Capítulo 14: Pelo povo e para o povo

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Capiroto seguia o Velho Tição pela mata escura. "Tenho certeza absoluta que acertei o Zé Calabros", murmurou inquieto. "A gente devia ter ficado e lutado, pra modo de acabar o serviço!"


"Suncê teve sorte de pegá ele disprivinido, mizifio", o mandingueiro retrucou. "Mas não vá se achando não, que se fosse lutá de verdade, ele ia acabá com suncê. Cabra daqueles não morre fácil."


"Larga de bobeira, Tição! O sujeito já tava lá caído, era só meter mais uns pipocos na fuça do desgramado!"


Virando-se de repente, Velho Tição encarou o capanga com olhos que, ali na escuridão, pareciam com os de um gato. "Suncê é um abestado, um minino que se pensa hôme purquê tem uma arma na mão. Eu olhei Zé Calabros nos zóio, mizifio, e aquele lá é que nem Severino, já viu a morte e não arregou pr'ela."


Enervado, Capiroto recuou e baixou a cabeça. "Então, o que a gente vai fazer, Velho Tição? E o resto do grupo? Nem todos morreram ainda."


"Cada um vai tê sua sina, mizifio. Pra suncê, vô dá uma tarefa, e é só com isso que suncê tem que se preocupá agora."



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Ajoelhada diante de Zé, Mara'iza murmurou: "Tsé-san, consegue me ouvir?"


Com dor e fraqueza na voz, Zé Calabros respondeu: "Consigo sim, Malinha... me dá um segundo... que já levanto..."


"O quê?", Mara se surpreendeu. "Você está louco, seu idiota? Está ferido!"


Ele insistiu, contudo. "A gente não tá fora de perigo..."


"Em perigo está você!", ela contestou, forçando-o a permanecer no chão. "Vou dar um jeito nesses ferimentos."


"Pode ter mais cangaceiros por perto, Malinha!"


"Sim, há a possibilidade, mas sinto meu grimório se afastar", Mara disse. Em seguida, conjurou um pequeno globo de luz e avaliou a situação do amigo.


Zé tinha escoriações por todo o corpo, mas seus piores ferimentos eram as queimaduras e duas balas alojadas, no peito e na barriga. No braço esquerdo, exibia a mordida cauterizada da cobra e um sangramento intenso, provocado por um terceiro tiro, que pegara-o de raspão.


"Dona Graça nos deu um pouco de unguento e bandagens para a viagem", Mara lembrou. "São alquímicos, vão acelerar sua cicatrização, especialmente das queimaduras, mas primeiro temos de remover as balas."


"E você pode fazer isso?", ele questionou.


"Eu posso tentar", respondeu. Com os dedos, manteve aberto o ferimento no peito dele. Gesticulou com a outra mão, usando magia para empurrar a bala lenta e cuidadosamente para fora. O esforço tomou alguns minutos, até o projétil saltar da ferida, espirrando sangue.


A cirurgia era dolorosa, mas Zé não reclamava.


Com outro feitiço simples, Mara passou o dedo sobre a bandagem, cortando-a. Depois, com as mãos, dobrou o pedaço de tecido e pressionou-o sobre o buraco da bala removida, assim estancando o sangramento. "Segure aqui", ela pediu e, tão logo foi atendida, concentrou-se em retirar o outro projétil, alojado na barriga.


"Nenhum tiro penetrou profundamente", observou Mara'iza, concentrada na remoção, "com certeza você é favorecido pela sorte, ogro."


Contendo a dor, ele retrucou: "Sorte não tem nada a ver com isso, Malinha".



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Perto dali, formavam-se filas de camponeses para trazer e levar baldes d'água para o combate às chamas. A maioria dos adultos de Beira da Larica participava do esforço, mas alguns eram separados para auxiliar a Milícia dos Cidadãos. Era o caso do cocheiro, Odorico Crinalba.


Odorico acompanhava dois milicianos, quando adentraram uma estranha clareira de chão rachado, crateras abertas e vegetação caída. Perto do centro estava o cadáver ensanguentado de um homem baixo e pançudo, de tapa-olho e barba desgrenhada.


"Esse aí parece o Maculado, que fez pacto com o capeta", um miliciano observou, depois apontou para outro cadáver próximo, parcialmente soterrado. "E tem mais um ali."


Odorico fez o sinal do Divino Pai: tocou a testa, baixou a cabeça e uniu as palmas diante do peito. "Ai, meu Padim! Isso aí é mau agouro!"


"Odorico, larga de bestagem", o segundo miliciano o repreendeu, "e chama uns homens pra levar os defuntos, enquanto a gente procura por mais".


