Capítulo 13: Vulnerável, nunca

Índice de Capítulos

Anterior: Eu vou te proteger

A pequena tropa de bandidos seguiu pela mata escura. Dois deles carregavam lampiões que, mesmo cobertos, denunciavam sua presença. O monstro de pedra que os acompanhava fazia muito barulho com seus passos pesados e desajeitados.


"Aqui tá bom!", alertou o Velho Tição, fazendo sinal para que o grupo parasse. Se avançassem mais denunciariam sua presença.


"Em que direção os dois estão?", perguntou Petrúquio Fragoso.


O mandingueiro se concentrou por um momento, e pouco após um morcego apareceu, voando em círculos ao redor do velho. Tição se regozijou ao relatar a visão que o animal lhe trouxera. "Os dois já caíro no sono! He he he he he!", disse, então apontou, "Estão pra lá!".


Petrúquio ainda se recuperava do esforço de evocar a criatura de pedra. Apoiou-se numa árvore e respirou fundo. "Assim que a cobra atacar, então, avançamos com tudo o que temos?"


"É", respondeu Tição, que então acariciou o réptil enrolado ao seu corpo. "Vai lá, Sônia Regina, vai fazê seu lanchinho!"


A cobra se soltou do velho mandingueiro e deslizou para a mata. Com uns quinze metros de comprimento, demorou a desaparecer completamente na escuridão.



------------------------------------------



Mara'iza dormia profundamente. Sentindo o sono se aproximar, Zé fechou os olhos e ficou a ouvir a mata. O vento soprava entre os galhos, as folhas farfalhavam gentilmente, água corria nas proximidades, grilos cricrilavam...


Os sons da noite não eram estranhos a Zé Calabros. Em suas andanças pela Cornália, dormira muitas vezes ao relento. Chegou até a passar um ano inteiro no Vale Verde, sobrevivendo por conta própria. Nos limites da consciência, percebeu: naquela noite, algo estava errado.


Com os ouvidos bem atentos, Zé reparou no bater de asas de um morcego. Já era no mínimo a terceira vez que o bicho aparecia, voava em círculos e ia embora. Não era um comportamento natural. Parecia coisa de mandinga.



------------------------------------------



Sônia Regina rastejou pela mata, língua bífida farejando o caminho. Quando viu o calor das presas, a cobra desacelerou e continuou avançando lenta e silenciosamente. Eram dois alvos, e nenhum esboçava movimento ou reação. Estavam vulneráveis e insuspeitos.


A cobra se aproximou da presa menor, então recolheu parte do longo corpo, curvando-o e dobrando-o como uma mola. Pronta para o bote, ergueu o pescoço, abriu a boca e se lançou subitamente à frente.



------------------------------------------



Zé estava quieto, mas acordado. Com os olhos entreabertos, perscrutava a escuridão por sinais do perigo que instintivamente sentia. Notou os olhos amarelos e a silhueta rastejante da cobra e, com movimentos tão lentos e sutis quanto os da própria fera, se preparou para um levantar súbito.


A cobra se aproximou de Mara'iza e preparou cuidadosamente o bote. Então, se lançou sobre a magista inconsciente.


Num salto repentino, Zé Calabros golpeou a cabeça da criatura, interceptando e desviando o bote. "Mara'iza!", gritou para despertá-la.


Mara despertou assustada e, instintivamente, agarrou o grimório e ergueu a mão livre em defesa, mas levou alguns instantes para entender a situação.


A cobra se lançou sobre Zé Calabros, mas ele se esquivou do bote e socou com ainda mais força a cabeça do monstro, causando um impacto audível.


Sentindo-se ameaçado, o réptil recuou e se recolheu defensivamente, enrolando parte do corpo, mas deixando cabeça e cauda expostas. Em seguida, a partir da boca, chamas se espalharam por todo o corpo do monstro, criando um clarão ofuscante.


Levantando-se, Mara'iza se protegeu atrás da árvore que até então usava como descanso. "Carábu'ros-san!", gritou, ainda confusa, "Estamos sendo emboscados?".


Concentrado no oponente, Zé não respondeu. Levou o braço esquerdo à frente do rosto, protegendo os olhos, e recuou alguns passos, mantendo o punho direito fechado, pronto para um contra-ataque.



------------------------------------------



Gritos, seguidos por um clarão distante. "Começou", observou Petrúquio Fragoso, então se voltando ao bando. "Avancem, homens!".


O construto elemental de Fragoso abriu caminho, se arremetendo violentamente em passadas largas, potentes e ruidosas. Os cangaceiros avançaram em seguida, os dois com lampiões iam à frente para guiar os outros seis capangas. Petrúquio Fragoso tomou a retaguarda do grupo.


Velho Tição ficou para trás. Calmamente, tragou o cachimbo, então se pôs a caminhar sem pressa, ajudado pelo cajado. "He he he he he! A essa hora, um daqueles dois já deve de tá morto!"



