Capítulo 20: O testemunho de um milagre

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Mara'iza parou no limiar das moradias arruinadas, protegida pelas paredes que ainda restavam em pé. Do outro lado da avenida, observava o sobrado alto, de cuja sacada uma arma monstruosa lançava saraivadas de morte abaixo.


Respirando fundo e segurando com firmeza a adaga, Mara tomou coragem: "Ancestrais, olhem por mim, ponham-me à prova, e os farei orgulhosos!". Então, deixou as ruínas e apressou-se em atravessar a avenida.



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Do alto da sacada, Capa-jegue vigiava o conflito. A avenida estava desolada, recoberta de mortos e feridos. Dos becos, fumaça e barulho denunciavam os tiroteios esparsos que ainda ocorriam.


Capa-jegue manteve a torreta de tiros voltada para a direita. Fora naquela direção que os invasores atacaram os muros da casa-grande, e o cangaceiro estava certo de que dali viria a ofensiva dos coronéis. "Aparece, bando de cagão!", resmungou ansioso. "Mostra as fuça pr'eu mandá bala nocês!"


Três cangaceiros dividiam o andar com ele. Dois mantinham vigilância no interior, para evitar ataques pela escada de acesso. O terceiro, entediado, estava ali na varanda, quando apontou para fora e alertou: "Chefe, ali!".


O visor no escudo da torreta limitava a visão, e Capa-jegue teve de esticar a cabeça para fora. Dos becos à direita, viu surgir uma moça jovem e baixa, de cabelos negros e vestido esfarrapado. "É a feiticeira!", concluiu, "E a danada tá vindo pra cá!".


O capanga não perdeu tempo: mirou a espingarda e disparou.


Capa-jegue, por sua vez, apontou a torreta e, girando a manivela, fez chover sobre a moça uma tempestade de balas.



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Ao ver as armas serem apontadas, Mara'iza ergueu a mão à frente e, formando o escudo translúcido para protegê-la, avançou sob a intensa saraivada até alcançar a distância necessária. Então, de repente, a moça desapareceu num lampejo e ressurgiu na sacada, entre os atiradores.


Surpresos, os dois cangaceiros tomaram um instante para reagir. A torreta de tiros era grande, pesada e desajeitada demais para combate corpo a corpo, então Capa-jegue sacou o revólver. Já o capanga, após atirar inutilmente para fora, se virou assustado e recarregou a espingarda.


Mara'iza saltou para a sala adjacente, afastando-se dos oponentes, e conjurou duas lanças arcanas. Uma explodiu contra o peito do capanga, lançando-o para fora da sacada. A outra atingiu Capa-jegue na face, derrubando-o e fazendo-o largar a arma.


Os outros dois cangaceiros vieram atirando dos cômodos interiores.


Por instinto, a magista ergueu a mão, e as balas ricochetearam contra a barreira translúcida que se formou. Em seguida, com um gesto rápido, mais duas lanças cintilantes saltaram da palma dela e explodiram contra os adversários, nocauteando-os.


Mara parou para retomar o fôlego. Embora não tão cansada como de costume, cinco feitiços complexos em rápida sucessão ainda tinham seu preço. Vasculhou por sinais de mais inimigos, mas ignorou que nem todos os caídos estavam fora de combate.


Com a face ensanguentada e ainda um pouco aturdido, Capa-jegue veio da sacada, brandindo furiosamente o facão. "Eu vô te furá, bruxa magrela!"


Surpreendida, Mara'iza usou a adaga para bloquear o ataque do facão, mas o impacto quase a desarmou e forçou-a a recuar. "Suas armas falharam, parvo inábil", ela provocou, "acha que terá êxito com um pedaço de metal? Isso é perseverança ou burrice?".


"Isso é lealdade ao meu capitão!", ele gritou, desferindo novo golpe. "Vida e morte, Severino!"


Ela ergueu a mão, e uma bolha cintilante a envolveu e explodiu, desviando o facão e afastando o bandido. "Não preciso de feitiços complexos para eliminar uma pulga", sorriu sobranceira.


Capa-jegue recuou cambaleante, mas logo recuperou o equilíbrio e se arremeteu contra ela.


Mara'iza apontou a palma, e uma seta cintilante saltou, explodindo no peito do bandido e lançando-o de volta ao chão.


Apesar de caído e aturdido, Capa-jegue tentava futilmente se erguer. "Vou acabar contigo...", rosnou em meio aos gemidos de dor.


Mara se aproximou, gesticulando o mesmo feitiço. "Você tem perseverança, admito", disse, "mas isso não o torna menos facínora, nem menos tolo". Em seguida, nocauteou-o com uma nova seta arcana.


Com o oponente fora de combate, Mara'iza parou novamente para acalmar o coração palpitante e recuperar a compostura. Após alguns segundos de descanso, dirigiu-se à sacada, de onde viu o desafio derradeiro: a carruagem de metal e chamas, estacionada na rampa para a casa-grande, a uma centena de metros dali.


"Façamos um experimento", Mara refletiu. Segurou a torreta de tiros, apontou-a para o veículo monstruoso e levou a mão à manivela. "Veremos se esta arma estrambótica consegue penetrar a carapaça daquele engenho infernal!"



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Zé Calabros cerrou os punhos e manteve as pernas flexionadas, prontas para uma arremetida.


Severino Barriga D'Água deu alguns passos à frente.


Ambos se encaravam, um analisando o outro, aguardando o momento do ataque. Embora separados por quarenta metros de avenida, estavam prestes a se colidir.


