Capítulo 15: Vai te custar a fuça

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O Velho Tição entrou repentinamente no quarto. "Acorda, bando de estrupício!", gritou para os três cangaceiros curados por Militão na noite anterior. "Cês tiveram uma segunda chance de vida, não é todo mundo que tem essa sorte. Tá na hora d'ocês pegá suas arma, que a coisa vai ficá feia logo, logo."


Assustados e desorientados, os bandidos se levantaram de imediato, mas levaram algum tempo para começar a se vestir e se armar. "Velho Tição, o que tá acontecendo?"


"O imprestável do Militão resolveu fazê as coisa da pior maneira", o mandingueiro respondeu. "Ele qué fazê o teatrinho dele pro povo abestado, mas o escarcéu vai atiçá o Zé Calabros. Cês se prepare, que a gente vai tê que matá o cabra hoje."


"Dá licença, Velho Tição", um dos homens tomou coragem. "Mas ontem, mesmo com a cobra e o Fragoso, a gente não conseguiu dar conta nem da feiticeira."


"Suncê larga de frescura, mizifio! Zé Calabros tá ferido, a feiticeira tá sem magia, e os hôme do Militão vão cansá eles primeiro. Ou a gente mata eles hoje, ou não mata nunca mais!"



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A manhã começara agitada em Beira da Larica. Milicianos percorriam as vielas convocando todos, dos trabalhadores da lavoura às donas de casa atarefadas, a se apresentarem na trilha da casa-grande, onde as reuniões e anúncios importantes eram tradicionalmente feitos desde os tempos do Coronel Bocarra.


No limiar da vila, com a colina da casa-grande ao fundo, o Frei Militão altivamente aguardava o povo se reunir. Quatro homens armados o protegiam e, diante dele, estava Odorico Crinalba, ajoelhado e com as mãos amarradas às costas. Daquele ponto, era possível ver boa parte da vila.


"Todos estão vindo, Odorico", disse o Frei Militão. "Logo, você poderá confessar seus pecados e será julgado de acordo."


Os primeiros cidadãos a chegarem estranhavam a presença de Odorico. "Por que ele tá ali?", se perguntavam em cochichos, e os boatos e teorias se espalhavam. "O desgramado nunca me enganou, ele era chegado ao Coronel Bocarra!", "Aposto que roubou comida!", "Não foi o filho dele que espalhou maldades sobre o frade?".


Foi naquele momento que tiros distantes foram ouvidos. Vinham da casa dos Crinalba, nos limites da vila com a mata, e alguns cidadãos reconheceram sua origem e ficaram alvoroçados.


Frei Militão pediu calma. "Não tenha medo, meu povo! Vocês estão seguros aqui, logo tudo será explicado."


Ao mesmo tempo, nas ruelas, os milicianos corriam na direção dos disparos, mas gritavam aos cidadãos no caminho, insistindo que seguissem para a reunião.



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"Meus filhos!", Dona Santinha gritou ao ouvir os tiros e deduziu que foram disparados em sua casa. "Alguém acuda meus filhos, pelo amor de Padim!", implorava, tentando se desvencilhar dos quatro milicianos que a levavam, mas eles impediram-na de fugir.



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Na casa dos Crinalba, os seis invasores já estavam aos pés de Zé Calabros, devidamente surrados e fora de combate.


Ofegante, Zé ajudou o menino Juninho a se levantar. "Malinha, cuida das crianças, eu vou lá fora distribuir porrada".


"Para o inferno com suas ordens", ela retrucou, "não vou deixar você sozinho, ogro estúpido!"


"Não quero você machucada", ele disse. "Você tá sem seu livro."


"Ainda assim, posso ajudar", ela insistiu preocupada, esquecendo a arrogância típica. "Prometo que não serei um estorvo."


"Está bem, Malinha, mas toma cuidado", Zé consentiu, fechando os olhos e respirando fundo. Depois, abaixou-se um pouco para fitar Juninho nos olhos. "Menino, sabe de algum lugar pra se esconder? E que seus pais conheçam?"


"Na mata, tem uma bica d'água no córrego, onde a gente ia brincar quando eu era pequeno", respondeu.


"Então, assim que eu e a Malinha abrirmos o caminho, pega suas irmãs e se esconde lá por perto", Zé pediu.


"Ano passado, eles mataram meu irmão", Juninho disse com medo estampado na face. "Meus pais vão morrer?"


"Não, eu não vou deixar", Zé respondeu, depois pegou um facão dos malfeitores e deu ao menino. "Você é o homem dessa casa agora. Protege sua família até eu trazer seus pais de volta."


Sentindo o peso da responsabilidade, Juninho conteve o medo, reuniu as irmãs e o bebê e aguardou o momento para correrem para a mata.


"Tá pronta, Malinha?", Zé estalou os punhos e agarrou um corpo no chão para usar de escudo.


"É claro que estou pronta, ogro", ela mentiu. Na verdade, estava apavorada, mas escondia muito bem. "Abra o caminho, que vou logo atrás."



