Capítulo 17: As balas já estão reservadas

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O sol nem tinha raiado, mas os apitos já quebravam o silêncio do acampamento. A noite fora chuvosa e mal-dormida, e os guardas, cansados e indispostos, relutavam em se levantar.


Coronel Malícia percorria o acampamento, incentivando os guardas com palavras duras e ameaças. "Bando de frouxo, ai de quem não se levantar ligeiro! O dia já vai começar, e a gente tem muito chão pela frente!"


"Ô, mulher arretada", riu André Meneses, aproximando-se dela. "Os pobres dos homens mal devem ter dormido com toda aquela chuva. Dê um tempo a eles."


"Vão ter muito tempo pra dormir no fim do dia", Malícia retrucou. "Agora reclamam da chuva, mas vão sentir falta quando a gente estiver debaixo do sol do sertão!"


"Ela tá certa, quanto antes partir, melhor", observou o Coronel Garrancho, que os seguia de perto. "Hoje o dia vai ser duro, mas quando anoitecer a gente já vai estar no meio da caatinga. Daí, a tropa vai ter uma noite mais tranquila pra se recuperar."


"Ainda esta manhã quero ver a gente passando Beira da Larica", Malícia comentou. "Se não perder tempo, a gente alcança o Catengão amanhã pela tarde."


"Se não tiveram nenhum atraso", calculou Garrancho, "os cangaceiros já devem ter passado o rio e vão chegar em São Vatapá ou amanhã ou depois. Severino tem dois dias de vantagem, é tempo mais que suficiente pra ele aprontar uma armadilha".


"Melhor dar dois dias pr'ele do que uma semana ou um mês. Eu tô pouco me lixando se ele vai tá preparado", Malícia retrucou.


"Eu sei, não tem mais volta, vai ser matar ou morrer!", disse Garrancho. "A cobra vai fumar em São Vatapá!"


Malícia deu as costas aos dois e voltou a gritar para os homens: "Acorda, cambada de troncho! Parece um bando de capado!". A tropa partiria em breve.



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A carroça partiu de Beira de Larica logo cedo, tão logo os primeiros raios de luz despontaram no leste. Apesar da chuva suave e prolongada da noite passada, a manhã se abria com o céu limpo, anunciando um dia bem quente.


Por sugestão de Dona Santinha, a carroça levava um punhado de bens da casa-grande para vender ou trocar, como cachaça, talheres e roupas finas. Odorico conduzia, Mara estava sentada ao lado dele na frente do veículo, e Zé ficou na traseira, junto com as mercadorias.


Atravessaram pela vila, passaram pela trilha da mata e alcançaram a estrada, onde as árvores e plantas já rareavam. Não demorariam a estar no meio do sertão.


"Eita chuvinha boa que tivemos ontem à noite!", Odorico puxou conversa. "Liberdade e chuva no mesmo dia abençoado!"


"Não chove muito aqui, não é?", Mara se entregou à conversa.


"Se cair água quatro ou cinco vezes por ano já é muito", Odorico respondeu.


"Lá no litoral cai quase todo mês", disse Zé. "Mas quanto mais pro sul, menos chuva. Tem lugar nessa terra que nunca viu água cair do céu. Na minha Itapopó, chuviscava uma vez por ano, e olha lá! A gente dependia do Chico Propício pra ter o que beber."


O vento seco do sul insistia em tirar o chapéu de Mara'iza e esvoaçar os cabelos negros dela. "Desde que cheguei a esta terra, estranho o clima daqui", ela comentou. "A chuva vem do mar, mas o vento sopra sempre do sul. Isso não me parece lógico, nem natural."


Odorico fez o sinal de Padim. "Isso é tudo coisa do Diabo Velho."


"Diabo Velho?", Mara questionou, mas, tardando a receber uma resposta, concluiu: "Falam do rei-destino?".


"Esse coisa-ruim mesmo", disse Zé. "Aqui, não se fala o nome dele, que é pra modo de não atrair desgraça."


Odorico repetiu o sinal de proteção. "Tem uma história cafuza que diz que aqui, muito antes de Vatapá aparecer, já foi uma terra verde. O Diabo Velho não ligava pra essas bandas, mas um dia ele quis ser ouvido por todo o povo. Ele foi até uma montanha bem longe, lá no fim do mundo, e mexeu nos ventos, criou uma ventania que ia percorrer esse mundão todo, do fim até o começo."


"Já ouvi falar dessa lenda. É contada na minha terra", comentou Mara'iza. "Sen'kai-kaze, o Vento do Mundo. É ele que sopra do sul?"


"É isso mesmo", Zé Calabros respondeu. "Aqui não era terra do império, então o coisa-ruim não ligou que o vento secasse tudo. Os cafuzos diziam que a terra ficou seca por mil anos, só os rios ainda traziam água pra cá."


Odorico então continuou a história. "Quando Vatapá começou a trazer gente pra cá, o Diabo Velho ficou emputecido. Pra punir o povo fugitivo, fez aquela tempestade danada lá no mar, pra ninguém poder ir e vir pelo mar."


Zé complementou: "Mas a tempestade tem seus caprichos, cresce e diminui. Daí, às vezes fica tão forte que traz chuva até pro sertão."


Mara observou: "A tempestade é simultaneamente punição e dádiva".


