Prévia: Capítulo 19


Estamos cada vez mais perto do fim! Em apenas uma semana, você lerá a penúltima parte de nossa história. É o Capítulo 19: Até o capeta sai da frente!

A batalha de São Vatapá começou! É o confronto final entre os coronéis e cangaceiros! E, em meio ao sangrento conflito, o destino da Cornália está nas mãos de Zé Calabros e Mara’iza.

O capítulo estará disponível na próxima sexta-feira, dia 25/08.

André Meneses e dois jagunços contornaram pelas vielas, evitando a avenida. O trajeto pelas passagens labirínticas era longo, confuso e demorado, porém mais seguro. Havia um atirador misterioso espreitando a retaguarda da tropa e não queriam chamar sua atenção.

"Ai, meu Padim do céu, protege nóis!", um jagunço exclamou espantado ao encontrar os primeiros cadáveres.

Logo adiante, numa ruela mais larga e suas adjacências, tiveram uma visão estarrecedora de corpos espalhados pelo chão. No total, contaram treze guardas, um capitão e um jagunço. Alguns foram abatidos a golpes de facão, outros levaram tiros certeiros na cabeça ou no peito. Ninguém sobreviveu.

"Fiquem atentos, os bandidos ainda podem estar por perto", lembrou André, que segurava nervosamente a espingarda e mal continha o pânico. "Já é o segundo grupo perdido. Eu devia ter dado ouvidos àquele cabra que sobreviveu do grupo anterior."

"Será que ele tava certo, patrão?", perguntou o outro jagunço. "Será que é mesmo o Severino Barriga D'Água?"

"Não sei", André perscrutou os arredores, mas não encontrou sinal do inimigo. "Vamos avisar Garrancho e Malícia. Seja Severino ou não, o que está acontecendo aqui é muito sério."

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O bairro superior de São Vatapá estava próximo. Finalmente, a tropa do Coronel Garrancho se aproximava do destino, quase duas horas desde o começo da batalha. O moral dos homens estava alto. A oposição pelo caminho fora mínima, e as perdas até então eram baixas.

A vanguarda da tropa virou a próxima esquina e, no alto da ladeira seguinte, o grupo da Coronel Malícia trocava tiros com os cangaceiros. Tão logo as duas forças se encontraram, Coronel Garrancho correu ao encontro dela.

"Tem algo errado, Adelina, está fácil demais", ele observou. "Poucos cangaceiros no caminho, só serviram pra nos atrasar. Em Bota do Judas, nossa vantagem numérica não era tão grande."

"É que os bandidos estão apinhados lá em cima", Malícia informou. "Não consegui avançar além daqui, tava te esperando pra modo da gente invadir com força."

"Vamos precisar coordenar tudo muito bem", disse Garrancho, "Segure a posição, que vou chamar André". Pegou então o apito pendurado no pescoço e o soprou brevemente várias vezes. Era o sinal para organizar uma reunião.

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"Comandante Chicó!", Chassi de Grilo adentrou o recinto. "Eles já estão aqui em cima, vão atacar a casa-grande a qualquer momento."

Chicó, à mesa, terminou de saborear o delicioso café, então deu um beijo no rosto de Emiliana, que se sentava cabisbaixa ao seu lado. "Comporte-se, querida", disse num tom de ameaça, então pôs a cartola, levantou-se e se voltou a Mão Santa, seu jagunço. "Leva minha esposa pro quarto e fica de olho. Onde ela for, ocê vai junto."

Mão Santa meneou positivamente a cabeça, sem nada dizer. Em seguida, caminhou até Emiliana e puxou-a violentamente pelo braço. Já acostumada à servidão, a moça se levantou sem resistência ou protesto. Os dois logo deixaram a sala e tomaram as escadas para o andar superior.

A jovem criada, Lurdinha, estava ao lado da mesa, à espera de ordens. Antes de sair, Chicó se atentou a ela: "Chama sua mãe e seu irmão. É pra ficarem na cozinha, ninguém sai de lá até segunda ordem. Ocês sabem o que acontece se me desobedecerem."

"Sim, sinhozinho", a menina, de apenas quatorze anos, respondeu com amargura, "a gente vai obedecer, não carece de nos lembrar". Por reflexo, levou a mão ao rosto. O olho roxo era apenas a mais notável das marcas de violência em seu corpo.

Finalmente, Chicó Matador e Chassi de Grilo deixaram a casa-grande. No jardim da frente, a carruagem de guerra os esperava, iluminada pelo sol que começava a despontar das montanhas. Subiram por uma série de apoios na lateral, então entraram por uma escotilha no alto, localizada atrás do canhão.

Apesar do tamanho do engenho, seu interior era apertado, quase todo ocupado por mecanismos complexos e munições. Chassi de Grilo se sentou numa cadeira elevada, posicionada sob o canhão. Dali, podia mirar por um periscópio e controlar direção e ângulo dos disparos através de duas manivelas.

"Hihihi", Chicó se sentou na cadeira da frente, rindo empolgado. Três periscópios ao redor da cabeça permitiam-lhe visão da frente e das laterais do veículo. "Ei, Grilo, ocê sabe o que acontece quando se mistura as essências de ar e de fogo?"

"Não, comandante", o capanga respondeu.

"Uma bola de fogo", respondeu. Da bandoleira escondida sob o paletó, Chicó sacou uma ampola de flebótino entre muitas. Abriu-a e despejou o líquido vermelho em um tubo do painel à sua direita. Em seguida, apertou um botão vermelho várias vezes.

O maquinário a princípio não reagiu, mas lá pela sexta vez que pressionou, o motor entrou em ignição. A carroceria tremeu violentamente, engrenagens rangeram por todo o engenho e vários estampidos ecoaram da caldeira na retaguarda do veículo.

"Mais força!", Chicó murmurou, pegando mais duas ampolas. Despejou-as no tubo e continuou a apertar o botão, até a trepidação do maquinário se suavizar. Sentindo a pressão na caldeira se elevar, ele pisou levemente num pedal.

Como resposta, a carruagem de guerra se moveu para a frente. Lá fora, válvulas da caldeira expeliram jatos de vapor e fogo para o alto.

"Agora sim, Grilo!", Chicó comemorou, soltando o pedal e parando o veículo. "Quero ver a cara deles quando a gente mostrar essa belezura!"

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Zé Calabros na Terra dos Cornos
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As Crônicas Anímicas

© 2016 Tiago Moreira