Capítulo 16: O mundo continua a girar

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Sob o sol forte da manhã, a longa fila de cangaceiros cortava a caatinga. Era o terceiro dia de viagem, e desta vez a tropa mudava de formação, dividindo-se em vários bandos, cada um seguindo em sua própria velocidade. Os cavalgantes tomavam a dianteira; os carros de boi e carroças vinham em seguida; deixados para trás, estavam os que viajavam a pé.


Manter a tropa unida já não trazia vantagem defensiva, pois era claro, àquela altura, que os coronéis não a seguiam de perto. Em adição, o Rio Catengão seria alcançado naquele dia e, sem balsas e barcos para todos, a travessia seria mais ágil com a divisão da tropa.


Três horas após o amanhecer, Severino Barriga D'Água e os primeiros cavalgantes chegaram ao rio. Confiscaram as balsas e barcos dos moradores da margem oeste, e o primeiro grupo já cruzava as águas para Vila Maria, onde tomaria posse de mais embarcações. Da balsa, o Rei do Cangaço observava o grupo seguinte de cangaceiros chegando do sertão.


"Olha lá um urubu!", apontou Chassi de Grilo. "Tá vindo do noroeste, deve de tá carregando mais uma missiva do Tição!"


Severino ergueu a mão ao alto, e a ave se arremeteu em sua direção. Passando poucos metros acima do capitão, o bicho soltou um papel enrolado, que Severino agarrou habilmente. Livre da tarefa, o urubu voou para longe.


"O que diz aí?", Chassi de Grilo perguntou.


Abrindo a mensagem, Severino fez sinal para que o subalterno se calasse. Estranhou a caligrafia, que não era a de Fragoso, mas logo compreendeu a razão.


"Severino, meu rei,


É Frei Militão, seu humilde servo, que escreve a pedido do Tição. Fragoso está morto e restam poucos dos homens, mas não foi em vão. Zé Calabros ficou muito ferido e a feiticeira está sem poder. Acabaremos com os dois esta manhã, eles não têm como escapar. Todo o povo de Beira da Larica ajudará no esforço.


A propósito, Tição mandou um homem chamado Capiroto entregar-lhe um objeto de grande importância, mas não quis me informar o que seria. Receba Capiroto tão logo ele o alcance.


Em nome de Padim, seus inimigos morrerão hoje. Em breve, enviaremos notícias."


Severino amassou o papel, irritado e ansioso. Sua vontade era pegar o cavalo e voltar, para ele mesmo dar cabo de Zé Calabros. O retorno tomaria todo o dia, porém, e seria um esforço inútil se Tição e Militão tivessem êxito. Decidiu aguardar a próxima mensagem antes de tomar qualquer decisão.



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Em Bota do Judas, a chuva continuava a cair. Coronel Malícia estava inquieta. Toda a tropa já aguardava em Vila Judiana, do outro lado do Rio Chico Propício, e o desejo da coronel era partir o quanto antes, mas os coronéis Garrancho e Meneses insistiam em esperar por reforços. A chegada era aguardada para o fim da tarde anterior, mas ainda não havia sinal dos homens.


As horas se passaram, até que, perto do meio-dia, um dos poucos guardas sobreviventes de Bota do Judas veio à casa-grande, anunciando ao Coronel Meneses: "Dois barcos de Santa Rita acabaram de chegar, trazendo mais de sessenta homens".


Malícia veio correndo assim que ouviu a notícia. "Manda os cabras descerem ligeiros em Vila Judiana, que a gente vai partir é hoje mesmo, pra aproveitar o que ainda resta de sol! E cadê o abestado do Samuel?"


Coronel Garrancho apareceu logo após, já pondo o chapéu na cabeça. "Estou aqui, Adelina. Vou eu mesmo lá pro porto, pra modo de acompanhar os homens! Vou deixar tudo pronto pra gente partir daqui a uma hora!"


"Vou chamar André", disse Meneses. "Não restou muito da guarda de Bota de Judas, mas meu filho vai com vocês! Tá chegando o dia em que ele vai me suceder, é hora dele aprender a ser coronel!"


Os três então tomaram seus caminhos. Em uma hora, se reuniriam novamente para a partida.



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Em Beira da Larica, o calor da tarde avançava com as horas. Os camponeses procuravam as sombras para se protegerem do sol inclemente, e o vilarejo se tornava uma terra fantasma, que só reviveria ao entardecer.


Magicamente protegida da temperatura escaldante, Mara'iza aproveitou para sair da casa-grande e retornar à mata, onde lembrava-se de ter ouvido um córrego na noite anterior. Suja de sangue e suor, a moça queria não apenas se limpar, como também apreciar um momento de solidão.


A boa memória de Mara a permitiu encontrar a casa dos Crinalbas sem dificuldade, de lá tentou traçar o caminho pela mata. Logo encontrou um córrego, talvez não o mesmo da noite anterior, mas seguindo seu curso chegou a uma pequena cascata, onde a água se acumulava numa piscina natural antes de seguir adiante.


Ali, ela se abaixou e lavou o rosto, então pegou um pedaço de sabão na bolsa e, após garantir que estava realmente sozinha, se despiu envergonhadamente. Entrando na água gelada, Mara estranhou o contraste com sua terra natal, de clima frio e águas calorosas.