Sob o sol da manhã, o Rei do Cangaço projetava uma longa sombra chifruda, e os óculos brilhavam intensamente, como se ardentes de ódio. "Tenho que admitir, Zé Calabros", o bandido elevou a voz, "admiro sujeito ajegado que nem vosmecê! Vou te dar morte digna de cabra-macho!".


"Então, deixa de ser covarde!", Calabros retrucou, apontando na direção do cangaceiro. "Larga essa arma e me enfrenta que nem homem!"


"Covarde não sou, mas também não sou burro!", disse Severino. Manteve a espingarda baixa, sem apontar, mas ainda assim preparava a mira, fitando a testa do adversário. Já sabia de antemão o trajeto da bala, só precisaria de uma fração de segundo para erguer a arma e dispará-la. "Vosmecê fez o desafio, eu escolho como vou lutar!"


Zé sabia que a distância o deixava em desvantagem. Para salvar Coronel Malícia, que agonizava fora de vista, tivera de se revelar antes que chegasse mais perto. "Então, fica com a espingarda, mas esteja avisado: quando te alcançar, vou te enfiar essa coisa no rabo!"


"Hehahahaha!", o Rei do Cangaço riu desdenhoso. Dali, podia ouvir o coração do adversário, sentir sua respiração, medir sua tensão. Era sempre assim antes de tirar uma vida, mas então percebeu algo diferente. Não conseguia farejar medo. "Vosmecê é que nem eu", o cangaceiro se conteve, perdendo o sorriso. "É cabra matador!"


Calabros também estava no transe que precedia uma luta. Para ele, o resto do mundo estava silencioso e lento. Apenas o inimigo importava, e Zé percebia cada pequena ação dele, inclusive o olhar fixo de matador. "Eu não sou como você, desgraçado, não vim pra matar", retrucou num murmúrio para si mesmo. "Tô aqui pra proteger."


Eis que, num movimento rápido, Severino Barriga D'Água ergueu a espingarda e, alinhando-a perfeitamente à mira, puxou o gatilho.


No mesmo instante, Zé Calabros se curvou para trás e se jogou para o lado. A bala passou por ele, resvalando-lhe na cabeça e abrindo um rasgo superficial, mas sangrento. Só então ouviu o estampido do disparo.


Ao notar o sangue espirrar, Severino chegou a baixar a guarda, crente de que o duelo se encerrava. Percebendo, porém, que o adversário ainda vivia, recarregou e mirou.


Concluindo a acrobacia evasiva, Zé correu para o beco mais próximo, mas o segundo disparo veio antes que alcançasse abrigo. Calabros se jogou ao chão, evitando a bala, e rolou para trás da esquina. Levantou-se e seguiu ruela adentro, afastando-se da avenida. O sangue do ferimento escorria-lhe na face, mas concentrava-se na luta. Precisaria encontrar uma forma de alcançar o Rei do Cangaço sem ser alvejado.


Severino Barriga D'Água, perdendo o oponente de vista, recarregou a espingarda e recuou para o lado oposto da avenida, ganhando distância. Manteve a arma apontada para os becos, de onde o adversário teria de surgir. "Aparece, desgraçado", murmurou, sorrindo cruelmente. "Que te meto umas dez mil balas antes d'ocê chegar em mim!"



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Mara'iza avaliava a torreta de tiros, tinha visto-a ser usada por apenas um instante. "Acho que é assim", segurou firme a manivela. Primeiro tentou puxá-la, sem sucesso, depois empurrou-a. A moção inicial exigiu força, mas o movimento, uma vez iniciado, não exigia esforço para ser mantido.


A arma tremeu toda em resposta, e os canos à frente giraram, lançando uma torrente de balas contra a carruagem de guerra.



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"Que diabos é isso?", Chassi de Grilo se assustou diante do súbita saraivada que atingiu o veículo. A fusilagem frontal empenava diante dos impactos potentes, e algumas balas chegaram a transpassar a blindagem.


"Capa-jegue ficou louco!", gritou Chicó, que observava o exterior pelo periscópio. "O idiota tá atirando na gente! Estoura o desgraçado, Grilo!"



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Daquela distância, Mara'iza não tinha certeza se causava estragos na carruagem de guerra, mas não teve dúvidas de que chamara a atenção dos ocupantes. O veículo não se moveu, mas seu canhão se ajustou, apontando para a posição dela. Alarmada, a moça largou a arma e transportou-se num clarão de luz para a avenida abaixo.


O disparo veio logo em seguida, e todo o segundo andar da casa foi aos ares. Pedaços de alvenaria se precipitaram sobre a avenida e as construções próximas.


Mara'iza ergueu o braço ao alto, e o escudo arcano a protegeu dos destroços. Respirando fundo, ela considerou suas opções. A torreta fora eliminada conforme o esperado, mas não tinha ideia de como destruir a carruagem. "Talvez seja hora de parar de pensar e de hesitar", murmurou.


A monstruosidade mecânica ajustou o canhão de novo, mais uma vez mirando a magista.


Caminhando lentamente na direção da máquina, Mara'iza pôs a mão à frente e, desafiadora, fez sua voz ecoar como um trovão. "Não sei quem é o covarde que se esconde nessa aberração de metal, mas de uma coisa tenho certeza: falta-lhe brio para sair e enfrentar uma garotinha!"



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Chicó Matador ficou furioso com a provocação. "Atira nela, idiota!", ordenou a Chassi de Grilo, enquanto despejava mais flebótino no mecanismo de alimentação da máquina.


"Tô tentando mirar, comandante!", o subalterno retrucou. "Mas é um alvo muito pequeno, e tá longe, em campo aberto!"


"Usa a outra munição, seu lesado!", Chicó mandou, apertando o botão de ignição e puxando alavancas. "Deixa ela ocupada, que eu atropelo a moleca!"



