Capítulo 19: Até o capeta sai da frente

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André Meneses e dois jagunços contornaram pelas vielas, evitando a avenida. O trajeto pelas passagens labirínticas era longo, confuso e demorado, porém mais seguro. Havia um atirador misterioso espreitando a retaguarda da tropa e não queriam chamar sua atenção.

"Ai, meu Padim do céu, protege nóis!", um jagunço exclamou espantado ao encontrar os primeiros cadáveres.

Logo adiante, numa ruela mais larga e suas adjacências, tiveram uma visão estarrecedora de corpos espalhados pelo chão. No total, contaram treze guardas, um capitão e um jagunço. Alguns foram abatidos a golpes de facão, outros levaram tiros certeiros na cabeça ou no peito. Ninguém sobreviveu.

"Fiquem atentos, os bandidos ainda podem estar por perto", lembrou André, que segurava nervosamente a espingarda e mal continha o pânico. "Já é o segundo grupo perdido. Eu devia ter dado ouvidos àquele cabra que sobreviveu do grupo anterior."

"Será que ele tava certo, patrão?", perguntou o outro jagunço. "Será que é mesmo o Severino Barriga D'Água?"

"Não sei", André perscrutou os arredores, mas não encontrou sinal do inimigo. "Vamos avisar Garrancho e Malícia. Seja Severino ou não, o que está acontecendo aqui é muito sério."

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O bairro superior de São Vatapá estava próximo. Finalmente, a tropa do Coronel Garrancho se aproximava do destino, quase duas horas desde o começo da batalha. O moral dos homens estava alto. A oposição pelo caminho fora mínima, e as perdas até então eram baixas.

A vanguarda da tropa virou a próxima esquina e, no alto da ladeira seguinte, o grupo da Coronel Malícia trocava tiros com os cangaceiros. Tão logo as duas forças se encontraram, Coronel Garrancho correu ao encontro dela.

"Tem algo errado, Adelina, está fácil demais", ele observou. "Poucos cangaceiros no caminho, só serviram pra nos atrasar. Em Bota do Judas, nossa vantagem numérica não era tão grande."

"É que os bandidos estão apinhados lá em cima", Malícia informou. "Não consegui avançar além daqui, tava te esperando pra modo da gente invadir com força."

"Vamos precisar coordenar tudo muito bem", disse Garrancho, "Segure a posição, que vou chamar André". Pegou então o apito pendurado no pescoço e o soprou brevemente várias vezes. Era o sinal para organizar uma reunião.

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"Comandante Chicó!", Chassi de Grilo adentrou o recinto. "Eles já estão aqui em cima, vão atacar a casa-grande a qualquer momento."

Chicó, à mesa, terminou de saborear o delicioso café, então deu um beijo no rosto de Emiliana, que se sentava cabisbaixa ao seu lado. "Comporte-se, querida", disse num tom de ameaça, então pôs a cartola, levantou-se e se voltou a Mão Santa, seu jagunço. "Leva minha esposa pro quarto e fica de olho. Onde ela for, ocê vai junto."

Mão Santa meneou positivamente a cabeça, sem nada dizer. Em seguida, caminhou até Emiliana e puxou-a violentamente pelo braço. Já acostumada à servidão, a moça se levantou sem resistência ou protesto. Os dois logo deixaram a sala e tomaram as escadas para o andar superior.

A jovem criada, Lurdinha, estava ao lado da mesa, à espera de ordens. Antes de sair, Chicó se atentou a ela: "Chama sua mãe e seu irmão. É pra ficarem na cozinha, ninguém sai de lá até segunda ordem. Ocês sabem o que acontece se me desobedecerem."

"Sim, sinhozinho", a menina, de apenas quatorze anos, respondeu com amargura, "a gente vai obedecer, não carece de nos lembrar". Por reflexo, levou a mão ao rosto. O olho roxo era apenas a mais notável das marcas de violência em seu corpo.

Finalmente, Chicó Matador e Chassi de Grilo deixaram a casa-grande. No jardim da frente, a carruagem de guerra os esperava, iluminada pelo sol que começava a despontar das montanhas. Subiram por uma série de apoios na lateral, então entraram por uma escotilha no alto, localizada atrás do canhão.

Apesar do tamanho do engenho, seu interior era apertado, quase todo ocupado por mecanismos complexos e munições. Chassi de Grilo se sentou numa cadeira elevada, posicionada sob o canhão. Dali, podia mirar por um periscópio e controlar direção e ângulo dos disparos através de duas manivelas.

"Hihihi", Chicó se sentou na cadeira da frente, rindo empolgado. Três periscópios ao redor da cabeça permitiam-lhe visão da frente e das laterais do veículo. "Ei, Grilo, ocê sabe o que acontece quando se mistura as essências de ar e de fogo?"

"Não, comandante", o capanga respondeu.

"Uma bola de fogo", respondeu. Da bandoleira escondida sob o paletó, Chicó sacou uma ampola de flebótino entre muitas. Abriu-a e despejou o líquido vermelho em um tubo do painel à sua direita. Em seguida, apertou um botão vermelho várias vezes.

O maquinário a princípio não reagiu, mas lá pela sexta vez que pressionou, o motor entrou em ignição. A carroceria tremeu violentamente, engrenagens rangeram por todo o engenho e vários estampidos ecoaram da caldeira na retaguarda do veículo.

"Mais força!", Chicó murmurou, pegando mais duas ampolas. Despejou-as no tubo e continuou a apertar o botão, até a trepidação do maquinário se suavizar. Sentindo a pressão na caldeira se elevar, ele pisou levemente num pedal.