O cocheiro obedeceu. Enquanto isso, os milicianos deixaram a clareira e continuaram as buscas pela mata, mas sem se afastarem do incêndio.



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Odorico retornou pouco depois, trazendo quatro camponeses consigo. Enquanto os recém-chegados retiravam os cadáveres da clareira, o cocheiro circundou a borda da clareira devastada, procurando rastros dos dois milicianos para se reunir com eles.


Foi quando notou, na direção oposta à do incêndio, um brilho distante e sutil, quase imperceptível em meio à folhagem. Era uma luz pura e branca, bem diferente de uma chama. "Padim do céu, o que é aquilo?", murmurou curioso, então adentrou a mata com cautela e seguiu no rumo da cintilação misteriosa.



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Terminada a remoção das balas, Mara'iza remediou e enfaixou o torso e o braço esquerdo de Zé. Em seguida, aplicou o restante do unguento alquímico sobre as queimaduras nas mãos. Foi quando percebeu movimentação nas proximidades. "Está ouvindo?".


"Não parecem ser cangaceiros", Zé observou. "Deve ser gente da fazenda, atraída pelo fogo no mato."


Mara se levantou e estendeu a mão a ele. "É melhor nos afastarmos."


Zé concordou e se levantou com a ajuda dela. Gemeu um pouco, mas se conteve para não demonstrar fraqueza.


Antes de partirem, Mara'iza olhou para trás por instinto, na direção do brilho avermelhado do incêndio, e percebeu um vulto se esgueirando bem perto. "Não estamos sozinhos", disse, sacou a adaga e enviou o globo de luz na direção do intruso, revelando-o.


Revelado, o homem barbado e parcialmente calvo se recolheu em medo, baixando a cabeça e exibindo inofensivamente as mãos. "Por favor, não me façam mal!", implorou.


Zé Calabros fez a moça baixar a adaga: "Calma, Malinha, esse aí é só um trabalhador do campo". Voltou-se então ao recém-chegado: "A gente não vai fazer mal pra você, homem, pode ficar tranquilo".


"Quem é você?", Mara'iza questionou. Ao mesmo tempo, em um gesto, diminuiu o brilho do globo e o fez retornar a ela.


O homem então se apresentou: "Eu sou Odorico Crinalba, seu servo. Cês estão feridos? Precisam de ajuda?".


"Estamos bem, só queremos partir", Mara respondeu desconfiada. "E agradeceríamos se você não nos mencionasse a ninguém."


"Calma, moça, que não sou inimigo", Odorico disse. "É d'ocês que todo mundo tá atrás, não é?"


"Todo mundo, quem?", Zé questionou intrigado.


"A Milícia dos Cidadãos. Ouvi os sujeitos cochichando, tavam atrás dum casal por ordem do Frei Militão. Se entendi direito, cês são amigos dele, não são? Ele queria ocês sãos e salvos."


"Frei?", Zé avaliou, "Isso é título de sacerdote! Ele é um frade de verdade?".


"Um sacerdote curaria seus ferimentos rapidamente", Mara'iza sugeriu a Zé. "Se não é hostil, poderíamos aproveitar esta chance."


"Calma aí, Malinha, que nunca ouvi falar desse tal de Militão, e essa história tá boa demais da conta pra ser verdade."


"Cês não conhecem o Frei Militão?", Odorico estranhou. "Foi ele quem assumiu a fazenda depois do Coronel Bocarra, não sabiam?"


"Coronel Bocarra foi morto por Severino", Zé estreitou os olhos, desconfiado. "Esse Frei Militão, como veio parar aqui? O que ele tem a ver com os cangaceiros?"


Confuso com a pergunta, Odorico finalmente se deu conta, então, com os olhos se enchendo de lágrimas, começou a balbuciar e tremer. "Peraí, cês não são do bando? Padim do céu, agora entendi! Cês são os dois que enxotaram Severino de Bota do Judas!"


Diante da reação nervosa do homem, Zé fechou o punho, pronto para nocauteá-lo se ele começasse a gritar por socorro. Já Mara hesitou, não tinha sangue frio para apunhalar um camponês indefeso.


Para surpresa dos dois, porém, Odorico caiu de joelhos e, lágrimas correndo-lhe na face, suplicou a eles: "Cês têm que ajudar minha família, por favor... por piedade... A gente precisa fugir desse lugar! Acudam!".


Mara'iza tentou acalmá-lo desajeitadamente. "Ei, pare! Levante-se! Esse não é comportamento apropriado a um homem!"