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A carruagem de guerra produziu uma buzina intensa. Línguas de fogo saltaram das válvulas traseiras, e o motor rugiu ao ganhar força. Só então o canhão disparou, mas, ao invés de uma bala sólida, o que saiu do cano foi uma profusão de pelotas incandescentes que se pulverizou por toda a área.


O escudo arcano se formou diante da magista, protegendo-a da chuva de fragmentos. "Eu sou Atsumi Mara'iza, sam'rai da terra de Gaz'zira!", o urro dela troou. "E se você não pretende sair, poltrão, então terei de arrancá-lo à força!"


Em resposta, a carruagem de guerra buzinou novamente e se moveu, avançando em rápida aceleração.


Mara'iza apressou o passo e correu de encontro à monstruosidade mecânica. Com o veículo se aproximando rapidamente, conjurou duas lanças cintilantes. Os disparos arcanos explodiram contra a frente da carruagem sem causar danos, e a máquina continuou o avanço desimpedida. Para evitar a colisão, a moça se teletransportou para além do veículo.


Os ocupantes não esperavam o desaparecimento súbito do alvo. Tentaram manobrar meia-volta, e a máquina se chocou contra as construções à margem da avenida. Ao invés de parar, porém, a monstruosidade mecânica abriu um caminho de destruição, sumindo na nuvem de poeira e detritos que se erguia em sua passagem.


Mara'iza aproveitou a breve trégua para recuperar forças, sabendo que a carruagem logo retornaria.



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"Agora, homens!", gritou o Coronel Garrancho assim que a máquina de guerra desguarneceu a rampa da casa-grande. Ao comando, a tropa deixou os becos e entrou em combate com os cangaceiros que ainda defendiam o platô.


Do alto dos muros de arrimo, os bandidos alvejavam a massa de guardas que se aproximava. Vários dos homens de Garrancho tombaram, mas a vantagem numérica os permitiu conquistar a rampa.


Da retaguarda, o coronel gesticulava e gritava ordens: "Tomem o platô e vigiem os becos! A vitória está próxima!"


Do lado oposto da avenida, mais guardas surgiram das ruelas, juntando-se à tropa invasora. Entre eles, veio o próprio André Meneses que, com o braço esquerdo, contentava-se em empunhar revólver. "Coronel Garrancho!", chamou ao se aproximar.


"André, graças a Padim você está bem!", o coronel foi ao encontro dele, acompanhado por alguns guardas e jagunços. "Seu pai não me perdoaria se algo acontecesse a você! Acompanhe a tropa, tome o platô! Vou ajudar nossa amiga!"


"O que podemos fazer contra aquela coisa dos infernos?", André perguntou.


"Contra a máquina, não sei", o coronel respondeu. "Mas vou assegurar que nenhum bandido apareça pra atrapalhar Mara'iza!"


André meneou a cabeça e avançou para a rampa, assumindo a liderança da invasão.


Garrancho e seus homens seguiram para as ruínas marginais. Ao mesmo tempo, adiante, a carruagem de guerra retornava à avenida, ressurgindo explosivamente dentre as construções.



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Zé Calabros correu pela viela e virou à esquerda na primeira esquina. Seguiu junto à casa mais próxima e, encontrando a porta dos fundos, arrombou-a sem dificuldades.


A casa era grande, de um único andar. Três ambientes, cozinha, sala de jantar e a antessala para a avenida, dividiam o longo e largo salão. Ao ver o invasor, um pai de família, armado apenas com uma vassoura de palha, pôs-se entre Zé e sua família. "Não faz mal pra gente, moço!", o homem implorou.


"Desculpa pela invasão, não vou machucar ninguém", Zé o acalmou, então se pôs atravessar o salão, rumando para a frente da casa. Ao passar pela família acuada, porém, parou e se aproximou. Do embornal, retirou várias moedas e estendeu-as ao pai da família.


"Pra quê isso?", o homem perguntou intrigado.


"Pra lhe compensar os estragos", Zé retrucou. "E também quero a vassoura."


O sujeito hesitou, mas pegou as moedas. Sua família passava necessidade.


Zé tomou a vassoura e, batendo-a contra a coxa, partiu o cabo em duas metades pontiagudas. Depois, apressou o passo, rumando para a dianteira da casa.



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"Aparece, Zé Calabros, ou vou ficar enfastiado!", Severino gritou impaciente. Irritado com a demora, recuou um pouco mais, para pôr Coronel Malícia na linha de tiro.


Adelina Malícia ainda estava caída do lado oposto da rua, na mesma ruela em que fora alvejada. Devido ao sangramento, perdera a consciência e largara o revólver.


O Rei do Cangaço sorriu ao vê-la indefesa. "Se vosmecê não mostrar a fuça, desconto a raiva na coronelinha!", ameaçou aos gritos. "Vou contar até três!"


Não houve resposta imediata, porém.


Severino preparou a espingarda para disparar assim que o oponente aparecesse. "Um...!", iniciou a lenta contagem. "...Dois...!"


Foi quando Zé Calabros surgiu, não das vielas como o cangaceiro esperava, mas arrebentando, com um salto, a janela de uma casa.


Surpreendido, o Rei do Cangaço disparou, mas atingiu apenas o braço direito do oponente.


No mesmo impulso, Zé caiu, rolou na avenida e se ergueu subitamente. Arremetendo-se na direção do cangaceiro, arremessou a metade da vassoura com as cerdas de palha.


A arma improvisada voou aos rodopios na direção do Rei do Cangaço. Severino evadiu o ataque facilmente, atrasando seu contra-ataque, mas logo recarregou a espingarda, mirou a cabeça do inimigo e disparou.