------------------------------------------



A cobra incandescente avançou sobre Calabros numa sequência de botes. Uma, duas, três vezes, Zé habilmente se esquivava dos ataques, recuando, saltando, rolando e usando as árvores para dificultar as investidas. O monstro deixava rastros de fogo por onde passava, e as chamas começavam a se espalhar.


Deixada para trás, Mara'iza decidiu ajudar o amigo. Num gesto rápido, disparou uma seta cintilante, que explodiu contra o pescoço da criatura reptiliana. A fera, porém, permaneceu inabalada e, ignorando a magista, continuou a focar-se em Zé.


Zé evitou um golpe de cauda da cobra e, percebendo-a tentar cercá-lo com o corpo alongado, recuou a uma distância segura. "Não vou ficar só fugindo, bicho cabrunquento!", disse, encarando-a, "Queimo as mãos, mas dou-lhe uma surra!".


Encarada por um oponente que ameaçava reagir, a cobra interrompeu os avanços constantes. Confrontando-se, os dois oponentes passaram a fazer movimentos lentos, cada um buscando uma posição vantajosa para atacar.


A distância, Mara'iza aguardava o momento certo para ajudar Zé. Foi então que percebeu o ruído de algo enorme e pesado vindo pela mata. Ela se virou para o barulho e se pôs atrás de uma árvore, tentando identificar a nova ameaça.


Da escuridão, surgiu correndo uma enorme criatura de pedra, vagamente humanóide. Sem perceber Mara'iza, o monstro elemental avançou diretamente contra Zé Calabros.


"Carábu'ros-san", Mara'iza tentou alertá-lo, "cuidado!".


A criatura rochosa bateu o corpo contra Zé, que mal teve tempo de se preparar para o encontrão. O impacto arremessou Calabros contra uma árvore, e o monstro, inexorável, investiu de novo, desta vez golpeando com um soco. Mesmo aturdido, Zé se esquivou, e o enorme punho maciço atingiu o caule da planta, quase partindo-o ao meio.


Aproveitando a distração, o boitatá desferiu seu bote. Ao mesmo tempo, o construto golpeou de novo. Cercado, Zé Calabros rolou para longe, inadvertidamente fazendo o punho de pedra atingir a cabeça do réptil.


Erguendo-se, Zé recuou, mantendo a dupla de inimigos à frente. "Eita lasqueira", resmungou, tomando ar, "agora danou-se!". Dar as costas a qualquer um dos monstros seria fatal.


Ignorada por todos, Mara'iza formulava um plano. "Aquilo é um construto mágico, obra de um magista", resmungou. Percebeu então luzes e vozes na mata, aproximando-se pela mesma direção da qual o construto viera. Provavelmente eram cangaceiros, e o criador do monstro estaria entre eles.



------------------------------------------



Armados com espingardas, revólveres e facões, os cangaceiros apressaram o passo assim que os rastros de fogo apareceram logo à frente. "Só tem dois tipos de alvo: os imunes à bala e os inimigos", alertou Fragoso. "Atirem em tudo que se mexer!"


Foi quando Mara'iza saltou das trevas, conjurando uma onda de choque que varreu tudo adiante. "Deixem-no em paz!"


Surpresos, os bandidos pararam e se jogaram para os lados. Uns rolaram no chão, outros se protegeram atrás da vegetação. Um bandido, que carregava lampião, foi atingido e jogado no chão. O objeto, largado, se quebrou e espalhou fogo ao cair.


Fragoso, menos ágil que seus homens, também não conseguiu escapar. O impacto da onda o lançou para trás. Caiu atordoado, mas tinha ferido apenas o orgulho.


Tão rápido quanto se revelara, Mara'iza se protegeu detrás de um caule, a tempo de evitar o revide dos bandidos, que dispararam a esmo na direção dela.


"Espalhem-se, seus lesados, cerquem a diaba!", gritou Fragoso ao se levantar, depois passou os dedos no colar e criou o redemoinho de rochas como proteção. Os subalternos interromperam os disparos e obedeceram a ordem.


O outro bandido atingido também se levantou. Furioso, arremeteu-se contra Mara'iza, facão numa mão e revólver na outra. Ela se afastou da árvore bem a tempo de evitar a lâmina, que cravou no caule. Antes que o bandido mirasse o revólver, Mara'iza conjurou uma seta cintilante à queima-roupa, atingido-o na face e tirando-o de combate.


Um pouco mais a frente, Mara viu um segundo cangaceiro aparecer, já apontando a espingarda. Mara desapareceu num lampejo, evitando a bala e ressurgindo atrás do atirador. Mesmo alertado pelo clarão do teleporte, ele não se virou a tempo e foi alvejado na nuca por uma seta mágica, perdendo a consciência antes mesmo de estatelar-se no chão.


Sem nenhum outro inimigo à vista, Mara'iza se protegeu detrás da árvore mais próxima e perscrutou por mais inimigos. Notou o segundo lampião deles abandonado no chão da mata. Tinham se escondido nas trevas.


Mara, porém, tinha a desvantagem de interpor-se entre os inimigos e o incêndio crescente causado pela cobra. Não podia se movimentar livremente sem arriscar revelar sua silhueta. Pior ainda, não sabia quantos inimigos enfrentava, nem suas capacidades. Teria de usar os feitiços mais poderosos com moderação, ou se exauriria rápido e ficaria vulnerável.



