que mal andou!". Ele então se escorou a outra árvore e respirou bem fundo, como se recobrasse o fôlego pela primeira vez em todo o dia.


"Andei metade do dia no seu ritmo!", a moça retrucou. Ao mesmo tempo, retirou da bolsa um pote de unguento alquímico, um presente de Dona Graça. Aplicou o remédio no braço, depois no rosto, que, embora já sem hematomas, ainda estava sensível ao toque. "Quer um pouco?", ofereceu a ele.


Zé indicou que não, depois procurou no embornal pela ração de viagem, também providenciada por Dona Graça já que seus mantimentos anteriores tinham se estragado na chuva e na lama da batalha de Bota do Judas. Comendo, voltou-se a Mara: "Agora que percebi. Apesar de estar sempre se exibindo, você nunca fala nada de si mesma".


Ela estranhou o comentário. "Não aprecio falar de mim, quero apenas o reconhecimento de meus talentos."


"Você é irritante, convencida e uma baita de uma feiticeira, mas fora isso, não sei nada de você. Como é sua terra? A quais deuses ora?", ele questionou, mas pôs mais ênfase na pergunta seguinte: "E de quem você tá fugindo, Malinha?".


A pergunta a pegou desprevenida, fazendo-a gaguejar. "Fugindo...? Por que estaria... fugindo?"


"Quando te salvei no mar, você tava vestida de homem. Você não é do tipo que gosta de passar a perna nos outros. Então, se não era pra enganar, só podia ser pra despistar."


"Eu...", ela murmurou, antes de calar-se e refletir uma resposta melhor. Lembrou-se do barco e dos homens de preto que a atacaram lá. Abraçou as próprias pernas, incomodada, e baixou a cabeça para esconder uma lágrima que escapava. "Entre todas as circunstâncias em que você poderia usar a inteligência, tinha de escolher logo esta?".


"Quebrar fuças é o que faço melhor, mas não sou bom só nisso", ele murmurou, satisfeito por surpreendê-la. "Sou guerreiro. Cabra-macho, casca-grossa, mas não é pra matar gente. É pra proteger, e sei quando alguém precisa de ajuda."


"Idiota...", ela sorriu, contendo lágrimas. Sentia-se segura com Zé, como só uma outra pessoa já a fizera se sentir. Desabafou, então: "Gaz'zira é uma terra muito bela, branca no inverno e verde no verão. Lá, honramos os ancestrais e os espíritos dos céus, águas, bosques e montanhas. O clã Atsumi, minha família, governa a cidade de Hirosaki, na costa oeste. Somos sam'rai, nobres e guerreiros, servos do shogun."


"E o que é esse tal de 'xogum'?"


"Somos governados pela ordem celestial: o povo serve aos sam'rai; os sam'rai servem ao senhor do clã, e os clãs servem ao shogun. Servir é nosso propósito: servir a família, servir a nação. Essa é a vontade dos céus."


"Isso não tá me parecendo muito bom."


"Por que não?", ela questionou. "Há ordem, e na ordem somos fortes."


"Mas ninguém é livre. É como com os coronéis de antigamente, que decidiam como os outros tinham que viver. Foi disso que você fugiu, não foi? Seus talentos tavam sendo jogados fora."


"Meu clã tinha planos para mim, e minha discordância era uma desonra", Mara'iza confessou, mas então se interrompeu para medir cuidadosamente o que diria a seguir. Quando retomou a palavra, gaguejou. "Mas... não se trata apenas disso... Em minha terra, há uma... escuridão... me perseguindo... uma... montanha de sombras..."


Zé notou medo na voz dela, um temor profundo, quintessencial. Vindo da mesma moça que sorria soberbamente ao enfrentar bandidos armados, questionou-se sobre o que poderia intimidá-la tanto. "Eu vou te proteger, Malinha", declarou, "Sombra, montanha, o que for, se chegar perto de você, é soco na cara!".


Ela riu. "Você não pensa mesmo!", provocou, limpando o rosto, "Todos acham que morri no mar. Estou livre e posso finalmente esquecer o passado!".