Sem parar a investida, Calabros girou o corpo, ajustando sua posição para evitar a bala. No mesmo movimento, arremessou a outra metade da vassoura como se fosse uma lança.


Jogando-se para o lado, o Rei do Cangaço evitou por pouco o projétil, que cravou violentamente na parede posterior. Mais uma vez atrasado pelo ataque, Severino recarregou e apontou.


Era tarde demais, contudo. Alcançando-o, Zé Calabros agarrou a espingarda com a mão esquerda, desviando o disparo um instante antes do gatilho ser apertado. O estampido ecoou, e no mesmo instante Zé, com a mão direita, golpeou a face de Severino, quebrando-lhe os óculos.


Empurrado pelo impacto, Severino largou a espingarda e bateu as costas contra a parede. Vendo Calabros atacar novamente, o Rei do Cangaço se jogou para o lado, e o punho do adversário rachou a alvenaria ao invés de sua cabeça.


Zé pressionou o ataque, mantendo o bandido próximo a ele. Sem largar a espingarda, voltou a golpear com a mão livre.


Severino se esquivou mais uma vez, então se afastou da parede para poder recuar. Quando Calabros avançou novamente, o cangaceiro sacou o facão. A lâmina traçou um arco ascendente, rasgando o peito do oponente.


Zé interrompeu a investida e recuou num pulo, evitando que o ferimento fosse profundo. Ainda assim, seu sangue escorreu, e o embornal, com a alça cortada, caiu ao chão.


Severino retrocedeu aos saltos, golpeando várias vezes o facão contra o piso da avenida para levantar faíscas. "Vosmecê é forte!", cuspiu sangue, então encarou o oponente, revelando os olhos negros e cheios de ódio. "Mas é só mais um cabra no meu caminho! Já tá morto, só não sabe ainda!"


"Você tá certo", Zé disse. Limpou o sangue do rosto, cerrou o punho direito, segurou a espingarda como um porrete e flexionou as pernas para investir de novo. "Eu sou um homem morto, desde o dia em que você levou minha família!"


"Vosmecê tá aqui por vingança, não é?", o Rei do Cangaço sorriu com crueldade enquanto recuava defensivamente. "Mas não tem esse direito! Eu só igualei a gente, só te tirei o que a vida não me deu! Não te fiz nenhum mal que eu mesmo não sofri! Isso é justiça!"


"Não, isso é vingança, e vingança não é justiça!", Calabros retrucou, aproximando-se com igual cautela. "Justiça é te parar, seu fela-d'égua! É te impedir de machucar mais gente inocente! E é pra isso que tô aqui!"


"Não tem isso de gente inocente!", Severino riu. "Eu sou a justiça dessa terra, escolho quem vive e quem morre, e nada nesse mundo vai me parar! Já fui esfaqueado, baleado, envenenado, não tem nada que vosmecê possa fazer contra mim!"


"Eu posso meter a mão na sua fuça!", Zé se lançou sobre o adversário.


Severino sorriu vitorioso. Antes que fosse alcançado, sacou o revólver com a mão livre e disparou.



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Mara'iza cobriu os olhos para se proteger da poeira quando a carruagem de guerra reapareceu das ruínas.


O veículo logo perdeu velocidade, manobrando para virar-se para a menina. O canhão, porém, fez pontaria na direção da rampa da casa-grande, ajustando-se para disparar contra as tropas que tomavam o platô.


"Procurem cobertura!", Mara avisou com voz troante, logo antes da máquina disparar uma saraivada flamejante. A chuva de fogo despencou sobre uma vasta área, mas o aviso permitiu que muitos guardas se jogassem ao chão ou se protegessem detrás das muretas.


Logo após o tiro, a carruagem voltou a se arremeter contra a moça. Da caldeira, as válvulas lançaram jatos flamejantes, e o canhão se corrigia para apontar novamente para a frente do veículo.


"Preciso poupar magia", ela resmungou. Jogou-se para o lado, evitando ser atropelada. Tão logo o veículo passou, Mara conjurou um globo de energia prateada, que seguiu velozmente o engenho, acompanhando seus movimentos.


O monstro metálico manobrou uma meia-volta sem deixar a avenida, apenas resvalando nas construções marginais. Assim que se direcionou para Mara novamente, o orbe perseguidor atingiu-lhe a caldeira, causando uma forte explosão.



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"O que foi isso?", Chassi de Grilo se assustou com o estrondo.


"A danada tentou mais um truque dela", respondeu Chicó. "Mas não adianta, que nossa couraça não vai ceder! A caldeira é a parte mais resistente do engenho todo!"


"Ela tá na mira!", avisou o subalterno. "Que munição eu uso?"


"Tenta a bala comum, que a outra ela já mostrou que aguenta", Chicó ordenou. "Se acertar, vai despedaçar a desgraçada!"



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A orbe amassou a blindagem e desalojou algumas placas superficiais, mas não conseguiu penetrar as várias camadas da armadura.


"Como vou parar essa monstruosidade?", Mara'iza se questionou. Já ofegante, recuou alguns passos, mantendo-se voltada à máquina, com a mão estendida à frente.


Foi quando o canhão disparou. O escudo arcano se formou à frente da moça para interceptar o disparo, desta vez foi atingido não por fragmentos, mas por um projétil maciço. Embora indestrutível, a proteção não amorteceu totalmente o impacto, e a magista foi empurrada violentamente.


Mara caiu e rolou desajeitada, esfolando-se contra os ladrilhos da avenida. Atordoada, tentou se levantar, mas o corpo doía e a força falhava. Notando que largara a adaga, instintivamente estendeu o braço na direção da arma e a fez voar de volta para sua mão.


