Capítulo 18: O que vai chover é sangue e chumbo

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Zé e Mara deixaram a pequena vila de Meiducamin logo cedo.


Apesar do sol e da secura, Zé Calabros era incansável. Tomava um gole d'água aqui e acolá, às vezes mordiscando um pouco de ração, sem jamais reduzir o ritmo. Caminhava em silêncio, no máximo comentando eventualmente sobre o caminho e o sertão.


Por outro lado, Mara'iza estava cada vez mais cansada e ofegante, apesar das proteções mágicas contra o calor e a fome. Era árduo acompanhar o ritmo de Zé, e suas pernas doíam, mesmo usando o disco arcano ocasionalmente para descansar. Para que recuperasse o fôlego, interromperam a jornada duas vezes ao encontrarem sombra, uma no meio da manhã e outra no início da tarde.


O ambiente era sempre aquela mesma secura rochosa, de vegetação rarefeita. Já passava da metade da tarde quando Zé apontou à frente, rumo ao encontro do mar ao norte com as montanhas a leste. "São Vatapá fica ali. Seguindo a estrada, a gente chega em uma hora."


"Então ainda haverá sol quando chegarmos, isso não é bom", Mara disse ofegante, então parou e se apoiou nas próprias pernas. "Com certeza, os cangaceiros estarão de vigília. Devíamos evitar conflito por enquanto, essa viagem está acabando comigo."


"Tá certo", Zé concordou. "Bora pras montanhas, então. A gente se abriga por lá e descansa, daí segue pra cidade depois que escurecer."



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Faltava uma hora para o anoitecer quando a notícia correu pela pequena vila de Meiducamin. "Uma tropa enorme tá vindo do oeste!", gritavam pelas ruas. O alerta deixou os habitantes alarmados e apreensivos. Tinham razões para tal.


Localizada na rota entre São Vatapá do Norte e o resto da Cornália, Meiducamin era apenas um entreposto comercial. Visitada constantemente por comerciantes e caravaneiros, a vila prosperava graças aos serviços e produtos oferecidos aos viajantes. Porém, tudo mudara com a ascensão de Severino Barriga D'Água.


O cangaço trazia apenas penúria àquela terra. Por anos, bandidos assolaram as caravanas e viajantes, mas o pior golpe ocorrera há poucos meses. Com a tomada de São Vatapá, o comércio com Dragona foi interrompido, e a vila, privada de sua fonte de riqueza, descambou para a miséria. Muitas famílias a abandonaram desde então e, se a situação se mantivesse, Meiducamin estaria condenada a desaparecer.


Os habitantes lembravam também que, dois dias atrás, o bando de Severino pernoitou no vilarejo. Temiam que estivesse vindo uma segunda leva de cangaceiros. Quando os bandidos passavam pela vila, viam-se no direito de tomar o que quisessem, fosse comida, abrigo ou as filhas dos cidadãos.


Porém, quando a tropa se aproximou, perceberam que uniformes marrons e azuis predominavam. "Não são do bando de Severino!", alguém gritou aliviado.


"São coronéis, gente!", uma mulher se empolgou ao notar quem cavalgava na linha de frente da tropa. "São dois coronéis! Dois!".


"E a tropa deles é ainda maior que a dos cangaceiros!", um habitante acrescentou.


"É por isso que os cangaceiros passaram ligeiro por aqui!", outro concluiu. "Tavam fugindo com o rabo entre as pernas!"


"Os coronéis vieram atrás de Severino Barriga D'Água!", comemoravam. Seguiram-se aplausos e ovação, que se tornavam mais intensos conforme os recém-chegados se aproximavam. "Viva os coronéis! Morte a Severino!"



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A acampamento da tropa foi concluído após anoitecer, e muitos homens dormiram logo. Estavam exaustos por causa da noite anterior, quando atravessaram o Rio Catengão. Devido aos poucos barcos poupados pelos cangaceiros, a travessia da tropa varara a madrugada, impossibilitando descanso adequado.


Nem todos os homens se entregavam ao sono, porém. Mesmo cansados, muitos se animaram com a acolhida dos cidadãos de Meiducamin. Com moedas para gastar, visitavam as estalagens a fim de comida quente, bebida gelada e diversões adultas.


Caminhando pelo acampamento, André Meneses observava os homens, mas sua atenção se voltava aos pensamentos. Tão distraído estava, que não notou o Coronel Garrancho se aproximar, vindo da vila.


"Nervoso, Meneses?", Garrancho perguntou.


Pego de surpresa, André mal disfarçou o susto. "Um pouco, sim", admitiu. "Meu pai me ensinou a atirar, e já espantei alguns bandidos, mas uma batalha como a que vem por aí... Pra algo assim nunca me preparei."


"A gente nunca tá preparado, o importante é não faltar coragem", Garrancho deu-lhe um tapinha nas costas. "Vamos procurar Adelina, pra modo de decidir a estratégia de amanhã."