Como resposta, a carruagem de guerra se moveu para a frente. Lá fora, válvulas da caldeira expeliram jatos de vapor e fogo para o alto.

"Agora sim, Grilo!", Chicó comemorou, soltando o pedal e parando o veículo. "Quero ver a cara deles quando a gente mostrar essa belezura!"

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"Era Severino?", Coronel Garrancho repetiu assustado. "Você tem certeza?"

"Não, não tenho, mas é o que o sobrevivente falou", André Meneses respondeu. "Já perdi dois grupos, mais de vinte homens, pra esse atirador! E isso sem contar os que foram alvejados na nossa retaguarda! Seja quem for esse cabra, ele é muito perigoso."

"Como sabe que é só um?", questionou Malícia.

"Eu fui pro local da luta, não vi sinal de ter um bando inimigo", disse André. "E se fosse um bando, alguém ia acabar levando tiro, mas não tinha nenhum cangaceiro morto. Isso é coisa de um cabra só, ou no máximo uma dupla!"

"Isso parece coisa dele mesmo", disse Garrancho. "Se for mesmo Severino, e não duvido que seja, não podemos bobear. Reforça a retaguarda, mas ninguém vai atrás desse cabra, que é isso que ele quer. Vamos tomar a casa-grande primeiro, depois botamos a tropa toda pra caçar o desgraçado."

"E até lá o maldito vai matando nossos homens, um por um?", Coronel Malícia contestou, pegando sua espingarda. "Nada disso, Samuel, não vou deixar Severino em paz! Vou pegar meus homens e ir atrás dele agora mesmo!"

"Isso é loucura, Adelina!", ele disse. "Você não conhece Severino como eu!"

Malícia se levantou exaltada. "A gente veio aqui pra matar o desgracento, não se esqueça", retrucou, "Quando ele tiver morto, o bando vai fugir ou se render". Então, ela partiu, sumindo no meio da tropa.

"Ô, mulher teimosa da peste!", Garrancho reclamou, então suspirou fundo de frustração. Conteve-se por um momento e, mais calmo, se voltou a André: "Adelina vai deixar o atirador ocupado, então vamos esquecer a retaguarda e avançar com tudo. Você assume a função dela, manda seus homens tomarem as vielas."

"Sim, senhor!", André concordou.

Os dois então sopraram seus apitos, chamando os capitães e jagunços para a reunião. "Homens, preparem-se!", gritou Garrancho. "Ao meu sinal, a cobra vai fumar!"

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Severino sorriu. A distância, viu um grupo se separar da tropa inimiga e descer a avenida. Com certeza vinham em seu encalço. Mirando com a espingarda, perscrutou cuidadosamente os oponentes.

Eram de quarenta a cinquenta homens, que começavam a se dividir em grupos menores. Entre eles, havia uma mulher, e ela tinha o chapéu adornado com grandes chifres.

"Coronel Malícia", Severino murmurou ao apontar a arma para a cabeça dela. Podia matá-la ali, naquele exato instante, antes que ela alcançasse as ruelas. Desistiu, porém. Alvejá-la dispersaria a tropa, e Severino desejava matar todos. "Vosmecê vai morrer por último, vadia", sussurrou, então disparou contra o jagunço mais próximo dela.

O tiro atingiu a têmpora do homem, levantando seu chapéu e espirrando sangue. Alarmados, os outros se espalharam, buscando proteção. A coronel se jogou para trás da esquina mais próxima e se pôs a gritar ordens.

Severino recarregou a espingarda, mirou e disparou num outro homem antes que ele alcançasse cobertura. Atingido nas costas, o alvo tombou na avenida.

O Rei do Cangaço então se levantou, revelando-se sobre o telhado de uma casa distante. "Eu tô aqui, seus fí duma quenga arrombada!", gritou, "Podem vir! Bora ver se algum d'ocês tem sorte de me acertar!".

Os adversários revidaram com uma saraivada de balas, mas Severino correu pelo telhado e saltou para os becos abaixo, desaparecendo. Iniciava-se a caçada.

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"Mostrem o inferno a eles!", gritou o Coronel Garrancho, e a ele se seguiram os apitos dos capitães. A tropa urrou em resposta e avançou, subindo rapidamente a ladeira para o bairro mais alto de São Vatapá.

De imediato, o tiroteio se intensificou. Bandidos esparsos nos telhados atiravam contra a massa de invasores, mas eram rapidamente sobrepujados. A avenida se bifurcava ali em cima. A tropa ignorou o trajeto que levava para as montanhas a leste e seguiu rumo à casa-grande.

O platô final surgia adiante, mas a rampa de acesso fora bloqueada. Das casas, dos telhados e do alto dos muros de arrimo, os cangaceiros disparavam ferozmente, mas a onda de invasores não seria facilmente contida.

Coronel Garrancho parou para contra-atacar os bandidos. "Para o platô!", ordenou, apontando para os obstáculos no topo da rampa. Ao seu comando, uma massa de guardas passou por ele e invadiu a rampa, mesmo sob fogo cerrado.

Então, de trás, veio uma série de trovões.

E da frente, uma explosão violenta de chamas.

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Chegara o momento, pensou Capa-jegue. Três cangaceiros o protegiam, e a escada de acesso àquele andar fora explodida na noite anterior. Da sacada, tinha visão privilegiada da batalha.

A torreta de tiros estava armada sobre o tripé e apontada para a retaguarda inimiga. Capa-jegue segurou-a firme e se pôs a girar a manivela. Os canos da arma rodopiaram, cada um disparando uma torrente de balas de grosso calibre.