"O passado é que molda a gente", Zé retrucou. "E apesar de tudo de ruim, você virou uma pessoa boa, então tinha alguém lá pra te salvar. Dessa pessoa, você não pode esquecer nunca."


Mara'iza contemplou um pouco. "É... eu tive alguém...", ela se recordou, embora a lembrança fosse dolorosa.


"O que foi bom e o que foi ruim, é tudo parte da gente", ele disse, então olhou para as fitas amarradas em seu braço. Na escuridão, notava só as silhuetas, sem distinção de cor, mas aquilo bastava para que as memórias voltassem.


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Nove anos atrás...


Urros monstruosos vieram do céu noturno. A horda de dragões começava o ataque.


"Estão vindo!", alertou Brunnhardt, interrompendo a corrida e se defendendo do ataque traiçoeiro que veio por trás. A lâmina do machado traçou um arco no ar, decapitando um dragão jovem que descia dos céus. O anão se esquivou do corpo do monstro, que caiu violentamente e rolou sem vida.


"Então que venham!", gritou Svar, que então evadiu outro jovem dragão que investia pela frente. O gigante agarrou o monstro pelo pescoço e arremessou-o contra outro que voava acima.


Escondido no embornal de Svar, o pequeno Zeca podia apenas ouvir os gritos e rosnados. Tudo sacudia violentamente para o menino, e ele lutava para se agarrar às paredes de tecido e evitar os mantimentos que sacolejavam de um lado para o outro.


Os olhos aguçados dos dois guerreiros podiam ver os monstros na escuridão. Centenas de feras, talvez quase mil, congregavam nos céus. Avançavam em ondas dragões infantes ou adolescentes, que variavam de três a doze metros da cabeça à ponta da cauda.


"Tentam nos atrasar! Em frente, amigo!", urrou Brunnhardt, atingindo outro dos monstros. O machado penetrou fundo nas escamas, causando um ferimento incapacitante, mas não fatal. "O sol virá em algumas horas, temos que chegar à Catinga Danada!"


"Juntos, irmão! Sempre juntos!", lembrou o gigantesco Svar, esmagando um filhote sob os pés e golpeando um juvenil com as mãos nuas. Agarrou o monstro, ergueu-o e jogou-o violentamente contra o chão, quebrando-lhe uma das asas.


O anão Brunnhardt liberou uma mão do machado e sacou sua adaga, usando-a para perfurar a cabeça de outra fera. Viu três monstros sobrevoarem com as bocarras abertas e brilhando com fogo interior. Correu para alcançar Svar e, empurrando-o, recebeu as baforadas flamejantes no lugar do companheiro.


Com o empurrão, Svar rolou no chão e se levantou num salto. Mais duas criaturas pousaram, cercando-os, e os dois guerreiros se deram as costas, cada qual visando um oponente.


"Venham, venham todos!", Svar bradava, golpeando o dragão diante de si. Agarrou um chifre do inimigo, quebrou-o com um soco e usou-o para empalar a perna do monstro.


"Um por um, exterminaremos vossa raça!", urrava Brunnhardt, cravando o machado no pescoço do dragão e rasgando uma das asas com a adaga. Segurado apenas com uma mão, o machado perdia força nos golpes, mas o objetivo era apenas incapacitar os atacantes, impedindo-os de continuar a perseguição.


O gigante socou a cabeça do inimigo, atordoando-o, e então saltou sobre sua asa, quebrando-a com as mãos. "O caminho está livre!", alertou, e os dois guerreiros correram novamente pelos prados secos entre Vol'kor e a Catinga Danada, deixando os monstros feridos para trás.


Os ataques cessaram por alguns minutos. Nos céus, as feras cuspiam fogo a esmo e urravam numa cacofonia aterrorizante. Tentativas claras de ameaça.


"Eles voltarão a atacar", concluiu Brunnhardt.


"Pois os abateremos até não sobrar nenhum!", Svar clamou e, logo após, abriu o embornal para checar Zeca. "Você está bem, José do Clã Calabros?"