Zé, porém, compreendia a angústia de Odorico. "Deixa ele, Malinha. Já vi gente tão desesperançada que nem era capaz de pedir ajuda. Esse homem não tá fraquejando, ele tá lutando!"


"Lutando?", ela não compreendeu.


"É! Contra o medo que puseram nele! Bastou a gente dar pra ele um cadinho de esperança, e o medo tá indo abaixo. É como... um pequeno milagre!", Zé Calabros explicou, então caminhou até Odorico e estendeu-lhe a mão.


"Cês vão me ajudar?", Odorico lançou um olhar esperançoso.


"A gente precisa descansar primeiro", Zé respondeu, "mas prometo que vou fazer tudo que puder pra salvar você e sua família!".


"Obrigado, muito obrigado!", Odorico agradeceu, erguendo-se e limpando o rosto. "Cês podem se esconder na minha casa. É humilde e pequena, mas não vão achar ocês lá."


"Ei, ogro", Mara'iza reclamou, "seu estado é péssimo, não é momento de assumir compromissos! Pense em você primeiro!".


"Essa promessa não é de hoje, Malinha", respondeu, olhando para a fita branca em seu braço. "Carrego essa jura há muito tempo, não é agora que vou arregar."



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Odorico guiou Mara e Zé para fora da mata. Sob céu parcialmente nublado, logo além do descampado à frente, aparecia a vila de Beira da Larica, um amontoado de casebres de diferentes formas e tamanhos. Com os camponeses e milicianos combatendo o incêndio, a vila estava deserta.


"É aqui onde moro", Odorico informou, batendo à porta do casebre.


"Quem é?", uma voz feminina veio de dentro da residência. Ouvia-se também um choro contínuo de bebê.


"É papai, minha filha", Odorico respondeu.


Uma menina de uns doze anos de idade, de pele escura e cabelos cacheados, removeu a tranca e abriu a porta. "Quem são esses, papai?", perguntou. Tinha nos braços o bebê que chorava, e ao seu lado havia uma outra menina, mais jovem e de traços similares.


"Estes são Zé e Mara, amigos do papai, vão dormir aqui esta noite", Odorico respondeu, então se voltou aos dois. "Preciso voltar pra junto da milícia, a gente conversa direito depois. Estas são minhas filhas, Lica e Síri, e o pequenino é o Téo. A casa não é grande, mas fiquem à vontade, podem dormir no meu quarto."


Agradecidos, Mara'iza e Zé Calabros se despediram e adentraram o casebre. A residência era composta apenas por dois cômodos. A sala de entrada tinha colchas estiradas no chão para as crianças dormirem, e a passagem para o quarto não tinha porta, apenas uma cortina de miçangas.


Acostumada a uma vida nobre, Mara'iza ficou horrorizada. "Como seres humanos podem viver sob condições tão precárias?"


"Isso é servidão", Calabros respondeu. "Essas pessoas não são donas de nada aqui, Malinha, elas trabalham pra não perder o pouco que têm. Quando sua vida depende da boa vontade alheia, qualquer migalha vira um grande favor. É isso que os velhos coronéis faziam."


"E o Frei Militão continua a fazê-lo", Mara'iza refletiu. Então, envergonhou-se ao perceber: "Céus, em minha terra... esse é também o modo dos sam'rai...".



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Já passava da meia-noite quando o fogo foi contido e os camponeses retornaram às suas casas. Dormiram tarde, despertariam cansados no dia seguinte, mas a vida precisava continuar.


À frente da casa-grande, a Milícia dos Cidadãos dispôs os corpos dos cangaceiros encontrados na mata. "Dois queimados, um esfaqueado, um destroçado e um com a cachola rachada", exibiu o capitão dos milicianos, então apontou para os sobreviventes. "Os outros três ainda estão vivos, mas por pouco."


Frei Militão se aproximou dos feridos e fez o sinal do Divino Pai. "Oh, Padim, quanta crueldade com esses pobres homens! E os agressores? Nem sinal deles?"


Os homens indicaram que não, para frustração do sacerdote.


"Esses são os males do mundo: homens de privilégio e quem os segue em troca de benesses", Militão falou num tom solene, com as mãos unidas diante do peito. "Eles atrapalham a verdadeira justiça, mantêm o povo servil e tratam como criminosos os que desejam apenas o fim da escravidão. Mas não fraquejemos: o Divino Pai está do nosso lado, o lado do povo."


E dito isso, uma luz dourada sutil brilhou entre as palmas unidas do frade. O sacerdote se abaixou diante do primeiro ferido e tocou-o no peito, fazendo o brilho ganhar ainda mais intensidade.