Um rastro de morte se abriu na avenida. Com igual facilidade, os tiros mutilavam corpos e transpassavam paredes de alvenaria. A tropa dos coronéis se dispersou em desespero para os becos laterais, deixando dúzias de mortos e feridos para trás.

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Detrás da barricada, Capiroto aguardava ansioso, observando a batalha através de um vão. "Chega mais perto", murmurava desejoso. "Quero mostrar meu brinquedinho!"

Um grupo de guardas subia a rampa para o platô, revidando o fogo que vinha do alto. Alguns tombaram, mas a tropa avançou com valentia e determinação. "Saltem a barricada", o capitão deles gritou. "Tomem o platô!"

Capiroto se revelou nesse instante. Apontou o dracamarte para o centro da coluna inimiga e puxou o gatilho.

Da boca alargada do cano, saltou um bólido incendiário, que explodiu com violência à frente. A imensa bola de fogo resultante rapidamente consumiu os homens na rampa.

A conflagração foi tão intensa, que Capiroto foi forçado a se jogar para trás da barricada. "Essa coisa mais parece um dragão", ele bradou. Puxou uma alavanca, liberando os restos incandescentes da munição consumida, então recarregou a arma. "Não é à toa que se chama dracamarte!"

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Os homens na rampa foram consumidos pelo fogo. Por trás, a tropa era alvo de uma tempestade de balas. A tropa se dispersava, as baixas se multiplicavam.

"Protejam-se! Para os becos!", gritou o Coronel Garrancho. Correu então para a viela mais próxima, evitando por pouco a torrente de balas que vinha da retaguarda.

Como se não bastasse a súbita reviravolta, os bandidos no platô arremessaram pequenas esferas de metal e resina nas ruelas próximas. Os estranhos artefatos explodiam como petardos, mas sem a necessidade de pavio.

"Onde Severino conseguiu esse arsenal?", o coronel se perguntava. Soprou o apito, chamando por quaisquer guardas próximos. Precisava reunir suas forças e reorganizar sua estratégia.

O pesadelo estava apenas começando, porém. Da casa-grande, veio o ruído intenso de maquinário pesado, acompanhado por uma buzina estrondosa. Algo grande se aproximava.

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"A gente tem que se apressar, Malinha", disse Zé Calabros, ouvindo os tiros distantes e vendo a fumaça de pólvora subir aos céus. "A briga já começou."

Os dois desciam o terreno montanhoso por trás da casa-grande. Zé escalava sem dificuldades, mas Mara'iza dependia da ajuda dele, e se sentia constrangida. Não só ele agarrava-a pela cintura com frequência para auxiliá-la, como ela tinha certeza de que, inadvertidamente, permitira-o ver por baixo de sua saia algumas vezes.

"Antecipemo-nos, então", ela disse, já vermelha de vergonha. "Vá na frente."

"E você? Como vai descer?", ele perguntou.

"Vá!", ela insistiu, desembainhando a adaga. "Não se preocupe comigo, usarei minhas mágicas."

Zé sorriu e saltou três metros abaixo. Pousou numa pedra, rolou no chão e deslizou por uma ladeira íngreme. Pulou então, de nível em nível, até chegar aos pomares aos fundos da casa-grande.

Surpreendentemente, Mara já o esperava lá embaixo. Ela ofegava um pouco, mas estava cheia de arrogância no sorriso e soberba no olhar.

Ele a olhou admirado. Virou-se, buscando o ponto do qual partiram, a mais de trinta metros de distância, e voltou a fitá-la. "Como você fez isso, ô menina arretada?"

"Chama-se teletransporte", ela disse orgulhosa, então respirou fundo. "Mas ainda preciso aprimorar a distância. Tive de conjurar algumas vezes para chegar aqui, e o uso contínuo é cansativo. Dê-me um instante para recuperar o fôlego."

Foi quando ouviram uma buzina intensa soar a distância.

"Pelos ancestrais!", Mara exclamou assustada. Do bosque onde estavam, mal conseguiam enxergar a casa-grande, quanto mais o conflito além. "Que ruído é esse?"

"Não faço ideia, nunca ouvi isso na vida", Zé respondeu. "Mas me parece barulho de máquina, tipo aquelas coisas matrixianas."

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A carruagem de guerra avançou. Capiroto deu passagem, e o engenho de metal enegrecido atravessou a barricada, jogando destroços ladeira abaixo.

A avenida já estava esvaziada. Os guardas e jagunços se concentravam nas esquinas e janelas das casas, de onde revidavam fogo. Mesmo as balas de espingarda eram incapazes de penetrar a carapaça daquela monstruosidade tecnológica.

"Hihihi, ocês vão tudo morrer, bando de desgraceira!", Chicó ria no interior do veículo. Pelo periscópio frontal, buscou seu primeiro alvo. Pisou no pedal, girou o volante e puxou uma corda.

As válvulas da caldeira emitiram jatos de fogo e som de buzina, a carruagem de guerra avançou contra uma esquina apinhada de guardas. Grande demais para a ruela, a máquina simplesmente atravessou paredes, demoliu construções e atropelou obstáculos, inclusive os homens no caminho. A frente angular limpava o trajeto, direcionando destroços e vítimas para as laterais do veículo.

"Hihihi", Chicó continuava a gargalhar. Derrubou mais duas casas, então manobrou para voltar à avenida. "Grilo, explode eles tudo, seu inútil!".

Chassi de Grilo estava assustado com a trepidação e o som do maquinário, mas a bronca o fez se concentrar. Usando as manivelas, apontou o canhão para uma casa do outro lado da avenida e disparou. O tiro demoliu a construção, soterrando quem estivesse em seu interior, e danificou seriamente a moradia seguinte.