"É, mas essa não era a intenção do coisa-ruim", disse Zé. "Os pescadores falam que é o deus deles, Anaren, que faz a tempestade ir e vir, mas não sei não. Pra mim, o Diabo Velho já tava louco de pedra naquela época. Com tanto poder na mão, mexia tanto nas coisas que já nem tinha como prever no que ia dar."


"É uma conclusão lógica", ela disse. "Ouvi tantas histórias, que tenho a impressão de que o mundo todo foi deturpado, desarranjado e arruinado. As cicatrizes daquela época estão por toda parte, quero um dia ver tais lugares com meus próprios olhos."


"Se seguir pro sul", Zé murmurou, "você acha um lugar desses. Chama-se Catinga Danada, a terra respira veneno por aquelas bandas. Mas sei lá pra quê o coisa-ruim ia fazer um lugar assim".


"Falando nisso, seu Zé Calabros", interrompeu Odorico. "Aquela história que você contou ontem, é verdade? Ocê tava mesmo na Catinga Danada? Eu pensava que quem ia pra lá morria."


"Padim não me deixa mentir", Zé respondeu. "O que contei é tudo verdade, mas não é a história toda. O que aconteceu depois é tão cabeludo que o povo não ia acreditar."


"E você pode contar pra gente?", o cocheiro pediu.


"Nem eu entendo direito", Zé murmurou, pensativo. "A noite caiu e aquela terra maldita se encheu de veneno..."



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Nove anos atrás...


A escuridão tomou a vastidão do ermo. No céu sem nuvens, a lua crescente despontava entre a infinitude de estrelas. Também reaparecia na abóbada celeste a pequena lua vermelha, o Olho do Diabo, como um sinal de mau agouro.


Zeca buscou abrigo longe do rio, com medo de haver mais predadores nas margens. Seus passos tornavam-se cada vez mais lentos e pesados, porém. Sentia-se zonzo e sonolento, mas atribuía a fraqueza à exaustão e à fome.


Foi quando notou algo grande se mover à frente. Das trevas, discerniu a silhueta de uma enorme criatura que procurava o rio. O garoto se abaixou detrás das pedras e observou a passagem do monstro.


Era um tremenduá de oito metros, um animal quadrúpede com pelagem grossa o bastante para protegê-lo de cortes de facão e tiros de revólver. Era extremamente perigoso, com língua preênsil, cerdas pontiagudas e garras enormes, próprias para cavar. Felizmente, o bicho ou não percebeu ou ignorou a presença do menino.


Zeca permaneceu sentado atrás das pedras, esperando o monstro se afastar. Ali, sentiu o corpo perder força, e a tonteira se intensificou. Quando se levantou, o menino cambaleou sem equilíbrio. Com a visão turva e a respiração difícil, perdeu a noção de direção. Deu alguns passos rumo ao nada, então tombou no solo poeirento.


Foi quando Zeca se lembrou do alerta de Brunnhardt: "Lembre-se que esse ermo maldito é venenoso!".


Recordou-se também das palavras de Svar: "Quanto mais perto do chão, pior. Um humano sentado pode ficar tonto ou até não ter forças para se levantar. Deitar-se para dormir, então, é mortal!"


O garoto caído se deu conta, finalmente. A tonteira, a fraqueza, a visão turva, tudo era efeito do veneno! Precisava se erguer, manter a cabeça o mais alto possível! Contudo, por mais que lutasse, faltavam-lhe forças nos braços e pernas.


O corpo entorpecia. O ar escapava-lhe dos pulmões. Para a visão turva, o céu estrelado se tornou uma negritude, e o sertão ficou brumoso. Ainda assim, o menino lutava para se erguer. Estava morrendo, mas não tinha desistido da vida.


E foi ali, entre a vida e a morte, que Zeca percebeu um vulto no limiar da visão enevoada. Esforçou-se para fitar aquele ser e viu, sentado sobre as pedras próximas, um homem indistinto. Mas como uma pessoa poderia estar naquele ermo distante? Seria um delírio?


Surpreendentemente, o visitante misterioso reagiu ao olhar, revelando-se real. "Você me notou", a voz dele ecoou distante, apesar de estar tão perto. "Incrível, já deveria estar desacordado!"


Zeca estendeu a mão ao recém-chegado e, com voz fraquejante, implorou: "Por favor, acuda".


"Não vim oferecer salvação", o homem disse friamente. "Não posso lutar contra o destino, estou aqui apenas para vê-lo morrer."



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O presente...


"Ogro?", Mara'iza estranhou o silêncio. Ele se calara logo no começo da história.


"Seu Zé Calabros?", Odorico também o chamou. "Ocê tá bem?"


Ele despertou do transe. "Desculpem, eu tava matutando, lembrando. Aquela noite foi só a primeira. Andei mais de semana naquela terra dos infernos. De dia, aquele sol de rachar. De noite, voltava o veneno."


"Como ocê não morreu?"


"Eu briguei com a morte por todo caminho", Calabros respondeu, contemplativo. "E venci", murmurou, então ficou em silêncio.


Apesar de curiosos, Odorico e Mara, notando o desconforto dele, mudaram o assunto. E assim, sob o sol da caatinga, a carroça seguiu para o sudeste, rumo à distante Vila Maria.



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A tropa dos cangaceiros deixara Vila Maria pouco antes do amanhecer. A jornada para São Vatapá do Norte tomaria dois dias, com uma parada na pequena vila de Meiducamin para pernoitar.