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Três milicianos já se posicionavam do lado de fora, à espera de reforços, quando Zé Calabros saiu. Dispararam as garruchas e bacamarte, mas as balas atingiram apenas o cadáver-escudo. Antes que pudessem recarregar, Zé lançou o corpo sobre um deles e se jogou sobre os outros dois.


Um outro miliciano se aproximava correndo e, vendo a briga, se preparou para atirar. Mara'iza pegou o chapéu de palha, jogou-o na direção do recém-chegado, guiando magicamente a trajetória. O chapéu voou direto para o rosto do miliciano, pressionando-se contra a face dele e cegando-o tempo suficiente para Zé pegar uma garrucha e arremessá-la contra a cabeça do malfeitor, nocauteando-o.


"Para onde?", Mara'iza questionou, fazendo o chapéu saltar de volta para sua cabeça.


Zé derrubou o último deles, então respondeu. "Pro lugar de onde os bandidos estão vindo."



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No limiar da vila, a multidão reunida abriu caminho para que os milicianos passassem, levando Dona Santinha com eles. Odorico chorou ao ver a esposa.


"O que está acontecendo, Frei Militão?", perguntavam os cidadãos presentes. "A gente tá em perigo? Os coronéis estão atacando?"


Militão não hesitou em responder. "Sim, são os coronéis", ergueu a voz, então apontou para Odorico, "e este homem se vendeu a eles! Odorico Crinalba, não é verdade que você deu refúgio e esconderijo aos nossos inimigos?"


Odorico gaguejou, numa tentativa frustrada de se fazer ouvir. "Sim, me desculpem, mas a decisão foi só minha! Poupem minha família, pela misericórdia do Pai!"


"Não diga isso, homem", Dona Santinha gritou aos prantos. "Já atiraram até nas crianças, mataram nossos filhos! Não vão poupar ninguém!"


Odorico entrou em choque. "Não é possível!", chorou.


Diante da cena, o burburinho da multidão se intensificava. Alguns gritavam: "Traidores!", "Lambe-botas de coronel!", "Têm que morrer mesmo!". Outros, em voz baixa, se horrorizavam: "Mataram até as crianças?", "Que absurdo!", "Onde vamos parar assim?". E muitos ficaram em silêncio, com medo de opinar.


"Não se preocupem!", gritou Frei Militão. "A Milícia dos Cidadãos está cuidando dos invasores, e tenham certeza de que nossa comunidade triunfará! Vocês nada têm a temer, nosso povo se tornará ainda mais forte!"


"Frade, acho que os malditos estão ali", um dos protetores do sacerdote, tendo visão privilegiada da vila, apontou para a direção presumida. "A gente devia ir lá dar um jeito neles."


"Não!", Militão contestou. "Essas pessoas são perigosas, vocês fiquem aqui e me protejam! Chamem toda a milícia, quanto mais reunirmos no mesmo lugar, mais fácil será darmos cabo desses perturbadores da ordem."


"A gente não tem como chamar os outros, frade", o homem lembrou. "Só se alguém descer lá e procurar por eles."


"Tem razão", o sacerdote lamentou. Incluindo os que trouxeram Dona Santinha, tinha com ele apenas oito milicianos. Cheio de medo, não arriscaria reduzir esse número ainda mais.



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Zé e Mara seguiam pelas ruelas, quando um bando de quatro inimigos apareceu à frente, vindo no sentido oposto. Alcançando um cruzamento, Zé puxou a moça para a esquina. "Atrai eles!", empurrou-a para que seguisse adiante pela nova via, enquanto ele, num único movimento, saltou e escalou o casebre mais próximo.


Quando os bandidos viraram a esquina e miraram em Mara'iza, Zé Calabros veio do alto sobre eles, não demorando a nocautear todos os quatro.


Zé tomou fôlego. Com o esforço contínuo, os ferimentos no torso se agravavam, e as manchas de sangue nas bandagens se tornavam mais evidentes. A despeito da dor, logo seguiu em frente, seguido de perto por Mara.


"Cuidado!", Mara'iza gritou ao passarem por novo cruzamento e ver mais três milicianos se aproximarem pela perpendicular. Ela se jogou ao chão para evitar os tiros, enquanto Zé saltou para a esquina à frente.


Descarregadas as garruchas, os homens sacaram facões e correram na direção dos dois.


Calabros se lançou sobre os bandidos. Esquivou-se dos golpes de facão com habilidade e nocauteou o primeiro com um cruzado de direita, depois o segundo com um gancho no queixo.


O terceiro recuou defensivamente, quando então Mara'iza fez seu chapéu saltar para a face do bandido, desorientando-o. Zé aproveitou para golpeá-lo e tirá-lo de combate, depois ajudou Mara a se levantar.


"Com esses, contei dezessete", ela informou, já se cansando de tanta correria. "Quantos homens essa milícia tem? Para um vilarejo desses, presumo que não há muito além do que já abatemos."