"Ocê viu isso, comandante?", Chassi de Grilo comemorou empolgado. "Esse seu troço é da moléstia! Causa estrago demais!"

"Esses cabras estão indefesos, Grilo", Chicó bradou, manobrando o veículo para uma nova investida, desta vez contra as residências do lado oposto. "Bora mandar todos pro carái-de-asas!"

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Zé e Mara deixaram o pomar, atravessaram os jardins posteriores e finalmente chegaram aos fundos da casa-grande. Até então, nenhum sinal de cangaceiros.

Mara'iza estava assustada com os sons da batalha, agora ainda mais próximos. Preocupava-lhe principalmente a estranha buzina que insistia em se repetir. "O que está acontecendo? Que armas poderiam causar esses estrondos?", perguntou.

"Não faço ideia, Malinha, a coisa parece que tá feia", ele respondeu, "mas lá do quarto do coronel a gente tem como ver tudo". Com um chute, arrombou a porta dos fundos, depois buscou cobertura. Ao contrário do que esperavam, não vieram tiros do interior da residência.

"Parece-me que a propriedade foi abandonada", Mara sugeriu. "Talvez estejam todos na batalha, mas não nos descuidemos, algum bandido pode ter ficado para trás."

Os dois adentraram a casa e chegaram à cozinha, onde, embaixo da mesa, uma senhora apavorada abraçava dois jovens, um rapaz e uma moça, todos vestidos como serviçais.

"Vocês não tenham medo, que não quero fazer mal pra ninguém aqui", disse Zé, abaixando-se para vê-los melhor. Arregalou os olhos ao reconhecer a mulher. "Dona Sônia?"

"Quem é você?", a mulher o olhou cautelosamente.

"Sou eu, o José Calabros", ele estendeu a mão. "O Zequinha, lembra?"

"José! Meu Padim do céu, como você está grande!", ela exclamou surpresa, então saiu de baixo da mesa para abraçá-lo. O rapaz e a moça, porém, mantiveram-se longe. Eram jovens demais para reconhecê-lo.

"E esses dois são Jonas e Lurdinha? Cresceram tanto!", Calabros disse ao observá-los. "Achei que Severino tinha matado vocês todos, Dona Sônia! Cadê o desgraçado? Vim pra acertar as contas com ele!"

"Eu não sei de Severino, não o vejo desde anteontem", a mulher respondeu, revelando um olhar cheio de lágrimas. "Mas acuda nossa família, meu filho! Pelo amor de Padim, nos salva do Chicó Matador!"

"Chicó Matador?", intrometeu-se Mara'iza. "Quem é ele?"

"É capanga de Severino, moça", a mulher esclareceu. "Um homem nojento e cruento, sem nenhuma compaixão. Fez coisas horríveis com todos nós, nos trata como escravos, bate nos meus filhos. Por vingança, faz de tudo pra nos ver sofrendo."

"A gente vai dar um couro nos felas-d'éguas", disse Zé. "Aproveitem pra fugir daqui, Dona Sônia, que garanto que não vão mais relar o dedo em vocês."

"Não podemos simplesmente ir embora, meu filho", ela revelou. "Chicó vai descontar a raiva na Emiliana!"

"Emiliana também tá viva?", Zé se exaltou, erguendo a voz e cerrando os punhos. "Onde ela tá, Dona Sônia? Diz, que vou lá agora mesmo!"

"Ah, claro, salvemos sua namoradinha!", Mara'iza resmungou, franzindo o cenho, revirando os olhos e suspirando fundo. "Pelo visto, Severino perdeu toda a importância!"

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Zé e Mara subiram correndo as escadas da casa-grande. "Sejamos rápidos, ogro idiota", ela lembrou. "O tempo urge!"

Guiado pela memória, ele correu para o quarto do Coronel Silvério. A porta, porém, estava trancada. "Se prepara, Malinha, que vai vir bala daí!".

"Estou ciente", ela retrucou, sacando a adaga e preparando uma conjuração.

"Deixa a fuça do jagunço inteira pra mim", Zé pediu. Chutou a porta, arrebentando-a, depois se protegeu detrás da quina.

Tiros vieram do quarto.

Mara'iza estalou os dedos, e o fluxo do tempo se interrompeu. Com o mundo inerte, ela caminhou para o interior do cômodo, desviando-se das balas e lascas da porta que flutuavam em pleno ar.

Lá dentro, uma morena de cabelos longos se sentava na cama com uma expressão de susto. À frente dela, o jagunço, um homem barbudo de cabelos grisalhos, empunhava dois revólveres, paralisado no meio de uma sequência de disparos.

Mara se posicionou ao lado do atirador e, sentindo o fluxo temporal se realinhar, gesticulou o próximo feitiço. Quando o mundo voltou a se mover, duas lanças prateadas saltaram da palma dela e explodiram nas mãos do jagunço.

Recolhendo-se em dor, o atirador largou as armas.

"Por mim, você já estaria inconsciente, verme", a magista disse com expressão arrogante, então apontou para a entrada, "mas o ogro deseja conversar."

"Lembra de mim, Mão Santa?", Calabros entrou furioso. Agarrou o jagunço, esmurrou-o na face e, antes que o homem caísse, bateu-o violentamente contra a parede. "Traiu Coronel Silvério e vendeu a família dele, desgraçado!"

O jagunço nada disse, já estava inconsciente.

Frustrado, Calabros jogou Mão Santa ao chão. Então, conteve a raiva, respirou fundo e se voltou à jovem assustada, aproximando-se cautelosamente. "Emiliana, sou eu."