Tão rasa era a piscina que não cobria-lhe o torso mesmo quando Mara permanecia sentada. Ela se pôs a ensaboar e enxaguar o corpo, começando pelos braços. Sentindo-se exposta, demorou a relaxar, mas eventualmente se pôs a refletir sobre preocupações mais sérias.


Zé, ela lembrou, ainda não tinha despertado desde a luta da manhã. Sem remédios e curativos além das parcas sobras da noite anterior, Mara, com a ajuda de Dona Santinha, esterilizara os ferimentos dele com aguardente e improvisara bandagens a partir de roupas limpas do Frei Militão.


Mara'iza também contemplou sobre a viagem. O dia já estava praticamente perdido, e Zé dificilmente teria condições de prosseguir na manhã seguinte. Por outro lado, os coronéis talvez já tivessem partido de Bota de Judas àquela altura. Sendo assim, ela e Zé poderiam reencontrá-los quando passassem por Beira da Larica.


A preocupação seguinte dela foi o grimório. Concentrando-se nele, sentiu-o já tão distante que era difícil saber se ainda se movia. Em seguida, fitou a adaga, deixada à margem, e suspirou. Mais cedo, a magista optara relutantemente por uma medida radical, mas o ataque da milícia a impedira. Desta vez, longe de perigo e com tempo sobrando, decidiu não mais relutar.


Após enxaguar-se, Mara'iza saiu da água. Vestiu-se, mesmo ainda molhada, e sentou-se no chão, pegando a adaga. "Não posso permanecer estática", murmurou, iniciando sua meditação, "afinal, o mundo continua a girar".



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Quase três horas se passaram, e o sol já não estava mais tão alto no céu. Do norte, trovões distantes e nuvens pesadas anunciavam a possibilidade de chuva vindoura. Mara'iza retornou à casa-grande e, tão logo entrou no quarto, perguntou ansiosa: "Como ele está?".


"Ainda não acordou, mas tá mais inquieto", Dona Santinha respondeu. "Tá mexendo e gemendo bastante, acho que sonhando."


Sorrindo com a notícia, Mara se aproximou da cama, ajoelhando-se, observou Zé inerte. "Ele vai acordar em breve", disse com convicção. Teve vontade de tocá-lo, mas hesitou e desistiu.


"Padim queira que sim", Santinha desejou. "Será então que ele vai atender o pedido da gente? O que cê acha?"


"Já disse o que penso", Mara respondeu. "Ele vai recusar, já rejeitou esse destino antes."


Dona Santinha se entristeceu com a resposta. "O que vai ser da gente, então, minha filha?"


Mara'iza baixou a cabeça. "Não sei", respondeu, "mas talvez ele saiba".


Diante dela, Zé, em sonhos, era atormentado por memórias.



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Nove anos atrás...


O sol ainda nem tinha alcançado seu apogeu, mas o calor já era insuportável. A planície, rochosa e empoeirada, parecia infindável, sem animais ou vegetação, exceto por um raro cacto aqui ou acolá.


Sem sombras para abrigá-lo do sol, o menino Zeca seguia na jornada solitária. O silêncio desesperador era quebrado pelo uivo do vento, pela respiração exasperada do menino e pelos passos dele no solo rochoso. A barriga reclamava de fome, mas não tinha o que comer. A sede, porém, ele tentava enganar com o suco azedo que retirava dos cactos.


Zeca caminhava por um vale seco. Ao norte, despontava a Cordilheira Dragonina, que separava Vol'kor de Dragona e Dragona da Cornália. Ao sul, não sabia o nome das montanhas, mas de algum lugar ali nascia o Rio Catengão, que o levaria para casa. Na esperança de encontrá-lo, o menino seguia para o sudoeste.


Conforme as horas passavam, o calor aumentava. Diante da fraqueza crescente, os pensamentos do menino se tornavam sombrios e pessimistas. Cada vez que a mente admitia a morte iminente, porém, o menino insistia, em voz alta, no oposto: "Eu não vou morrer aqui!". Daquela mísera esperança, reunia forças para continuar.



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O sol se ergueu ao apogeu, depois desceu lentamente até sua luz açoitar os olhos do menino. Já era a segunda metade da tarde quando o menino avistou o Rio Catengão correndo a distância, rodeado por mato ralo e árvores retorcidas. Chegar à margem tomou-lhe mais uma hora.


Alcançando as águas, Zeca se jogou nelas de imediato, refrescando-se pela primeira vez naquele dia infernal. Sabia que o rio era considerado venenoso, mas não tinha escolha, bebeu copiosamente, depois descansou nas pedras da margem.


O repouso não durou, o menino logo se pôs em pé. Mesmo com a barriga roncando e os pés doloridos, decidiu continuar a jornada. O rio seria seu guia, bastaria segui-lo através da secura da caatinga que encontraria Vila Maria, onde Madre Magnólia certamente o esperava. A jornada tomaria alguns dias, mas Zeca tinha a esperança de chegar ao orfanato antes que fosse consumido pela fome.