Quatro cavalgantes, porém, deixaram a tropa para trás e viajaram velozmente pelo sertão, levantando rastros de poeira. Eram conduzidos pelo próprio Rei do Cangaço, que estava decidido a concluir a viagem naquele mesmo dia, mesmo arriscando matar os cavalos de exaustão.


A mente de Severino estava afiada. Tivera a noite anterior para conter a raiva, aceitar a perda de Fragoso e Tição e reavaliar a situação. Seus oficiais fariam falta, mas ainda restava-lhe Chicó Matador, que ficara em São Vatapá. Com a ajuda dele, viraria o jogo contra a tropa dos três coronéis.


O Rei do Cangaço não pensava apenas no conflito imediato, porém. Uma vez que a batalha estivesse ganha, precisaria reconstruir seu exército. O livro da feiticeira seria um trunfo para então, mas também era hora de pôr à prova uma nova geração de oficiais.



Era por isso que separara os três cavaleiros que o acompanhavam: Chassi de Grilo, Capiroto e Capa-jegue. O primeiro estava ali por obra do acaso. O segundo, por ser da confiança de Velho Tição. O último, porém, já tinha certa fama antes. Ladrão audaz e assassino frio, Capa-jegue já fora líder de seu próprio bando, mas juntou-se ao Rei do Cangaço por vontade própria.


A lei do cangaço era clara: viver, lutar e morrer pelo bando. Severino repetiria com os três as lições que aprendera com Tição. Colocá-los-ia à prova, faria com que sofressem e sangrassem. Os que tombassem seriam substituídos. Os sobreviventes receberiam testes ainda mais árduos. Eventualmente, Severino Barriga D'Água restabeleceria sua elite de bandidos.


A batalha vindoura seria, é claro, a primeira grande prova.



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Por todo o dia, a carroça de Zé, Mara e Odorico seguiu pela estrada poeirenta. No caminho, passaram por vilarejos paupérrimos, viram currutelas abandonadas e encontraram retirantes buscando as cidades ainda livres do oeste. Felizmente, nenhum incidente atrasou a jornada.


Os três não pararam nem quando o dia deu lugar à noite. Para iluminar o caminho, Odorico acendeu um candeeiro. Com a escuridão, as duas luas despontaram no céu noturno. Lágrima Prateada, a maior, minguava com menos da metade de seu brilho, enquanto a vermelha, Olho do Diabo, parecia mais intensa do que o costumeiro.


Já estava bem escuro quando o Rio Catengão apareceu a distância, refletindo o céu estrelado e as luzes de Vila Maria, na margem oposta. "Estamos chegando!", Odorico anunciou.


"Finalmente", murmurou a entediada Mara'iza.


"Chegando lá", disse Zé, "a gente vai ter que pegar um barco pra ir pro outro lado".


"Se os bandidos não afundaram as embarcações", Mara lembrou. "Seria estrategicamente vantajoso atrasar quaisquer perseguidores."


"Ocês vão me desculpar, seu Zé Calabros", interrompeu Odorico. "Mas vou ficar nesse lado mesmo. Vou negociar minhas coisas amanhã bem cedo, daí voltar pra Beira da Larica o quanto antes."


Zé sorriu, levando a mão ao ombro do cocheiro. "Não se preocupe, homem, que você já ajudou demais! Daqui pra frente, eu e a Malinha nos viramos por conta própria!"


Mara'iza também sorriu. "Meus profundos agradecimentos", disse, mexendo na bolsa e pegando o cinto com algibeiras, do qual tirou três moedas de ouro. "Tome, compre o que sua vila mais precisar."


"Padim do céu, dona Mara, quanto dobrão!", Odorico se surpreendeu com a pequena fortuna. "Não consigo isso nem com um mês inteiro de trabalho!"


"Diante do que você precisa, é pouco", Mara respondeu.


"Ah, dona Mara", o cocheiro disse alegremente, "tudo o que precisava, ocês já me deram. O que me falta agora, quem vai ter que suar pra conseguir sou eu."


Logo alcançariam a margem do rio e se despediriam.



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No extremo leste da Cornália, o mar entra para o sul. A enseada formada, cercada de falésias, se encontra com a majestosa Cordilheira Dragonina. Para um observador a oeste, as montanhas parecem uma muralha intransponível, mas é ali, no encontro delas com o oceano, que ficam a passagem para Dragona e a cidade de São Vatapá do Norte.


O céu estava nublado, mas a tempestade recuava ao mar e os dias chuvosos chegavam ao fim. Apesar da escuridão e das montarias exauridas, Severino e seus escolhidos, guiados pelas luzes da cidade, chegavam finalmente a seu destino.


Atalaias bloquearam o caminho dos quatro cavaleiros, mas logo reconheceram o Rei do Cangaço e ofereceram seus próprios cavalos em troca das montarias cansadas dos recém-chegados. Os quatro então seguiram pelas ladeiras sinuosas da avenida principal, rumo aos bairros mais elevados.


Ao contrário de outras cidades da Cornália, São Vatapá não se desenvolvera a partir de um centro próspero. Ela começou em um platô alto da encosta montanhosa, guardando a trilha para o leste, e cresceu descendo o aclive. Assim, suas áreas mais nobres eram também as mais altas, a partir das quais era possível ver toda a cidade.