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A fogueira crepitava no centro do acampamento, entre as tendas dos três líderes. Coronel Adelina Malícia comia silenciosamente sua janta, quando Garrancho e André Meneses chegaram. "Já era hora", ela reclamou.


"Calma, Adelina, eu estava na vila pegando informações", disse Garrancho. "Tenho uma boa notícia: um estalajadeiro me falou dum casal que pousou aqui noite passada. Descreveu os dois iguaizinhos a Zé Calabros e Mara'iza."


Coronel Malícia sorriu. "Ah, aqueles dois são arretados mesmo! Numa hora dessas, já devem de tá em São Vatapá!"


"Só espero que não façam besteira até a gente chegar", comentou André.


"Gente como aqueles lá não dá pra prever, mas também não são burros", disse Garrancho. "E nós também não podemos ser. Temos que acertar nossa tática de amanhã. Se sairmos cedo de Meiducamin, chegamos em São Vatapá no fim da tarde. E aí a gente já tem que estar com tudo decidido."


"Atacar logo no fim da tarde ia ser vantajoso", Malícia considerou, então parou para mastigar um naco de carne da refeição. Após engolir, voltou a falar: "A cidade é virada pro oeste, e o sol vai tá se pondo, vai cegar as vistas dos bandidos".


André Meneses, porém, contestou-a: "Mas nossos homens vão estar cansados da viagem, e o sol não vai durar. Quando anoitecer, os bandidos, que conhecem melhor a cidade e tiveram dois dias pra se preparar, vão ter a vantagem da tocaia na escuridão."


"Nossa tropa está cansada demais hoje. A noite passada foi de matar", disse Garrancho. "Acho que seria melhor sairmos mais tarde daqui, e chegar lá no começo da noite. Assim, a gente acampa a uma distância segura da cidade e ataca pela manhã, com os homens bem descansados."


Malícia não gostou do plano. "São Vatapá vai alto na encosta da montanha, lá de cima vão ver a gente chegando e acampando. Os desgramados vão se preparar pro nosso ataque."


"Severino já tá nos esperando", Garrancho lembrou. "Preparados, os cangaceiros já estão. De um jeito ou do outro, dificilmente vamos pegar alguém de surpresa."


André Meneses fez mais algumas considerações. "Se acamparmos diante da cidade, podemos ser atacados durante a noite?"


"Ia ser burrice da parte deles", Malícia respondeu. "Os bandidos iam ter que deixar a proteção da cidade, e a gente tem vantagem em números."


"E pela manhã", André questionou, "o sol a leste não vai nos atrapalhar, nos ofuscando?"


"Não", respondeu Garrancho. "O céu vai estar claro, mas as montanhas vão tapar o sol enquanto estiver baixo. Vai ser até vantajoso, vamos ter umas horas de sombra."


"Você me convenceu, homem, vamos fazer do seu jeito!", concordou Malícia. "Chegamos à noite, atacamos pela manhã e mandamos Severino pro raio que o parta!"



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Zé e Mara entraram em São Vatapá sem dificuldades depois que o sol se pôs. Sob as sombras, precisavam apenas evitar a avenida, onde concentravam-se os atalaias cangaceiros. Portanto, seguiram pelos labirintos de ruelas apertadas, becos e escadarias que interligavam as diferentes áreas da cidade.


Já cansada da viagem, Mara'iza tinha dificuldades para subir degraus e rampas. Além de ofegante, sentia-se perdida e não via um palmo à frente na escuridão. "Sabe mesmo se guiar por aqui?", questionou, então murmurou para si: "Nota mental: aprender a enxergar no escuro".


"Mais ou menos", Zé respondeu. "Faz muito tempo que não venho aqui, ainda era criança da última vez."


"Vinha a esta cidade quando criança?", Mara ficou curiosa.


"Depois que perdi a família, morei aqui por um ano, com o Coronel Silvério", Zé revelou. Seguia habilmente pelas vielas, evitando a avenida. "Eu e a Emiliana costumávamos brincar nesses becos."


"Emiliana?", Mara'iza questionou.


"Era a filha mais velha do coronel, a segunda de quatro filhos. A Lurdinha, irmã dela, tinha acabado de nascer. E dos irmãos, o Leonardo era bem mais velho e o Jonas bem mais novo. Como eu tinha quase a mesma idade dela, a gente acabou ficando muito amigo."


"Muito amigos?", ela repetiu, sentindo uma pontada de ciúmes, depois questionou num murmúrio envergonhado: "Como assim? O quão amigos?".


"Só amigos, oras, a gente era criança!", Zé riu. "Mas às vezes acho que o coronel me mandou pro orfanato menos porque eu era atentado e mais por causa da Emiliana."


"E depois você não a viu mais?"


"Pois é. Quando saí do orfanato, queria rever minha terra e conhecer o resto da Cornália, então fui pro oeste, mas tava decidido a voltar algum dia", ele explicou. Então, percebendo onde estavam, avisou: "É aqui o lugar".