Por mais duas horas, o garoto seguiu o curso do rio, até o sol se aproximar do horizonte e avermelhar o céu. Ofegante e exaurido, deitou-se próximo ao rio, sob a sombra pronunciada de uma árvore retorcida, e decidiu passar ali mesmo a noite vindoura.


O menino não considerou, porém, que água atrai vida, e não somente plantas crescem às margens do Catengão. No canto da vista, entre as pedras da margem, ele notou algo se mexer: uma cobra de três metros de comprimento, que se aproximava lenta e sutilmente, preparando um bote.


Levantando-se no susto, Zeca pegou uma pedra e arremessou-a contra o réptil. A rocha errou o alvo, caindo logo ao lado da cabeça da cobra, que respondeu recuando um pouco, erguendo o pescoço e escancarando ameaçadoramente a bocarra.


O menino se apavorou quando notou fogo saltar da boca do bicho. No instante seguinte, as chamas se espalharam por todo o corpo sinuoso da cobra. Foi então que Zeca se deu conta: aquilo era um boitatá.



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O presente...


Mara'iza saltou da cadeira assim que percebeu Zé abrir os olhos. "Ele acordou!", disse em voz alta, fazendo-se ouvir nos cômodos vizinhos.


Zé tomou algum tempo para se situar, mas logo reconheceu estar no quarto do Frei Militão, onde lutaram mais cedo. "Malinha?", murmurou, olhando ao redor. As janelas estavam fechadas, e o lampião sobre o criado-mudo estava aceso. "Que horas são? Quanto tempo dormi?"


"Já está escurecendo, seu ogro preguiçoso", ela respondeu num gracejo sorridente. "Você dormiu durante todo o dia."


"Pena", ele lamentou. "Então a gente vai ter que deixar a estrada pra amanhã."


Ela fechou o cenho. "Não diga asneiras, seu teimoso, avalie primeiro seu estado. Não permitirei que persiga os cangaceiros nessa condição!"


"Até te entendo, Malinha, mas tem uma coisa que você não faz ideia", Zé retrucou. "A próxima parada é Vila Maria, lá fica o orfanato onde cresci. Se a gente chegar lá, as madres de Padim me põem inteiro num instante."


Foi quando Dona Santinha entrou no quarto, interrompendo a conversa. Trazia um prato de macaxeira cozida. "Seu Zé Calabros, a gente tava só te esperando acordar. Coma, que vai se sentir melhor".


Ele pegou o prato, e o cheiro da comida fez a barriga roncar. "Agradecido", disse, e se pôs a comer ansioso. Era sua primeira refeição desde a noite anterior.


Mara aproveitou então para retomar o assunto. "Não sabia dessas sacerdotisas. Com certeza, isso me dá uma nova perspectiva, mas ainda assim questiono se você tem condições de seguir pela estrada."


"Se eu não conseguir caminhar, a gente arruma um jeito", Zé falou de boca cheia. "Aliás, tem que ir atrás do seu livro, também, pra modo de lhe recuperar os feitiços."


"O grimório é muito importante para mim", disse Mara, entristecendo-se ao pensar no livro. "Fosse um tomo qualquer, poderia substituí-lo, mas ele não é apenas uma fonte de estudos. Foi-me dado de presente, não posso me desfazer dele."


"Mais um motivo pra gente não perder tempo", Calabros insistiu. "Quanto antes a gente tiver ele de volta, melhor."


"O grimório está sendo levado a Severino", ela lembrou. "Recuperá-lo antes que seja entregue já não é mais uma opção, mas o encontraremos onde Severino estiver. Sabendo disso, e para não me tornar um estorvo, decidi perder o elo com o livro e me harmonizar com outro foco arcano."


"E dá pra fazer isso com qualquer outra coisa?", ele questionou.


"Não, é preciso um item especialmente preparado, com o qual eu tenha afinidade", ela disse, então sacou e exibiu a adaga. "O kai'ken não é apenas um símbolo de meu clã, é também meu foco reserva."


Zé se animou. "Então você já pode fazer feitiço de novo?"


Ela ficou em silêncio, mas, fitando-o com os olhos verdes, respondeu-o com seu sorriso arrogante.



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A noite chegava, restava do sol apenas uma faixa minguante de luz avermelhada. Um mensageiro veio da casa-grande para a vila, trazendo a notícia: "Ele acordou!". A mensagem, repetida pelos cidadãos, logo se espalhou espontaneamente.


Aquele era o sinal aguardado. Os chefes de família, em alguns casos famílias inteiras, pegaram tochas ou candeeiros e, numa fileira de luzes, seguiram colina acima, rumo ao casarão.


A procissão era impelida por muitos medos e uma esperança. Por todo o dia, os cidadãos questionaram seu futuro. Qual seria o destino de Beira da Larica? Quem cuidaria da vila e da lavoura?


Temiam tanto o retorno dos Bocarras quanto a vingança de Severino, e decidiram que precisavam de um líder forte e destemido para governá-los e protegê-los. Uma sugestão logo se espalhou, ganhando apoio da maioria.


Era essa esperança que os impelia naquele anoitecer: queriam tornar Zé Calabros seu novo coronel.



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"Vocês ficaram lesados das ideias?", Zé se indignou com a proposta. "É claro que não aceito! Não sou coronel, nem quero ser!"