------------------------------------------



Tanto o boitatá como o construto atacavam Zé Calabros incansavelmente. A cobra era rápida e ágil, e as chamas não só a protegiam, como ofuscavam a visão de Zé. Já o construto era forte, mas desajeitado e burro como uma porta, frequentemente pisando ou golpeando por engano a cobra. Irritada, a fera incandescente às vezes parava de atacar para tentar afastar o monstro rochoso, mas ele nem sentia as mordidas e rabadas.


Zé usava a falta de inteligência de ambos a seu favor. Esquivava-se com destreza dos ataques e fazia o possível para colocar o construto no caminho da cobra. Conforme evitava os dois atacantes, porém, se afastava mais de Mara'iza. Quando o som de tiros próximos ecoou, Zé se deu conta de que ela estava em perigo e não viria ajudá-lo. "Malinha! Segura firme, estou indo aí!", murmurou.


O construto avançou com o punho cerrado. Zé se esquivou para trás de uma árvore, deixando o caule ser atingido em seu lugar. A cobra veio pelo outro lado do tronco, lançando-se para agarrá-lo, mas ele ignorou as chamas dela e a golpeou com força no focinho, abalando-a.


Por um breve instante, os dois oponentes estavam vulneráveis. Zé Calabros limpou os pensamentos, abandonou os receios e, vazio por dentro, avançou contra o peito exposto do construto e esmurrou-o com força sobre-humana. O impacto causou um estrondo, e o monstro de pedra, com o torso afundado e rachado, cambaleou para trás, tropeçou em raízes e tombou sobre o mato em chamas.


Zé evitou mais um golpe do boitatá, depois se afastou sem dar as costas ao bicho. A cobra, que até então o atacava furiosamente, desacelerou quando ele a encarou. "Agora, somos só nós dois, lagartão!"


Mas Zé estava errado, não era uma luta de um contra um. O construto se reergueu entre as chamas e voltou a avançar. Apesar da fenda no peito, mantinha toda a sua força como se nada tivesse sofrido.


"Fela-d'égua!", Zé Calabros murmurou. "Então tá bom, podem vir os dois, mas podem apostar que não vou morrer aqui!"



------------------------------------------



"Coragem, calma, foco", Mara'iza murmurava para si, tentando conter o coração acelerado. Ela tinha um plano. Mantendo as costas para os fogos na mata, Mara disparou uma seta cintilante para a escuridão, então correu para a próxima árvore, tomou cobertura e perscrutou os arredores. A seta iluminou sua trajetória até explodir ofuscante contra uma rocha.


"Venham até mim! Estou aqui, vejam!", murmurou nervosamente, então disparou uma segunda seta mágica e trocou novamente de esconderijo. Repetiu o ato mais duas, três vezes. Queria atrair os inimigos, quantos mais deles, melhor. Só precisava de um sinal da proximidade dos inimigos.


Um tiro de espingarda ecoou na mata assim que Mara deixou a cobertura atual. A bala a errou, mas o susto a fez se jogar no chão e soltar um grito breve e involuntário. Ao disparo inicial, seguiu-se uma rajada de tiros de revólver.


No chão, Mara'iza se recompôs e interrompeu o fluxo do tempo. "Peguei vocês!", comemorou ao se levantar, então correu na direção dos atiradores.



------------------------------------------



Três cangaceiros dispararam repetidamente para que a menina não se levantasse.


"Mantenham-na imobilizada!", ordenou Petrúquio Fragoso. Tocou então em seu colar de contas e evocou uma onda de devastação à frente. Pelo caminho da destruição, o chão estourava, se partia e afundava, tirando a sustentação da vegetação, fazendo os caules penderem ou até mesmo caírem.


"Avancem com cuidado", Fragoso avisou quando o estrago alcançou a posição da moça. Armas em mãos, os três lacaios avançaram cautelosamente, mantendo uma certa distância um do outro. Fragoso os seguiu de perto.


De repente, duas lanças mágicas explodiram nas costas do bandido mais à esquerda do grupo. Jogado à frente pelos impactos, o sujeito bateu de cara contra uma árvore e tombou inerte em seguida. Surpresos, os outros dois cangaceiros se viraram atirando.


Alvo dos tiros, Mara'iza se teleportou, ressurgindo no flanco oposto dos bandidos. O lampejo do feitiço denunciava sua posição, mas ela atacou novamente antes que os inimigos se virassem novamente. Mais duas lanças mágicas cortaram o ar, cada uma visando um bandido diferente. Um dos alvos foi nocauteado quando o projétil explodiu nele. O outro, porém, se jogou no chão e evitou o ataque.


Finalmente tendo uma visão clara da menina, Fragoso fez uma rocha grande voar do chão na direção dela. Ao mesmo tempo, o capanga que restava se ergueu num salto, virou-se e disparou o revólver várias vezes.