Alguns meses atrás, as ruas estariam movimentadas mesmo após o anoitecer. Desde a tomada da cidade, porém, as noites se tornaram escuras, vazias e perigosas. Culpa dos ricos gananciosos, Severino lembrava, que fugiram para o oeste e deixaram os pobres à míngua. Mas ele garantia que tal injustiça seria corrigida.


Com a passagem dos quatro cavaleiros, os vigias ao longo da avenida bradavam com orgulho: "Vida e morte, Severino!". A eles, juntavam-se alguns cidadãos: "Nosso herói voltou!".


O restante da população, porém, permanecia recolhida em casa. Para aquela maioria silenciosa, quem retornava não era um herói, mas o demônio em pessoa.



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Naquela sala, tão pequena para tantos, crianças e adultos se reuniam para a oração final do dia. Já tinham jantado, logo seria hora dos pequenos dormirem. Madre Hildinha puxava a reza, que todos repetiam, ajoelhados e com as mãos unidas diante do rosto.


Ó Pai Santo, Divino Pai

Pedimos, em vossa presença augusta,

humildemente, por uma vida justa.

Trazei justiça a quem vos busca!

Ensinai-nos coragem para fazer o bem,

compaixão por quem nada tem,

e tolerância, não importa a quem.

Dai-nos força para labutar,

fortitude para perseverar

e virtude para, em seu nome, triunfar.

Somos todos filhos vossos, Divino Pai,

somos todos irmãos em vossa paz.


No meio da reza, ouviu-se três fortes batidas na porta do orfanato. Madre Hildinha fez questão de terminar a prece, então pediu uma pausa às crianças e se levantou para atender. Foi quando as três batidas se repetiram.


A sacerdotisa se questionava quem estaria à porta. Descartava que fossem cangaceiros, pois o bando de Severino partira na última manhã e, mesmo que ainda permanecesse algum bandido na vila, cangaceiros não costumavam incomodar o orfanato exceto para exigir suprimentos de viagem.


Provavelmente, Madre Hildinha pensou, seria um suplicante por cura, comida ou dinheiro. Naqueles tempos sombrios, a fila de necessitados parecia interminável. Ela não estava totalmente errada, mas ainda assim se surpreendeu ao abrir a porta. "José!", exclamou, num misto de alegria e preocupação. "Padim do céu, o que aconteceu com você?"


"Oi, Madre Hildinha", ele sorriu, ainda que seu estado não estivesse nada bom. Se apoiava à parede para manter-se em pé, e o corpo, em especial torso e braço esquerdo, estava coberto de faixas improvisadas e sujas de sangue. "Posso entrar?"


"Mas é claro, meu filho! Entre, que a casa é sua!", a sacerdotisa deu passagem, então fitou a garota tão jovem que acompanhava Zé.


"Esta é a Malinha", ele apresentou a moça de olhos verdes e puxados, pele alva e cabelos negros. "Ela tá viajando comigo."


"O nome é Mara'iza", ela corrigiu ao adentrar, então se curvou gentilmente diante da madre. "Eu sou Atsumi Mara'iza, da terra de Gaz'zira."


As crianças se acumularam na porta do cômodo posterior para verem os visitantes. Algumas já conheciam Zé de antes dele partir. Outras o viam pela primeira vez, mas já tinham ouvido histórias dele e de suas aventuras.


Junto com os pequenos, Zé reconheceu três de seus amigos já crescidos. Ver Ritinha em vestes sacerdotais não foi surpresa, pois já era noviça quando ele partira. Porém, não esperava ver Nina e Cisso como noviços.


"Irmã Nina, recepcione nossa visitante e tome conta das crianças", Hildinha pediu. "Madre Rita, Irmão Cícero, ajudem-me a levar José ao quarto de hóspedes. Tivemos um dia exaustivo, mas juntos, e com a benção do Divino Pai, teremos forças para mais um pequeno milagre".



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Dona Sônia, serviçal da casa-grande, entrou no escritório. "A janta tá na mesa, Chicó".


O homem se entretinha manipulando uma série de aparatos e substâncias. Construía mais uma de suas engenhocas. "Já falei pr'ocê, imprestável, que é pra me chamar de 'sinhozinho'."


Ela baixou a cabeça. "Perdão, sinhozinho."


Chicó Matador deixou a invenção de lado e mostrou a face detestável à mulher. Era um homem moreno, cabeçudo, de sorriso torto, bigodinho de malandro e olhos pervertidos. "E minha querida Emiliana, já tá lá? Tá ajeitada e cheirosinha, que nem eu gosto?"


Dona Sônia respondeu com dor no coração e amargura na voz. "Sim, sinhozinho."


"Hihihi!", Chicó riu baixinho, então provocou: "aquela potranca vai me dar muita alegria essa noite". Sabia que cada palavra era como uma agulha enfiada na serviçal.


"Eu vou me retirar, sinhozinho", ela avisou, não conseguindo esconder a angústia.


Chicó gargalhou alto e se levantou. Trajava-se como um jeca, com roupas velhas e chinelo de dedo, mas vestiu por cima um casaco de fraque e cartola, peças luxuosas da nobreza dragonina. Dirigiu-se então para os andares inferiores.


A sala de jantar estava em silêncio sepulcral. Sentada à mesa, a jovem Emiliana se vestia em trajes de gala, mas sua expressão era de tristeza. Em pé, sempre vigilante, estava Mão Santa, o jagunço, que garantia a segurança da casa-grande. O capanga fez um leve aceno, mexendo no chapéu, quando notou Chicó adentrar.