"Eu avisei", Mara'iza, ao lado dele, murmurou.


No quarto, dez cidadãos, capitaneados por Odorico Crinalba, representavam os beira-lariquenses. Diante da resposta, nenhum deles disfarçou a decepção e a desesperança.


Odorico, que até então oferecia o chapéu do finado Coronel Bocarra, recolheu-se cabisbaixo. "E o que a gente vai dizer pro povo todo lá fora, seu Zé Calabros? Todo mundo vai ficar acabrunhado!"


Mesmo com dificuldade, Zé se levantou da cama. "Então bora lá fora, que eu mesmo vou falar ao povo", disse, apoiando-se nas paredes para caminhar. "E venham comigo, que o que tenho a dizer também vai valer pra vocês!"



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Do lado de fora, uns duzentos beira-lariquenses aguardavam ansiosos por Zé Calabros. Quando ele apareceu na varanda da casa-grande, o povo o ovacionou aos gritos de "Viva o coronel!". Um vento úmido soprava forte do norte. Trovões distantes indicavam que choveria logo, mas a chuva iminente era, para o povo, apenas mais um sinal de prosperidade a indicar que Zé fora enviado pelo Divino Pai.


"Malinha", ele a chamou, "você tem algum jeito de me fazer ser ouvido por essa gente toda?".


"Posso encantar minha voz e repetir o que você disser", ela respondeu.


"Mas aí não fica porreta", ele murmurou. "Quando eu falo, tem que ser voz de macho, pra modo de pôr respeito! "


"Que diferença faz, seu idiota?", ela suspirou irritada. "Olha, eu posso arriscar alterando os parâmetros do feitiço, mas será um improviso, o resultado pode não ser o desejado."


"Você é casca-grossa e muito arretada, Malinha", ele sorriu. "Tenho certeza que consegue!"


O elogio mexeu com o ego dela, que disfarçou o sorriso. "Está bem", ela murmurou, então calculou as necessidades do feitiço e sacou a adaga para auxiliar na canalização. "Segure minha mão", disse, meio contrariada. Para ela, as mãos unidas eram um gesto deveras íntimo.


Ele a segurou sem hesitar, e a espontaneidade a deixou ainda mais desconfortável. Um pouco ruborizada, Mara'iza fechou os olhos e instruiu: "Precisarei me concentrar em cada palavra. Fale em tom bem elevado, pausadamente."


Obedecendo-a, Zé se virou para a multidão e falou em voz alta: "Povo de Beira da Larica!".


Mara'iza repetia cada palavra bem baixinho. Em sua mente, imaginava as palavras virem a ela, através das mãos unidas, e então retornarem encantadas para ele. Felizmente, a voz de Zé troou com sucesso, ouvida por todos, e os cidadãos responderam com gritos de aclamação: "Coronel Calabros!".


Foi quando ele deu a notícia derradeira: "A minha resposta... é não! Não vou ser seu coronel!"


As palavras foram arrasadoras para os cidadãos, que, diante da súbita desesperança, ficaram em melancólico silêncio. Após a surpresa inicial, alguns começaram a chorar, e outros se negavam a aceitar, gritavam por reconsideração.


Zé Calabros tomou um instante para organizar os pensamentos, recordando-se dos ensinamentos de Padim, das Leis de São Silvério, das lições aprendidas na infância e de tudo o que vivenciara nos anos em que vagou pelas cidades e ermos da Cornália. Só então voltou a falar.


"O que vocês estão me pedindo", disse, "não deviam pedir pra ninguém! Criança é que depende dos outros, só criança não consegue se virar sozinha. A gente é todo mundo filho de Padim, é verdade, mas todo bom pai espera que o filho cresça forte e se vire sozinho."


A atenção do povo permaneceu nele, muitos intrigados pelo que ele dizia.


Zé prosseguiu: "O mau governante trata todo mundo que nem criança, diz que o povo não saberia se virar sem ele, e promete tudo de bom. Ele diz que vai proteger as pessoas. Fala que vai trazer fartura, vida fácil. Promete ser um pai! Em troca, manda o povo obedecer de boca calada, como se vocês fossem crianças. E vocês são crianças, por acaso?"


Houve um silêncio desconfortável, até que Odorico ergueu o punho e gritou forte: "Não!". Diante do exemplo, mais e mais cidadãos repetiram o gesto, gritando aos céus: "A gente não é criança!".


"Então, olha pra vocês aí", Calabros continuou, "vivendo com fome, medo e penúria, sem nem poder ir embora! Sabem como acabaram assim? Foi porque aceitaram obedecer a um safado que prometia o céu! Como vocês podem, de bom grado, querer que isso se repita? Quem promete o céu, entrega o inferno!".


"Você é diferente!", alguém gritou na multidão, e outros concordaram. "Você é uma pessoa boa!", "É nosso herói!", "Pode nos proteger!".


"O problema não é a pessoa", Zé respondeu num tom repreensivo. "O problema é querer um pai pra cuidar de vocês, que são adultos! Lembrem-se disso: quem procura salvador, acha canalha. Só quem pode cuidar de vocês, são vocês mesmos. Tá na hora de deixar de besteira, criar coragem e virar homem!"


