Prévia: Capítulo 17


O terceiro ato de nossa história já terminou. Está quase na hora de começarmos o ato final! Ansioso para saber o que acontecerá? Pois então, que tal uma prévia do Capítulo 17: As balas já estão reservadas?

Após a batalha de Beira da Larica, nossos heróis precisam partir. A próxima parada? Vila Maria, onde Zé cresceu entre as sacerdotisas do Divino Pai! E, enquanto ele tem um reencontro com seu passado, Severino Barriga D'Água e seu bando seguem ao destino final: São Vatapá do Norte!


O capítulo 17 estará disponível no dia 28/07/2017.

O sol nem tinha raiado, mas os apitos já quebravam o silêncio do acampamento. A noite fora chuvosa e mal-dormida, e os guardas, cansados e indispostos, relutavam em se levantar.


Coronel Malícia percorria o acampamento, incentivando os guardas com palavras duras e ameaças. "Bando de frouxo, ai de quem não se levantar ligeiro! O dia já vai começar, e a gente tem muito chão pela frente!"


"Ô, mulher arretada", riu André Meneses, aproximando-se dela. "Os pobres dos homens mal devem ter dormido com toda aquela chuva. Dê um tempo a eles."


"Vão ter muito tempo pra dormir no fim do dia", Malícia retrucou. "Agora reclamam da chuva, mas vão sentir falta quando a gente estiver debaixo do sol do sertão!"


"Ela tá certa, quanto antes partir, melhor", observou o Coronel Garrancho, que os seguia de perto. "Hoje o dia vai ser duro, mas quando anoitecer a gente já vai estar no meio da caatinga. Daí, a tropa vai ter uma noite mais tranquila pra se recuperar."


"Ainda esta manhã quero ver a gente passando Beira da Larica", Malícia comentou. "Se não perder tempo, a gente alcança o Catengão amanhã pela tarde."


"Se não tiveram nenhum atraso", calculou Garrancho, "os cangaceiros já devem ter passado o rio e vão chegar em São Vatapá ou amanhã ou depois. Severino tem dois dias de vantagem, é tempo mais que suficiente pra ele aprontar uma armadilha".


"Melhor dar dois dias pr'ele do que uma semana ou um mês. Eu tô pouco me lixando se ele vai tá preparado", Malícia retrucou.


"Eu sei, não tem mais volta, vai ser matar ou morrer!", disse Garrancho. "A cobra vai fumar em São Vatapá!"


Malícia deu as costas aos dois e voltou a gritar para os homens: "Acorda, cambada de troncho! Parece um bando de capado!". A tropa partiria em breve.



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A carroça partiu de Beira de Larica logo cedo, tão logo os primeiros raios de luz despontaram no leste. Apesar da chuva suave e prolongada da noite passada, a manhã se abria com o céu limpo, anunciando um dia bem quente.


Por sugestão de Dona Santinha, a carroça levava um punhado de bens da casa-grande para vender ou trocar, como cachaça, talheres e roupas finas. Odorico conduzia, Mara estava sentada ao lado dele na frente do veículo, e Zé ficou na traseira, junto com as mercadorias.


Atravessaram pela vila, passaram pela trilha da mata e alcançaram a estrada, onde as árvores e plantas já rareavam. Não demorariam a estar no meio do sertão.


"Eita chuvinha boa que tivemos ontem à noite!", Odorico puxou conversa. "Liberdade e chuva no mesmo dia abençoado!"


"Não chove muito aqui, não é?", Mara se entregou à conversa.


"Se cair água quatro ou cinco vezes por ano já é muito", Odorico respondeu.


"Lá no litoral cai quase todo mês", disse Zé. "Mas quanto mais pro sul, menos chuva. Tem lugar nessa terra que nunca viu água cair do céu. Na minha Itapopó, chuviscava uma vez por ano, e olha lá! A gente dependia do Chico Propício pra ter o que beber."


O vento seco do sul insistia em tirar o chapéu de Mara'iza e esvoaçar os cabelos negros dela. "Desde que cheguei a esta terra, estranho o clima daqui", ela comentou. "A chuva vem do mar, mas o vento sopra sempre do sul. Isso não me parece lógico, nem natural."


Odorico fez o sinal de Padim. "Isso é tudo coisa do Diabo Velho."


"Diabo Velho?", Mara questionou, mas, tardando a receber uma resposta, concluiu: "Falam do rei-destino?".


"Esse coisa-ruim mesmo", disse Zé. "Aqui, não se fala o nome dele, que é pra modo de não atrair desgraça."


Odorico repetiu o sinal de proteção. "Tem uma história cafuza que diz que aqui, muito antes de Vatapá aparecer, já foi uma terra verde. O Diabo Velho não ligava pra essas bandas, mas um dia ele quis ser ouvido por todo o povo. Ele foi até uma montanha bem longe, lá no fim do mundo, e mexeu nos ventos, criou uma ventania que ia percorrer esse mundão todo, do fim até o começo."


"Já ouvi falar dessa lenda. É contada na minha terra", comentou Mara'iza. "Sen'kai-kaze, o Vento do Mundo. É ele que sopra do sul?"


"É isso mesmo", Zé Calabros respondeu. "Aqui não era terra do império, então o coisa-ruim não ligou que o vento secasse tudo. Os cafuzos diziam que a terra ficou seca por mil anos, só os rios ainda traziam água pra cá."


Odorico então continuou a história. "Quando Vatapá começou a trazer gente pra cá, o Diabo Velho ficou emputecido. Pra punir o povo fugitivo, fez aquela tempestade danada lá no mar, pra ninguém poder ir e vir pelo mar."


Zé complementou: "Mas a tempestade tem seus caprichos, cresce e diminui. Daí, às vezes fica tão forte que traz chuva até pro sertão."


Mara observou: "A tempestade é simultaneamente punição e dádiva".


"É, mas essa não era a intenção do coisa-ruim", disse Zé. "Os pescadores falam que é o deus deles, Anaren, que faz a tempestade ir e vir, mas não sei não. Pra mim, o Diabo Velho já tava louco de pedra naquela época. Com tanto poder na mão, mexia tanto nas coisas que já nem tinha como prever no que ia dar."


"É uma conclusão lógica", ela disse. "Ouvi tantas histórias, que tenho a impressão de que o mundo todo foi deturpado, desarranjado e arruinado. As cicatrizes daquela época estão por toda parte, quero um dia ver tais lugares com meus próprios olhos."


"Se seguir pro sul", Zé murmurou, "você acha um lugar desses. Chama-se Catinga Danada, a terra respira veneno por aquelas bandas. Mas sei lá pra quê o coisa-ruim ia fazer um lugar assim".


"Falando nisso, seu Zé Calabros", interrompeu Odorico. "Aquela história que você contou ontem, é verdade? Ocê tava mesmo na Catinga Danada? Eu pensava que quem ia pra lá morria."


"Padim não me deixa mentir", Zé respondeu. "O que contei é tudo verdade, mas não é a história toda. O que aconteceu depois é tão cabeludo que o povo não ia acreditar."


"E você pode contar pra gente?", o cocheiro pediu.


"Nem eu entendo direito", Zé murmurou, pensativo. "A noite caiu e aquela terra maldita se encheu de veneno..."


Livro Atual
Zé Calabros na Terra dos Cornos
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As Crônicas Anímicas

© 2016 Tiago Moreira