"Erga-se, meu filho, que ainda não é sua hora", Militão comandou, "Pelo povo e por Severino, Padim o conclama a continuar a boa luta!".


E o cangaceiro abriu os olhos, assustado e confuso, como se despertasse de um pesadelo.



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Após dar a tarefa a Capiroto, o Velho Tição retornou à mata, exatamente onde vira Zé Calabros e a feiticeira pela última vez. Como esperado, não os encontrou ali, mas para sua surpresa percebeu o cheiro e os rastros de uma terceira pessoa. A trilha deixada apontava para a vila.


"Os desgramado tivero ajuda", Tição murmurou furioso.


O mandingueiro contemplou suas opções. Para armar uma cilada na vila, teria de requisitar a ajuda de alguém que detestava. Por outro lado, isso lhe daria mais subalternos dispensáveis para sacrificar. Antes, contudo, seu corpo velho e cansado precisava repousar.



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Horas se passaram. A noite correu sem mais eventos, e o horizonte começava a se delinear com luz, anunciando para breve o nascer do sol.


Em seu quarto, Frei Militão ainda dormia profundamente. Embora costumasse madrugar todas as manhãs, a cura dos três cangaceiros na noite anterior tornara seu sono muito mais pesado naquele dia. Portanto, não foi o cantar do galo que o despertou, mas sim uma brisa repentina no quarto, seguida por uma risada sinistra.


"E suncê tá aqui, brincando de coroné! He he he he he!", riu o Velho Tição, diante da janela aberta.


Militão se levantou assustado, mas o medo se tornou desprezo ao entender a situação. "Coronéis exploram os pobres, mandingueiro; eu governo não pra mim, mas pelo povo e pro povo! E você, o que quer aqui?"


"Tô aqui a contragosto", respondeu, "pra avisá que Zé Calabros e a feiticeira estão no seu vilarejo. Tem gente sua ajudando os dois".


"Isso é um absurdo inaceitável! Seja quem for, traiu seus concidadãos e ameaçou nossa comunidade", Militão urrou indignado, então pegou os óculos no criado-mudo e se levantou da cama.


"Suncê vai deixá que desafiem sua autoridade assim, mizifio?", o velho provocou.


"Não permitirei que essa atitude se torne uma influência perniciosa para o povo!", o frade respondeu. "Aponte-me os envolvidos, e darei a eles uma punição exemplar diante de todos!"



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Ansiedade, medo, desconforto e o choro do bebê não deixaram Mara'iza descansar. Durante toda a noite, ela alternara entre breves cochilos e longos períodos despertos. Incomodava-a que Zé, ao contrário, dormira pesadamente a despeito de todos os perigos e distrações.


Ainda de madrugada, Odorico e a esposa se levantaram para começar o dia. Tão logo deixaram o quarto, Mara também se ergueu. O cansaço acumulado era palpável, mas era inútil insistir no sono. Sua primeira atitude foi se concentrar na maior de suas preocupações, o grimório. Sentiu-o bem distante e se afastando continuamente, então suspirou.


Na sala ao lado, as crianças ainda dormiam. À porta da casa, Odorico beijou a esposa e partiu, sem nem mesmo comer um desjejum. A mulher então abriu um dos baús na sala, onde guardavam comida. Sobravam-lhes apenas raízes de macaxeira, dois pães amanhecidos e alguns grãos de café.


"Bom dia, senhora", Mara'iza sussurrou ao deixar o quarto, com o devido cuidado de não despertar as crianças.


"Bom dia!", a mulher sorriu, "meu nome é Dona Santinha. Está com fome?".


"Não, obrigada, mas estou honrada em conhecê-la. Sou Mara'iza", ela se apresentou, curvando-se gentilmente. Então notou que, além das meninas e do bebê, dormia na sala um rapaz adolescente, um pouco mais jovem que ela própria.


"Esse é o Juninho", Dona Santinha disse, "devia ter ido com o pai, mas está muito cansado por causa do incêndio. Eu e Odorico tivemos oito filhos, mas alguns já saíram de casa, e outros...", ela se conteve para não chorar, "outros estão com Padim... Vocês... vocês vão ajudar a gente, não vão?".


"Eu não sei como serei útil", Mara desabafou. "Mas meu amigo é muito forte, vai ajudá-los com toda certeza. Não entendo, contudo, por que precisam de ajuda para deixar este lugar? O que os prende aqui?".


"Pela lei da comunidade", Santinha respondeu, "ninguém pode ir embora sem que o Frei Militão deixe. Quem abandona Beira da Larica é egoísta, contra o bem comum".


"Isso é absurdo!", protestou Mara'iza.