Aquela era uma área periférica da cidade, de terreno irregular e íngreme. Estavam bem alto na encosta, era possível ver longe na vastidão do sertão. As casas ali eram simples, construídas umas sobre as outras ao longo do aclive. Passarelas de pedra e madeira ajudavam a caminhar entre as moradias.


"Tem certeza que os cangaceiros não virão aqui?", Mara perguntou.


"Isso aqui é área pobre, longe da avenida", Zé respondeu. "Não iam ter motivo pra vir pra cá. O único problema agora é achar onde dormir."



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Muitas famílias abandonaram São Vatapá após a invasão dos cangaceiros, e não foi difícil para Mara e Zé encontrarem um casebre abandonado. Parte do teto desabara devido às chuvas recentes, mas a água há muito evaporara, e o local serviria de esconderijo por uma noite.


Mara'iza, que ansiava por descansar as pernas, soltou um suspiro aliviado ao se sentar no chão. Retirou as botas, o chapéu e o colete de renda, depois puxou um odre d'água da bolsa e bebeu sofregamente. "Essas escadarias e ladeiras acabaram com meus pés", reclamou.


Zé, por sua vez, se sentou próximo à porta e tirou do embornal algo para comer. "Ora, Malinha", provocou, "você tá reclamando demais pra quem quer andar esse mundão todo!".


"Não era minha pretensão depender tanto das pernas", ela retrucou. "Planejava pagar por barcos, caravanas e carruagens, não atravessar a pé o sertão dessa terra esquecida!"


"A vida sempre apronta com a gente", Calabros disse. "E, mesmo saindo da Cornália, você ainda vai ter muito o que andar. Ouvi dizer que o caminho pelas montanhas é longo, que até os caravaneiros levam dias pra chegar na primeira cidade de Dragona."


"Engraçado, não estou mais tão ansiosa por partir", Mara'iza murmurou, sentindo-se um pouco triste ao pensar naquilo. Enrolou o colete e, improvisando-o como travesseiro, se deitou. "Minhas prioridades mudaram. Acha que venceremos Severino?"


"Claro que acho!", ele respondeu sem hesitação.


"Como pode ter tanta certeza?", perguntou surpresa.


"Certeza, não tenho", Zé Calabros respondeu. "Mas também não sou suicida, se achasse que a gente não tem chance, não tava aqui."


"Não sente medo?"


"O tempo todo", ele disse.


Mara não esperava ouvi-lo admitir seus temores. "Como consegue ficar tão tranquilo, então?"


"Só me preocupo com o que tá na minha frente, e Severino ainda tá longe", respondeu. "Quando encontrar o desgraçado, vou me entregar pra briga, sem pensar nem hesitar. Só que antes a gente tem que preocupar é em achar um jeito de passar pelos capangas dele."


"Engendrarei um plano para tal", ela murmurou. "Amanhã averiguarei a formação inimiga, concentre-se apenas em Severino."


"Eu vou contigo", Zé avisou.


"Não é necessário, irei só", ela insistiu. "Se for descoberta, posso despistá-los com meus feitiços. Não se preocupe comigo, formularei um meio de levá-lo até Severino."


"Pois me preocupo mais com sua segurança do que em pegar o desgramado."


Ela sorriu, embora a escuridão ocultasse suas feições. "Eu sei me cuidar, ogro idiota! Sou sam'rai da terra de Gaz'zira!", disse com altivez. "Preocupe-se consigo. Enfrentei Severino em Bota do Judas, sei o quão perigoso ele é. Mesmo ferido, ele superou minhas habilidades."


"Eu tô preparado", foi tudo o que ele disse.


"Torço que sim", Mara'iza murmurou e, em seguida, sua voz orgulhosa se tornou tímida e hesitante. "E... e após a batalha...? O que fará? Se sobrevivermos, claro... já refletiu a respeito?".


"Ora, vou te levar pra fronteira", ele respondeu. "Sã e salva, igual prometi pra Madre Mirna."


"Apenas isso?", ela perguntou entristecida. "Não considerou nada além?"


"Só no topo da montanha vou poder ver o que tá além", disse Zé Calabros. "Vencer Severino vai ser o fim de uma etapa na minha jornada. O que vem depois, nem parei pra pensar."


"Entendi...", ela murmurou.


Ele percebeu a melancolia na voz dela. "Por quê, Malinha? Tem algo que você tá querendo me dizer?"


A pergunta a deixou envergonhada. "Não, claro que não! Não há motivo, apenas curiosidade", Mara'iza mentiu, virando-se de costas para ele e fechando os olhos.


"Tá bem, então", ele murmurou. Terminou de comer e bebeu um gole do odre d'água.


"Ogro idiota...", Mara'iza deixou escapar, tão baixinho que Zé não a ouviu. Frustrada pelo desinteresse dele e exaurida após o longo dia, não demorou a se entregar ao sono.



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A manhã veio. Mesmo sob o céu claro, a cidade se mantinha sombreada.