Mara'iza ergueu a mão, criando um escudo mágico que bloqueou a pedra e as balas. Logo após, ela evocou outra onda de choque e saltou para trás da árvore mais próxima. A onda aturdiu o capanga, lançando-o de volta ao chão. Já Fragoso foi protegido pelo redemoinho de pedregulhos, que se aglutinou numa barreira e absorveu o impacto.


"Diaba da moléstia!", Petrúquio Fragoso provocou. Sob seu comando, a terra se ergueu ao redor de Mara'iza, formando uma mandíbula rochosa que então colabou, esmagando tudo em seu interior.



------------------------------------------



No breve instante em que a terra se fechava sobre ela, Mara'iza parou o tempo de novo, então saltou pelo vão exposto da mandíbula e correu para trás dos dois adversários. Era o sexto feitiço complexo que lançava em pouco tempo, contudo, e já começava a se exaurir. Ao invés de preparar um contra-ataque, portanto, preferiu se poupar e recuperar fôlego.



------------------------------------------



A bocarra rochosa ruiu após se fechar, derrubando consigo a árvore que envolvera. Fragoso se aproximou em busca de sinais da feiticeira, mas atento a novos ataques. Simultaneamente, o capanga restante se levantava, recuperado do baque.


Diante dos destroços, Petrúquio Fragoso gesticulou afastando os braços, e a terra se abriu diante dele. A adversária deveria estar soterrada ali, mas não havia sinal dela. "Ela sobreviveu, maldição! Cadê essa desgraçada?"


Não longe dali, Mara'iza tomou ar e reavaliou a situação. Tinha derrubado quatro bandidos, mas aqueles dois não eram os últimos. Tinha certeza de que mais cangaceiros espreitavam nos arredores. E se encontrassem Zé Calabros? Será que ele estava bem? Preocupada, decidiu procurar pelo amigo.


Alheios à partida dela, mas receosos de um ataque surpresa, Fragoso e o capanga continuaram a procurá-la nos arredores.



------------------------------------------



Para evitar um ataque da cobra, Zé Calabros se deixou atingir por um golpe do construto. O impacto o lançou ao chão, mas ele rolou e se ergueu num salto. O monstro de pedra batia forte, mas era mais tolerável do que ser agarrado e esmagado pelo réptil incandescente.


Seguido pela cobra, Zé passou por uma árvore, deu a volta e retornou, depois rolou por baixo das pernas do construto e correu para longe dos inimigos. O construto, virando-se para persegui-lo, prensou o pescoço da cobra entre as pernas. Os dois monstros se enroscaram e caíram um sobre o outro, finalmente dando uma pausa nos ataques.


Percebendo que ganhara alguma vantagem, Zé Calabros parou, virou-se aos oponentes, fechou os punhos e avançou, urrando furioso. "Vou sentar a pua, bando de fela-d'égua!"


Porém, de repente, dois cangaceiros surgiram à frente, metros além dos dois monstros. "Olha o desgramado ali!", um deles gritou, e ambos ergueram espingardas.


"Ah, desgraça!", Zé rolou para o lado e evitou por pouco os disparos. Um dos cangaceiros então recarregou a espingarda, o outro preferiu sacar o revólver.


Os dois monstros conseguiram se desvencilhar, e o construto se ergueu e arremeteu-se contra Zé. A cobra, embora liberada, ainda estava baqueada e não atacou de imediato.


Levantando-se num pulo, Calabros se escondeu atrás de uma árvore, mas o construto bateu o corpo contra a planta, arrancando-a do chão. Jogado à frente pelo impacto, Zé evadiu o tronco que caía, depois usou o próprio oponente de pedra como proteção contra novos disparos.


O cangaceiro de espingarda atingiu o construto e mais uma vez parou para recarregar. O outro, porém, ainda tinha balas no revólver, e deu-se ao trabalho de mirar cuidadosamente. "Esse cabra é casca-grossa mesmo, mas logo vai tá morto!", riu.


Foi quando duas lanças cintilantes explodiram nas costas dos bandidos, tirando-os de combate. "Carábu'ros-san", gritou Mara'iza, surgida da escuridão, "você está bem?".


"É claro que não tô bem, mas tô inteiro!", ele respondeu após se esquivar do construto, mas já vendo o boitatá se aproximar. "Que coisa é essa e como derrubo isso?"


"Isso não é um ser vivo, não tem órgãos nem sente dor", ela respondeu enquanto conjurava uma orbe prateada entre as mãos. "Temos que desfazer a coesão física dele!"


"Entendi", ele gritou, evitando um soco do monstro. "É que nem derrubar uma casa, então!"


Mara'iza lançou a orbe mágica, que voou desviando-se dos obstáculos até explodir contra as costas do construto. A explosão abriu uma fenda no monstro, arrancando grandes pedaços de pedra e empurrando-o para a frente, contra Zé.


Calabros, em resposta, fechou o punho e golpeoou o peito do construto. Desta vez, contra a rocha já fragilizada, seu punho atravessou e esmigalhou o torso de pedra, separando braços, cabeça e membros inferiores. Os pedaços, perdendo coesão, caíram inertes e quebradiços.