"Na época do Coronel Hermenegildo Bocarra, aqui tinha mais de quinhentas famílias, sabe? Mas depois, muita gente começou a deixar a fazenda, foi quando meus dois filhos mais velhos levaram as famílias deles pra longe. Daí, Frei Militão proibiu a saída, pra não deixar Beira da Larica esvaziar."


"Não entendo por que o povoado dá ouvidos a esse sacerdote! O que devem a ele?"


"Muita gente gosta do Militão", Santinha disse. "Ele andava pelos sertões, visitando as fazendas e comunidades, curando os enfermos, ensinando as crianças. Quando o Coronel Tibúrcio, que o diabo o carregue, mandou matar os sacerdotes de Padim, os pobres ficaram ainda mais carentes do frade.


E desde sempre o Frei Militão falava contra os coronéis, sabe? Dizia que eram ricos às custas dos pobres, prometia que um dia o povo ia se cuidar sozinho. Quando Severino veio, Militão chegou pra ensinar a gente a viver sem coronel nenhum."


"Ora", Mara'iza observou, "mas se fosse tão bom quanto ele prometeu, não haveria famílias querendo partir".


"É verdade, minha filha. Antigamente, a fazenda produzia cana aos montes, e vendia açúcar e cachaça pras caravanas que passavam. O coronel era um homem severo, mas pagava a gente em barões e centos-avos, e o povo tinha suas hortas, porcos, cabras e vacas. O que precisasse, a gente comprava uns dos outros, e o que faltasse arrumava com os mercadores de fora.


Quando Militão tomou conta, ele mandou derrubar a plantação de cana e confiscou as hortas e os animais. Disse que tudo ia ser de todos, e o que fosse produzido, o frade se encarregava de distribuir pra toda a comunidade. Ninguém ia ser rico nem pobre, a gente ia viver do próprio trabalho, com fartura, sem coronel nem dinheiro.


Só que nunca tem comida, sabe? Falta de tudo aqui, e as caravanas não passam mais. O que a gente produz, Militão separa a parte dele e da milícia primeiro, só depois distribui o que sobra. E quando os cangaceiros aparecem, dá o pouco que a gente tem pra eles. Aconteceu esses dias mesmo, Severino precisava de comida, e o Militão foi lá entregar."


Mara'iza ficou indignada. "Como podem permanecer passivos e calados diante dessa afronta? Vocês deveriam derrubar esse sacerdote!"


Dona Santinha pensou um pouco, não era uma pergunta fácil de responder. "Tem muitos que ainda acreditam nele. Militão põe a culpa dos problemas nos coronéis, diz que tem gente a serviço deles no meio da comunidade, sabotando a lavoura. As pessoas já nem confiam mais umas nas outras, qualquer discussão vira briga.


E tem a Milícia dos Cidadãos, que são os únicos que podem andar armados pela fazenda. Os cabras da milícia não passam de jagunços do frade, obedecem pra receberem a parte deles da distribuição, que é maior do que o que vai pros camponeses. Se te acusam de traição, os milicianos vêm tirar satisfação. Todo mundo se cala por medo."


"É realmente uma situação terrível", Mara murmurou.


"Mas vocês vão nos ajudar", a mulher sorriu. "Vocês venceram Severino, podem nos proteger da milícia, não podem? A gente agradece muito, viu? Agora, ocê me dê licença, que vou preparar um café e ver se arrumo leite lá fora. Logo, logo, as crianças vão acordar."


Mara'iza forçou-se a sorrir, mas no âmago sentia-se impotente sem o grimório. Por um momento, se concentrou novamente no livro, na esperança de alguma forma recuperá-lo, mas apenas sentiu-o ainda mais longínquo do que antes. Suspirou, então tomou uma decisão radical.



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O sol já se elevava no horizonte, anunciando um dia levemente nublado. O vento norte, contudo, indicava uma pequena possibilidade de vir alguma chuva do litoral, o que seria uma benção após tantos meses de secura.


A barriga de Odorico roncava. Pelos filhos, ele preferira sacrificar o desjejum, decidindo que mais tarde cataria frutas na mata e mendigaria um almoço na casa-grande. A comida andava escassa em toda a comunidade, até as rações diárias distribuídas eram cada vez menores.


Chegando aos estábulos, Odorico estranhou a falta de um cavalo. "Quem será que levou?", indagou-se. "Melhor avisar o Frei Militão."


Uma voz veio de trás, "Aí tá ocê, Odorico! Frei Militão quer falar contigo". Dois milicianos entravam nos estábulos, ambos empunhando bacamartes.


"Vixe!", Odorico se virou alarmado para eles. "Tem alguma coisa errada?", gaguejou.