"Tome cuidado, Malinha", Zé pediu, ao vê-la se dirigir à porta.


Os olhos deles se encontraram, e ela sorriu com a arrogância típica. "Cuide de minhas coisas, ogro", pediu, entregando a ele sua bolsa e o colete de renda. "Comigo, não há necessidade de preocupação."


Mara'iza deixou o casebre. Apesar de ainda não se sentir à vontade naquele vestido simples que considerava tão revelador, tentou agir naturalmente para evitar atenção. Baixou a cabeça, usando o chapéu para esconder suas feições estrangeiras, e evitou falar com as pessoas para que o sotaque não a denunciasse.


O caminho pelos becos e escadarias era confuso, e ela tentava decorar sinais que pudessem guiá-la de volta. Eventualmente, alcançou a avenida e pôde entender como a cidade se organizava.


São Vatapá se dividia em vários platôs ao longo da encosta, separados por aclives acidentados. Casas amontoadas, muros de arrimo, passarelas elevadas e escadarias escavadas eram as construções mais comuns. Um aqueduto distribuía água a partir das regiões mais altas, e um sistema rudimentar de esgoto escoava dejetos ao mar.


A avenida principal cortava toda a cidade, ziguezagueando a encosta pelos aclives mais suaves. Devido ao trajeto tortuoso, era possível cortar caminho pelos labirintos de ruelas, becos e escadarias que se formavam entre as moradias.


Mara'iza alternou entre a avenida e os atalhos, sempre rumo ao topo da cidade. Suas pernas não demoraram a reclamar dos degraus e ladeiras, forçando-a a parar algumas vezes para poupar o fôlego. Levou pouco mais de uma hora para alcançar as regiões mais altas e nobres da cidade, onde os cangaceiros se concentravam.



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Enquanto Mara'iza não retornava, Zé Calabros permaneceu tenso. Acostumado à vida errante e solitária, não era típico dele depender dos outros, muito menos deixar que corressem riscos por ele. Nos últimos cinco anos, viajara protegendo famílias e mercadores, mas nenhuma companhia fora tão duradoura, independente e corajosa quanto aquela jovem moça.


Após a primeira hora, Zé resolveu fazer exercícios para relaxar. Fez flexões, simulou golpes e esquivas, por pouco não derrubou as paredes do casebre com as próprias mãos. Ainda assim, não conseguia parar de pensar nela.


Mais horas se passaram, até que ela finalmente retornou. "Que raios você esteve fazendo aqui?", a moça disse ao adentrar. "Este pardieiro está fedendo a cachorro molhado!"


"Malinha!", ele sorriu aliviado. "Você tá bem!"


Surpresa com a espontaneidade dele, Mara'iza se retraiu timidamente por um momento, mas logo sorriu arrogante e estufou o peito orgulhosa (não esquecendo, claro, de tapar o decote). "É claro que estou bem, ogro! Não foi difícil evitar a atenção daqueles ineptos!"


"E o que você descobriu lá em cima?", Zé questionou.


Mara'iza franziu o cenho, assumindo um olhar sério. "Os cangaceiros estão concentrados nos arredores da casa-grande. Esperam por um ataque, e não creio que seja possível passarmos, muito menos iniciarmos um conflito, sem atrair a atenção de todo o bando."



"Severino tá com o rabo entre as pernas, então, escondido atrás dos homens", Zé observou. "Cabra frouxo!"


Ela ergueu o dedo para interrompê-lo. "Talvez após o anoitecer tenhamos chance de despistar os vigias e adentrar a casa-grande, mas ainda assim há o risco de sermos sobrepujados uma vez que o conflito se inicie."


"Vamos esperar anoitecer, então", ele decidiu. "Daí a gente sobe e vê o que dá pra fazer. Se der, deu. Se não der, espera outra chance, que Severino não vai ficar trancado lá pra sempre."



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Zé Calabros e Mara'iza deixaram o esconderijo quando os últimos raios de sol sumiam no horizonte avermelhado. Decidiram evitar até mesmo as escadarias e becos, avançando pelo terreno acidentado que margeava a cidade. Na dianteira, Zé se movia habilmente, escalando os obstáculos e então ajudando Mara, que escolhera poupar sua magia.


Assim prosseguiram até estarem sob a luz das estrelas. E foi então que cornetas soaram por toda a cidade.


"O que significa esse barulho?", Mara'iza questionou, enquanto Zé a ajudava a subir um barranco íngreme. "Parecem alarmes."


Ele a puxou para cima, então parou para prestar atenção. "São os cangaceiros", respondeu. "Alguma coisa tá acontecendo, e é coisa grande!"


"Ali!", Mara apontou para a vastidão do sertão. Sob a escuridão da noite, uma fila de luzes, provavelmente lampiões e tochas, vinha do oeste. "Devem ser os coronéis!"


"Aí, sim!", Zé comemorou. "Mas será que vão atacar ainda esta noite?"