Foi quando soou a buzina monstruosa, e a carruagem se lançou furiosamente na direção da menina caída, expelindo jatos de fogo pela traseira.


"Mara'iza!", Coronel Garrancho gritou ao saltar das ruínas, correndo na direção dela. Não a alcançaria a tempo, contudo.


Com dificuldade para se erguer, zonza demais para se focar num destino de teleporte, Mara'iza apenas fechou os olhos e gritou: "Tempo!". Ao seu comando, o mundo ficou enevoado e inerte. O veículo, paralisado em plena investida, estava a menos de três metros de distância.


Com os segundos extras adquiridos, Mara rolou para fora do caminho do engenho. Sentou-se no pavimento da via para se recobrar e aproveitou o breve instante para perscrutar o maquinário de perto, à procura de um ponto fraco.


O fluxo do tempo se realinhou, retornando à normalidade, e a carruagem de guerra passou veloz. Mais uma vez, a máquina bateu contra as construções marginais, abrindo mais um rastro de destruição.


Coronel Garrancho alcançou Mara e estendeu-lhe a mão. "Você está bem?"


"Sim", ela se ergueu com o corpo dolorido e apoiou-se nele para tomar fôlego. Observou a poeira que se erguia detrás das construções, denunciando o iminente retorno do monstro mecânico. "A couraça daquela máquina é grossa demais, não consigo penetrá-la", resmungou.


"Anos atrás, Tibúrcio Mendes trouxe várias dessas coisas para a Cornália", Garrancho comentou. "Não sei como, mas os heróis daquela época as destruíram com espadas, magia e força bruta. Faziam parecer tão fácil!"


Mara'iza ficou pensativa, avaliando o que vira naquele breve momento de tempo dilatado. De repente, uma ideia veio-lhe à mente, e um sorriso orgulhoso se esboçou em sua face. "Creio que descobri a solução para este imbróglio!"


Foi quando a carruagem ressurgiu das ruínas, já manobrando para nova investida.


"Proteja-se, coronel", Mara'iza pediu, afastando-se dele e se pondo na direção da máquina. "Eu tenho um plano!"



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A bala atingiu-o no peito, mas Zé Calabros não cedeu. Ignorando o ferimento, bradou furioso e lançou-se sobre Severino, atacando com o punho direito.


O Rei do Cangaço evadiu o golpe, girou o corpo e contra-atacou com o facão.


Zé bloqueou a lâmina com a espingarda que empunhava na mão esquerda, então chutou com força o peito do malfeitor, lançando-o ao chão. Avançou sobre o cangaceiro caído, determinado a não dar trégua.


Numa acrobacia, Severino rolou e se ergueu já desferindo um golpe de facão, forçando uma pausa na investida do adversário. Tão logo pousou os pés, disparou o revólver duas vezes.


Calabros jogou-se para o lado, rodeando o cangaceiro para evadir os tiros. Depois avançou novamente, usando a espingarda como um porrete.


O Rei do Cangaço atacou com o facão. A lâmina traçou um arco horizontal, atingindo a espingarda e fendendo-a em duas. Em seguida, Severino retrocedeu agilmente, evitando outro soco, e novamente disparou o revólver.


Zé arremessou o pedaço de cano que ainda restava em sua mão, atingindo o rosto do bandido e desviando sua mira. Calabros então se lançou à frente e agarrou o revólver, forçando-o a apontar para longe.


Severino tentou afastá-lo com o facão, mas seu braço foi segurado, impedindo o ataque. Sem conseguir se afastar, usou a perna para bloquear uma joelhada, depois pendeu o pescoço para evitar uma cabeçada. Incapaz de superar a força do adversário, largou o revólver para libertar a mão, depois girou o corpo para desvencilhar o braço.


Encarando o bandido, Zé Calabros parou para recobrar o fôlego. Começava a sentir o peso dos ferimentos. Abriu o tambor do revólver tomado e deixou as balas caírem, então passou a arma para a mão esquerda, segurando-a pelo cano, com a empunhadura à mostra.



Severino Barriga D'Água recuou, também aproveitando a breve trégua para descansar. Já não tinha mais uma arma de fogo, teria de contar com o facão e a agilidade, e os pesados chifres o atrapalhavam. Levou a mão livre ao queixo, desafivelando a tira de couro que prendia-lhe o chapéu. O adorno caiu ao chão, liberando a cabeleira do Rei do Cangaço.


Mantendo distância, os dois se encararam, cada qual aguardando o movimento seguinte do outro. Zé estava muito mais ferido, com face e peito sangrentos, além da bala alojada no braço. Já o Rei do Cangaço, sem chifres nem olhos incandescentes, não mais parecia um demônio, fora rebaixado à condição humana.


Calabros deu um passo à frente, e o cangaceiro recuou em resposta. "Isso tudo é medo?", Zé provocou.


"Medo?", o Rei do Cangaço retrucou, exibindo um sorriso sangrento. "Medo só conheço de ouvir falar, nunca me foi apresentado!"


"Então vem pra cima, desgramado, que o cabra cá é macho!"


Nisso, Severino Barriga D'Água brandiu o facão e se lançou num ataque. Em resposta, Zé Calabros urrou furioso e foi ao seu encontro.



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A carruagem de guerra parou e, lá dentro, Chicó Matador perscrutou o exterior através do periscópio frontal. "A feiticeira ainda tá viva!", resmungou ao vê-la em pé na avenida. Também percebeu o Coronel Garrancho se afastar dela, correndo de volta para as ruínas.