O boitatá atacou nesse instante, mas Zé evitou a mordida e revidou com um soco no focinho, afastando o réptil. O cabra do sertão e a cobra dos infernos então confrontaram olhares. Sobravam apenas os dois, não havia mais o construto intrometido que atrapalhava a ambos.


"Você pode ser o maior boitatá que já vi", Calabros bradou, "mas não vai ser o primeiro que vou matar!".


Mara'iza, mais distante, queria ajudar, mas outros perigos espreitavam. O magista inimigo certamente fora alertado pela destruição de seu construto. Fosse assim, provavelmente seguiria o mesmo caminho que ela para chegar ali, circundando a conflagração. "Hora da desforra", ela murmurou em seu idioma natal, então buscou abrigo nas trevas da mata.



------------------------------------------



"Ande logo, traste!", insistiu Fragoso ao capanga. Corriam no limiar das chamas, buscando sinais dos oponentes. "Se a maldita não aparece, matamos Zé Calabros!"


Foi quando duas lanças de energia vieram da escuridão e atingiram o capanga. Pego de surpresa, o bandido tombou e rolou. Mara'iza então se revelou. "Somos só nós, patife, sem mais lacaios. Magia contra magia."


Petrúquio Fragoso a defrontou, passou a mão no colar e começou a gesticular. "Pirralha, você se acha, mas lhe ponho no devido lugar! Quantas vezes já arriscou o pescoço? Quantas vidas já tirou? Vou te dar uma lição e depois te matar!"


"Nada tenho a aprender com um desqualificado", ela respondeu, iniciando uma conjuração. A mão brilhou com energias arcanas, iluminando o sorriso arrogante em seu rosto.



------------------------------------------



Zé Calabros e o boitatá continuavam a confrontação. O monstro incandescente, de cabeça erguida e mandíbula aberta, tentava circundar o oponente. Zé, por sua vez, tinha os punhos fechados e o olhar fixo na cobra, recuando para não se deixar cercar pela cauda dela ou pelo incêndio nas proximidades.


Os movimentos de ambos eram lentos, precisos e cautelosos. Ocasionalmente, um ensaiava um movimento mais brusco, apenas para avaliar a velocidade da reação do outro. Um erro, seja no ataque ou na defesa, poderia ser fatal.


E o erro foi de Zé, que, ao recuar, esbarrou as costas contra uma árvore e se distraiu por um momento. De imediato, as chamas da cobra arderam ainda mais intensas, num clarão cegante, e ela deu o bote.


Sem ter como se esquivar, Calabros se protegeu com o braço esquerdo e gritou de dor quando o membro exposto foi mordido. Sentiu-se então puxado pela cobra, que tentava enrolar-se a ele. Firmou os pés e, resistindo ao puxão, golpeou a cabeça dela com a mão direita. A criatura o soltou, mas deixou no braço uma queimadura horrível.


O réptil não desistiu, já atacava novamente. Ignorando a dor, Calabros golpeou o focinho da fera em pleno bote, forçando-a a recuar.


Desta vez, foi Zé quem não deu trégua. Ele avançou sobre a fera, abriu as mãos e bateu as palmas violentamente sobre a cabeça dela, deixando-a desorientada. Em seguida, ergueu os braços, uniu e fechou os punhos e golpeou-a de novo, de cima para baixo, forçando-a ao chão.


A cobra tentou se erguer, apenas para ser chutada com força e bater a cabeça contra uma rocha próxima. Implacável, Zé se arremeteu furiosamente e, com um soco direto, esmagou o crânio da fera contra a pedra, que se fendeu. Imediatamente, as chamas que irradiavam da criatura se extinguiram, o corpo perdeu sustentação, e ela tombou.


"Obrigado por me fazer maior", agradeceu Zé Calabros, ofegante e com dor, diante da fera que ainda respirava. Então, com uma pisada, esmigalhou o crânio da cobra, dando fim a seu sofrimento.



------------------------------------------



"Velho Tição!", o cangaceiro respirou aliviado ao ver o mandingueiro surgir da escuridão. Se chamava Capiroto, um dos oito capangas envolvidos na luta.


"O que suncê tá fazendo aqui, mizifio?", o velho questionou. "Suncê devia de tá na luta! Cadê o resto do bando?"


"Eu me perdi na mata escura quando a gente se separou", disse Capiroto.


"Ô, traste!", resmungou o mandingueiro.


"Perdão, Velho Tição", pediu o bandido. Então, apontou para um companheiro ferido e inconsciente, encontrado minutos antes. "Você pode fazer alguma coisa por ele?"


Tição observou o capanga caído, que sofrera uma fratura na cabeça. "Podê até posso, mas agora não. Só vô me preocupá com os ferido depois que a peleja terminá!", respondeu. "Isso aí foi pancada bem forte, é coisa de Zé Calabros ou da feiticeira?"


"Da feiticeira, acho. Não vi o Zé Calabros em lugar nenhum, devia tá lutando com o boitatá, que também não vi."