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No topo da cidade, os cangaceiros entraram em polvorosa assim que as primeiras cornetas tocaram. Acampados nos jardins frontais da casa-grande, os bandidos pegaram em armas e correram para suas posições, conforme previamente decidido.


O platô da casa-grande era delimitado por muros de arrimo. Por fora, os paredões tinham em média quatro metros de altura, mas por dentro eram pequenas muretas, perfeitas para proteger atiradores de inimigos abaixo. O acesso se dava pela avenida, através de uma rampa larga o bastante para duas carroças. Não havia portão, mas barricadas bloqueavam a passagem.


Encarregado de defender a casa-grande, o bandido Capiroto corria entre as fileiras de homens e gritava ordens: "Pras muretas, cambada de inútil, é pra varar de bala quem tentar atacar! Não quero ver um só inimigo chegar nesse jardim!".


Capiroto nunca se sentira tão poderoso quanto naquele momento. Tinha cinquenta homens ao seu comando, facão e revólver na cintura e espingarda às costas, mas o que o fazia sorrir empolgado era a arma que tinha em mãos. Pesado e comprido, o dracamarte se parecia com uma espingarda, mas o cano, já bem largo, se expandia ainda mais na ponta, como a boca de um funil. Um tiro bem dado daquela coisa podia incinerar uma dezena de homens.



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Capa-jegue também estava cheio de si. A ele, fora dado o comando da centena de cangaceiros que lutaria no nível mais alto de São Vatapá, mas fora dos muros da casa-grande.


A região, pilhada logo após a tomada da cidade, ainda conservava as casas grandes e luxuosas, antes pertencentes a famílias ricas. Os bandidos agora se espalhavam pelas moradias, buscando janelas e telhados estratégicos de onde pudessem atacar oponentes vindos da avenida ou das vielas.


Capa-jeque escolhera para si a varanda de uma casa alta, de dois andares, construída sobre um morro. Dali, tinha visão privilegiada da avenida, da casa-grande e de sessões generosas das ruelas secundárias. Armado no local estava o presente de Chicó, a torreta de tiro.


Aquela arma do capeta, montada sobre um tripé, tinha um conjunto de canos que rodopiavam ao girar de uma manivela, disparando saraivadas intermináveis de tiros. Um escudo metálico acoplado ao mecanismo providenciava proteção ao atirador. Assim que a tropa inimiga chegasse aos portões da casa-grande, Capa-jegue a pulverizaria do alto.



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Do alto da encosta, Mara'iza observava a movimentação da tropa dos coronéis, cuja fileira se aglomerava num grande ponto luminoso a menos de um quilômetro da base da cidade. "Não creio que avançarão agora, parecem montar acampamento", disse. "Presumo que atacarão pela manhã, e isto é perfeito para nós!"


"Você tem um plano, então?"


"Apenas uma ideia", ela respondeu. "Por ora, devemos procurar uma posição tática para pernoitarmos. Quando os coronéis atacarem, os cangaceiros focarão neles, e aproveitaremos a distração para nos esgueirarmos por trás da linha inimiga."


"Então bora seguir em frente", Zé Calabros bateu o punho fechado contra a palma da outra mão, então voltou a escalar o terreno acidentado da encosta montanhosa. "Vamos subir acima da cidade. Quando amanhecer, a gente vai poder ver tudo o que tiver acontecendo."



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Afobado, Chassi de Grilo correu pela casa-grande, rumo ao escritório. "Chicó! Chicó!", chamou ao abrir a porta, porém, ao sentir o forte odor acre que escapou, conteve o ímpeto e adentrou com cautela. "Chicó? Ocê tá aí?"


"Se acalma, ô abirobado", Chicó, sentado à mesa, disse calmo e firmemente, sem qualquer sinal de se levantar. "E não se esqueça que agora sou comandante d'ocês, e é assim que têm que me chamar".


"Comandante Chicó", Chassi de Grilo se corrigiu, "a batalha vai começar, e a gente precisa do senhor lá fora!".


Chicó não deu muita atenção. Com cautela, manipulava pós e líquidos sobre a mesa, misturando-os e deixando-os descansar numa tigela funda. Após um momento de silêncio, finalmente se voltou ao capanga: "Os coronéis já começaram a subir a cidade?".


"Ainda não", respondeu o subalterno.


A resposta tranquilizou Chicó, que ignorou o capanga e voltou a se focar na mesa. De outra tigela, retirou substâncias já processadas anteriormente, e as colocou num sistema de tubos, botelhas e uma chama. Ali, produzia-se um líquido avermelhado, que gotejava lentamente no recipiente final.


"Comandante", Chassi de Grilo insistiu impaciente, "eles vão atacar a gente a qualquer instante!".


"Não se avexe não, Grilo, que coronel não é idiota", Chicó retrucou num tom provocador. "Já é noite, ia ser muita bestagem atacar na escuridão. Põe o bando de prontidão por duas horas. Se até lá os coronéis não vierem, então podem descansar, que só vai ter peleja de manhã."