"Ah, que belezura tá a minha querida", riu Chicó, sentando-se ao lado de Emiliana. "E que cheiro bom tem essa comida", disse ao observar a fartura sobre a mesa: macaxeira frita, feijão verde, carne de sol na manteiga da terra e vinho dragonino.


Emiliana permaneceu silenciosa e de cabeça baixa.


"Ora, o que é isso, amorzinho? Não vai nem cumprimentar seu homem?", Chicó perguntou num tom sarcástico, então levou a mão à sineta deixada sobre a mesa. "Se vai ficar com essa cara amarrada, eu vou chamar os serviçais, pra modo de alegrar essa sala!"


"Não precisa, meu senhor marido", ela murmurou baixo. A jovem morena, de cabelos longos e cheios, engoliu em seco. Sabia muito bem o que significa chamar os serviçais.


"Então, ocê sorria, que eu exijo", ele mandou num tom insolente, "e lembra que sou dono d'ocê e de tudo aqui agora".


"Eu saio por uns dias", a voz inesperada veio do corredor adjacente, "e vosmecê já se esqueceu de quem manda aqui, seu aboletado?".


Ao ver Severino adentrar a sala, acompanhado de três capangas, a arrogância de Chicó se transformou em terror. "Capitão!", se levantou de supetão, gaguejando, "Mas já voltou tão rápido, meu rei?".


O jagunço Mão Santa sacara a arma ao notar os invasores, mas imediatamente a guardou ao perceber de quem se tratava. Já os três cangaceiros que acompanhavam o Rei do Cangaço se sentaram à mesa e foram se servindo com as mãos, para transtorno do dono da casa.


"Chicó", Severino chamou, refletindo o rosto assustado do capanga nos óculos. "A gente precisa ter uma conversa agora mesmo."


O sujeito exibiu a refeição, já não tão farta para tanta gente. "Não dá de esperar terminar a janta, capitão? Ocê pode se sentar e se servir, que a casa é sua!"


"Já disse que vamos conversar é agora!", Severino bateu a mão na mesa, sobressaltando o subalterno. "Tá na hora de vosmecê provar que ainda me tem utilidade, traste."



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Mara'iza observava o interior humilde da casa, enquanto Irmã Nina terminava de preparar os meninos para dormirem. No quarto havia três beliches e uma rede, e ainda assim muitos tinham de deitar em colchas no chão. Assim que deixaram o cômodo, a magista questionou curiosa: "Então, foi aqui que Carábu'ros-san cresceu?".


"Sim", respondeu Irmã Nina, "chegou aqui aos oito anos, se me lembro bem, e saiu aos dezesseis. Foi trazido pra cá pouco depois da tragédia com a família dele".


"A vila dele foi destruída por dragões, não?", Mara observou, recordando-se do que Zé mencionara quando se reuniram com os coronéis em Bota do Judas.


"É", Nina confirmou, "o Zeca passou por muita coisa terrível".


"Tsé-ka?", Mara'iza balbuciou com o sotaque carregado dela.


"Era como o chamávamos, mas quando ficou mais velho não quis mais saber do apelido", Nina respondeu, em seguida o imitou divertidamente: "Zeca é o escambau! Sou o José do Clã Calabros!".


Não se contendo, Mara'iza riu discretamente.


Nina fitou a magista e questionou, com uma pontinha de ciúmes na voz: "E você? Por que o está acompanhando?".


"Preciso chegar a Dragona, ele é meu guia", Mara respondeu, "mas também estou ajudando-o pelo caminho. Ele está sempre se metendo em confusão".


A explicação não convenceu muito a noviça, mas ela voltou a falar de Zé. "O Zeca sempre foi um menino calado e solitário, com muita raiva, e teimoso como um burro empacado. Um dia, sumiu no sertão e voltou quase morto. Daí, não parou mais de aprontar. Sumia e voltava todo machucado, depois começou a brigar com os bêbados e arruaceiros da vila. Deixava as madres preocupadíssimas."


"Ogro idiota...", Mara murmurou baixinho, em sua língua natal, e esboçou um sorriso.


"Mas ele sempre foi uma pessoa boa, sabe?", a noviça continuou. "Um dia, salvou o orfanato de bandidos. Se machucou muito, levou um tiro. Não fosse Madre Magnólia, talvez tivesse morrido."


"Ele continua o mesmo", Mara'iza comentou.


"Madre Hildinha falava que ele se arriscava à toa, que ia morrer cedo", disse Nina. "Mas Madre Magnólia repetia quando ele não estava por perto: 'esse aí vai ser santo, um dos grandes'. Na época, não entendíamos o que ela queria dizer. Afinal, como uma pessoa tão desobediente e inconsequente podia virar santo?"


"A tradição constrange o potencial", Mara'iza comentou, mais pensando em si mesma do que em Zé. "Ninguém se torna grande se limitando a ser como qualquer outro homem."


"Sim, hoje entendo", a noviça respondeu. "Ele desistiu de uma vida normal, quis se acostumar com a dor pra ter força quando outros não teriam. E, por isso, faz coisas que pra outros seriam impossíveis. Uma pessoa comum se esforça pra carregar o próprio peso, mas é gente como Zeca que carrega o mundo nas costas."


"Você o admira", Mara'iza concluiu.