"É fácil pr'ocê falar", disse um, "cê é forte que nem o diabo!".


"Pois não nasci assim", Calabros respondeu, "fiquei forte porque a vida me exigiu. Crescer não é fácil, é doloroso! Perdi minha família aos oito anos e me viro sozinho desde os dezesseis, mas foi com doze, ainda moleque, que aprendi a ser homem! Querem saber como?"


Zé fez uma pausa, recobrando as memórias. "Eu fui sozinho pra Catinga Danada, pra modo de pagar uma promessa a Padim. Passei dias lá, embaixo daquele sol dos diabos, perdido na imensidão, sem ter o que comer. Num desses dias, na margem do Catengão, quando já tava escurecendo, apareceu um boitatá..."



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Nove anos atrás...


A cobra flamejante mantinha o pescoço alto e a boca arreganhada, preparando-se para o bote. Seguia pacientemente os movimentos do menino, não deixando que ele se afastasse, mas também sem arremeter precipitadamente.


Zeca, apavorado, recuava sem dar as costas ao boitatá. Protegia os olhos do brilho ofuscante do bicho e orava nervosamente. "Ai, meu Padim, protege teu filho."


Foi quando a cobra soltou um sibilo e fez um ataque em falso, apenas para assustar.


Em um susto desesperado, Zeca se jogou para trás e, perdendo a cautela, correu o mais rápido possível para longe, dando as costas ao adversário.


Era o que o monstro queria. Serpenteando velozmente, o boitatá perseguiu o garoto e, alcançando-o sem esforço, aplicou-lhe o bote nas costas. Por pura sorte, ou talvez intervenção divina, o menino tropeçou naquele mesmo instante, caindo, rolando e inadvertidamente evitando o ataque. A cobra não conseguiu mordê-lo, mas já preparou um novo ataque, recolhendo o pescoço e reabrindo as mandíbulas.


Caído, Zeca se virou e, sem destreza para se levantar rapidamente, sentou-se e arrastou-se para longe. Com o coração acelerado, o mundo pareceu se mover lentamente, como se o tempo se desacelerasse para o menino. Naquele instante, recordou-se de palavras da noite anterior.


"Svar! Brunnhardt!", a lembrança ecoou, "Quero ser mais forte do que vocês!".


O menino agarrou instintivamente uma pedra.


"Vou fazer milagres, como os santos das histórias!"


A cobra se arremeteu sobre ele.


"Eu não quero só escalar a montanha mais alta!"


Sem pensar nem hesitar, Zeca bloqueou o bote, enfiando a pedra na boca do bicho. O impacto doeu-lhe no braço, despertando-o do transe. A percepção do tempo retornou ao normal, e o menino, impulsionado pelo desespero, se levantou de supetão.


O monstro flamejante recuou e, recuperando-se rapidamente, cuspiu o pedaço de rocha.


Zeca correu para um cacto próximo. "Eu quero ir além!", murmurou, repetindo suas lembranças.


A cobra se lançou sobre ele, numa velocidade surpreendente.


O menino se jogou para trás do cacto, protegendo-se do réptil, então, com as duas mãos, pegou outra rocha, ainda maior. "Meu objetivo... é alcançar o céu!", bradou num grito furioso, com lágrimas desesperadas na face.


O boitatá rodeou o cacto e desferiu um novo bote.


Em resposta, novamente impulsionado pelo instinto, o menino girou o corpo e bateu a pedra contra a cabeça do réptil, prensando-a contra o cacto. Então, ergueu a rocha e golpeou-a novamente contra o monstro, antes que este recuasse. "Bicho cabrunquento!", Zeca urrou ofegante, "Não vou! Morrer! AQUI!!!".


Atingido em cheio, o monstro caiu atordoado. Tentou recuar, mas o baque tirou-lhe a velocidade.


O menino ergueu o pedregulho acima da cabeça e, caindo de joelhos diante do réptil, golpeou novamente. Só aquele golpe não bastou, e Zeca, perdendo-se num transe frenético, continuou a bater incessantemente a pesada rocha contra a cabeça do monstro, cada vez mais forte, cada vez mais fora de si.


Foi em meio àquela fúria desesperada que Zeca ouviu a voz de Brunnhardt, como se o espírito dele sussurrasse em seus ouvidos: "Tu és um menino, então ensinar-te-emos a ser um homem".


E também Svar ecoou: "Você é fraco, então lhe mostraremos força".


E a cada golpe, as vozes se alternavam: "Tu não sabes lutar, então aprenderás o que é ser um guerreiro".


"Você é humano! Vazio por dentro!"


"Tu és capaz de desafiar o destino!"


E então houve silêncio.


E, aos poucos, notou-se um som distante e repetitivo, mas cada vez mais próximo. Era uma pedra batendo, cadenciada e violentamente, contra o chão. A pedra que o próprio Zeca segurava.


O menino recobrou os sentidos e, parando de golpear, viu o cadáver inerte do boitatá, com a cabeça esmagada, adiante. Zeca ficou ali por alguns instantes, ajoelhado e ofegante, coberto de suor e lágrimas, com braços doloridos e mãos esfoladas, até reunir forças para encher o peito e urrar um grito de alívio e vitória. Conquistara sua primeira montanha.