Tição olhou para o incêndio que crescia na mata, obra de Sônia Regina. A conflagração espantara os morcegos enfeitiçados, e o mandingueiro não tinha certeza dos rumos da luta. Ele considerava o que fazer, quando sentiu uma dor súbita e se recolheu diante do desconforto.


"Velho Tição?", Capiroto o acudiu. "O que tá acontecendo?"


Recuperando-se do choque, o mandingueiro se apoiou no cajado. "Sônia Regina... minha filhinha... tá morta...", murmurou melancolicamente, mas logo sua voz se encheu de cólera. "Zé Calabros desgraçado! Vai tê troco, ah se vai! Suncê vai morrê, Zé Calabros, vô te mandá pros quinto dos inferno!"



------------------------------------------



Mara'iza evadiu por pouco a onda de destruição que partiu o solo, depois disparou uma seta prateada.


Petrúquio Fragoso riu quando o redemoinho protetor bloqueou o projétil mágico. Ainda gargalhando, ele gesticulou três vezes seguidas como se arremessasse algo. A cada gesto, um grande pedaço de rocha saltava do chão e voava violentamente contra a moça.


Em resposta, ela conjurou setas mágicas individuais para arrebentar as rochas atiradas. Reagiu rápido ao destruir a primeira, demorou um pouco mais na segunda, mas não teve tempo de disparar contra a terceira e se viu forçada a erguer um escudo mágico. Passado o perigo, apontou a mão a ele e, numa única conjuração, disparou duas lanças cintilantes poderosas.


Ele abriu os braços para receber os ataques, rindo sem medo. A primeira lança explodiu na barreira do redemoinho, fazendo apenas o malfeitor cambalear para trás, surpreso. Contra o segundo projétil, porém, a barreira formada foi mais frágil, e, diante do baque maior, Fragoso caiu ao chão.


Mara'iza percebeu que o redemoinho de pedregulhos, após absorver um ataque, tomava algum tempo para recuperar a potência original. Naquele breve instante, sua resistência diminuiria a cada ataque sucessivo.


Com soberba na face e um plano em mente, ela provocou: "Ouvi dizer que, apesar de todo o seu suposto poder, você levou uma surra de Severino Barriga D'Água. Foi assim que ele o coagiu, não foi? De líder, tornou-se lacaio. Como um covarde, preferiu a desonra à morte!"


Petrúquio se levantou, furioso com a provocação. "Isso não é de sua conta, vagabunda!", vociferou, segurou firme o colar no pescoço e fez um gesto súbito e nervoso.


Mara'iza sentiu o chão se elevar. Por instinto, teleportou-se para alguns metros à direita do adversário, bem a tempo de escapar. No ponto de partida, uma cratera se abriu explosivamente, cuspindo rochas incandescentes e até mesmo lava.


Alertado pelo brilho do teleporte, Fragoso se virou a ela e fez outro gesto violento, abrindo mais uma linha de devastação a partir dele. Mara evitou a onda correndo para o lado, e ele abriu uma mandíbula de rocha para interceptá-la logo à frente.


Com o impulso da corrida, Mara'iza saltou pelo vão da mandíbula antes que ela se fechasse, mas caiu descontroladamente e rolou desajeitada no chão.


Petrúquio gesticulou novamente, e por vários metros ao seu redor todo o terreno começou a tremer, rachar e sacudir como num terremoto.


Pega pelos tremores, Mara'iza era jogada de um lado para o outro e não conseguia se firmar para levantar. Para superar o ruído da terra se partindo, ela insuflou magia em sua voz, soando como um trovão. "E esse tapa-olho, é obra de Severino? O que mais ele te tirou? Seus colhões?"


"Eu vou matar você, desgraçada! E Severino também, um dia!", Fragoso retrucou, cada vez mais raivoso, mas também mais cansado. Fez então um gesto furioso, conjurando outra explosão sob ela.


Mara'iza sorriu. O plano funcionara perfeitamente. Gesticulou, e o tempo parou. Com o mundo inerte, levantou-se e correu sem impedimento até o limite da área de tremores, uns dez metros à esquerda do adversário. Por fim, conjurou seu feitiço mais poderoso e permitiu que o tempo retomasse o curso natural.


Petrúquio Fragoso viu o chão à frente explodir em fogo e lava. Devido à falta do olho esquerdo, não tinha visão periférica para perceber Mara'iza, e a raiva e o cansaço também o cegavam.


E ali perto já não estava apenas uma Mara'iza, mas duas: presente e futuro, lado a lado. As duas Maras menearam o mesmo feitiço, em sincronia quase perfeita. "Uma lição de minha terra, patife", disse a Mara'iza original, em voz de trovão, e a outra completou no mesmo tom: "Técnica supera força bruta!".


Fragoso se virou surpreso. Antes que pudesse conjurar qualquer coisa, as duas Mara'izas apontaram-lhe os braços, e cada uma disparou duas poderosas lanças arcanas. Fragoso arregalou os olhos, se protegeu com os braços e tentou se jogar ao chão, mas já era tarde.