"Todos aqui o têm em alta estima", Nina confirmou. "Não sei as razões da Ritinha, mas foi por causa dele que eu e Cisso escolhemos o sacerdócio. Cada ferida que Zeca sofre é pra proteger outra pessoa. Queríamos dividir um pouco do fardo."



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Severino seguiu Chicó para o bosque nos fundos da casa-grande. Ninguém cuidava do local há meses, e a grama e os arbustos já estavam altos. Ali, Chicó realizava seus experimentos, evidenciados pelas árvores caídas e danificadas, trechos queimados de mato e alvos abandonados, que variavam de objetos diversos a cadáveres.


"E a moça e a família dela?", Severino questionou durante o trajeto. "Ainda vai continuar com essa bobajada?"


"Ora, capitão, nasci pobre que nem ocê, só conheci desgraça e humilhação na vida. Não é ocê mesmo que diz que a gente tem que fazer justiça?", Chicó respondeu provocativo. "Só tô reclamando meu direito!"


"Se é justiça que vosmecê quer, então que dê um tiro na testa de cada um", Severino retrucou. "Mata os desgraçados logo de uma vez, que manter aqueles trastes na sua casa é criar a cobra que vai te picar."


"Hihihi, capitão", riu Chicó. "Pra mim, matar não é o bastante, eu quero mais é ver sofrer! Além do mais, a bichinha é jeitosa, bonitona. Ela ainda vai gostar de mim."


Severino não gostava da atitude, mas se calou porque sabia que a cada homem era devida a sua justiça. Ele tinha muitos motivos para detestar Chicó, mas o capanga, apesar de desprezível, cruel e covarde, sempre se provava útil apesar dos defeitos.


Antes, Chicó Matador servira ao Coronel Tibúrcio Mendes, que derrotou Silvério e apontou Chicó como governador de São Vatapá do Norte. Foram os estrangeiros, os mesmos que viriam a vencer Tibúrcio, que salvaram a cidade. Coronel Silvério foi libertado, e Chicó, por consequência, passou sete anos na prisão.


Foi Severino quem o libertou, porque precisava do conhecimento dele sobre a cidade. Por trás de toda a covardia e mesquinharia, Chicó tinha talentos de estrategista. Ele planejou o ataque dos cangaceiros que tomaria São Vatapá. Também apontou que Mão Santa, maior jagunço de Silvério, trairia o patrão em troca de dinheiro e poder.


Mesmo após a tomada da cidade, Chicó continuou essencial para Severino, pois sabia mexer com dinheiro. Tornado novamente governador de São Vatapá, usara confiscos, impostos e o comércio exclusivo com Dragona para financiar e armar o bando.


Mas, naquele momento de batalha iminente, o que interessava a Severino era outra habilidade excepcional de seu capanga. Mesmo sem treinamento formal, Chicó Matador era exímio com engenhocas e alquimia. Tinha o dom de criar armas prodigiosas, ainda que perigosas.


Os dois pararam diante do paiol. Chicó abriu a porta, e o lampião dele iluminou o interior, cheio de máquinas, a maioria degradada ou incompleta. "Coronel Tibúrcio trouxe engenhos matrixianos pra conquistar a Cornália, ocê sabe. Juntei a sucata nesses meses, andei construindo umas coisas."


"Tipo o quê?", o Rei do Cangaço perguntou.


"Bom, prontos pra usar, tem um trabuco de manivela, um dracamarte e uma torreta de tiro, além de um monte de petardos sem fuso."


Severino esboçou um sorriso. "Cada arma dessas faz um homem valer por dez!"


"Mas não é pra qualquer um, o cabra tem que saber usar", lembrou Chicó. "Se travar e não consertar, pode estourar em mil pedaços."


"Vosmecê vai ensinar pr'aqueles três", disse Severino. "E tem que ser rápido, que a nossa tropa só tem uns dois dias de vantagem."


"É pouco tempo, capitão, esses engenhos podem dar problema de mil jeitos", protestou o capanga. "Se fizer coisa errada, um cabra pode perder a mão ou até morrer!"


O Rei do Cangaço ergueu a voz, fazendo Chicó se recolher medrosamente. "Pouco me importa se vão morrer, estrupício, desde que matem muita gente antes! Essa batalha vai ser pra valer, quem vencer vai ganhar a guerra! Não é agora que a gente vai arregar!"


"Sim, capitão! Pode deixar que eu ensino os pobres coitados", o capanga assentiu, então apontou para fora do paiol. "Tem mais uma coisa pra te mostrar."


Os dois saíram e seguiram por um trecho de mato esmagado e árvores caídas, onde um grande engenho, coberto por lonas, os esperava. Chicó puxou a cobertura, revelando uma máquina de metal, com três pares de rodas grossas, carroceria fechada, caldeira na parte de trás e um canhão em cima.


"Uma carruagem de guerra", Severino sorriu satisfeito. "Não vejo uma dessas desde a época do Coronel Tibúrcio."


"E tá funcionando, capitão, já fiz um monte de teste", disse Chicó Matador. "Não tem tiro nem facão que penetra, e passei os últimos meses fazendo a munição. Isso aí, não duvide, vai acaba com a tropa inimiga toda."


"Isso tudo é muito bom, Chicó, agora tô satisfeito contigo", disse Severino. "Vosmecê vai cuidar de decidir como as coisas vão ser feitas. Arma aqueles cabras lá, diz pr'eles o que fazer, e vou te dar a tropa pr'ocê comandar."


