Prévia: Capítulo 18


Mais uma sexta-feira, mais uma prévia! Está preparado para o Capítulo 18: O que vai chover é sangue e chumbo?


Começa a batalha de São Vatapá do Norte! A aliança dos Coronéis Garrancho, Malícia e Meneses invade a fortaleza do Rei do Cangaço! E essa tormenta de sangue e balas definirá o futuro de toda a Cornália!


O capítulo 18 estará disponível na próxima sexta-feira, dia 11/08.


Zé e Mara deixaram a pequena vila de Meiducamin logo cedo.


Apesar do sol e da secura, Zé Calabros era incansável. Tomava um gole d'água aqui e acolá, às vezes mordiscando um pouco de ração, sem jamais reduzir o ritmo. Caminhava em silêncio, no máximo comentando eventualmente sobre o caminho e o sertão.


Por outro lado, Mara'iza estava cada vez mais cansada e ofegante, apesar das proteções mágicas contra o calor e a fome. Era árduo acompanhar o ritmo de Zé, e suas pernas doíam, mesmo usando o disco arcano ocasionalmente para descansar. Para que recuperasse o fôlego, interromperam a jornada duas vezes ao encontrarem sombra, uma no meio da manhã e outra no início da tarde.


O ambiente era sempre aquela mesma secura rochosa, de vegetação rarefeita. Já passava da metade da tarde quando Zé apontou à frente, rumo ao encontro do mar ao norte com as montanhas a leste. "São Vatapá fica ali. Seguindo a estrada, a gente chega em uma hora."


"Então ainda haverá sol quando chegarmos, isso não é bom", Mara disse ofegante, então parou e se apoiou nas próprias pernas. "Com certeza, os cangaceiros estarão de vigília. Devíamos evitar conflito por enquanto, essa viagem está acabando comigo."


"Tá certo", Zé concordou. "Bora pras montanhas, então. A gente se abriga por lá e descansa, daí segue pra cidade depois que escurecer."



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Faltava uma hora para o anoitecer quando a notícia correu pela pequena vila de Meiducamin. "Uma tropa enorme tá vindo do oeste!", gritavam pelas ruas. O alerta deixou os habitantes alarmados e apreensivos. Tinham razões para tal.


Localizada na rota entre São Vatapá do Norte e o resto da Cornália, Meiducamin era apenas um entreposto comercial. Visitada constantemente por comerciantes e caravaneiros, a vila prosperava graças aos serviços e produtos oferecidos aos viajantes. Porém, tudo mudara com a ascensão de Severino Barriga D'Água.


O cangaço trazia apenas penúria àquela terra. Por anos, bandidos assolaram as caravanas e viajantes, mas o pior golpe ocorrera há poucos meses. Com a tomada de São Vatapá, o comércio com Dragona foi interrompido, e a vila, privada de sua fonte de riqueza, descambou para a miséria. Muitas famílias a abandonaram desde então e, se a situação se mantivesse, Meiducamin estaria condenada a desaparecer.


Os habitantes lembravam também que, dois dias atrás, o bando de Severino pernoitou no vilarejo. Temiam que estivesse vindo uma segunda leva de cangaceiros. Quando os bandidos passavam pela vila, viam-se no direito de tomar o que quisessem, fosse comida, abrigo ou as filhas dos cidadãos.


Porém, quando a tropa se aproximou, perceberam que uniformes marrons e azuis predominavam. "Não são do bando de Severino!", alguém gritou aliviado.


"São coronéis, gente!", uma mulher se empolgou ao notar quem cavalgava na linha de frente da tropa. "São dois coronéis! Dois!".


"E a tropa deles é ainda maior que a dos cangaceiros!", um habitante acrescentou.


"É por isso que os cangaceiros passaram ligeiro por aqui!", outro concluiu. "Tavam fugindo com o rabo entre as pernas!"


"Os coronéis vieram atrás de Severino Barriga D'Água!", comemoravam. Seguiram-se aplausos e ovação, que se tornavam mais intensos conforme os recém-chegados se aproximavam. "Viva os coronéis! Morte a Severino!"