"Atiro no coronel, comandante?", perguntou Chassi de Grilo.


"Não, Grilo, o perigo é aquela estrangeira maldita! Mira na desgramada e conta até três, daí atira, que logo depois atropelo essa magrela da peste!"


"Sim, comandante!", o subalterno obedeceu, girando as manivelas para mirar o canhão.


"Hihihi, se segura, Grilo", Chicó gargalhou, sacando várias ampolas de flebótino. "Desta vez, vou pôr toda a força nesse motor. A danada vai virar uma mancha vermelha na avenida!"



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Mara'iza sentia dores pelo corpo e ofegava de cansaço, mas ainda tinha forças para mais dois ou três feitiços complexos antes de ceder à exaustão.


A carruagem de guerra parou adiante, virada para a moça. O canhão se ajustava, buscando mirá-la.


Mara encarou o monstro mecânico, e seu sorriso arrogante desapareceu. Gesticulou, envolvendo-se numa redoma intangível e transparente. Com o semblante circunspecto, lembrou-se dos tradicionais duelos de sua terra natal, e seus olhos brilharam intensamente. "Olhar à frente..."


O canhão da máquina infernal travou no alvo, e labaredas saltaram da traseira, indicando que o motor ganhava força.


Mara'iza exibiu a palma da mão, sobre a qual energias cintilantes se acumulavam. "...rival beligerante..."


O canhão disparou um projétil maciço. Ao adentrar a redoma translúcida, porém, a bala desapareceu num lampejo e ressurgiu na borda oposta, prosseguindo em seu trajeto sem tocar a moça.


A carruagem então investiu, deixando rastros de fogo no ar.


Usando o poder da redoma, Mara também desvaneceu, reaparecendo ao lado da máquina desembestada. Então, quando o veículo passou pela menina, um orbe de energia arcana saltou de sua palma, maior e mais luminoso do que qualquer outro que já criara. "...talho pungente!"


A carruagem mecânica seguiu seu trajeto furioso, mas o orbe mágico voou ainda mais rápido. O projétil arcano primeiro ultrapassou a máquina, então se jogou sobre ela, explodindo violentamente. O impacto despedaçou a roda dianteira e destruiu a haste de força de tração que vinha do motor.


Sem sustentação e com a súbita perda de força, o veículo pendeu para a lateral danificada, perdendo o controle. No impulso da arremetida, capotou uma, duas, três vezes, até colidir contra as construções marginais e parar, caído de lado.


Mara'iza sorriu vitoriosa. "Saia de sua monstruosidade mecânica, parvo medroso, e entregue-se!", a voz dela trovejou. "Ou farei desta casca de metal seu jazigo!"



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Com o motor ainda ativo, a máquina toda trepidava descontroladamente.


Dentro da carruagem, Chicó se recobrava do baque. Soltou o cinto que o prendia à cadeira, então se agarrou ao capanga, sacudindo-o. "Acorda, Grilo!", gritou, "Ocê tem que me proteger, estrupício!".


Atordoado e ferido, Chassi de Grilo demorou a recuperar a consciência. "Chicó?", murmurou ao despertar, "O que aconteceu?".


"É Comandante Chicó, seu inútil!", esbravejou, ajudando o capanga a se livrar da cadeira. "A gente tem que sair daqui, rápido!"


O subalterno abriu a escotilha do veículo tombado. Do lado de fora, as válvulas da caldeira, danificadas pela capotagem, expeliam labaredas incessantes. Grilo tratou de afastar-se das chamas tão logo saltou da carruagem.


Ainda dentro do veículo, Chicó pegou a arma que separara para si: o trabuco de manivela, que nada mais era do que um cano grosso com um mecanismo giratório na culatra. Em seguida, abandonou o veículo e se juntou ao capanga.


Os dois bandidos atravessavam as ruínas rumo aos becos posteriores quando Mara'iza os surpreendeu por trás. "Eis que não se trata de apenas um rato!", ela disse em voz alta, então apontou-lhes a mão e encarou-os com olhos cintilantes. "Ao chão, bandidos, e clamem por piedade!"


Chicó agarrou o subalterno e, protegendo-se atrás dele, empurrou-o na direção da magista. "Ocê me proteja, Grilo!", ordenou assustado, então correu para os becos.


Com corpo dolorido, olhar amedrontado e mão trêmula, Chassi de Grilo apontou o revólver e vociferou ameaças desesperadas. "Não vem que não tem, bruxa, senão te furo toda!"


"Isso é sério?", ela o encarou com descrença. "Ao chão, imbecil!".


O cangaceiro a confrontou por um instante. Então, olhando para trás e vendo que fora abandonado pelo comandante, largou a arma e se ajoelhou com as mãos ao alto. "Ah, que se dane!", confessou. "Não é pra proteger um bosta que nem Chicó que vou morrer!"


Mara'iza perscrutou os arredores cautelosamente. Não viu mais nenhum perigo próximo, mas percebeu Garrancho e seus homens se aproximando. "Encarregue-se da batalha, coronel", ela pediu. "Cumpri minha missão, agora procurarei por Carábu'ros-san."


"Obrigado, Mara'iza", Garrancho assentiu com a cabeça. "Não conseguiríamos sem você."


"Eu sei que não, coronel", Mara se virou para ele. Estava cansada, ofegante, maltrapilha e suja, mas o sorriso vaidoso a fazia radiante. "E espero que ninguém jamais se esqueça disso!"



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"Vai ter troco!", Chicó Matador esbravejou ao sair das ruelas, rumando para a rampa da casa-grande. "Ainda tenho bombas na casa! Vou explodir aquilo tudo!"