Desconcertada, ela tomou alguns segundos para reconhecê-lo. "Zequinha?", murmurou surpresa, então se levantou num pulo e abraçou-o forte. "Zequinha! Graças ao Padim!", chorou aliviada.

Mara'iza fez uma careta e murmurou desdenhosa: "Tsé-kinha...? Eu mereço...". Deu as costas aos dois e caminhou irritada até a janela do quarto. Ali, puxou a cortina, e ficou chocada ao ver a devastação lá fora. "Céus!", exclamou, levando a mão à boca.

"Chicó me forçou a fazer tanta coisa horrível!", Emiliana manteve Zé firme nos braços, e foi também abraçada de volta. Desabafava aos prantos, com voz cheia de dor e medo. "E eu tinha que obedecer... senão ele ia matar minha mãe e meu irmão... e ameaçava casar com minha irmã... Eu tinha que obedecer, Zequinha. Eu não tinha escolha!"

Mara'iza se compadeceu. Sem perceber, levou a mão ao peito, imaginando-se na situação relatada. Focou-se, porém, na batalha que via da janela. "Carábu'ros-san, perdão, mas não temos tempo!", a magista disse hesitante. "Você precisa ver isto!"

"Zequinha, me ajuda, faz esse pesadelo parar", implorava Emiliana. "Pelo amor de Padim, salva minha família!"

Zé fez um sinal para que Mara aguardasse, então se desvencilhou dos braços de Emiliana e a fitou nos olhos. "Sua família tá te esperando lá embaixo, Emiliana, mas não posso ficar com vocês. Vou atrás desse Chicó e de Severino Barriga D'Água!"

"Não vá", a jovem suplicou. "Por favor, Zequinha, não sei o que fazer!"

"Não sou mais Zequinha, agora sou Zé Calabros!", ele disse num tom sério e firme. "Lembra do que você me dizia, quando cheguei aqui, sozinho e sem família?"

A moça o fitou desamparada e hesitante, não conseguiu se lembrar das palavras.

"Você falava: 'se levanta, que a dor vai passar! Se levanta, que o medo vai embora!'. Lembra-se?", ele então se abaixou para pegar os revólveres de Mão Santa. "Você já sofreu muito pra proteger sua família, Emiliana, mas ainda não acabou. Você é forte, sua força vem de berço. Você é filha do coronel, é da família de São Silvério! Tá no seu sangue!"

Dito isso, ele removeu as balas de um revólver e o guardou na calça, depois completou o tambor do outro e o estendeu a ela.

"O que você vai fazer da vida amanhã, se quer seguir os passos do seu pai, não sei", ele disse, fitando-a determinado. "Mas hoje, você não tem escolha. Hoje, você vai ser a guardiã da sua família! Encontra sua força, Emiliana, se levanta!"

Assustada, ela hesitou a princípio, mas depois respirou fundo, limpou as lágrimas e pegou o revólver com firmeza. "Eu sou a filha mais velha...", murmurou, então recitou palavras de uma jura: "Coronel, como meu pai. Silvério, como meu ancestral". O juramento da família.

"Fica aqui, protege sua família. Eu sei que consegue", Zé Calabros a encorajou. Em seguida, deu as costas a ela e se voltou a Mara'iza. "Bora lá pra baixo, Malinha, que agora tô ainda mais cabreiro!"

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A avenida se enchia de feridos e mortos, e as construções que a margeavam foram reduzidas a ruínas. A carruagem de guerra tinha recuado para a rampa da casa-grande e ali permanecia vigilante. Na ponta oposta, do alto de sua varanda, Capa-jegue lançava saraivadas de balas ao menor sinal de atividade nas bordas da devastação.

A batalha agora se dispersava pelas vielas, onde guardas e bandidos trocavam tiros. Perdida a vantagem dos números, a tropa dos coronéis estava desmoralizada, e muitos homens, feridos e desesperançados, tentavam desertar. Os capitães sobreviventes tentavam mantê-los unidos, e assopravam seus apitos na esperança de reunir mais guardas desgarrados.

"Esta é nossa última cartada, homens!", urrou o Coronel Garrancho, apontando a espingarda na direção em que deveriam seguir. "Se escalarmos os muros da casa-grande, ainda teremos chance de vitória!"

Os capitães instilavam esperança na tropa remanescente, apenas uma fração da força original. "Pela Cornália! Por nossas famílias!", gritavam, conforme instruções do coronel.

Era uma tática arriscada, mas se tivessem êxito, flanqueariam o bando inimigo e conquistariam o topo da cidade. "A máquina infernal não importa, está aqui apenas para impedir nosso avanço! Conquistando o platô, os cangaceiros serão forçados a recuar! Em frente, pela Cornália!"

Com os jagunços e guardas, ele investiu pela viela e chegou à rua que margeava o muro de arrimo. Imediatamente, deram de cara com oposição: do platô, um bando de cinco cangaceiros começou a atirar. Logo, outros dois grupos de igual tamanho vieram para auxiliar na defesa.

"Não desistam!", Garrancho bradou. Com um tiro de espingarda, atingiu em cheio um dos bandidos. "Nós somos cornos! E o que o corno é?"

E os homens urraram no meio do tiroteio: "Cabra-macho! Casca-grossa! Pica-grande!".

A força do coronel tinha pelo menos o dobro do número de defensores, mas o terreno a desfavorecia. Protegidos pelas muretas no alto, os cangaceiros contra-atacavam com facilidade e só precisavam abaixar para recarregar suas armas em segurança.