"Vem com a gente", respondeu um dos homens, "que daí ocê descobre".



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Guardado por mais dois milicianos, o Frei Militão esperava à varanda da casa-grande. "Odorico", disse com voz esganiçada tão logo o cocheiro chegou, "tem uma acusação por demais severa sobre você, está na hora de confessar seus pecados".


"Isso é sobre o cavalo sumido, frade?", Odorico balbuciou.


"Não tente me engambelar, homem, que Padim está de olho!", o sacerdote de vestes desgastadas o confrontou. "Sua família vive nos dando problemas, não é mesmo? Dois filhos abandonaram a comunidade, e um terceiro espalhava mentiras e maldades a meu respeito pra boa gente dessa terra."


"Por favor, Frei Militão, minha família não quer causar qualquer problema."


"Será mesmo? Eu sempre desconfiei dos Crinalba, tão próximos do coronel. Você cuidava dos cavalos dele, sua mulher era arrumadeira na casa-grande. Você lembra o que aconteceu com quem defendeu o coronel, Odorico? Você me jurou que estava do lado do povo, até dei uma casa nova pra sua família continuar aqui."


"Você tirou a gente da nossa casa e deu pra milícia!", Odorico retrucou.


Militão esbofeteou o cocheiro. "Eis aí a motivação: inveja dos que lealmente atendem as necessidades de todos!", sorriu. "Agora, falta confessar o crime."


"Não fiz nada", Odorico insistiu. "Por favor, frade, acredita em mim!"


"Sei que você está escondendo dois inimigos da comunidade", Frei Militão revelou. "Mandei a milícia até sua casa, se os procurados estiverem lá, sua família será punida."


Odorico entrou em choque. "Por misericórdia, não maltrata minha família", suplicou, caindo de joelhos e se agarrando à veste do sacerdote, "eles não têm culpa, foi uma decisão minha. Eu só queria levar minha família embora, não queria prejudicar ninguém".


"Ah, agora o crime aparece!", Militão se abaixou para continuar a confrontação. "Estamos construindo uma nova sociedade aqui, Odorico, justa e igualitária. As tribulações que passamos no presente são necessárias para alcançarmos um futuro melhor. O que é um pouco de fome diante da fartura que teremos?"


"Me perdoa, frade", Odorico baixou a cabeça. "Não fiz por mal."


"O mal já foi feito, mas podemos remediá-lo com a graça do Divino Pai. Vamos à vila, onde você confessará seus pecados. Lá, diante de todos, admitirá que traiu sua comunidade. Dirá que pensava só em si, não no bem comum. Confessará que agiu sob promessas de riqueza dos coronéis. Assim, você será punido por seus crimes, mas salvará sua família."


Com a esperança arrasada, Odorico se entregou ao choro. "Sim, senhor, eu confesso tudo o que me pedir."


"Isso é o melhor pro povo, para que não se desvie do caminho", Frei Militão disse num tom solene. Erguendo-se, ordenou aos quatro milicianos: "Levem esse traste desgraçado pra vila! Hoje, faremos a justiça dos homens, sob as bênçãos do Divino Pai!".



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Sob o forte cheiro de café, as mulheres se reuniam ao redor do fogão comunitário. Ali aproveitavam para receber as rações matinais, trocar mantimentos e contar causos e fofocas. Infelizmente, ninguém tinha muito interesse no escambo, a penúria de todos era similar. O assunto principal da manhã era, obviamente, o incêndio da última noite.


Dona Santinha aguardava sua vez de usar o fogão. Prepararia o café para beber e aqueceria o leite que conseguira. Depois de alimentar as crianças, levaria o que sobrasse para o marido.


Foi quando chegaram quatro milicianos armados. As mulheres, assustadas, deram passagem a eles, que então abordaram Dona Santinha. "Frei Militão, em nome do povo, mandou ocê vir com a gente."



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No quarto, Mara'iza meditava de joelhos, com a adaga do clã em mãos. Sussurrava palavras de poder, num ritual que tomaria algumas horas. Ao seu lado, Zé ainda dormia, mas não em paz. Revirava-se por causa de um sonho, murmurando: "Svar...".



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Nove anos atrás...


A escuridão da noite finalmente se dissipava diante do nascer do sol, revelando o céu azul da manhã e a vastidão erma da Catinga Danada.


A revoada de dragões parecia muito menor, reduzida a algumas dezenas. Muitos dos monstros tinham desistido da perseguição, outros tantos foram deixados pelo caminho com asas e patas feridas. Em poucas horas, o calor do dia elevaria os vapores venenosos daquele ermo maldito e forçaria os monstros a debandarem.