No platô adiante, os guardas enfrentavam os últimos bandidos que ainda resistiam. Notando a aproximação do cangaceiro, voltaram as armas para ele.


"Ocês não vão me pegar!", Chicó gritava descontrolado ao subir a rampa. Ergueu o trabuco e girou a manivela, disparando rajadas de pelotas explosivas. A mira dele era horrível, mas as detonações em série feriam os guardas às pencas e abriam caminho para o malfeitor.


A comoção atraiu a atenção de toda a tropa no platô. Sob ordens de André Meneses, os homens atiravam contra o bandido.


Desvairado, Chicó não se intimidou. Seguiu para a casa-grande através do jardim, atirando a esmo contra os opositores até a munição se esgotar. Jogou fora a arma, e passou a arremessar as bombas que levava no cinto, criando cortinas de fogo e fumaça.


Os guardas caíam às pencas, a maioria aturdida ou com ferimentos leves. Cautelosamente, André Meneses e seus homens tentavam cercar o vilão ensandecido.


Chicó alcançou a casa-grande, destrancou a porta e adentrou. "Ainda vou matar todo mundo! Capitão Severino vai se orgulhar de mim!", bradou ao trancar a fechadura, então seguiu para o interior da residência, gritando por auxílio. "Mão Santa! Aparece, traste, que sinhozinho tá chamando!"


Antes que ele atravessasse a sala de jantar, porém, Emiliana surgiu do corredor posterior, revólver em mãos e o chapéu de coronel na cabeça. "Não tem mais sinhozinho aqui não, lazarento", ela afirmou, com lágrimas de ódio na face. "Essa casa não é sua, nunca foi!"


Chicó Matador parou de imediato e ergueu as mãos, assustado. "O que é isso, Emiliana?", falou manso, tentando esboçar um sorriso forçado. "Larga essa arma, meu amor!"


"Não tem essa de 'meu amor', traste!", ela retrucou, "Pra você, é Coronel Silvéria!". Então, apertou o gatilho, disparando várias vezes.


Crivado de balas, Chicó Matador tombou e ali permaneceu, sangrando até a morte.



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Zé Calabros se esquivou para o lado, evitando ter a garganta cortada.


Com movimentos acrobáticos, o Rei do Cangaço tentou rasgar a barriga do oponente e, num giro posterior, mais uma vez mirou-lhe o pescoço.


Zé se afastou para evitar o primeiro corte, depois bloqueou o segundo com o revólver que empunhava. Notando uma chance, avançou sobre Severino e socou-lhe a cara.


Atingido, o cangaceiro caiu no chão, rolou para evitar um chute, então se levantou num pulo e revidou com o facão. A lâmina resvalou no braço esquerdo de Zé, mas este se afastou a tempo, evitando um corte profundo. Pressionou a ofensiva, Severino desferiu uma série de golpes velozes, intercalados com giros acrobáticos e reposicionamento constante.


Zé Calabros evadia e aparava os ataques com dificuldade, incapaz de encontrar uma abertura para contra-atacar. Viu-se forçado a recuar para não ser sobrepujado pela velocidade do bandido.


O Rei do Cangaço sorriu em meio à investida impiedosa. Manipulando o adversário, direcionou-o até cercá-lo contra uma parede, então se lançou para o golpe derradeiro.


Incapaz de recuar mais, Zé bloqueou a lâmina com o revólver e arremessou-o contra a face do bandido. Severino evadiu o ataque, mas a breve pausa na ofensiva deu a Calabros a chance de se distanciar da parede e do malfeitor.


O Rei do Cangaço se recuperou rápido, contudo, e rasgou as costas do oponente quando este tentou se reposicionar. Zé gritou de dor, jogando-se à frente e virando-se a tempo de se esquivar de mais um golpe.


Os dois começavam a dar sinais de exaustão. Severino tomou um momento para recuperar o fôlego. Calabros aproveitou para recuar um pouco mais.


A pausa não durou. O Rei do Cangaço logo avançou novamente, atacando três vezes: primeiro forçou Zé à defensiva, depois golpeou em falso, aproveitando para se aproximar, então fez um corte na perna esquerda do adversário.


Apesar do ferimento não ser profundo, Zé estava em seu limite. Afastou-se o máximo que podia, mas a perna ferida cedeu, forçando-o a cair de joelhos.


Severino não avançou, precisava de mais uma pausa. "Hehahaha!", forçou uma gargalhada ofegante, então cuspiu sangue e, para intimidar, voltou a riscar a lâmina no chão. "Vosmecê já tá a meio caminho da cova, Zé Calabros. Devia de tá feliz, vai pra junto da família!"


Zé apoiou o braço esquerdo no chão, ajudando na sustentação da perna ferida. Passou a mão direita no rosto, tirando o sangue que ofuscava-lhe a visão. "Isso não é nada, desgraçado, já passei por coisa pior!", disse, à beira da exaustão. "Sempre quebro a fuça da morte quando a danada vem me buscar!"


"Cabra da peste!", o Rei do Cangaço sorriu. Respirou fundo e pausadamente para conter o cansaço, então apontou a lâmina para o adversário. "Faça suas orações, Zé Calabros, que seu fim chegou! Vosmecê não vai ter sua vingança!", bradou, então ergueu o facão e se lançou para o golpe final.


A luta terminaria em menos de um segundo, mas para Zé durou uma eternidade. Apesar da morte se aproximar a passos rápidos, limpou os pensamentos, deixando-se vazio por dentro. Uma lacuna infinita que, através de perseverança, só podia ser ocupada por uma grandeza sem limites.



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Nove anos atrás...