"Deve ser por aí. É difícil sustentar cabra que não produz", Calabros respondeu. "Até coronel bem rico não costuma ter mais do que uns dez ou doze jagunços. Se bem que, abestados como são esses cabras daqui, podem vir uns cem que tô pouco me importando!"



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Os disparos cessaram por um longo período. "Será que mataram os dois?", um dos protetores do frade questionou.


"Ou nossos homens foram vencidos", Frei Militão considerou. "É melhor atiçar a multidão, já temos umas seiscentas pessoas, quase metade da vila. Como os dois vão se defender de toda essa gente?"


Dito isso, o sacerdote fez sinal para atrair as atenções. "Meus concidadãos, chegou a hora", falou o mais alto que pôde. Sua voz, obviamente, não alcançava a todos, mas os que podiam ouvi-lo repassavam as informações aos seguintes, com algumas distorções.



Havia ali uma lógica perversa: as melhores moradias, mais próximas da casa-grande, foram dadas às famílias de maior lealdade a Militão e a Severino. Esses fiéis tomavam a vanguarda das reuniões, portanto o modo como interpretavam o que ouvissem influenciava a opinião de todo o público presente.


"Notaram que os disparos terminaram?", Frei Militão continuou. "O perigo foi contido! Sozinhos, somos apenas homens, fracos e frágeis. A união é a única verdadeira fonte de nossa força, e foi exatamente nossa unidade que esteve ameaçada hoje."


O frade então apontou para Odorico. "Este homem abrigou nossos inimigos para nos sabotar. Queriam destruir nossa comunidade atacando minha liderança. Não é a primeira vez que este homem atenta contra nós, o filho dele espalhou maldades a meu respeito no ano passado. Insistem nisso porque sabem que, sem mim, o povo se dividiria e se enfraqueceria."


Conforme as informações se difundiam, distorciam-se em exageros e boatos. Quanto mais longe de Militão, piores se tornavam os crimes de Odorico. O traidor abrigava assassinos. O incêndio fora sua culpa. A lavoura fora sabotada por ele. Diante das provas escabrosas supostamente relatadas, mesmo seus conhecidos mais próximos começavam a duvidar de sua inocência.


"Eu assumi a liderança", Militão discursava, "não por vaidade ou ganância, mas por piedade do povo. Sempre estive ao lado de vocês nos momentos difíceis, todos sabem de minha retidão e história de luta pelos desfavorecidos. Então, pergunto: cidadãos, vocês concordam com esta trama covarde contra minha pessoa e nossa comunidade?"


"Não!", gritaram as primeiras fileiras de gente. "Não!", repetiam as pessoas além, em ondas, até chegar à retaguarda da aglomeração.


Então, Militão fez a pergunta derradeira: "Digam-me: o que faremos com este homem?".


Dona Santinha, ao lado do marido, gritou desesperadamente por clemência. A multidão, contudo, urrava penas diversas: "Morte!", "Apedrejem o traidor!", "Surra de chibata!", "Trabalho sem comida!", "Toma tudo o que ele tem!". Logo, o burburinho se tornou uma cacofonia ininteligível, ainda que muitos ali permanecessem em pesaroso silêncio.


Frei Militão pediu calma, mas demorou alguns minutos antes que o ruído arrefecesse. Anunciou então, aos gritos: "Os cidadãos decidiram! Este homem será punido, conforme a vontade popular!".


É claro que, naquela cacofonia, não havia qualquer consenso, mas o frade não precisava ouvir a opinião de ninguém, a culpa e a punição de Odorico já estavam determinadas muito antes de reunir as pessoas. Do povo, Frei Militão queria apenas a raiva, a indignação. Aquilo bastava para validar todas as suas decisões.



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No lado oposto da multidão, Zé e Mara mantinham distância cautelar para não serem reconhecidos como forasteiros. Viam o frade dali e, embora não pudessem ouvi-lo, as reações dos cidadãos falavam por ele.


"O desgramado vai fazer alguma coisa com Odorico", disse Zé. "A gente tem que se apressar!"


"Não há como atravessar toda essa gente rapidamente", Mara retrucou. "E ainda que houvesse uma maneira, esta não é uma situação que se resolve com socos. Se atacar o sacerdote, a multidão reagirá contra você!"


"Você tá errada, Malinha", ele contestou. "A maioria dessa gente é que nem Odorico, tá morrendo de medo. Se a gente der uma cadinho de esperança pra eles, muitos vão passar pro nosso lado."


Mara'iza levou a mão à face. "Não, idiota, pessoas em bando são irracionais! Isso aqui não é um povo assustado, é uma turba obedecendo um líder sem nem precisar ouvi-lo! Já somos vistos como inimigos, o primeiro impulso dos cidadãos será proteger o sacerdote. Odorico só nos pediu ajuda porque estava só, sem seus pares para julgá-lo!"


"Ainda que pareça impossível", Zé insistiu, "a gente precisa tentar!".