"Sim, senhor, Comandante Chicó!", Chassi de Grilo bateu continência, então se pôs a sair.


"Ô, Grilo!", Chicó chamou antes que o capanga passasse pela porta. "Ocê sabe o que é poder?"


O jovem bandido ficou confuso. "Não entendi, senhor."


"Ocê tá com medo porque acha que a gente tá fraco", Chicó disse. "Mas eu não tô preocupado! Uns anos pra trás, quando o Coronel Tibúrcio Mendes, que o diabo o carregue, tava traficando os engenhos matrixianos, descobri que eu era o que chamam de 'gênio'."



"Como assim, Comandante Chicó?"


"Eu conseguia entender essas coisas de maquinaria e alquimia, Grilo. Consigo enxergar como as peças se encaixam, posso mudar a essência das coisas. Descobri que eu tava destinado a ser poderoso!", contou Chicó. "Daí, pra conquistar o respeito que mereço, fiz todo mundo reconhecer meu talento! Sabe como passei a ser chamado de Chicó Matador?"


"Não sei não, senhor."


"Aprendi a fazer essa coisinha, hihihi!", Chicó riu e, com o sorriso torto na face malandra, exibiu uma pequena ampola cheia do líquido vermelho. "Chamam isso aqui de flebótino."


O capanga, curioso, se aproximou, então percebeu que a mesa estava cheia de vidrinhos como aquele. "Flebótino, comandante? O que diabos é isso? Serve pra quê?"


"É poder puro, Grilo, essência destilada de fogo e vento. Se bobear, explode que é uma beleza", Chicó se entusiasmou. "Mas sabendo usar, cria maravilhas! É isso que faz nossa carruagem de guerra andar!"


Chassi de Grilo treinara o uso do canhão do veículo nos últimos dois dias, mas até então não sabia como um aparato tão grande e pesado seria capaz de se mover. "Aquela coisa faz um estrago danado, Comandante Chicó", admitiu.


"Pois então, eu piloto, ocê atira", lembrou Chicó. "E não carece de ter medo, Grilo, que a gente tem poder de verdade nas mãos. Bom de luta eu não sou, mas matar gente às pencas... ah, isso faço muito bem! Por isso que sou o Chicó Matador!"



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Com o acampamento montado, Adelina Malícia, Samuel Garrancho e André Meneses faziam sua última reunião antes da batalha.


"Nossa tropa vai ter que subir pela avenida, é gente demais pra se afunilar pelos corredores", disse o Coronel Garrancho. "Seremos alvos fáceis para os cangaceiros escondidos nas casas."


"A gente divide a atenção dos bandidos", Coronel Malícia decidiu. "Vou pegar uns jagunços e guardas mais experientes e cortar caminho pelas vielas."


"E eu posso dar suporte", disse André Meneses. "Meu grupo acompanha o avanço na avenida, mas fica encarregado de tomar as casas que os cangaceiros usarem pra atacar."


"Muito bem", Garrancho concordou. "Eu cuido de conduzir a tropa principal pela avenida, mas o avanço vai depender de vocês. As três forças se juntam no alto da cidade, que aposto que é onde vai ter mais bandido."


"O covarde do Severino deve de tá lá em cima", Malícia olhou na direção da cidade. "Ele não perde por esperar, vou meter-lhe uma bala no meio dos olhos!"


Coronel Garrancho, observando a escuridão que permeava São Vatapá do Norte, comentou: "Essa cidade já foi tão mais iluminada, a avenida brilhava de cabo a rabo. Cadê o povo? O comércio da noite? A música? É como se o lugar estivesse morrendo".


"O povo que podia ir embora, já foi", disse Coronel Malícia. "Só sobrou gente desesperada, que não tem escolha."


"Severino não é só mais um coronel das antigas, não quer só mandar nas pessoas", Garrancho murmurou. "O sujeito é puro ódio, destrói tudo o que toca sem dó nem piedade. É muito pior do que o Tibúrcio Mendes."


"Ele quase matou toda a minha família", lembrou André. "Não só eu e meu pai, mas meus irmãos, as mulheres e até as crianças."


"E é por isso que tenho tanta raiva dele", disse Malícia. "Tô aqui pensando no meu Raulzinho. Não quero que o bichinho passe por isso."


Coronel Garrancho suspirou, lembrando de seu lar em Santa Rita. "E a minha Rosinha tá lá em casa, esperando pra ter nosso filhote a qualquer momento. Às vezes até pariu e ainda não sei."


"Severino queria matar nossos filhos, mas agora o jogo virou, o tambor vai rolar pro lado dele", Malícia bradou. "Aposto que o desgraçado tá se cagando de medo num quarto escuro, sabendo que a hora dele chegou!"



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"Uma tempestade tá vindo pr'essa cidade, Mariazinha", Severino murmurava solitário, "mas o que vai chover é sangue e chumbo, uma enchente carmesim pra lavar essa terra imunda. Amanhã não é o dia em que a gente vai se ver de novo, meu amor. Amanhã vai ser o dia da desforra!".