Dois, três, cinco atacantes tombaram. E então uma esfera explosiva foi arremessada do alto do muro. A detonação matou meia dúzia de homens e feriu vários outros.

Ferido, Garrancho foi jogado ao chão, mas se reergueu, ignorando a dor dos ferimentos. "Não desistam!", insistiu, mesmo vendo seus homens tombarem um após o outro. "Pela Cornália, pela família, por Padim! NÃO DESISTAM!"

Mais dois cangaceiros morreram na troca de tiros, mas eles não cediam. Estavam confiantes, já se sentiam vitoriosos. Ignoravam os jardins da casa-grande, porém, e deixaram a retaguarda desguarnecida.

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Zé e Mara vieram dos fundos, esgueirando-se ao redor da casa até alcançarem os jardins dianteiros. Dali, observaram a movimentação inimiga.

"Acho que já vi aquele cabra em algum lugar", Zé apontou para Capiroto, que comandava a tropa do alto da rampa. "E que arma esquisita é aquela na mão dele? Pra quê um cano daquele tamanhão?"

Mara'iza não respondeu, avaliava a força inimiga. Notou que os bandidos se distribuíam em grupos de três a cinco homens, cada qual responsável por uma extensão da mureta. Três desses grupos, doze homens no total, se ocupavam atacando uma força abaixo. "Ali é o ponto fraco", ela apontou. "Cuide do grupo mais à esquerda, deixe os outros comigo."

Zé contou os bandidos do grupo indicado. "Mas são só quatro pra eu bater!", resmungou inconformado.

"Faça o que estou pedindo, seu turrão! Eu tenho um plano!", ela retrucou com cara de desaprovação. Logo, sacou a adaga e correu na direção do grupo do meio.

Zé também se arremeteu à frente, ultrapassando-a facilmente. "É agora que o pau vai comer!"

Durante a investida, Mara'iza gesticulou o primeiro feitiço, e uma redoma intangível e translúcida se formou sobre os cinco homens do grupo da direita.

Mais veloz do que ela, Zé Calabros alcançou o grupo da esquerda. Com o impulso da corrida, meteu o pé nas costas de um dos cangaceiros, lançando-o para a rua abaixo. Engalfinhou-se então com os outros, incapacitando-os rapidamente.

Os três homens do grupo do meio apontaram as armas para Zé. Foi quando, num lampejo, Mara'iza surgiu entre eles e, erguendo a mão ao alto, conjurou uma explosão de setas luminosas. Os projéteis voaram em todas as direções, atingindo e nocauteando os malfeitores.

O grupo da direita nem teve tempo de reagir. Antes que compreendessem a situação, os cinco cangaceiros desapareceram em lampejos e ressurgiram em pleno ar, do outro lado da mureta. A violenta queda de quatro metros os tirou de combate.

"Cessar fogo!", Coronel Garrancho ordenou lá embaixo, mas a tropa dele ficou tão pasma diante da cena que a ordem era desnecessária. "Padim seja louvado, são Zé e Mara!".

Em cima, Zé e Mara se fitaram, ambos com sorrisos orgulhosos. "Nada mal", ele disse. "Bateu no dobro d'eu!"

"Tudo o que você faz, eu faço melhor, lembra?", ela disse jocosamente.

Contudo, o momento foi interrompido pela aproximação de inimigos. "Agora eu acabo contigo, Zé Calabros!", Capiroto berrou furioso. Chegando perto o suficiente, ele e nove capangas pararam para apontar armas.

Mara'iza estendeu a mão à frente, conjurando um escudo translúcido para se proteger.

Capiroto e os cangaceiros apertaram os gatilhos. A saraivada de balas foi acompanhada pelo bólido flamejante do dracamarte.

"Malinha!", Calabros a alcançou num piscar de olhos. Agarrou-a nos braços e saltou com ela para a rua abaixo. Antes que tocassem o chão, o bólido explodiu contra a mureta. O pouso foi violento, mas Zé amorteceu a queda dela.

Atordoada, Mara'iza rolou para o lado. "As chamas me engolfariam!", ela desabafou assustada ao ver a bola de fogo acima. "Como soube que a arma dele faria isso?"

"Eu não sabia", ele respondeu, levantando-se num salto. "Foi puro instinto."

"Mara'iza! Zé Calabros!", Garrancho correu para socorrê-los. Estendeu a mão a ela, ajudando-a a se erguer.

Foi quando Capiroto surgiu no alto do muro, seus homens vindo logo atrás. "Vocês vão tudo pro inferno!", gritou ao fazer mira.

"O diabo quer é você, fela-d'égua!", Zé se moveu no impulso, sacando o revólver que tomara de Mão Santa e arremessando-o com força no bocal alargado do dracamarte, onde entalou.

O impacto desviou a mira de Capiroto, fazendo-o puxar o gatilho, e a arma, com o cano bloqueado, explodiu violentamente pela culatra. A conflagração súbita consumiu os cangaceiros acima, e a onda de choque lançou Coronel Garrancho e Mara'iza de volta ao chão.

Zé Calabros firmou os pés, protegeu os olhos e resistiu à força da detonação. "Eu falei que tava cabreiro", cuspiu para o lado, "e quando tô cabreiro, até o capeta sai da frente!".

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Capa-jegue viu a explosão. Alarmado, apontou a torreta naquela direção e disparou rajadas fragorosas de balas, abrindo rombos e rachaduras profundas no muro de arrimo. Assim, impediria que os inimigos escalassem o muro.

"Recuem!", Coronel Garrancho ordenou aos homens, então puxou Zé e Mara'iza com ele para as vielas.