Svar, contudo, talvez não resistisse até lá. Estava coberto de queimaduras, ferimentos e sangue, em especial no torso e braços. O gigante ofegava, enfraquecido pela luta interminável. Percorrera dezenas de quilômetros durante a noite infernal, mas mesmo exausto insistia em prosseguir.


Fortuitamente, o ímpeto dos dragões também arrefecia. Pela última hora, nenhum deles teve a audácia de se lançar contra o gigante ferido.


Percebendo aquela trégua, Svar abriu o embornal e verificou o menino ali escondido. "José do Clã Calabros, você está bem?"


Apesar de sacudido durante toda a noite, o menino Zeca nada sofrera além de algumas escoriações. "Estou", respondeu, "mas e você?".


O aspecto do gigante era péssimo, mas ele escondia a dor por trás da voz poderosa. "Não se importe comigo, eu sou um gargan, filho das montanhas e herdeiro dos mares. Enquanto tiver de lutar, meu amigo, não sentirei dor, fraqueza ou cansaço."


Embora continuassem a manter distância, os dragões acima começaram a urrar, ecoando um rosnado repetitivo e constante, que mais parecia um cântico ou provocação.


Defensivamente, mas sempre recuando na direção do sertão, Svar se virou para os monstros e notou uma forma gigantesca cruzar os céus, maior do que qualquer outro dragão que já vira. Então, entendeu qual era a palavra que os monstros rosnavam repetidamente nas alturas: "Vol'kor! Vol'kor! Vol'kor!".


O gigante fechou os olhos e, como se orasse, murmurou: "Parece que nossa jornada foi de fato tola, Brunnhardt. Não estávamos preparados para a empreitada".


O dragão titânico sobrevoou bem alto, sua sombra obscurecendo a pequenina forma do gigante abaixo, então desceu violentamente. A terra tremeu quando o monstro pousou a uns cem metros de distância, bloqueando a fuga para a caatinga.


Svar se voltou para o grande dragão e fechou os punhos. Apesar dos ferimentos debilitantes, não desistiria.


Do embornal, entre o fascínio e o horror, Zeca nada pôde fazer além de observar o monstro.


O dragão tinha mais de trinta metros de comprimento do focinho à ponta da cauda, fazendo Svar parecer minúsculo. Com os olhos vermelhos incandescentes e as asas completamente abertas, o réptil titânico falou numa voz ribombante. "Eu sou Vol'koragrashtedarr, e você atentou contra minha prole e posses."


"E eu", gritou o gigante, "sou Svar Quebra-Pedras, e se este é o local de minha morte, então morrerei lutando!".


O dragão estendeu a pata dianteira à frente, abrindo-a e deixando cair o machado de Brunnhardt. "Seu companheiro disse o mesmo, vocês não me serviriam como escravos."


Ver o machado fez o sangue de Svar ferver, mas ele conteve a vontade de arremeter-se para sua última batalha. Ao invés, caminhou lentamente na direção do dragão, enquanto o monstro o aguardou, provocador e sem medo.


"O que vamos fazer?", Zeca perguntou.


"Ele não sabe que você está aqui", Svar murmurou para o menino, então fechou o embornal. "Segure-se."


"O que está fazendo, Svar?", o menino gritou inutilmente de dentro do embornal.


O gigante removeu o embornal de seu torso e segurou-o pela alça. Com lágrimas nos olhos, falou apenas alto o suficiente para que o garoto pudesse compreendê-lo. "Eu o agradeço, José do Clã Calabros, por vir conosco em nossa jornada. Sozinhos, morreríamos esquecidos nesta terra maldita, mas com você sobreviverá a memória de nossos feitos."


O monstro, vendo o gigante se aproximar, abriu a bocarra e se preparou.


Svar acelerou o passo e, ao mesmo tempo, girou o embornal como uma boleadeira. "Não se desespere, José Calabros, desafie o destino! Enquanto você viver, nossa morte não será em vão!"


O dragão avançou, mas o gigante evadiu a mordida e, no mesmo movimento, arremessou o embornal, que voou desimpedido por entre as pernas do monstro.


Svar rolou, agarrou o machado de Brunnhardt e se ergueu com a arma numa mão e o outro punho cerrado. Então, avançou contra o monstro, sua voz troando pelos ermos: "Com honra e glória e nenhum lamento!".



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O embornal pousou violentamente dezenas de metros além do dragão, erguendo uma nuvem de poeira. Felizmente, o impacto foi amortecido pela odre de água de Svar, impedindo que Zeca se ferisse. Assim que se recuperou do baque, o menino se arrastou dentro da sacola e expôs a cabeça para ver o que acontecia lá fora.