O Rei do Cangaço escondera-se numa casa num setor intermediário de São Vatapá. Para que ninguém soubesse seu paradeiro, matara a golpes de facão a família que morava ali. Da janela, sob o tom azulado das lentes alquímicas, via a vastidão do sertão e o acampamento inimigo.


"Os desgraçados devem de tá pensando que vou ficar detrás da tropa", ele continuou a sussurrar. "Mas vou mostrar pr'eles, Mariazinha, que medo só conheço de ouvir falar, nunca me foi apresentado!"


Severino sacou o facão, desferindo um golpe contra um oponente imaginário.


"Eles que rezem! Que implorem pra Padim, Anaren ou qual deus for! Vou matar todos, cortar as cabeças e mandar as almas pro inferno! Vou cobrir essa cidade de cadáveres e lavar as ruas com sangue! E, quando a batalha terminar, eu ainda vou tá de pé!"


Então, guardou o facão e voltou a observar pela janela.


"Em nome de cada companheiro que caiu ou ainda vai cair, eu sou Severino Barriga D'Água, o Rei do Cangaço, e nada nesse mundo vai me parar!"



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Apesar da tensão palpável no ar, a noite transcorreu sem incidentes. A paz, porém, estava fadada a terminar, e, algumas horas antes do amanhecer, uma sineta suave rompeu o silêncio do acampamento.


Coronel Garrancho despertou de imediato e desligou o relógio-alarme, presente de um amigo que não via há muitos anos. Ergueu-se e chamou os jagunços que dormiam na tenda, depois saiu sob o céu ainda escuro para acordar os outros líderes.


Sob ordens dos coronéis, os capitães percorreram o acampamento, despertando os homens: "Levantem-se, que hoje é o dia de salvar a Cornália!". Cada guarda se erguia já preparado para lutar. Deixariam no acampamento tudo que não fosse ajudar na batalha.


Os cozinheiros e tarefeiros tinham acordado ainda mais cedo, e o desjejum já estava pronto há mais de hora, tudo organizado para que ninguém perdesse tempo. Após serem servidos com porções reforçadas e café quente e forte, os homens saíam do acampamento e se reuniam longe das fogueiras e lampiões.


Um discurso para a tropa naquele momento poderia denunciá-la, então os coronéis e capitães passaram entre as fileiras encorajando pessoalmente os homens. "Hoje é o dia da vitória!", "Por nossa terra e família!", "Morte ao Rei do Cangaço!".


Então, sob o manto da escuridão, os mais de trezentos homens marcharam. Adentrariam na cidade antes do céu clarear.



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O primeiro disparo ocorreu sob o crepúsculo da manhã.


Não se sabe qual dos lados apertou o gatilho, mas logo os tiroteios irromperam pelos bairros inferiores. Além dos estampidos intermináveis, soaram também as cornetas dos cangaceiros, do bairro inferior até o topo de São Vatapá.


O grupo de Meneses tomou as ruelas inferiores, invadindo as casas que margeavam a avenida. Rendiam os bandidos que encontravam, matavam os que resistissem. "Protejam a tropa principal", o futuro coronel de Bota do Judas pedia. "Assegurem a avenida!"


Malícia avançou suas forças para as escadarias que levavam aos bairros altos. Ali, pequenos grupos de cangaceiros tentavam atrasá-la, mas eram facilmente sobrepujados pelos numerosos guardas. "Em frente, cambada de lerdo!", a senhora de Curva do Vento ordenava. "É matar pra não morrer! Senta a pua nesses malditos!"


A tropa principal começava a longa jornada pela avenida, sob comando de Garrancho e dos capitães da guarda de Santa Rita. Avançavam com cautela, revidando o fogo que sofriam. "Lutem por suas famílias! Lutem pela Cornália!", bradava o coronel que já foi cangaceiro.


Embora a penumbra ainda cobrisse São Vatapá, o céu se tornava cada vez mais claro. Fosse na avenida ou nos becos ainda escuros, os cangaceiros se viam forçados a recuar para não morrer. Lenta, mas inexoravelmente, os coronéis ganhavam terreno.



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Nas profundezas da inconsciência, Mara'iza demorou a perceber os sons do tiroteio, ainda confinado às porções mais baixas da cidade. Foram as cornetas dos cangaceiros, ecoando no alto de São Vatapá, que finalmente a despertaram.


"Carábu'ros-san, acorde!", ela o sacolejou. "Começou!"


Ele despertou rapidamente e se levantou de supetão. "Opa, Malinha! Bora lá distribuir porrada!"


"Acalme-se, idiota", ela o conteve, observando a situação abaixo. Tinham passado a noite entre pedras e mato, numa pequena e alta plataforma da encosta montanhosa. Dali, eram visíveis os bairros superiores, a passagem para Dragona e a casa-grande.