A primeira lança bateu na barreira; a segunda a enfraqueceu; a terceira a anulou, e a quarta atingiu o vilão sem qualquer impedimento. As explosões resultantes arremessaram Petrúquio longe, e imediatamente os tremores cessaram. O bandido caiu e rolou violentamente, até parar inerte.


Uma Mara'iza olhou para a outra, ambas exauridas e ofegantes. A original então desapareceu, deixando uma breve ondulação no ar, e a Mara'iza restante perscrutou o ambiente e contemplou a clareira de devastação causada pelas magias do adversário. "Um desperdício de dons", lamentou, "mas o que esperar de um homem que se orgulha em ser rato?".



------------------------------------------



"Malinha", Zé Calabros chamava, "cadê você?". Seguia a direção da voz dela, que ouvira trovejar há pouco. A cada passo, a força se esvaía diante do peso dos ferimentos, que incluíam escoriações, contusões, uma costela fraturada e queimaduras, as piores nos punhos e no braço esquerdo.


Atrás dele, a conflagração no mato continuava a crescer.



------------------------------------------



Mara'iza se aproximava do corpo de Fragoso para verificar sua condição. Mantinha o braço estendido à frente, pronta para evocar um ataque se ele se movesse. Ela não sabia, porém, se teria a coragem de executá-lo caso ele estivesse apenas incapacitado.


Petrúquio Fragoso, porém, apenas fingia inconsciência. Exausto e ferido, não conseguiria conjurar nada muito complexo. Contudo, não estava totalmente fora de combate, e apenas aguardava uma oportunidade para fugir.


"Malinha, cadê você?", a voz de Zé Calabros veio da mata. Ele não tinha encontrado a clareira, mas estava bem próximo.


Mara sorriu e se voltou à direção da voz. "Estou aqui!", gritou em seu tom natural.


Era a chance de Fragoso. O corpo doía, não teria agilidade para se erguer de uma vez, e ali no chão seus gestos eram limitados. Fez portanto uma rápida conjuração, e o solo o engoliu como se fosse líquido.


Sentindo o feitiço e ouvindo a terra se abrir, Mara'iza se virou de imediato para o adversário, mas não o encontrou. Ele ressurgiu atrás da moça, irrompendo do solo e agarrando-a pelas costas. Mara gritou de susto e tentou se desvencilhar, mas Fragoso a segurou firme, limitando seus movimentos e impedindo que conjurasse feitiços.


"Agora te peguei, desgraçada", ele vociferou. "Achou que feitiçaria era tudo, não foi? Eu vou arrancar sua magia de você, depois acabo com sua vida miserável!"


Mara'iza lutava, mas ele era maior e mais forte.


Petrúquio arrancou o grimório das mãos dela, depois puxou a alça do livro e arremessou-o o mais longe que pôde. "Apesar da sua magia, eu sou mais forte! Isso sim, diaba, é ter poder!", ele provocou. "Você vai descobrir o que é ser vulnerável!"


"Vulnerável, nunca!", Mara'iza retrucou, então sacou a adaga que levava na cintura, símbolo de seu clã, e cravou a lâmina na pança avantajada do cangaceiro.


Urrando de dor, Fragoso largou a menina, levou as mãos ao ferimento e recuou.


"Não vou me desonrar!", ela gritou, voltando-se para ele e erguendo a adaga. "Não sou um rato como você, eu sou sam'rai!". Numa fúria desesperada, ela o apunhalou na junção do ombro e do pescoço, e a lâmina penetrou fundo, rompeu a aorta e fez sangue jorrar.


Ele caiu de joelhos. Tentou em vão conjurar um feitiço, mas as mãos não obedeciam e seus resmungos eram inaudíveis. Logo tombou, dando o último suspiro. Petrúquio Fragoso estava morto.


Suja de sangue, Mara'iza tremia e ofegava. Já ferira pessoas para se defender, mas nunca tirara uma vida de forma tão brutal. O choque a deixou sem ação.



------------------------------------------



Zé apressou o passo ao ouvir o grito assustado de Mara'iza. Antes que a alcançasse, mais gritos se seguiram, dela e de um homem, ambos com raiva. Quando alcançou a clareira devastada, viu o cadáver de Petrúquio Fragoso aos pés da menina ensanguentada.


"Malinha", ele correu ao seu encontro, e ela largou a adaga e o abraçou, contendo as lágrimas. Ele a envolveu nos braços, apesar da dor intensa das queimaduras, e confortou-a. "Chora. Deixa sair. Estou aqui."


E ela chorou. Ficaram ali por um ou dois minutos, até que ela conseguisse se conter e recuperasse a compostura.


Quando finalmente limpou as lágrimas, Mara'iza recuou dos braços dele e sorriu gentilmente. Então, lembrou-se do grimório, seu foco arcano. Estendeu as mãos à frente e, apesar dos pensamentos turbulentos, concentrou-se para evocá-lo.


O livro, porém, não atendeu ao chamado.


Mara'iza ficou assustada. Impossível! O livro estava no alcance, deveria surgir às mãos dela, a menos que alguém segurasse o foco arcano e contestasse a vontade dela. Perplexa, ela perscrutou os arredores.