"Céus, o que é isso?", ela perguntou.

Garrancho só parou para explicar após alcançarem uma encruzilhada de becos. "É mais uma das máquinas infernais deles!"

Lá atrás, a intervenção de Capa-jegue deu oportunidade para os defensores do platô se reorganizarem, e uma nova leva de cangaceiros arremessava esferas explosivas para baixo.

"Teremos de encontrar outro modo de subir", lamentou Garrancho.

"Explique a situação", pediu Mara'iza. Ela então notou que perdera a adaga quando foi salva por Zé. Fechou os olhos, concentrando-se, tratou de fazer a arma ressurgir em suas mãos. Acalmada, retomou a discussão: "Onde estão Meneses e Malícia?".

Garrancho se apoiou na parede, limpou o suor da testa e tomou fôlego. "Não sei se estão vivos. A última vez que vi André, ele estava do outro lado da avenida. Não dá de atravessar aquilo lá, os engenhos de guerra são muito perigosos."

"E Malícia?", ela insistiu.

"Foi atrás de Severino", respondeu, atraindo a atenção de Zé. "O desgramado não estava aqui em cima, atacou a tropa por trás. Imagino que ainda estão se enfrentando lá embaixo, senão algum deles já teria vindo pra cá."

Mara'iza percebeu a ansiedade de Zé. "Vá atrás de Severino, ogro idiota. Das máquinas de guerra, cuido eu."

Ele a fitou de volta. "Não vou te deixar sozinha aqui! Além dessas máquinas da moléstia, ainda tem um monte de cangaceiro sobrando!"

"Coronel Garrancho manterá os bandidos ocupados", ela insistiu. "Vá, encontre Severino. Se ele vir para cá, nossos problemas se multiplicarão."

"Tá bem, você tem razão", ele cedeu. Fez menção de partir, então hesitou, tocou-a no ombro e a fitou nos olhos. "Toma cuidado, Mara'iza."

"Você também, Carábu'ros-san", ela sorriu. "Quebre a fuça dele!"

Zé Calabros então partiu, sumindo na encruzilhada seguinte.

Mara, por sua vez, suspirou profundamente. Sentia tristeza e medo ao vê-lo ir. "Coronel, fale-me a respeito dessas máquinas de guerra. Quantas são, onde estão, o que fazem. Eu as destruo para você!"

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Um pouco abaixo na cidade, no labirinto de vielas, as forças da Coronel Malícia se espalhavam para cercar Severino, mas ele se provara uma presa elusiva.

Um tiroteio eclodira por perto, e Malícia e seus jagunços correram naquela direção. Chegaram tarde, porém. Encontraram apenas corpos espalhados por uma escadaria. Seis homens, todos abatidos por tiros de revólver e golpes de facão. Já era o segundo grupo que encontravam naquele estado.

"Desgraça!", a Coronel Malícia praguejou. "Ele tem que tá perto, os tiros pararam não faz nem um minuto!"

"Coronel", disse o jagunço ao lado, um dos quatro que a acompanhavam. "Tamos sendo caçados aqui, a gente devia voltar pra tropa!"

"Fecha o bico, seu frouxo", ela o interrompeu. "Severino é um cabra só, isso aqui é só questão de tempo! Uma hora ele vai levar bala, nem que seja de acidente, daí acabou pra ele!"

Mais tiros ecoaram, mas logo foram interrompidos. A eles, se seguiu o som de um apito solitário pedindo por reforços.

"O tiroteio parou e tem um sobrevivente! Será que pegaram o danado?", Malícia se questionou, então se pôs a correr na direção do chamado. "Bora, cambada!"

Os cinco subiram a escadaria, seguiram por um corredor estreito e alcançaram a avenida. O apito vinha dentre as casas do outro lado. Adiante, atravessando a via, outros oito guardas também atendiam ao chamado. O grupo fez uma breve pausa ao notar a presença de Malícia e dos jagunços, mas continuaram a travessia ao identificarem a coronel.

"Espera, patroa!", um jagunço segurou Malícia pelo braço antes que ela deixasse o beco, "Tem algo errado!". Infelizmente, os outros três só desaceleraram quando já estavam expostos.

Era de fato uma armadilha, quem soprava o apito era o próprio Severino. Da janela de uma casa, ele saltou entre os guardas na avenida, revólver numa mão e facão na outra.

Imediatamente, os guardas atiraram, e os que portavam garruchas sacaram facões após o primeiro disparo. Malícia e o jagunço ao seu lado apontaram as espingardas, mas os guardas no caminho impediam a mira.

O Rei do Cangaço dançava intocável entre os oponentes e contra-atacava habilmente a cada giro ou gingado. Rasgou o bucho do primeiro, cortou a garganta do segundo. Ao mesmo tempo, com o revólver, atirou contra a testa do terceiro.

Os homens se desesperaram, atrapalhavam a mira uns dos outros. Os três jagunços expostos na avenida recuaram para o beco. No meio da fuga, um levou um tiro no peito, outro foi baleado na nuca, ambos se estatelaram ali mesmo. O terceiro conseguiu se proteger.

Severino Barriga D'Água se movia como um relâmpago. Decepou o braço do quarto guarda, cortou a veia da perna do quinto, rolou no chão e descarregou o revólver contra os outros três.

Quando o último dos guardas tombou, Malícia e os dois jagunços restantes atiraram, mas o Rei do Cangaço evitou os tiros, saltando, rolando e correndo de volta para a esquina mais próxima, do lado oposto da via.

Malícia e os jagunços recarregaram as espingardas. Abrigando-se no beco, ela pegou o apito e assoprou-o, chamando por mais reforços.