"Sim", o menino confirmou. Tinha de gritar para se fazer ouvir em meio ao caos.


"Não saia daí!", disse o gigante. "Prometo, menino, que o levaremos a salvo! Por nossas vidas, por nossa honra, por nossas pátrias!"


Em pesaroso silêncio, Brunnhardt voltou os olhos vermelhos e brilhantes para o pequeno e frágil menino. Depois, olhou o companheiro, tão maior do que ele. E então, sem interromper a fuga, chamou a atenção de ambos: "Svar! Calabros! Há algo que preciso vos dizer".


"O que há, meu amigo?", Svar questionou, perscrutando os céus e vendo o redemoinho de monstros pairar nas altitudes. O timbre de voz amargo do companheiro, contudo, o deixou preocupado.


"Toma minha capa, Svar", pediu o anão, guardando a adaga e arrancando o pesado manto. "É pele de magmodonte, proteger-te-á de fogo! Ide, salvai-vos! Chegou o dia de apresentar-me ao julgamento dos deuses!".


"O quê tá acontecendo?", gritou Zeca, mas não fora ouvido por nenhum dos dois.


Svar retrucou num tom desaprovador. "Você ainda tem força para continuar lutando, Brunnhardt! Não é hora de desistir!"


"Não me faltam forças para lutar nem brio para persistir!", o anão retrucou, forçando o companheiro a pegar sua capa. Então, admitiu: "Mas sou... menor... do que você, tenho pernas mais curtas! Estou a atrasar-vos, e um guerreiro do clã Moldaço não deve ser um estorvo!"


Nesse momento, uma nova onda de monstros investiu contra eles. Brunnhardt e Svar se deram as costas novamente, um guardando a retaguarda do outro. Zeca, agora com o embornal entreaberto, segurou-se firme para não ser atirado para fora.


Svar era açoitado por garras e presas de dois dragões juvenis e um infante. Enquanto se desvencilhava dos ataques, gritou ao anão, sem se render à dor: "Nós fizemos uma promessa, uma jura de sangue! Nós, juntos, lutaremos no Titanathlon!".


"Não, meu caro!", corrigiu o anão ao decepar a pata de um inimigo e cravar a adaga no olho de outro. "Prometemos que um de nós seria o campeão! Para cumprir nossa jura, tu não precisarás de mim! Vai! Salva o jovem Calabros, conta minha história a todos e torna-te o titã! Por nós dois!"


Svar impediu a baforada de um dragão cobrindo-lhe a cabeça com a capa de Brunnhardt, depois golpeou o bicho até tombá-lo. Chutou então o monstro menor para longe e, agarrando o terceiro pelo focinho, quebrou-lhe o pescoço. Sem mais adversários, surgia uma brecha para fugir, porém Svar hesitou em abandonar o amigo.


"Vai! Dar-te-ei cobertura!", insistiu Brunnhardt. "Honra-me, meu amigo, deixa que eu compre vossas vidas ao custo da minha!"


"Svar!", implorava Zeca, "A gente não pode deixar Brunnhardt pra trás!".


Svar, porém, entendia o companheiro, faria o mesmo em seu lugar. Lamentava, porém, ter de carregar a vergonha de sobreviver. "Seu sacrifício não será esquecido, irmão", bradou em despedida, pondo a capa do amigo sobre os ombros e segurando firme o embornal. Com passadas longas, pôs-se a correr mais rápido do que qualquer anão poderia.


Vendo mais um inimigo vir dos céus contra as costas de Svar, Brunnhardt arremessou o machado e derrubou o monstro. O anão então avançou para recuperar a arma, usando a adaga e até os chifres do elmo para afastar as feras no caminho.


Svar continuava a fuga, saltando, golpeando e atropelando os monstros no caminho. Visava evitar confrontos desnecessários para não perder velocidade.