Chicó Matador estranhou a responsabilidade repentina. "Que isso, capitão? E ocê? Não vai pra luta com a gente?"


"Cansei de ficar detrás da tropa. Vou lutar sim, mas sozinho. Arruma pra mim duas bandoleiras cheias de munição pra espingarda. Vou lembrar esse povo todo que Severino Barriga D'Água não tem medo de nada, nem da morte, e não se esconde atrás de ninguém!"



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No quarto de hóspedes, com Zé deitado na cama, Madre Hildinha, Madre Rita e Irmão Cícero tocavam gentilmente os ferimentos dele. Ao longo do rito, cantavam baixinho.


Agradeço a vós, Divino Pai,

pela graça que dais a meu irmão.

Com a dor e a moléstia, acabai,

com luz, enchei meu coração.

Cada um dos três fazia pequenos milagres. Ao toque, emitiam uma singela luz dourada, fazendo as queimaduras rescindirem e as feridas se fecharem, desaparecendo.


O esforço era meticuloso. Estivesse plenamente descansada, Madre Hildinha poderia por conta própria interceder por um milagre maior e repentino, mas o dia fora cansativo e cheio de trabalhos. Muitos procuravam o orfanato em busca de cura todos os dias.


Com os ferimentos mais sérios e debilitantes eliminados, aplicaram medicamentos mais mundanos sobre os cortes e escoriações que restaram. "Você se machucou bastante", Madre Hildinha comentou em tom repreensivo. "Quantos tiros levou? Três?"


"Cinco, sem contar as pelotas de bacamarte nas costas", Zé respondeu. "É que dois tomei em Bota do Judas, e tratei com medicamento."


"Por que continua a fazer isso, filho?", a Madre questionou. "Pegue a terra que teu pai te deixou. Arrume uma esposa, tenha filhos. Celebre a vida que o Padim te deu."


"Você sabe que não vou fazer nada disso, madre", ele retrucou. "Vida normal não é pra mim. No sertão, vi que no meu futuro só tem morte."


"E aquela moça que o acompanha?", Hildinha se referiu a Mara. "Tão delicada, e olhos muito bonitos. Talvez ela seja a pessoa para você."


"A Malinha? Eu tô só guiando até São Vatapá, pra modo dela poder ir pra Dragona", Zé comentou. "Aquela lá é ajeitada mesmo, mas delicada não é não! É geniosa pra cacete, se casar algum dia, vai mandar no pobre coitado do marido. Mas acho que o destino dela vai ser mesmo andar por aí, livre."


"Exatamente como você", Hildinha murmurou. "Não vão ficar muito tempo, não é?"


"Não. A gente vai sair amanhã bem cedinho. Quero acertar contas com o desgramado do Severino Barriga D'Água."


Madre Hildinha deu uma pausa na conversa e se voltou aos outros dois presentes. "Irmão Cícero, procure Irmã Nina e preparem banhos para Zé e a moça que veio com ele. Madre Rita, pode trazer algo para comerem, por favor?"


Ritinha e Cisso assentiram e deixaram o quarto. Zé aproveitou para se sentar na cama, quando então Hildinha se dirigiu a ele novamente. "Severino é um homem deveras perigoso, meu filho, não jogue fora a dádiva de Padim que recebeu hoje. Por que buscar a morte?"


"Não vou ficar mais forte se ficar fugindo dela, madre, e Severino não é um cabra qualquer, alguém tem que parar ele."


"Não tem que ser você."


"Tem sim", ele disse, olhando para as fitas presas ao braço. "Pra cumprir minhas promessas, eu tenho que superar o desgraçado. E, além disso, eu devo ao Coronel Silvério."


"Mas você nunca gostou dele", Hildinha comentou.


"Não é questão de gostar ou desgostar", Zé retrucou. "Era um cabra nojento com as pessoas, mas não injusto. E ele me acolheu, me tirou do desespero, depois me mandou pra cá apesar d'eu ser um moleque ingrato. Se ele tiver vivo, eu salvo, senão, eu vingo. E tá decidido!"


"Pelo que sei, ele morreu mesmo", Hildinha esclareceu. "Gente fugida de São Vatapá contou que a cabeça dele foi exposta pra todo mundo ver."


"E da família dele, sabe alguma coisa?", ele questionou. "Eram pessoas boas. O filho mais velho, Leonardo, era que nem o pai, mas a esposa dele, Dona Sônia, era uma santa. E tinha os outros filhos, a Emiliana, o Jonas, a Lurdinha... Eram legais comigo."


"O Leonardo também foi morto", a madre respondeu. "Sei porque expuseram a cabeça dele junto com a do pai e de toda a guarda da cidade. Dos outros, não sei."


Imaginando o pior, Zé cerrou os punhos e não escondeu a raiva na face.


Nesse instante, Mara'iza entrou no quarto. Vendo Zé bem, sorriu daquele jeito sincero que a deixava encantadora. "E então, ogro idiota", falou jocosamente, "como se sente?".


"Ora, Malinha-sem-alça", Zé Calabros sorriu de volta e, levantando-se, exibiu o punho fechado. "Pela graça de Padim, tô pronto pra arrebentar uns cangaceiros."



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De volta à sala de jantar e diante dos três candidatos a oficial, foi Chicó quem falou primeiro. "Escuta aqui, bando de abestado, que quem vai comandar a tropa na batalha é este que vos fala, Chicó Matador!".


