Prévia: Capítulo 14


Aposto que, após o capítulo explosivo da semana passada, vocês devem estar loucos para o próximo. Pois bem, vai aqui uma pequena prévia do Capítulo 14: Pelo povo e para o povo!


As coisas não estão nada boas para nossos heróis. Zé está ferido, incapaz de lutar, precisa descansar. Mara perdeu seu grimório, tornando-se incapaz de conjurar seus feitiços mais poderosos. E agora, ronda um inimigo insidioso, aquele que, com um sorriso amigável, oferece uma mão enquanto segura na outra um punhal: o Frei Militão!


O Capítulo 14 estará disponível em uma semana, no dia 16/06/17.

Capiroto seguia o Velho Tição pela mata escura. "Tenho certeza absoluta que acertei o Zé Calabros", murmurou inquieto. "A gente devia ter ficado e lutado, pra modo de acabar o serviço!"


"Suncê teve sorte de pegá ele disprivinido, mizifio", o mandingueiro retrucou. "Mas não vá se achando não, que se fosse lutá de verdade, ele ia acabá com suncê. Cabra daqueles não morre fácil."


"Larga de bobeira, Tição! O sujeito já tava lá caído, era só meter mais uns pipocos na fuça do desgramado!"


Virando-se de repente, Velho Tição encarou o capanga com olhos que, ali na escuridão, pareciam com os de um gato. "Suncê é um abestado, um minino que se pensa hôme purquê tem uma arma na mão. Eu olhei Zé Calabros nos zóio, mizifio, e aquele lá é que nem Severino, já viu a morte e não arregou pr'ela."


Enervado, Capiroto recuou e baixou a cabeça. "Então, o que a gente vai fazer, Velho Tição? E o resto do grupo? Nem todos morreram ainda."


"Cada um vai tê sua sina, mizifio. Pra suncê, vô dá uma tarefa, e é só com isso que suncê tem que se preocupá agora."



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Ajoelhada diante de Zé, Mara'iza murmurou: "Tsé-san, consegue me ouvir?"


Com dor e fraqueza na voz, Zé Calabros respondeu: "Consigo sim, Malinha... me dá um segundo... que já levanto..."


"O quê?", Mara se surpreendeu. "Você está louco, seu idiota? Está ferido!"


Ele insistiu, contudo. "A gente não tá fora de perigo..."


"Em perigo está você!", ela contestou, forçando-o a permanecer no chão. "Vou dar um jeito nesses ferimentos."


"Pode ter mais cangaceiros por perto, Malinha!"


"Sim, há a possibilidade, mas sinto meu grimório se afastar", Mara disse. Em seguida, conjurou um pequeno globo de luz e avaliou a situação do amigo.


Zé tinha escoriações por todo o corpo, mas seus piores ferimentos eram as queimaduras e duas balas alojadas, no peito e na barriga. No braço esquerdo, exibia a mordida cauterizada da cobra e um sangramento intenso, provocado por um terceiro tiro, que pegara-o de raspão.


"Dona Graça nos deu um pouco de unguento e bandagens para a viagem", Mara lembrou. "São alquímicos, vão acelerar sua cicatrização, especialmente das queimaduras, mas primeiro temos de remover as balas."


"E você pode fazer isso?", ele questionou.


"Eu posso tentar", respondeu. Com os dedos, manteve aberto o ferimento no peito dele. Gesticulou com a outra mão, usando magia para empurrar a bala lenta e cuidadosamente para fora. O esforço tomou alguns minutos, até o projétil saltar da ferida, espirrando sangue.


A cirurgia era dolorosa, mas Zé não reclamava.


Com outro feitiço simples, Mara passou o dedo sobre a bandagem, cortando-a. Depois, com as mãos, dobrou o pedaço de tecido e pressionou-o sobre o buraco da bala removida, assim estancando o sangramento. "Segure aqui", ela pediu e, tão logo foi atendida, concentrou-se em retirar o outro projétil, alojado na barriga.


"Nenhum tiro penetrou profundamente", observou Mara'iza, concentrada na remoção, "com certeza você é favorecido pela sorte, ogro."


Contendo a dor, ele retrucou: "Sorte não tem nada a ver com isso, Malinha".



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Perto dali, formavam-se filas de camponeses para trazer e levar baldes d'água para o combate às chamas. A maioria dos adultos de Beira da Larica participava do esforço, mas alguns eram separados para auxiliar a Milícia dos Cidadãos. Era o caso do cocheiro, Odorico Crinalba.


Odorico acompanhava dois milicianos, quando adentraram uma estranha clareira de chão rachado, crateras abertas e vegetação caída. Perto do centro estava o cadáver ensanguentado de um homem baixo e pançudo, de tapa-olho e barba desgrenhada.


"Esse aí parece o Maculado, que fez pacto com o capeta", um miliciano observou, depois apontou para outro cadáver próximo, parcialmente soterrado. "E tem mais um ali."


Odorico fez o sinal do Divino Pai: tocou a testa, baixou a cabeça e uniu as palmas diante do peito. "Ai, meu Padim! Isso aí é mau agouro!"


"Odorico, larga de bestagem", o segundo miliciano o repreendeu, "e chama uns homens pra levar os defuntos, enquanto a gente procura por mais".


O cocheiro obedeceu. Enquanto isso, os milicianos deixaram a clareira e continuaram as buscas pela mata, mas sem se afastarem do incêndio.



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Odorico retornou pouco depois, trazendo quatro camponeses consigo. Enquanto os recém-chegados retiravam os cadáveres da clareira, o cocheiro circundou a borda da clareira devastada, procurando rastros dos dois milicianos para se reunir com eles.