Brunnhardt o seguia, mas a distância entre os dois se alargava. O anão ignorava os dragões que o miravam, mas atacava brutalmente os que investiam contra o companheiro. Em meio à batalha desesperada, iniciou sua última prece e, com todo o ar dos imensos pulmões, reverberou pelos campos: "Com honra e glória e nenhum lamento!".


Foi a última vez que Svar escutou a voz do amigo. O gigante seguiu, sem olhar para trás, mas sabendo que o anão ainda enfrentava a horda inexorável. Com lágrimas nos olhos e dor no peito, Svar orou em conjunto com Brunnhardt, mesmo um já não podendo mais ouvir o outro.


Com honra e glória e nenhum lamento,

diante dos deuses me apresento.

Hoje terei a força testada!

Que minha morte seja lembrada!

Armas em mãos, de sangue coberto,

Ao panteão, minha vida oferto.

Ao final, com corpo alquebrado,

Eterno serei, inconquistado!

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O presente...


Exausta, Mara'iza dormiu, e o globo mágico de luz se dissipou.


As trevas súbitas trouxeram os pensamentos de Zé Calabros de volta ao presente. Ele ficou ali imóvel, sentado junto à sua árvore, e logo se acostumou com a escuridão. Ficou observando a moça, de silhueta tão pequena e frágil.


Tudo parecia tranquilo, os únicos sons eram do vento, da água corrente próxima e de pássaros e insetos noturnos.


O cansaço do dia pesava sobre os ombros de Zé Calabros. Logo viria a sonolência.



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Um morcego surgiu do escuro, voando em círculos acima da cabeça do Velho Tição. "Tá na hora! Levanta, cambada! He he he he he!", riu o mandingueiro, que deu uma tragada no cachimbo e se levantou com a ajuda do cajado.


Os oito cangaceiros do grupo se levantaram de imediato e checaram suas armas.


Fragoso se aproximou do velho, coçando a barba grossa. "Eu tenho uma surpresa para eles", disse, então passou os dedos pelo colar e fez uma longa gesticulação diante do rosto, soprando nas próprias mãos durante o ritual.


O chão à frente do feiticeiro tremeu e se rompeu. Um enorme braço de pedra emergiu, seguido de uma cabeça, então um segundo braço. A criatura nascente se arrastou para fora do solo e se ergueu. Tinha dois metros de altura e um corpo rochoso, de forma humanóide e juntas arenosas. Deu dois passos pesados e sonoros para o lado, mas a criatura em si era silente.


"He he he he he, esse feitiço é novo!", disse Tição. "Esse bicho não deve de tê medo nem de bala, nem de faca! Aposto que suncê aprendeu isso aí pra enfrentá Severino de novo um dia, né não?"


Atordoado pelo esforço, Petrúquio Fragoso ficou em silêncio, mas o seu único olho não escondia a surpresa com a perspicácia do velho. Ignorando-o, o feiticeiro tomou ar, então se voltou aos homens: "Vamos caçar aqueles dois!".


"Não, ainda não!", Tição os interrompeu. "Cês vão levá lampião e fazê barulho! Nóis não vai arriscá alertá aqueles dois, tem que pegá eles desprevenido!"


"Então, qual é o plano?", Fragoso questionou.


A cobra, Sônia Regina, enrolou-se ao corpo do Velho Tição, escalando-o até que sua cabeça despontasse sobre o ombro dele. O mandingueiro acariciou gentilmente o réptil, então revelou, olhando nos grandes olhos amarelos da criatura: "Sônia Regina vai primeiro, em silêncio e no escuro. Cês vão avançá só depois do bote dela."


Os cangaceiros ficaram satisfeitos, afinal aquela cobra era o diabo em pessoa. Fragoso também apreciou o plano, pois reduzia os riscos aos homens.


"Lembra bem, cês tudo!", avisou Tição. "É pra matá os dois, Zé Calabros e a feiticeira. Severino qué as cabeça deles, pra mostrá em praça pública! Se cês falhá, eu vô levá é a cabeça d'ocês."



A seguir: Vulnerável, nunca

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As Crônicas Anímicas

© 2016 Tiago Moreira