"Só haveria uma chance se pudéssemos alertar a todos, fazê-los entender a situação antes de confrontarmos o sacerdote, mas não há como todos nos verem, muito menos...", Mara'iza hesitou, "...ouvirem...! É isso!". Diante de uma súbita inspiração, o sorriso arrogante retornou-lhe à face.


Zé também se alegrou. "Você teve um plano!"


"Sim, e chama-se: 'tremam, mortais, e contemplem'!", ela murmurou. Conjurou em torno de si luzes cintilantes, uma demonstração chamativa, mas inofensiva, de poder. Então, seguida por Zé, caminhou para o povo e, com voz trovejante, falou à multidão: "Cidadãos de Beira da Larica, vocês foram enganados!".



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A voz da feiticeira chegou claramente aos ouvidos de Frei Militão, e ele, assustado, gritava ao povo: "Não deem ouvidos, esses são nossos inimigos!". Seus alertas, contudo, se perdiam diante do burburinho.


"Eu sou Mara'iza, da distante terra de Gaz'zira", a voz troante continuou a ecoar. "E este é Tsé Carábu'ros, meu companheiro. Vocês provavelmente ouviram a nosso respeito, mas que fique claro: fomos nós os que expulsaram Severino de Bota do Judas. Estamos aqui em paz, nossa chegada foi um acidente do destino."


Militão via Mara do outro lado da aglomeração, brilhando radiante mesmo sob a luz da manhã. Conforme ela e Zé caminhavam, as pessoas, temerosas, davam passagem. Ao sinal do frade, os oito milicianos prepararam suas armas.


Mara'iza continuou a discursar: "Esse homem que vocês condenam, Odorico, nos encontrou por acaso ontem à noite. Não o conhecíamos, mas ele nos fez um pedido: desejava tão somente ajuda para sair, com sua família, desta terra. Pergunto: quantos entre vocês, cidadãos, não desejam o mesmo? Quantos não gostariam de recomeçar a vida longe daqui?"


"Cale-se, bruxa!", Militão gritava em vão. Os cidadãos leais a ele, especialmente nas fileiras próximas ao frade, protestavam contra Mara'iza, mas suas vozes também se perdiam. A atenção do povo se concentrava na voz dela, que falava a todos sem intermediários.


Mara e Zé continuaram o avanço desimpedido. "Pois digo", ela falou mais forte, "ajudaremos todos os que quiserem sair! Todos são livres para decidir por seus destinos, e nós os defenderemos até a morte!"


A multidão ouvia calada. Alguns, emocionados, começavam a chorar. Havia esperança, e o medo começava a se dissipar.


"Mas uma pergunta deve ser feita!", ela continuou. "Por que, questiono, vocês desejam partir, afinal? Tenho certeza que amam esta terra, nasceram e cresceram nela, então por que abandoná-la? Todos, até mesmo os que ainda desejam ficar, sabem a resposta: Beira da Larica se perdeu! Seus filhos passam fome, suas casas caem aos pedaços, vocês vivem com medo, e o responsável é aquele homem!"


A multidão se voltou ao Frei Militão. Suando frio, o sacerdote abriu os braços e tentou falar o mais alto possível. "É uma mentira! Eu os salvei do Coronel Bocarra! Sem mim, o que seriam? Estariam perdidos, na mais pura miséria, sem nem um pouco pra comer! Eu sou seu benfeitor!"


Mara'iza tomou a atenção dos cidadãos novamente: "Eu entendo que vocês sofreram com o coronel, mas olhem para o Frei Militão! Ele vive na casa do coronel, usufrui de todos os luxos, decide o que vocês podem ter, controla suas vidas e se cerca de jagunços! Ele é um coronel do pior tipo!".


Alcançando as primeiras fileiras da aglomeração, um cidadão raivoso, leal a Militão, avançou contra Mara'iza, mas antes que a alcançasse, Zé se interpôs, torceu o braço do sujeito e o jogou ao chão, medindo a força para não machucá-lo seriamente.


"Agora, olhem Odorico, aos pés do sacerdote!", Mara'iza apontou. "Ali está um homem desta terra, que nada mais queria além do bem de sua família, e vocês querem matá-lo? Quantos pais, mães e irmãos vocês assassinaram desta maneira? Quanto sangue derramaram em nome do Coronel Militão?"


Os cidadãos baixavam a cabeça, muitos finalmente percebendo as atrocidades que defenderam. Outros, em negação, tentavam se justificar. O burburinho se tornou intenso, mas a voz de Mara'iza se sobrepunha a tudo, era impossível calá-la.


Chegando à frente da multidão, Zé e Mara trocaram de posição. Ele tomou a dianteira e encarou Frei Militão e os milicianos. Ela ficou às costas dele e voltou-se à multidão. "Diante de tanta injustiça, eu e meu companheiro decidimos: protegeremos quem quiser partir, mas defenderemos também os que desejam ficar! A partir de agora, vocês não têm mais nada a temer, são homens livres!"


Um turbilhão de emoções tomou a aglomeração. Esperança, descrença, raiva, arrependimento e medo se misturavam, gerando ovação, discussões, protestos e lamentos.