"Que isso, capitão?", Chassi de Grilo se virou a Severino. "Ele tá falando sério ou tá mangando da gente?"


"Vosmecê respeite Chicó, que ele é oficial e seu superior", o Rei do Cangaço repreendeu. "E ele vai comandar a tropa sim, que ninguém aqui conhece a cidade melhor."


Chicó ajeitou a cartola e sorriu orgulhoso. Nunca Severino lhe dera tanto poder quanto naquele momento. "Se somar os homens que tenho aqui com os que estão vindo, nove fora, vai dar uns duzentos. Não dá pra bater de frente com os trezentos ou mais da tropa inimiga. Mas não se aperreiem, que meu plano é da moléstia!"


Dito isso, pôs sobre a mesa um velho mapa da cidade e apontou para a casa-grande. "A gente vai concentrar a tropa aqui nos arredores. Vai ter só uns poucos dos nossos espalhados pela cidade, pra modo de atrapalhar e assustar os inimigos. Deixa os coronéis se cansarem subindo as ladeiras."


"Mas quando os desgraçados chegá aqui em cima, nossa tropa vai ficá cercada", Capa-jegue observou. "Aí cabou-se, a gente pode matá muitos, mas uma hora eles ganha."


"É aí o pulo do gato", Chicó explicou. "O resto da tropa é só pra dar volume e levar tiro, pois quem vai virar o jogo vai ser eu mais ocês três. Amanhã, vou ensinar pr'ocês jeitos novos de matar! Cada um d'ocês vai valer por vinte cabras da peste!"


"E o capitão? O que vai tá fazendo?", Chassi de Grilo perguntou.


"Minha parte eu vou fazer sozinho", o Rei do Cangaço respondeu. "Amanhã mesmo vou me mocozar na cidade e ficar de butuca. Quando a tropa dos coronéis bater de frente c'ocês aqui em cima, eu pego os fí-de-quenga por trás. Daí vou caçar os chefes: Garrancho, Malícia, Meneses, Zé Calabros e a diaba magrela. Pr'eles todos, as balas já estão reservadas."



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Mara'iza dormiu no quarto de hóspedes. Zé, no chão do quarto dos meninos. Com a mente cheia de pensamentos e preocupações, ela demorou a se entregar ao sono. Ele, por outro lado, dormiu pesado como uma pedra.


E assim a noite passou, e um novo dia se seguiu.


Mal o sol nascera, as crianças e madres já iniciavam seus deveres. Arrumar as camas, cuidar dos mais novos, ordenhar as vacas, aquecer a água do café, ir à vila para comprar pão. Pela manhã, teriam aulas de matemática, escrita e conhecimentos gerais. À tarde, as crianças e noviços cuidariam de seus afazeres, enquanto as madres atenderiam os suplicantes.


Zé e Mara também levantaram cedo. Ele logo se pôs a ajudar com os preparativos para o desjejum comunal. Depois, aproveitou para cortar a barba novamente.


Mara'iza, porém, permaneceu isolada. Primeiro meditou no quarto, depois se preparou para a viagem. Para se parecer com uma camponesa e não chamar atenção, decidiu novamente usar o vestido de chita, que revelava seus ombros e decote. Vestiu também o colete de renda e o chapéu de palha, já gastos e sujos.


Os dois se reencontraram no desjejum, quando ela pôde provar novamente o delicioso café da Cornália. Ali, foram bombardeados por perguntas das crianças, e Zé relatou animadamente histórias de suas aventuras. Depois, Mara encantou os jovens com alguns truques luminosos.


Chegava a hora de partir. À porta, as madres, noviços e crianças se reuniram para a despedida. "Cuidem-se", pediu Madre Hildinha, "e que o Divino Pai os proteja".


Zé e Mara agradeceram e tomaram a estrada. Quando Vila Maria já sumia de vista, Mara'iza perguntou: "Chegaremos em São Vatapá hoje?".


"Ainda não", ele respondeu. "A gente vai descansar numa vilazinha chamada Meiducamin. Fica um pouco antes da metade da viagem."


"Que nome original, bem descritivo", ela comentou sarcasticamente. "Uma vila chamada Meiducamin, que fica no meio do caminho."


"Sei lá porque deram esse nome, só sei que chama assim", ele retrucou, não percebendo o sarcasmo. "Mas amanhã, de noitinha, a gente já deve chegar em São Vatapá."


"Portanto, estamos a dois passos de nosso destino", ela comemorou, então fez os gestos para conjurar o disco flutuante. Sentou-se sobre o construto mágico e deixou que ele a levasse. Para acompanhar o ritmo de Zé, teria de poupar suas pernas.


Aos poucos, a estrada foi mudando de direção, do leste para o nordeste. Em comparação com a etapa anterior da viagem, o terreno era ainda mais seco e também mais acidentado, com muitos morros e colinas. Os dois viajantes seguiram adiante, alheios ao que ocorria além da percepção.


Naquele instante, os cangaceiros deixavam Meiducamin, e a tropa dos três coronéis partia de seu acampamento, esperando alcançar Vila Maria em algumas horas. Todos tinham o mesmo destino: São Vatapá do Norte, onde o futuro da Cornália seria decidido.

A seguir: O que vai chover é sangue e chumbo

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As Crônicas Anímicas

© 2016 Tiago Moreira