Entre a exaustão e a vitória, contudo, o menino ignorava que logo anoiteceria. Com a escuridão, viriam não só mais predadores, mas também as névoas venenosas daquela terra maldita.



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O presente...


"Matei a desgramada, com aquela pedra mesmo!", Zé continuou o relato. "Eu era só um menino, mas não tinha ninguém pra me salvar. Tudo o que eu tinha era uma escolha: morrer indefeso ou virar homem!"


Naquele momento, Mara'iza fez um sinal, pedindo tempo. Largando a mão dele, ela cobriu o rosto e respirou fundo. "Desculpe", pediu, "estava me desconcentrando. Dê-me alguns segundos para limpar a mente, por favor".


Ele esperou que Mara se recuperasse. Enquanto isso, o povo esperou em silêncio, ansioso por ouvir mais.


Quando Mara deu-lhe novamente a mão, Zé prosseguiu: "Um cabra muito macho me disse uma vez: pro bem ou pro mal, são homens fortes que fazem esse mundo girar. É isso, um homem forte, que cada um aqui tem que ser!".


As pessoas mais próximas perguntaram: "E como a gente vai fazer isso, seu Zé Calabros?".


"Primeiro", Zé enumerou, "toda família agora é livre. Quem quiser ir embora, que vá. Quem quiser ficar, que fique. Cada um decide seu destino, e ninguém pode obrigar outro a nada!".


"Isso vai dar bagunça", alguém contestou. "E se ninguém quiser trabalhar na lavoura, como a gente fica?"


"Cada um vai buscar o sustento de sua família", Zé respondeu. "Quem não quiser trabalhar na lavoura, que busque outro ofício. Ofereçam seus serviços, troquem entre si de comum acordo. Vocês são livres pra escolher seus caminhos!"


"E se alguém não quiser trabalhar?", outro perguntou. "A gente vai ter que sustentar o imprestável?"


Calabros disse: "Seu dever é com sua família, e mais ninguém! Caridade é virtude, e virtude é escolha, não é obrigação".


Então, após uma breve pausa, Zé continuou: "Segundo, de agora em diante, cada um é dono de suas coisas. O fruto do seu trabalho é seu, a sua casa é da sua família. Ninguém pode tomar nada que é do outro, seja comida, ferramenta ou terra".


"E a lavoura?", perguntaram, "Quem vai ser dono dela?".


"Dividam o campo entre as famílias, e cada uma que decida o que fazer com sua parte. Pode plantar o que bem entender, arrendar pra outro, vender pra quem quiser ou até não fazer nada, se preferir assim."


"E de quem vai ser a casa-grande?", um cidadão questionou.


"A casa-grande", Zé respondeu, "vocês vão procurar os Bocarras e devolver pra eles. E também vão dar um pedacinho do campo, igual a todas as outras famílias daqui."


A multidão não gostou da resposta, porém, e um burburinho de reclamações e contestações se seguiu.


Notando o descontentamento, Calabros explicou: "A casa é deles, e os filhos não podem pagar pelos erros do pai. É muito melhor fazer um acordo e deixar bem claro que eles não mandam mais aqui. Senão, um dia podem voltar com violência, querendo tomar tudo de volta, e isso ia ser muito pior."


Alguns se acalmaram com a resposta, embora muitos ainda se mostrassem insatisfeitos. O ressentimento pelos Bocarras era grande entre os beira-lariquenses.


"A coisa certa não é sempre a mais fácil de se fazer", Zé elevou a voz. "E aí que vem a terceira coisa pra seguir nesse caminho: vocês não podem desistir! Não vai ser fácil, ainda mais no começo. Vocês vão passar dificuldades, e é aí, na hora que as coisas vão pro saco, que vocês têm que pisar firme e manter a cabeça erguida".


Ele bateu no peito e continuou: "Quem desiste, quem se entrega, é um fraco que nunca vai crescer! Só aprende e fica mais forte quem não arrega, quem é cabra-macho pra enfrentar a dificuldade e casca-grossa pra aguentar até o fim! E vocês, de Beira da Larica, são cornos! E o que que corno é, hein?".


Silêncio.


"Todo corno", Zé Calabros gritou, "é cabra-macho! Casca-grossa! Pica-grande!".


Envergonhada, Mara'iza perdeu a concentração. "Você tem mesmo que falar essa última parte?"


"Mas é claro, afinal é verdade!", ele respondeu orgulhoso.


"Não me importa se é verdade", ela contestou ruborizada, "essa declaração é constrangedora!".


Zé riu, então apontou para o povo e gritou, mesmo sem o auxílio de magia: "Beira-lariquenses, o que vocês são?".


Apenas os mais próximos, que podiam ouvi-lo, responderam: "A gente é corno!".


"Não ouvi direito!", ele provocou.


"A GENTE É CORNO!", a multidão repetiu em ondas, até que os mais distantes também bradassem.


"E o que que corno é?", Zé questionou.


E o povo repetiu, novamente em ondas: "CABRA-MACHO! CASCA-GROSSA! PICA-GRANDE!".