Foi quando notou, na direção oposta à do incêndio, um brilho distante e sutil, quase imperceptível em meio à folhagem. Era uma luz pura e branca, bem diferente de uma chama. "Padim do céu, o que é aquilo?", murmurou curioso, então adentrou a mata com cautela e seguiu no rumo da cintilação misteriosa.



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Terminada a remoção das balas, Mara'iza remediou e enfaixou o torso e o braço esquerdo de Zé. Em seguida, aplicou o restante do unguento alquímico sobre as queimaduras nas mãos. Foi quando percebeu movimentação nas proximidades. "Está ouvindo?".


"Não parecem ser cangaceiros", Zé observou. "Deve ser gente da fazenda, atraída pelo fogo no mato."


Mara se levantou e estendeu a mão a ele. "É melhor nos afastarmos."


Zé concordou e se levantou com a ajuda dela. Gemeu um pouco, mas se conteve para não demonstrar fraqueza.


Antes de partirem, Mara'iza olhou para trás por instinto, na direção do brilho avermelhado do incêndio, e percebeu um vulto se esgueirando bem perto. "Não estamos sozinhos", disse, sacou a adaga e enviou o globo de luz na direção do intruso, revelando-o.


Revelado, o homem barbado e parcialmente calvo se recolheu em medo, baixando a cabeça e exibindo inofensivamente as mãos. "Por favor, não me façam mal!", implorou.


Zé Calabros fez a moça baixar a adaga: "Calma, Malinha, esse aí é só um trabalhador do campo". Voltou-se então ao recém-chegado: "A gente não vai fazer mal pra você, homem, pode ficar tranquilo".


"Quem é você?", Mara'iza questionou. Ao mesmo tempo, em um gesto, diminuiu o brilho do globo e o fez retornar a ela.


O homem então se apresentou: "Eu sou Odorico Crinalba, seu servo. Cês estão feridos? Precisam de ajuda?".


"Estamos bem, só queremos partir", Mara respondeu desconfiada. "E agradeceríamos se você não nos mencionasse a ninguém."


"Calma, moça, que não sou inimigo", Odorico disse. "É d'ocês que todo mundo tá atrás, não é?"


"Todo mundo, quem?", Zé questionou intrigado.


"A Milícia dos Cidadãos. Ouvi os sujeitos cochichando, tavam atrás dum casal por ordem do Frei Militão. Se entendi direito, cês são amigos dele, não são? Ele queria ocês sãos e salvos."


"Frei?", Zé avaliou, "Isso é título de sacerdote! Ele é um frade de verdade?".


"Um sacerdote curaria seus ferimentos rapidamente", Mara'iza sugeriu a Zé. "Se não é hostil, poderíamos aproveitar esta chance."


"Calma aí, Malinha, que nunca ouvi falar desse tal de Militão, e essa história tá boa demais da conta pra ser verdade."


"Cês não conhecem o Frei Militão?", Odorico estranhou. "Foi ele quem assumiu a fazenda depois do Coronel Bocarra, não sabiam?"


"Coronel Bocarra foi morto por Severino", Zé estreitou os olhos, desconfiado. "Esse Frei Militão, como veio parar aqui? O que ele tem a ver com os cangaceiros?"


Confuso com a pergunta, Odorico finalmente se deu conta, então, com os olhos se enchendo de lágrimas, começou a balbuciar e tremer. "Peraí, cês não são do bando? Padim do céu, agora entendi! Cês são os dois que enxotaram Severino de Bota do Judas!"


Diante da reação nervosa do homem, Zé fechou o punho, pronto para nocauteá-lo se ele começasse a gritar por socorro. Já Mara hesitou, não tinha sangue frio para apunhalar um camponês indefeso.


Para surpresa dos dois, porém, Odorico caiu de joelhos e, lágrimas correndo-lhe na face, suplicou a eles: "Cês têm que ajudar minha família, por favor... por piedade... A gente precisa fugir desse lugar! Acudam!".


Mara'iza tentou acalmá-lo desajeitadamente. "Ei, pare! Levante-se! Esse não é comportamento apropriado a um homem!"


Zé, porém, compreendia a angústia de Odorico. "Deixa ele, Malinha. Já vi gente tão desesperançada que nem era capaz de pedir ajuda. Esse homem não tá fraquejando, ele tá lutando!"


"Lutando?", ela não compreendeu.


"É! Contra o medo que puseram nele! Bastou a gente dar pra ele um cadinho de esperança, e o medo tá indo abaixo. É como... um pequeno milagre!", Zé Calabros explicou, então caminhou até Odorico e estendeu-lhe a mão.


"Cês vão me ajudar?", Odorico lançou um olhar esperançoso.


"A gente precisa descansar primeiro", Zé respondeu, "mas prometo que vou fazer tudo que puder pra salvar você e sua família!".


"Obrigado, muito obrigado!", Odorico agradeceu, erguendo-se e limpando o rosto. "Cês podem se esconder na minha casa. É humilde e pequena, mas não vão achar ocês lá."


"Ei, ogro", Mara'iza reclamou, "seu estado é péssimo, não é momento de assumir compromissos! Pense em você primeiro!".


"Essa promessa não é de hoje, Malinha", respondeu, olhando para a fita branca em seu braço. "Carrego essa jura há muito tempo, não é agora que vou arregar."


Livro Atual
Zé Calabros na Terra dos Cornos
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As Crônicas Anímicas

© 2016 Tiago Moreira