"Se a gente rodear por cima, pode chegar na trilha pra Dragona", informou Zé, apontando o difícil trajeto por terreno acidentado. "Dali, é só escalar os paredões e descer detrás dos jardins da casa-grande."


"O que pensa que sou, uma cabra montanhesa? Não há necessidade de tanto esforço", ela retrucou, então apontou para as casas mais próximas. "Pouparemos tempo e energia se descermos ali e contornarmos a cidade pelo leste. Os cangaceiros se focarão na avenida e passagens inferiores."


"Tá bem, Malinha, tanto faz pra mim", ele estalou os punhos e alongou o pescoço. "Severino não tá perdendo nada por esperar."



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Seis homens foram abatidos na retaguarda da tropa, todos com tiros de espingarda, disparados de longa distância. André Meneses destacara o Capitão Aurélio, de Curva do Vento, para encontrar o atirador.


"Sigam junto às paredes!", gritava o capitão aos nove homens de seu destacamento. Rumaram para um aglomerado de construções avenida abaixo, onde se destacava uma casa alta, local perfeito para o atirador se esconder. "Para as vielas, rápido!"


O pequeno grupo adentrou os becos e tomaram o corredor que levaria à casa. "Dividam-se! Deem a volta!", ordenou o capitão assim que chegaram à esquina da moradia. "Vamos cercar o desgramado!"


Foi quando alguém saltou da janela da casa para o telhado vizinho. No meio do trajeto, um tiro de revólver atingiu o guarda mais à frente, abrindo-lhe um rombo no meio na testa. O pobre coitado caiu morto no chão sem chance de reagir.


"Ele foi pra lá!", gritou um dos homens, apontando para o telhado.


Como um borrão, o atacante misterioso pulou para o teto da casa seguinte. Os guardas dispararam para o alto assim que o viram, mas os tiros foram desperdiçados.


"É só um! Tá fugindo!", avisou o capitão. "Peguem o maldito!"


Foi quando o inimigo saltou do telhado para a viela. Ainda na queda, disparou duas vezes, atingindo a nuca de um guarda e o peito de outro, e, ao pousar, talhou o pescoço do mais próximo com um golpe de facão.


"Padim do céu!", o capitão se apavorou ao reconhecer aquele demônio de olhos incandescentes e chifres. "É Severino!"


Na viela apertada, os guardas da frente dispararam suas garruchas e revólveres, enquanto os de trás tentavam mirar para não atingir os companheiros.


Severino Barriga D'Água dançava entre os tiros como um fantasma, facão numa mão e revólver na outra. Decepou a mão do primeiro oponente, meteu bala no pescoço do segundo e no olho do terceiro, finalizou o primeiro rasgando-lhe a garganta.


"Atirem! Atirem!", Capitão Aurélio recuou em desespero, descarregando todo o tambor do revólver. Os dois guardas que restavam gastaram suas garruchas e sacaram facões, mas nenhum teve coragem de atacar.


O Rei do Cangaço evadia os disparos em movimentos erráticos. Rolava no chão, levantava-se pulando, quicava nas paredes, sempre reduzindo distância dos adversários. Em meio às acrobacias disparou mais duas vezes. Um guarda tombou com um tiro no coração, o Capitão Aurélio morreu atingido na testa.


O único sobrevivente recuou cauteloso e assustado, erguendo o facão à frente do corpo para impedir a aproximação do inimigo.


Arremetendo-se, Severino bateu as lâminas com força, desarmando o oponente. Chutou então o peito do guarda, derrubando-o ao chão, e levou-lhe o facão à garganta, mas sem feri-lo.


"Não me mata não, pelo amor do Pai!", o homem implorou, vendo sua face aterrorizada refletir-se nos óculos do Rei do Cangaço.


"Vou matar-lhe não, seu frouxo", Severino o encarou. "Vosmecê vai me fazer um favor."


"Pede qualquer coisa!", ele balbuciou, baixando a cabeça e erguendo as mãos ao alto. "Eu juro que faço!"


O cangaceiro recuou, afastando a lâmina do homem, mas apontando-lhe o revólver. "Se levanta daí, traste, e corre de volta pra sua tropa. Avisa pra todos que Severino Barriga D'Água tá aqui embaixo. Diz que tenho duzentas balas pra minha espingarda, e que vou matar ocês tudo, um por um, se ninguém vier me impedir!"


"Tá bem, só não me mate, por favor!", o guarda chorou. Fechou os olhos, aguardando mais alguma ordem. Quando os abriu novamente, viu-se sozinho na ruela, em meio aos cadáveres dos nove companheiros. Não teve dúvidas: levantou-se e correu dali, sem olhar para trás.


Num telhado próximo, Severino Barriga D'Água recarregava o revólver. "Agora, um a um, eles vão vir, Mariazinha, meu amor", abriu um sorriso cruel. "A tempestade tá só começando!"


A seguir: Até o capeta sai da frente

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© 2016 Tiago Moreira