"Estão destruindo tudo o que construí", Frei Militão balbuciou. Então, tomado por ódio irracional, apontou adiante, ergueu a voz e ordenou à milícia: "Atirem neles!".



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Todos os oito milicianos puxaram os gatilhos de seus bacamartes. Embora mirassem em Zé, as armas dispararam dúzias de minúsculas pelotas que se espalhavam com a distância, atingindo indiscriminadamente dezenas de cidadãos.


Zé agiu rápido, tão logo notou Militão dar a ordem. Abaixou a cabeça, virou-se para Mara'iza e jogou-se no chão, levando-a consigo. Embora alvejado por dezenas de pelotas nas costas, impedira que Mara se ferisse. O susto, porém, a fez perder a concentração, dissipando as luzes que a circundavam.


Muitos cidadãos caíram feridos, alguns gravemente. Formou-se uma comoção entre as pessoas. "Frei Militão atirou no povo!", repetiam, e o burburinho se espalhava.


Zé se levantou de repente e arremeteu-se furiosamente contra os milicianos. Sem tempo para recarregar, os homens largaram os bacamartes e sacaram garruchas. No meio do confronto, Dona Santinha e Odorico se protegeram deitando.


Ainda no chão, Mara'iza estendeu a mão aos bandidos, disparando contra eles dezenas de linhas cintilantes. O efeito era inofensivo, apenas formando rastros luminosos efêmeros, mas desconcentrou os malfeitores, alguns deles se jogando ao chão com medo de um ataque.


Com a distração, Zé alcançou e se engalfinhou com o primeiro miliciano, quebrando-lhe o pulso e tomando-lhe a garrucha. Então, girando o corpo, Calabros lançou o homem ladeira abaixo e arremessou a garrucha violentamente contra a cabeça do oponente seguinte, que caiu desacordado.


Frei Militão fugiu colina acima, rumo à casa-grande. Puxava consigo dois capangas, gritando ordens apavoradas. "Protejam-me! Os cangaceiros vão nos ajudar!"


Um miliciano fez mira em Zé Calabros, mas foi cegado pelo chapéu de Mara'iza. Zé agarrou-o e, usando-o como escudo, investiu contra os três inimigos restantes. Desesperados, os bandidos descarregaram as garruchas, mas atingiram apenas o companheiro. Zé jogou o corpo sobre o quarto miliciano e nocauteou o quinto rapidamente.


O sexto e último bandido sacou o facão e avançou, mas Calabros interceptou o golpe, agarrando o braço do sujeito. "Vocês podem ser valentes contra camponeses, mas hoje estão enfrentando um GUERREIRO!", Zé bradou, então nocauteou o inimigo com um golpe na cara.


Mara, já em pé, se voltou à multidão. "Os jagunços do Coronel Militão se resumem a dois apenas", falou em voz troante, "Vocês são centenas! O que ainda temem? Tomem controle de suas vidas!".


Foi o estopim. Dezenas de cidadãos tomaram coragem e avançaram, gritando impropérios contra o Frei Militão. Zé Calabros, mesmo com o corpo fraquejando, acompanhou os revoltados.


Vendo aquilo, Frei Militão empurrou os dois capangas que o acompanhavam, gritando: "Segurem-nos, homens! Protejam-me, em nome de Padim!". Deixou-os ali e continuou a correr para a casa-grande.


Diante dos revoltosos, os milicianos, ao invés de combater, jogaram fora as armas e se renderam.



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Enquanto Zé e o povo avançavam para a casa-grande, Mara'iza correu até Santinha e Odorico e usou a adaga para cortar as amarras dele.


"E nossos filhos?", Dona Santinha perguntou aos prantos.


"Todos estão bem", Mara respondeu, sorrindo gentilmente. "Estão esperando vocês."


Diante da notícia, o casal se abraçou aliviado, chorando de alegria.



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Perseguido pelo povo, Militão adentrou na casa-grande e trancou a porta. Logo além da antessala, viu os três cangaceiros que salvara na noite anterior, sentados ao redor da mesa de jantar. "Graças a Padim! Vocês têm que me salvar!"


Os bandidos se levantaram. Um deles, sacando dois revólveres, tomou a frente. "Tamos aqui pra isso, frade."



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O povo cercou o casarão, gritando suas frustrações ao frade. "Estamos passando fome", "Meus filhos foram embora por sua causa", "Você mandou matar meu irmão".


Na varanda que rodeava a construção, Calabros avisava os cidadãos: "Sai de perto, gente, que ainda pode ter perigo!". Afastando-os da porta, arrombou-a com um chute e se jogou para o lado, cobrindo-se atrás da parede externa. Do interior, vieram três tiros de revólver.


Os estampidos assustaram os cidadãos e alertaram Mara'iza, que ainda seguia colina acima. Apressando o passo, ela lamentou ofegante: "Como queria ter meu grimório agora!".