No limiar da escuridão, o Velho Tição tinha o grimório em mãos. "Suncê tá procurando isso aqui, mizifia?", perguntou o mandingueiro, exibindo um sorriso diabólico.


Calabros fechou os punhos e se pôs em postura de luta. "Você deve ser o Cafuzo Tição."


"Já fui sim, hoje me chamam de Velho Tição", respondeu. "Mas não precisa se aperreá não, que não vou matá cês hoje. Cês vão morrê bem devagarinho, um pouquinho a cada dia, até eu tê minha vingança."


Mara'iza recuperou a adaga no chão para se defender. "Ele está com o grimório!"


"Larga esse livro se não quiser levar uma bifa nas ventas, velho safado!", Zé ameaçou.


"Vem pegá, Zé Calabros", Tição provocou. "Quero vê do que suncê é feito!"


Em resposta, Zé Calabros se arremeteu através dos destroços da clareira devastada, pronto para briga.


O velho estendeu o cajado à frente, com precisão e sem violência. Quando a vara tocou o rapaz, repeliu-o para trás como se ele se chocasse contra uma parede invisível. Zé tombou e rolou, mas quando tentou se levantar, suas pernas e braços fraquejaram, como se tivesse perdido toda a força.


"Carábu'ros-san?", Mara'iza se surpreendeu ao ver o companheiro tão indefeso. "O que está acontecendo?"


"He he he he he", riu o velho. "Toda a força do mundo não adianta nadinha contra eu! Sua sorte, Zé Calabros, é que esse meu corpo velho já não é como antes. Mas nóis vai si vê de novo, te prometo!". Então, engolido por trevas, Tição simplesmente desapareceu.


Mara correu até o amigo e estendeu a mão para ajudá-lo.


"Já tô bem", Zé recusou o auxílio, sentindo suas forças retornarem após o mandingueiro sumir. Porém, seus ferimentos ainda reduziam seu vigor. "Pra onde o desgramado foi?"


A moça se concentrou e sentiu a presença do livro. O velho não tinha como quebrar o elo místico de um abjurador com seu foco. "Ele ainda está por perto", disse e apontou. "Para lá!"


Zé Calabros correu na direção indicada, desviando da vegetação com habilidade. Era seguido por Mara'iza, mas ela não conseguia acompanhar o ritmo. Não demorou, Zé avistou o vulto de Tição afastar-se lentamente com a ajuda do cajado. "Volta aqui, mandingueiro!"


Antes que o velho fosse alcançado, porém, o cangaceiro Capiroto se pôs no caminho. "Te peguei!", gritou. Com revólver em mãos, descarregou todo o tambor.


Zé se jogou ao chão, mas três balas o atingiram.


Capiroto não insistiu no ataque. Ao invés, foi com o velho, até os dois sumirem na mata. "He he he he he", a risada de Tição ecoou distante.


Chegando até Zé Calabros, Mara'iza se abaixou para ajudá-lo. Nenhum dos tiros fora fatal, mas ele respirava com dificuldade.



------------------------------------------



Não longe dali, diante da casa-grande de Beira da Larica, um grupo de camponeses assustados procurava uma audiência. "Tem fogo na mata", informou um camponês à porta da casa-grande, tão logo o sacerdote, escoltado por dois homens armados, chegou para atendê-los.


"Padim do céu! Isso é sério, mas vocês sabem o que fazer!", espantou-se o sacerdote de voz esganiçada. "Mandem todos de Beira da Larica pegar baldes d'água! O que estão esperando?"


"É que a gente ouviu tiros também", o camponês completou. "O povo tá com medo."


O sacerdote considerou o perigo. "Está bem, vou avisar a Milícia dos Cidadãos, meu filho. Apressem-se no combate às chamas, e não tenham medo, que os homens da milícia vão protegê-los."


Os camponeses abaixaram as cabeças, agradeceram e partiram para a vila.


"Será que teve tiro mesmo, Frei Militão?", perguntou um dos protetores do sacerdote. "A gente tem a proteção de Severino, o bando dele não ia atacar Beira da Larica. Será que é coisa de coronel?"


"Coronel, não", Militão considerou. "Ninguém atacou Beira da Larica, parece se tratar de uma escaramuça alheia à gente."


"Mas quem, então?"


"Aposto que são cangaceiros enfrentando alguém!", Frei Militão concluiu, então ajeitou os pesados óculos na face. "Talvez sejam os dois de quem meu rei falou. Se for assim, são perigosos demais pra se enfrentar. Avisem à mílicia pra não atacar. Estendam-lhes as mãos, digam-lhes que há um filho de Padim para curar-lhes as feridas e tragam-nos pra cá. Podem deixar que eu mesmo mando os dois pro inferno!"

A seguir: Pelo povo e para o povo

Índice de Capítulos

Livro Atual
Zé Calabros na Terra dos Cornos
Categorias
RSS Feed
Posts Recentes
Procure por Tags
Procure por Mês
  • Facebook Black Round
  • Twitter Black Round

As Crônicas Anímicas

© 2016 Tiago Moreira