Prévia: Capítulo 16


Nossa história se aproxima do fim, e o terceiro ato acaba na semana que vem! Não aguenta esperar? Eis então uma prévia do que o aguarda no Capítulo 16: O mundo continua a girar!


Frei Militão foi derrotado. Velho Tição está morto. Zé Calabros e Mara'iza se encontram em seus limites. Contudo, a marcha não pode parar: o Rei do Cangaço se aproxima de seu objetivo, e os coronéis estão em seu encalço!


O Capítulo 16 estará disponível na próxima sexta-feira, 14/07/17.

Sob o sol forte da manhã, a longa fila de cangaceiros cortava a caatinga. Era o terceiro dia de viagem, e desta vez a tropa mudava de formação, dividindo-se em vários bandos, cada um seguindo em sua própria velocidade. Os cavalgantes tomavam a dianteira; os carros de boi e carroças vinham em seguida; deixados para trás, estavam os que viajavam a pé.


Manter a tropa unida já não trazia vantagem defensiva, pois era claro, àquela altura, que os coronéis não a seguiam de perto. Em adição, o Rio Catengão seria alcançado naquele dia e, sem balsas e barcos para todos, a travessia seria mais ágil com a divisão da tropa.


Três horas após o amanhecer, Severino Barriga D'Água e os primeiros cavalgantes chegaram ao rio. Confiscaram as balsas e barcos dos moradores da margem oeste, e o primeiro grupo já cruzava as águas para Vila Maria, onde tomaria posse de mais embarcações. Da balsa, o Rei do Cangaço observava o grupo seguinte de cangaceiros chegando do sertão.


"Olha lá um urubu!", apontou Chassi de Grilo. "Tá vindo do noroeste, deve de tá carregando mais uma missiva do Tição!"


Severino ergueu a mão ao alto, e a ave se arremeteu em sua direção. Passando poucos metros acima do capitão, o bicho soltou um papel enrolado, que Severino agarrou habilmente. Livre da tarefa, o urubu voou para longe.


"O que diz aí?", Chassi de Grilo perguntou.


Abrindo a mensagem, Severino fez sinal para que o subalterno se calasse. Estranhou a caligrafia, que não era a de Fragoso, mas logo compreendeu a razão.


"Severino, meu rei,


É Frei Militão, seu humilde servo, que escreve a pedido do Tição. Fragoso está morto e restam poucos dos homens, mas não foi em vão. Zé Calabros ficou muito ferido e a feiticeira está sem poder. Acabaremos com os dois esta manhã, eles não têm como escapar. Todo o povo de Beira da Larica ajudará no esforço.


A propósito, Tição mandou um homem chamado Capiroto entregar-lhe um objeto de grande importância, mas não quis me informar o que seria. Receba Capiroto tão logo ele o alcance.


Em nome de Padim, seus inimigos morrerão hoje. Em breve, enviaremos notícias."


Severino amassou o papel, irritado e ansioso. Sua vontade era pegar o cavalo e voltar, para ele mesmo dar cabo de Zé Calabros. O retorno tomaria todo o dia, porém, e seria um esforço inútil se Tição e Militão tivessem êxito. Decidiu aguardar a próxima mensagem antes de tomar qualquer decisão.



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Em Bota do Judas, a chuva continuava a cair. Coronel Malícia estava inquieta. Toda a tropa já aguardava em Vila Judiana, do outro lado do Rio Chico Propício, e o desejo da coronel era partir o quanto antes, mas os coronéis Garrancho e Meneses insistiam em esperar por reforços. A chegada era aguardada para o fim da tarde anterior, mas ainda não havia sinal dos homens.


As horas se passaram, até que, perto do meio-dia, um dos poucos guardas sobreviventes de Bota do Judas veio à casa-grande, anunciando ao Coronel Meneses: "Dois barcos de Santa Rita acabaram de chegar, trazendo mais de sessenta homens".


Malícia veio correndo assim que ouviu a notícia. "Manda os cabras descerem ligeiros em Vila Judiana, que a gente vai partir é hoje mesmo, pra aproveitar o que ainda resta de sol! E cadê o abestado do Samuel?"


Coronel Garrancho apareceu logo após, já pondo o chapéu na cabeça. "Estou aqui, Adelina. Vou eu mesmo lá pro porto, pra modo de acompanhar os homens! Vou deixar tudo pronto pra gente partir daqui a uma hora!"


"Vou chamar André", disse Meneses. "Não restou muito da guarda de Bota de Judas, mas meu filho vai com vocês! Tá chegando o dia em que ele vai me suceder, é hora dele aprender a ser coronel!"


Os três então tomaram seus caminhos. Em uma hora, se reuniriam novamente para a partida.



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Em Beira da Larica, o calor da tarde avançava com as horas. Os camponeses procuravam as sombras para se protegerem do sol inclemente, e o vilarejo se tornava uma terra fantasma, que só reviveria ao entardecer.


Magicamente protegida da temperatura escaldante, Mara'iza aproveitou para sair da casa-grande e retornar à mata, onde lembrava-se de ter ouvido um córrego na noite anterior. Suja de sangue e suor, a moça queria não apenas se limpar, como também apreciar um momento de solidão.


A boa memória de Mara a permitiu encontrar a casa dos Crinalbas sem dificuldade, de lá tentou traçar o caminho pela mata. Logo encontrou um córrego, talvez não o mesmo da noite anterior, mas seguindo seu curso chegou a uma pequena cascata, onde a água se acumulava numa piscina natural antes de seguir adiante.


Ali, ela se abaixou e lavou o rosto, então pegou um pedaço de sabão na bolsa e, após garantir que estava realmente sozinha, se despiu envergonhadamente. Entrando na água gelada, Mara estranhou o contraste com sua terra natal, de clima frio e águas calorosas.


Tão rasa era a piscina que não cobria-lhe o torso mesmo quando Mara permanecia sentada. Ela se pôs a ensaboar e enxaguar o corpo, começando pelos braços. Sentindo-se exposta, demorou a relaxar, mas eventualmente se pôs a refletir sobre preocupações mais sérias.


Zé, ela lembrou, ainda não tinha despertado desde a luta da manhã. Sem remédios e curativos além das parcas sobras da noite anterior, Mara, com a ajuda de Dona Santinha, esterilizara os ferimentos dele com aguardente e improvisara bandagens a partir de roupas limpas do Frei Militão.


Mara'iza também contemplou sobre a viagem. O dia já estava praticamente perdido, e Zé dificilmente teria condições de prosseguir na manhã seguinte. Por outro lado, os coronéis talvez já tivessem partido de Bota de Judas àquela altura. Sendo assim, ela e Zé poderiam reencontrá-los quando passassem por Beira da Larica.


A preocupação seguinte dela foi o grimório. Concentrando-se nele, sentiu-o já tão distante que era difícil saber se ainda se movia. Em seguida, fitou a adaga, deixada à margem, e suspirou. Mais cedo, a magista optara relutantemente por uma medida radical, mas o ataque da milícia a impedira. Desta vez, longe de perigo e com tempo sobrando, decidiu não mais relutar.


Após enxaguar-se, Mara'iza saiu da água. Vestiu-se, mesmo ainda molhada, e sentou-se no chão, pegando a adaga. "Não posso permanecer estática", murmurou, iniciando sua meditação, "afinal, o mundo continua a girar".

Livro Atual
Zé Calabros na Terra dos Cornos
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As Crônicas Anímicas

© 2016 Tiago Moreira