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Frei Militão correu até o quarto, onde abriu um baú e pegou um cetro de madeira com ponta de metal pesada, uma arma sagrada dos frades de padim, da época em que os sacerdotes lutavam nos conflitos entre coronéis. Então, orou ao Divino Pai, pedindo proteção e força para lutar.



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Mais tiros foram ouvidos, vindos dos fundos da casa, quando os cidadãos tentaram invadir pela porta da cozinha. "Cangaceiros!", alertavam.


"Arre égua, cangaceiro parece praga, tem em tudo quanto é lugar!", Zé reclamou, apoiado à parede externa da casa-grande. Tentava recuperar o fôlego, mas o corpo pedia descanso.


"Carábu'ros-san!", Mara'iza se aproximou. "Você está bem?"


"Tô sim, Malinha", respondeu, mentindo muito mal sobre sua condição. "Mas preciso pensar em como entrar aí. Você não tem nenhum feitiço pra ajudar?"


Ela parou e pensou. "Nada muito útil: mover coisas leves, criar luzes, algumas transmutações limitadas através do toque... Tudo muito limitado."


"Se esses caras fossem me encarar no braço, eu entrava sem dificuldade, mas essas armas de fogo danam com tudo", ele retrucou. Então, se lembrou de algo, abriu o embornal e retirou um revólver. "Já sei!"


"De onde veio isso?", ela estranhou.


"Sobrou daqueles que tomei em Curva do Vento. Entortei o cano, então não ia dar pra usar nem se eu soubesse atirar, mas posso arremessar bem, bem forte. É que nem socar fuças, mas de longe. Vou lá dar uma surra nesses cabras, Malinha, mas vou precisar da sua ajuda."



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Um cangaceiro tinha virado a mesa para bloquear a passagem da antessala e servir de parapeito para se proteger. Vigiava a porta de entrada, parcialmente destruída, com dois revólveres em mãos. "Aparece aí, que leva bala, Zé Calabros!", murmurava nervosamente.


Foi quando Mara'iza se jogou diante da porta, caindo deitada e parcialmente exposta. O bandido disparou por impulso, mas mirou alto e desperdiçou duas balas. Com o inimigo em vista, Mara gesticulou, e seu chapéu voou para o rosto do homem, impedindo-o de ver.


O cangaceiro atirou a esmo mais algumas vezes, então parou para remover o chapéu preso à face. Foi quando Zé Calabros surgiu na entrada e arremessou o revólver na cara do bandido, derrubando-o para trás. Zé avançou e chutou violentamente a mesa, tirando-a do caminho.


Mara'iza se levantou e, com um aceno, fez o revólver arremessado voltar à mão de Zé, bem a tempo dele jogar a arma de novo, desta vez no peito de um segundo bandido, que vinha do corredor posterior. Mais uma vez, Mara fez um sinal, e o revólver, antes mesmo de cair ao chão, retornou à mão de Zé.


Nenhum dos dois bandidos estava fora de combate, porém. O primeiro, caído no centro da sala, apesar do nariz quebrado e da cara ensanguentada, recuperou as armas e apontou-as para Zé. O segundo se levantou e, empunhando revólver e sacando facão, avançou para a sala atirando a esmo.


Zé saltou para longe, evitando a mira dos dois cangaceiros, e no mesmo movimento, arremessou o revólver contra a testa do bandido caído, que foi a nocaute. Mara'iza jogou-se ao chão da antessala para evitar os tiros do segundo malfeitor, que tentou golpear Zé com o facão assim que o alcançou.


Calabros evitou a lâmina, que bateu contra a parede atrás dele. Em seguida, atracou-se com o bandido, quebrou-lhe o pulso para fazê-lo largar a arma de fogo e concluiu a luta dando-lhe uma cabeçada na face. Sem mais inimigos à vista, Zé se apoiou à parede para descansar.


Mara'iza se levantou, também recuperando o fôlego. "Não sabemos quantos cangaceiros há aqui", ela lembrou. Então, com um mover da mão, fez o chapéu de palha, cada vez mais desgastado, voltar à sua cabeça.


"Deve ter poucos", ele concluiu, "senão ia ter um monte em cada entrada". Pegou então dois revólveres dos bandidos no chão. Em cada arma, abriu o tambor e removeu as balas. "Bora em frente, antes que os desgraçados armem mais alguma arapuca."



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Adiante, o corredor largo e curto partia da sala de jantar e levava à cozinha na ponta oposta, sem portas para separar os ambientes. Bem no centro, a passagem cruzava perpendicular com outro corredor de mesma largura. Para a esquerda, o passadiço era mais longo e tinha quatro portas. Para a direita, duas portas em paredes opostas e uma ao fim do corredor.


"Para qual lado?", Mara perguntou.


"Direita, aquela porta deve levar pro quarto do coronel", Calabros concluiu. "Aposto que o frade desgramado se aboletou por lá."



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Mara'iza aguardou na esquina entre os corredores, enquanto Zé caminhou cautelosamente até a porta. Prevendo perigo, ele pressionou o corpo contra a parede do corredor, protegendo-se na quina, só então tocou na maçaneta. Percebendo que estava destrancada, Zé primeiro entreabriu a porta cuidadosamente, para em seguida escancará-la repentinamente com um chute barulhento.