Protegido detrás da esquina, Severino embainhou o facão e recarregou o revólver. "Esse apito de nada vai adiantar, coronelinha!", gritou, "Seus homens já morreram todos, teve uns que nem tiveram chance de atirar! Agora vai ser só eu e vosmecê."

"Ela não tá sozinha!", um jagunço retrucou, mirando para disparar a espingarda assim que Severino mostrasse a cara.

"Vosmecê não é nada, traste, capa o gato, some da vista!", Severino ordenou. "Cansei de matar pau-mandado, mas se ocês quiserem morrer, então lhes presto o favor com muito agrado!"

"Fica todo mundo aqui, junto, deixa ele vir até a gente", Malícia sussurrou aos subalternos. "Muita atenção e armas prontas, pra modo de furar o desgraçado!"

Com um sorriso no rosto, Severino guardou o revólver e puxou a espingarda das costas. "Vosmecê não se avexe, Malícia, que não vou emboscar ocês", bradou, "Cansei de brincadeira, quando eu aparecer, vai ser desta esquina aqui, cara a cara".

"Então mostra a fuça, filho duma égua!", ela retrucou. Manteve-se detrás da parede, vigiando a retaguarda, enquanto os dois jagunços, o primeiro em pé e o outro ajoelhado, faziam mira na direção do cangaceiro.

"Vosmecê é mulher-macho, boa de briga, mais braba que muito cabra por aí", o Rei do Cangaço falou alto, quase gritando. "Veio aqui pra matar ou morrer, né não?"

"Vim pra te matar!", ela respondeu.

"Acredito. Mas por mais casca-grossa que seja, vosmecê tem um menino, não tem?"

"Não põe meu filho nessa conversa, desgraçado!"

"Ouvi histórias", Severino provocou. "O pai foi um dos cabras que enfrentou Tibúrcio, não foi? Dizem por aí que é aquele trovador, o que tem fama mundo afora! Vosmecê se deitou com ele, daí foi largada."

"Não me fale daquele traste!", ela gritou furiosa. "Bora resolver nossa peleja, covarde!"

"A coronelinha veio aqui pra matar ou morrer, mas não é que nem eu", disse Severino. "Vosmecê tem uma vida, Malícia, e tem medo da morte. Essas duas coisas abandonei faz muito tempo!"

E dito isso, o Rei do Cangaço deixou a proteção da quina. Foi tão veloz, que seu tiro varou o olho do primeiro jagunço antes dele reagir. No mesmo impulso, Severino se jogou no chão, evitando o disparo do outro jagunço, e rolou para o meio da avenida. Ali, se levantou num pulo e, mesmo exposto, recarregou a arma.

O jagunço restante, de joelhos, também recarregou, mas não tão veloz.

Malícia se expôs na esquina e disparou.

Num só movimento, Severino moveu para o lado, esquivando-se da bala, e disparou no homem ajoelhado. A bala varou-lhe a cabeça, espalhando os miolos na parede posterior.

Malícia recuou para trás da quina. Com as costas contra a parede, recarregou a espingarda.

Severino também pôs mais uma bala na arma e, antes que a coronel se expusesse novamente, disparou.

Malícia sentiu uma pontada aguda nas costas e cuspiu sangue. A bala atravessara a quina da construção, passando por duas paredes de alvenaria, e penetrou-lhe o pulmão. Com dor intensa, a coronel largou a espingarda e caiu sentada.

"Vosmecê tá entendendo a diferença entre a gente, Malícia?", Severino recarregou a arma e deu um passo na direção dela. "Nasci pra matar, treinei pra matar, vivo pra matar. Quando quero alguém morto, faço o impossível!"

Adelina Malícia não conseguia respirar direito. As pernas fraquejaram. Não podia fugir.

"Eu já atirei muito", Severino prosseguiu, caminhando a passos meticulosos. "Já baleei coisa, bicho e gente. Dez mil tiros, se não mais, até aprender a ver pelos olhos da arma. Basta eu decidir quem vai morrer, Malícia, que a bala me obedece!"

A coronel cuspiu mais sangue. Estava condenada, mas não morreria sem luta. Sacou o revólver e esperou que ele atravessasse a esquina.

"E nada encosta em mim sem eu deixar, aprendi a fechar meu corpo", ele deu mais alguns passos, espingarda firme nas mãos. "Quando tô lutando, minha cabeça se esvazia, o mundo fica vermelho, ouço o coração do inimigo me chamar. Eu viro a morte em pessoa, sem medo, dor ou misericórdia!"

A visão de Malícia ficou turva. A mão tremia ao segurar o revólver. Pediu a Padim que pelo menos guiasse sua bala.

Ele estava cada vez mais próximo. Logo, a quina da parede não mais a protegeria, então daria um último tiro, certeiro e mortal. "Tô aqui pra salvar essa terra, Malícia", ele gritou, cheio de raiva na voz. "É meu destino, ocês não vão me parar!"

Restavam dez passos. Nove, oito, sete...

"Eu sou Severino, filho do Barriga D'Água, Rei do Cangaço! E ninguém, homem ou deus, fica no meu caminho e vive pra contar a história!"

Seis, cinco passos... E então um brado furioso os interrompeu.

"SEVERINO!!!", urrou Zé Calabros ao surgir na avenida, quarenta metros atrás do malfeitor.

O Rei do Cangaço se virou surpreso para o recém-chegado. "Finalmente, vosmecê deu as caras!"

A seguir: O testemunho de um milagre

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Zé Calabros na Terra dos Cornos
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As Crônicas Anímicas

© 2016 Tiago Moreira