Mara'iza cobriu o rosto, embaraçada. Porém, notando Zé estender-lhe a mão, recuperou a compostura, deu-lhe a mão e voltou a se concentrar.


"E é por isso que vocês não precisam nem de mim, nem de nenhum coronel!", a voz dele troou novamente. "Enquanto forem livres, enquanto não se rebaixarem pra ninguém, enquanto não desistirem, a gente vai tá no mesmo caminho! E esse caminho leva pra grandeza!"



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Zé, cansado e ferido, deu as costas e retornou para dentro da casa-grande, acompanhado de Mara'iza e Odorico. O povo lá fora continuou a exaltá-lo, bradando seu nome e cantando hinos religiosos de Padim, mas logo se dispersaria.


"Será que a gente vai conseguir, seu Calabros?", Odorico questionou.


"Vocês vão achar um jeito", Zé respondeu. "Quando aparecer um problema, vocês se juntam e procuram solução. Com o tempo, vai ter gente conquistando liderança, é coisa natural. Aliás, Odorico, você ainda quer ir embora daqui?"


"Vou ficar mais um pouco, pra ver no que vai dar", o cocheiro disse, então sorriu. "Acho que Beira da Larica vai ficar boa de morar de novo."


"Então te prepara, Odorico, que o povo vai te procurar muito. Foi pra salvar você e sua família que eu e Malinha viemos aqui, as pessoas vão ligar o seu nome ao nosso."


A responsabilidade deixou Odorico um tanto assustado, então ele se lembrou de outro assunto importante: "E o que a gente vai fazer com o Frei Militão?"


"Frei Militão?", Calabros estranhou. "O desgramado tá vivo?"


Mara desviou o olhar e, desconfortável, deslizou os dedos nos cabelos. "Eu... eu não bati nele forte o bastante, ele só desmaiou. Com ele caído ali, faltou-me a coragem para matar."


"E onde o cabra tá agora?"


"Tá trancado num dos quartos", Odorico respondeu. "Deve de tá com fome, que a gente não abriu a porta nenhuma vez."


"Então, me leva lá", pediu Zé, "que eu quero ter uns dois dedos de prosa com o fela-d'égua".



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Quando a porta se abriu, Frei Militão, sentado sobre uma colcha, ergueu a cabeça. Embora suas vestes encardidas e óculos tortos ainda trouxessem as marcas da luta, o sacerdote estava milagrosamente curado de todos os ferimentos.


Zé entrou primeiro, seguido de Mara'iza, e Odorico veio um pouco depois, trazendo um prato de comida, que deixou no chão.


Militão não recusou o alimento, puxou a refeição para perto de si e se pôs a comer. "Pensei que vocês vinham aqui pra me matar", disse com aquela voz esganiçada.


"Vontade de te quebrar a cara até tenho", Zé disse, "mas não bato em quem tá indefeso, mesmo que seja traste como você".


"Deu de ouvir tudo daqui, foi um belo discurso", Militão admitiu. "Mas você está se enganando, o povo é sim como uma criança, e vai sofrer sem ter quem tome conta dele. O que você disse lá fora vai levar à ganância, ao egoísmo, à desigualdade. Uns vão enricar, outros vão continuar pobres e explorados."


"É melhor que todo mundo ficar na miséria", Zé respondeu. "E não tô aqui pra perder tempo discutindo, abestado, já tá decidido!"


Militão exibiu um sorriso sarcástico. "Você disse que todo mundo tem que ser livre, mas isso se aplica a mim, por acaso?"


"Liberdade é pra cidadão honesto e ordeiro. Você mandou matar gente, tirou a liberdade das pessoas e roubou as coisas delas, vai ter que pagar pelo que fez."


"E se minha pena fosse ficar preso aqui e curar os enfermos?", o sacerdote propôs, mal disfarçando o entusiasmo. "Eu pagaria essa suposta dívida com meus serviços, e seria útil à comunidade que você diz que prejudiquei".


"Você tá me achando com cara de otário?", Zé retrucou. "Se te deixar aqui, você vai pôr caraminhola de novo na cabeça das pessoas."


"Ora, você terá então que me matar", Militão provocou, "porque nada vai me impedir de reconquistar meu rebanho".


"Nada?", Mara'iza se intrometeu. "Pois tive uma ideia! Escreverei uma carta ao Coronel Meneses. Ele mandará guardas para escoltá-lo para Bota do Judas, sacerdote, onde você cumprirá sua pena na prisão, curando os feridos e doentes sob vigília de sentinelas armados."


O frade perdeu o sorriso. Mara, em resposta, encarou-o com sua costumeira postura pedante.


"Até lá, você fica trancado aqui", Zé disse, se aproximando de Militão, "e não ache que vou te dar chance de fugir!". Então, num movimento rápido, agarrou o sacerdote pelo colarinho, levantou-o à força e prensou-o contra a parede.


"Seu ogro idiota, o que está fazendo?", Mara'iza repreendeu-o. "Você está ferido, não deveria se esforçar!"


"Tô tirando dele os sacramentos", Zé respondeu enquanto rasgava e arrancava o traje sacerdotal de Militão. Deixando o frade apenas com as roupas mundanas que usava por baixo, arremessou-o violentamente de volta ao chão. "Esse cabra é perigoso, não pode ter nem as vestes, nem um medalhão ou livro de rezas, senão é o mesmo que deixar ele armado!"