Uma saraivada de tiros veio do interior, disparada pelo último cangaceiro, mas tanto Zé como Mara estavam protegidos. Quando o bandido se moveu para um ângulo que deixava Zé mais exposto, Calabros arremessou um dos revólveres contra ele, atingindo-o na cabeça e derrubando-o.


Zé adentrou, e Mara correu para alcançá-lo. Com as janelas fechadas, o cômodo estava sob penumbra, a única luz vinha das frestas. O local era enorme, alongado, dividido em três ambientes separados por vãos largos. Adiante da entrada, havia a antessala central, onde o cangaceiro jazia inconsciente. À direita, um escritório, com mesa, cadeiras e uma estante de livros. À esquerda, o quarto de dormir, com a cama, armários e criados-mudos.


Frei Militão surgiu no vão que levava ao quarto, com o cetro em mãos. "É inútil", avisou com a voz esganiçada. "Severino vai voltar pra trazer justiça, e vamos recomeçar, desta vez apenas com os que realmente queiram uma sociedade melhor".


"Melhor?", Zé se interpôs entre o frade e Mara. A despeito da dor e cansaço, mantinha-se em postura de luta. "Que história é essa, abestado? Ficou lesado das ideias?"


"Você não tem como compreender, é um privilegiado, filho de coronel", disse Militão. "Nunca conheceu dificuldade na vida, jamais entenderá o sofrimento do povo. Você é parte do problema, defende o 'sistema' que o criou."


"Você não fale besteira sobre minha pessoa", Zé se indignou. "Eu sempre quis o povo livre, como São Silvério ensinou."


"São Silvério, o coronel que foi aclamado 'santo' pelos mais ricos?", o frade retrucou. "Em tempos antigos, os coronéis tinham o dever de cuidar do povo, mas nunca o fizeram. Daí apareceu Silvério, e até dessa obrigação os livrou! 'Larguem o povo de lado', 'paguem uns trocados pelo trabalho', 'cada um que cuide de si', 'se está na miséria é porque não esforçou direito'!"


"São Silvério ensinou a não tratar gente como escravo!", Zé respondeu.


O frade contestou: "Mas as pessoas continuam a ser escravas, a diferença é que se vendem por moedas ao invés de comida. Os ensinamentos de Silvério separou o povo entre ricos e pobres, mas pessoas deveriam ser iguais! Por toda a vida, lutei contra essa desigualdade, mas ninguém me dava ouvidos. Então, Padim enviou Severino pra nos dar uma nova vida!"


"Severino é um bandido!", Zé Calabros vociferou.


"A sociedade o fez bandido, ele nunca teve oportunidades na vida", Frei Militão revidou, então sorriu de satisfação. "Eu o acolhi no fim de sua juventude, desperdiçada com brigas e roubos, e ensinei-o a lutar pela causa do povo! Dei-lhe propósito, transformei-o na justiça dessa terra!"


"Você?", Zé perdia a paciência. "Olha o estrago que você fez, quantas vidas perdidas!"


"Para transformar o mundo, sacrifícios são inevitáveis", o frade contestou. "Por que deveríamos nos restringir pelas regras morais do inimigo? O povo já sofreu demais, nós somos a justa retribuição! Traremos um futuro melhor, custe o que custar!"


"E vai te custar, frade da peste", disse Zé Calabros, injuriado com as palavras imorais do sacerdote. "Vai te custar a fuça!"



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Distraídos por Militão, nem Zé nem Mara perceberam que, das sombras da biblioteca atrás deles, o Velho Tição surgia como um vulto silente. Revelando sua presença, o mandingueiro encostou a ponta do cajado no braço de Mara'iza.


Mara gritou de dor ao sentir um impacto inexplicável, que a jogou na direção oposta do cajado, batendo violentamente contra a parede da antessala e caindo atordoada.


Tição gargalhou. "He he he he he!"


"Malinha!", Zé urrou, virando-se para o mandingueiro.


Aproveitando o momento, Frei Militão ergueu o cetro, que emitiu uma tênue aura dourada, e golpeou Calabros pelas costas. O impacto atingiu com força incrível, empurrando Zé à frente, ao encontro de Tição.


O mandingueiro, em reação, tocou o cajado contra o peito de Zé Calabros, que foi lançado para trás por uma força sobrenatural contra a parede, próximo a Mara.


Mara'iza, recobrando-se do baque, perguntou a Tição: "Você! Onde está meu livro? O que fez com ele?". Então, ao tentar se levantar, sentiu as forças lhe faltarem. "Minhas pernas! O que é isso?"


"É mandinga, mizifia! Doença, vida, força, posso mandá nisso tudo!", o velho sorriu. "E seu livro? Tá bem longe! Mandei a cavalo pra Severino, pra modo dele treiná feiticeiro pro bando!"