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A acampamento da tropa foi concluído após anoitecer, e muitos homens dormiram logo. Estavam exaustos por causa da noite anterior, quando atravessaram o Rio Catengão. Devido aos poucos barcos poupados pelos cangaceiros, a travessia da tropa varara a madrugada, impossibilitando descanso adequado.


Nem todos os homens se entregavam ao sono, porém. Mesmo cansados, muitos se animaram com a acolhida dos cidadãos de Meiducamin. Com moedas para gastar, visitavam as estalagens a fim de comida quente, bebida gelada e diversões adultas.


Caminhando pelo acampamento, André Meneses observava os homens, mas sua atenção se voltava aos pensamentos. Tão distraído estava, que não notou o Coronel Garrancho se aproximar, vindo da vila.


"Nervoso, Meneses?", Garrancho perguntou.


Pego de surpresa, André mal disfarçou o susto. "Um pouco, sim", admitiu. "Meu pai me ensinou a atirar, e já espantei alguns bandidos, mas uma batalha como a que vem por aí... Pra algo assim nunca me preparei."


"A gente nunca tá preparado, o importante é não faltar coragem", Garrancho deu-lhe um tapinha nas costas. "Vamos procurar Adelina, pra modo de decidir a estratégia de amanhã."



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A fogueira crepitava no centro do acampamento, entre as tendas dos três líderes. Coronel Adelina Malícia comia silenciosamente sua janta, quando Garrancho e André Meneses chegaram. "Já era hora", ela reclamou.


"Calma, Adelina, eu estava na vila pegando informações", disse Garrancho. "Tenho uma boa notícia: um estalajadeiro me falou dum casal que pousou aqui noite passada. Descreveu os dois iguaizinhos a Zé Calabros e Mara'iza."


Coronel Malícia sorriu. "Ah, aqueles dois são arretados mesmo! Numa hora dessas, já devem de tá em São Vatapá!"


"Só espero que não façam besteira até a gente chegar", comentou André.


"Gente como aqueles lá não dá pra prever, mas também não são burros", disse Garrancho. "E nós também não podemos ser. Temos que acertar nossa tática de amanhã. Se sairmos cedo de Meiducamin, chegamos em São Vatapá no fim da tarde. E aí a gente já tem que estar com tudo decidido."


"Atacar logo no fim da tarde ia ser vantajoso", Malícia considerou, então parou para mastigar um naco de carne da refeição. Após engolir, voltou a falar: "A cidade é virada pro oeste, e o sol vai tá se pondo, vai cegar as vistas dos bandidos".


André Meneses, porém, contestou-a: "Mas nossos homens vão estar cansados da viagem, e o sol não vai durar. Quando anoitecer, os bandidos, que conhecem melhor a cidade e tiveram dois dias pra se preparar, vão ter a vantagem da tocaia na escuridão."


"Nossa tropa está cansada demais hoje. A noite passada foi de matar", disse Garrancho. "Acho que seria melhor sairmos mais tarde daqui, e chegar lá no começo da noite. Assim, a gente acampa a uma distância segura da cidade e ataca pela manhã, com os homens bem descansados."


Malícia não gostou do plano. "São Vatapá vai alto na encosta da montanha, lá de cima vão ver a gente chegando e acampando. Os desgramados vão se preparar pro nosso ataque."


"Severino já tá nos esperando", Garrancho lembrou. "Preparados, os cangaceiros já estão. De um jeito ou do outro, dificilmente vamos pegar alguém de surpresa."


André Meneses fez mais algumas considerações. "Se acamparmos diante da cidade, podemos ser atacados durante a noite?"


"Ia ser burrice da parte deles", Malícia respondeu. "Os bandidos iam ter que deixar a proteção da cidade, e a gente tem vantagem em números."


"E pela manhã", André questionou, "o sol a leste não vai nos atrapalhar, nos ofuscando?"


"Não", respondeu Garrancho. "O céu vai estar claro, mas as montanhas vão tapar o sol enquanto estiver baixo. Vai ser até vantajoso, vamos ter umas horas de sombra."


"Você me convenceu, homem, vamos fazer do seu jeito!", concordou Malícia. "Chegamos à noite, atacamos pela manhã e mandamos Severino pro raio que o parta!"


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Zé Calabros na Terra dos Cornos
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As Crônicas Anímicas

© 2016 Tiago Moreira