As nuvens de poeira, tanto da queda como dos passos do dragão, impediam que se visse algo além da silhueta titânica do monstro.


"Svar!!!", Zeca gritou, mas sua voz se perdia no caos da batalha.


Foi quando segundo dragão, ainda juvenil, surgiu do alto, arremetendo-se sobre a nuvem de poeira. O monstro agarrou a sacola e carregou-a consigo de volta à revoada nos céus.


Tão logo percebeu-se sendo levado, o menino se jogou para fora do embornal. Caiu sobre o solo rochoso e, já recobrado do susto, correu em meio à poeira, até encontrar abrigo num conjunto de cactos e rochas próximas. Ali, permaneceu imóvel, nervosamente aguardando o fim da comoção.


Não demorou até que o grande dragão partisse, levando na boca o corpo sem vida de Svar. A revoada seguiu o monstro, urrando triunfante, mas muitos minutos se passariam antes que a poeira do conflito baixasse.



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Uma hora se passou antes que o menino tivesse a coragem de deixar seu esconderijo. Sozinho sob o céu azul da manhã, ele se levantou e olhou para a fita branca presa ao braço.


"Eu prometi ajudar as pessoas", Zeca murmurou aos prantos. "Eu queria impedir o sofrimento dos outros, eu disse que vinha libertar todo mundo. Mas eu sou fraco... sou muito fraco..."


"Svar! Brunnhardt!", o menino gritou aos céus, contendo as lágrimas e cerrando seus punhos. "Vou desafiar todas as montanhas no caminho, uma maior do que a outra, até me tornar o homem mais forte que já pisou nesse mundo! E prometo que vou vencer o Titanathlon por vocês, pra que todos os anões e todos os gigantes conheçam seus nomes e se lembrem de sua história!"



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O presente...


Mara'iza mantinha a meditação, embora a preocupação com o grimório e o sono inquieto de Calabros insistissem em perturbá-la.


Foi quando veio um ruído repentino e violento no outro cômodo da casa. A porta tinha sido arrombada.


"Não!", Mara lamentou frustrada, perdendo totalmente a concentração. Não tivera tempo suficiente para concluir o rito.



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Com um chute, os milicianos arrombaram a frágil porta do casebre. As crianças de Odorico despertaram assustadas, e o bebê voltou a chorar. Juninho, o filho mais velho, se levantou num pulo e se lançou gritando sobre os homens para proteger a família. "De novo, não! Não vou deixar!", gritava.


Dois dos milicianos derrubaram o garoto e chutaram-no continuamente. "Moleque da peste, fica quieto!", gritavam, "Ocê vai aprender a respeitar a gente!".


As meninas, Lica e Síri, pegaram o bebê e correram pelo quarto, atravessando a cortina de miçangas. Mara'iza puxou-as para trás dela e, com a adaga em mãos, aguardou a vinda dos invasores.


Além dos dois que batiam no garoto, quatro milicianos adentraram a residência. "Crianças, saiam já daí, que o Frei Militão vai cuidar d'ocês!", ordenaram. "Seus pais traíram a comunidade."


"Só por cima do meu cadáver, fela-d'égua!", Zé Calabros bradou ao afundar o punho na cara do primeiro miliciano que atravessou a cortina. Em seguida, agarrou o corpo do sujeito e, com o cadáver como escudo, jogou-se na sala vizinha sob tiros dos invasores.


O espaço apertado beneficiava Calabros, e a luta foi rápida e brutal. Sem segurar a força, ele jogou o corpo do primeiro miliciano sobre o seguinte, então quebrou pulso, costela e mandíbula do terceiro.


O quarto malfeitor, com a garrucha descarregada, foi nocauteado antes que pegasse o facão. Os dois que atormentavam o menino foram agarrados ao mesmo tempo e tiveram as cabeças fendidas contra a parede. Quando o último se livrou do corpo sobre ele, um chute na cabeça quebrou seu pescoço.


Mara'iza saiu do quarto tão logo a peleja terminou. Vendo Zé ajudando Juninho a se levantar, perguntou-lhe: "Carábu'ros-san, e seus ferimentos? Você consegue lutar ainda assim?"


"Enquanto tiver alguém precisando de ajuda, não tem dor, fraqueza ou cansaço que me faça parar", ele respondeu. "Cadê o Frei Militão? É bom ele começar a rezar, porque nem Padim, nem Anaren, nem qualquer deus vai me impedir de arrebentar a fuça do desgraçado!"



A seguir: Vai te custar a fuça

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As Crônicas Anímicas

© 2016 Tiago Moreira