Avançando sobre Zé, Militão golpeou-o seguidamente com o cetro. A arma brilhava mais intensamente cada vez que atingia o oponente caído. "Eu faço a vontade de Padim!", gritava fanaticamente, "Somos todos irmãos, filhos do mesmo pai! Merecemos uma sociedade fraterna e igualitária!".


Também vítima da mandinga, Zé não conseguia se levantar, usava a pouca força que restava nos braços e pernas para se defender dos golpes cada vez mais fortes do sacerdote enlouquecido.


"Pra que discutí com esse daí, Militão?", o mandingueiro riu, abrindo os braços, "Eu vou dá esses dois de comer pros meus amiguim!". Dezenas de ratos surgiram de suas vestes, das frestas nas paredes, do corredor e do teto. Os animais primeiro se aglomeraram ao redor do velho, até virarem uma massa preta, então se lançaram chiando na direção de Mara'iza.


"Não!", Zé bradou. Ao sofrer mais um golpe do cetro, agarrou a arma e puxou-a para si, jogando Militão ao chão, sobre a rataria. Assustados, os roedores se espalharam e tomaram alguns instantes para se aglomerarem novamente ao redor do velho.


Zé Calabros se ergueu. Apesar dos ferimentos, seu olhar não era de um moribundo, mas de alguém que não conhecia fraqueza ou dor. "Pra machucar a Malinha, velhote da moléstia, primeiro tem que passar por mim!"


"Suncê quebrou minha mandinga! Impossível!", murmurou Velho Tição. Com um movimento da mão, fez os ratos atacarem Calabros.


"Impossível é só uma palavra!", gritou Zé, que evadiu a horda de roedores e arremessou o cetro contra o velho. A arma, contudo, se desviou do alvo e bateu brutalmente contra a parede ao lado dele.


"He he he he he!", Tição riu. "Ninguém me toca sem eu dexá, e mesmo se conseguí, meu couro é que nem tronco d'árvore! Eu tenho o corpo fechado, mizifio!"


Calabros chutava os ratos, que já escalavam suas pernas. "Corpo tá fechado?", arremeteu-se contra o Velho Tição, pisoteando nos roedores. "Meu punho também, fela-d'égua!"


Tição interpôs o cajado, tocando-o no peito de Zé.


Diante do impacto sobrenatural, Calabros parou o avanço, mas firmou-se no chão, resistindo à força mística e rebatendo-a ao cajado, que se partiu em dois. Então, com toda a força das pernas e braços, Zé se lançou de novo à frente, desferindo um soco na cabeça do mandingueiro.


No instante que precedeu o impacto, o Velho Tição arregalou os olhos e perdeu o sorriso da cara. O punho de Calabros venceu a resistência sobrenatural e atingiu o mandingueiro ferozmente, quebrando-lhe o pescoço e jogando-o de volta ao escritório, onde Tição colidiu com a mesa de leitura, espatifando-a.


Com mandingueiro derrotado, os ratos, livres do encanto, cessaram o ataque e fugiram assustados em todas as direções. No limite de suas forças, Zé caiu de joelhos, mal conseguindo se manter desperto. Mara'iza, contudo, gritou um alerta: "Carábu'ros-san, cuidado!".


Frei Militão, já em pé, agarrou o braço de Calabros. A mão do sacerdote emitia uma luz dourada, e o toque ardia como fogo, causando dor intensa. Diante dos gritos de dor de Zé, o sacerdote urrava ensandecido: "Como você aguenta tanto? Só pode ser coisa do diabo! Padim o amaldiçoa, o povo verdadeiro não o quer! Morra, Zé Calabros, é o melhor pra todos!"


Mara, levantando-se, cravou a adaga nas costas de Militão. "Deixe meu amigo em paz!"


Urrando de dor, o frade se afastou e tentou arrancar a adaga, mas suas mãos não a alcançavam.


"Você é o pior de todos, Militão, pior que Severino, até!", disse Zé, se forçando a levantar, sem sucesso. "Teve estudo, tinha o poder de ensinar e guiar, mas só espalhou ódio e violência. Você é o maior dos covardes, o diabo que se acha santo."


Mara'iza pousou gentilmente a mão no amigo. "Descansa, acabou", pediu, impedindo-o de se erguer. "Você já se feriu demais."


"Enquanto precisar lutar, não vou ter descanso", ele respondeu. "E ainda falta arrebentar a cara desse desgraçado aí."


"Deixe esse fardo comigo", Mara disse. Abaixou-se, pegou o cetro de Militão e, levantando-se, deu uma bordoada na cabeça do sacerdote, que tombou de imediato.


"Valeu, Malinha", Zé Calabros se deitou no chão. Baleado, queimado, espancado, ensanguentado e mordido por ratos, não conseguia mais nem se manter em pé. "Agora dá pra gente seguir viagem", murmurou, então perdeu a consciência.


A seguir: O mundo continua a girar

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Zé Calabros na Terra dos Cornos
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As Crônicas Anímicas

© 2016 Tiago Moreira