"Desgraçado! Ímpio! Sacrílego!", o sacerdote vociferou raivosamente. "Sua profanação é inútil, Severino vai me soltar! Ele é a vingança dos pobres e a mão da justiça de Padim! Esconda-se num buraco bem fundo, infeliz, pois o Rei do Cangaço vai te perseguir sem misericórdia!"


"Pois amanhã mesmo vou atrás de Severino, padre dos infernos!", Zé declarou. "Minha mão tá coçando de tanta vontade de conhecer a fuça dele!"



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Assim que deixaram o quarto de Militão, Odorico trancou a porta e questionou: "Seu Calabros, ocê vai mesmo embora amanhã, mesmo nesse estado que tá?".


"Vou sim", ele respondeu. "Não vou dar tempo pro Severino descansar, o cabra já aprontou demais e tem que levar uma surra. E não te preocupa com meu estado, que chegando em Vila Maria, vou ter com quem me tratar."


"Eu te levo na carroça, então", Odorico ofereceu. "Ocês salvaram minha vida, minha família e minha terra, eu tenho que agradecer de alguma maneira."


"É uma boa ideia", observou Mara'iza. "Seguiríamos mais rápido do que a pé."


"Se a gente madrugar", Odorico explicou, "a gente chega no Catengão à noitinha."


Zé sorriu. "Fico agradecido, Odorico."


"E o melhor de tudo", Mara'iza comentou, "é que Severino nem deve fazer ideia do que aconteceu aqui. Acabamos com todos os oficiais do bando e, quando o alcançarmos, ele estará desprevenido."



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Em Vila Maria, na margem leste do Rio Catengão, a tropa dos cangaceiros descansava após um dia longo de viagem. Os bandidos tomavam as ruas da pequena cidade e demandavam dos habitantes comida e outros suprimentos. Uma família de comerciantes fora retirada de casa para que o Rei do Cangaço pudesse ali descansar.


Solitário, Severino Barriga D'Água tomava um gole de cachaça à mesa, quando Chassi de Grilo bateu na porta. "Licença, meu rei", o capanga pediu, entrando cautelosamente, "mas o tal de Capiroto, que você tava aguardando, acabou de atravessar o rio e precisa muito lhe ver".


"Manda o sujeito entrar", Severino ordenou. Estava raivoso, mas escondia a fúria detrás daquelas lentes refletivas que lhe cobriam os olhos.


Logo, Capiroto adentrou, trazendo nas mãos o grimório de Mara'iza. "Capitão, Tição me mandou entregar esse livro. Disse que, com ele, nossos homens podem aprender a fazer magia que nem a feiticeira."


Severino se levantou, caminhou até Capiroto e tirou-lhe o livro das mãos. Folheando o tomo rapidamente, não conseguiu decifrar os símbolos que cobriam-lhe as páginas. "Vai ser útil pro futuro, disso eu sei", murmurou, "mas isso vai levar tempo, e tem que arrumar alguém que entenda disso. Não vai servir de nada se a gente não parar o Zé Calabros e os coronéis."


Capiroto então informou: "Velho Tição ficou pra trás pra matar o Zé Calabros e a feiticeira, capitão, e com a ajuda do Frei Militão. Com certeza, a uma hora dessas, já devem ter dado cabo daqueles dois."


"Vosmecê não sabe de nada, estrupício", Severino fitou o bandido, e a imagem de Capiroto se refletiu nos óculos. "Tição me deixava informado de tudo o que acontecia, mas não teve mais nenhuma mensagem depois da manhã de hoje. A essa altura, ele só pode tá morto, quiçá Militão também!"


Capiroto ficou espantado. "Mas não é possível! Zé Calabros tava muito ferido, meu rei, e a feiticeira nem magia conseguia lançar mais!"


"Eu devia ter cuidado de tudo pessoalmente", Severino lamentou, deixando a raiva transparecer. "Mas não vou cometer esse erro de novo, da próxima vez que o Zé Calabros aparecer, eu mesmo cuido dele, cara a cara, homem a homem!"


"Capitão, se for assim, o que devemos fazer?", intrometeu-se Chassi de Grilo. "Ainda vamos seguir pra São Vatapá, ou ocê quer voltar?"


"A gente não pode voltar, abestado", o Rei do Cangaço o repreendeu. "Vosmecê já se esqueceu que a tropa dos coronéis também tá vindo? Se com Tição e Fragoso a gente não enfrentou eles, não é agora que vamos bater de frente! A gente vai seguir pra São Vatapá. Lá, eu falo com Chicó, ele vai ter o que a gente precisa pra virar a situação."


"Tá falando daquelas armas infernais dele, meu rei?", Chassi de Grilo questionou.


"É", Severino Barriga D'Água confirmou, esboçando um sorriso sutil e cruel. "Chicó é covarde, não é grande coisa pra lutar, mas dá conta de um exército inteiro com aquelas coisas do capeta!"



A seguir: As balas já estão reservadas

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As Crônicas Anímicas

© 2016 Tiago Moreira