O corpo entorpecia. O ar escapava-lhe dos pulmões. Para a visão turva, o céu estrelado se tornou uma negritude, e o sertão ficou brumoso. Ainda assim, o menino lutava para se erguer. Estava morrendo, mas não tinha desistido da vida.


E foi ali, entre a vida e a morte, que Zeca percebeu um vulto no limiar da visão enevoada. Esforçou-se para fitar aquele ser e viu, sentado sobre as pedras próximas, um homem indistinto. Mas como uma pessoa poderia estar naquele ermo distante? Seria um delírio?


Surpreendentemente, o visitante misterioso reagiu ao olhar, revelando-se real. "Você me notou", a voz dele ecoou distante, apesar de estar tão perto. "Incrível, já deveria estar desacordado!"


Zeca estendeu a mão ao recém-chegado e, com voz fraquejante, implorou: "Por favor, acuda".


"Não vim oferecer salvação", o homem disse friamente. "Não posso lutar contra o destino, estou aqui apenas para vê-lo morrer."


"Você é... a morte...?", o menino balbuciou, suas forças consumidas pelo veneno do sertão.


"Não", disse o estranho. "Sou apenas uma testemunha. A morte é a escuridão que o envolve, é a fraqueza em seus braços, a vertigem em sua cabeça."


Mas Zeca insistia. Apoiou-se no chão, esforçou-se para se erguer, mas tombou de novo, sem força nem equilíbrio. "Tenha piedade", implorou. "Apenas... me deixa... levantar..."


"Não posso fazer nada", o homem disse impassível. "Quantas vezes o destino interviu para salvá-lo? Quantas pessoas morreram por você? Quantos lhe ofereçam um lar para recomeçar? E ainda assim, veio por vontade própria a esta terra maldita. Você desafiou o destino, menino, e ele é implacável!"


Ainda mais fraco, Zeca se viu envolto por trevas absolutas. Seus braços e pernas pesaram ainda mais, como se amarrados ao chão. Memórias vieram assombrá-lo, viu rostos e ouviu vozes do passado. Lembrou-se de seus pais, de Jão Bentecastro, de Nhá Rosa... Por um momento, pensou em desistir e deixar-se morrer.


Mas então sentiu os tapas de Coronel Silvério contra seu rosto. "Isso mesmo! Encara sem fugir, moleque!", a voz dele ecoou. "Sinta raiva, mas não medo!"


A memória de Madre Magnólia veio a seguir, pacata e sorridente: "Esperança te dá forças para resistir à tempestade, para esperar que o sol nasça de novo... para fazer o impossível!"


E lembranças de Emiliana o compeliam: "Se levanta, que a dor vai passar! Se levanta, que o medo vai embora!"


Ouviu os passos estrondosos. Dois seres se aproximavam, pisando forte. Dois guerreiros enormes e sem medo, vindos d'além da morte. "Impossível é somente uma palavra", lembrou Brunnhardt, o anão.


"Enquanto você viver, nossa morte não será em vão!", bradou Svar, o gigante.


Envolto pela morte, Zeca perdeu o medo e decidiu superar o vazio tenebroso. Num esforço sobre-humano, moveu os braços, rompendo as amarras invisíveis que os prendiam.


"Desista, pare de lutar!", a voz do estranho veio distante. "Você está sozinho, não há mais ninguém para salvá-lo, entregue-se ao seu destino!"


E no entanto, o menino, transcendendo a dor e a fraqueza, firmou as mãos no solo e ergueu o torso. "Com honra e glória e nenhum lamento!", proclamou, ouvindo as vozes de Svar e Brunnhardt em sua mente. "Diante dos deuses me apresento!"


Moveu então as pernas, quebrando os grilhões que os prendiam. "Hoje terei minha força testada!", elevou a voz e se apoiou sobre os joelhos. "Que minha morte seja lembrada!"


E o menino se ergueu, lutando contra o peso insuportável que recaía-lhe nos ombros. "Armas em mãos, de sangue coberto", pôs-se em pé, ainda que cambaleante. "Ao panteão, minha vida oferto."


Por fim, abriu os olhos e encarou o estranho, a despeito da visão ainda turva. "Ao final, com corpo alquebrado", firmou as pernas, gritando aos céus: "Eterno serei, inconquistado!".


Observando tudo, o estranho sorriu satisfeito. "O veneno ainda o consome, menino. Se ceder um só instante, tombará de novo. Você conseguirá se manter em pé por todas as noites, sem descanso?"


O garoto sentia a tentação de fraquejar, de deixar-se sucumbir ao cansaço e à fraqueza, mas não desistiria de viver. "Eu não vou morrer aqui", bradou, batendo o punho cerrado sobre a palma da outra mão. "E tá decidido!"


O homem misterioso se levantou. "Agradeço a você", curvou-se gentilmente. "Fui convocado para presenciar uma morte, mas fui presenteado com o testemunho de um milagre!"


"E quem diabos é você, fela-d'égua?", o menino, tornado homem, perguntou.


Primeiro os olhos do estranho arderam em chamas, então seu corpo todo se incendiou. "Eu sou o fogo, o terceiro pilar do mundo", a voz dele troou. "Destruo para criar, consumo o velho para o novo florescer. Os que me veem se cegam, e os que me enfrentam ardem! Se de fato você tiver a força para vencer essa terra, José Calabros, um dia nos encontraremos novamente!"


Dito isso, as chamas se dissiparam, deixando apenas uma nuvem de fumaça que o vento logo tratou de carregar. Do estranho, nenhum sinal restava.


José, do Clã Calabros, ali permaneceu até o amanhecer, em luta contra o terrível peso que o impelia ao chão. Não sucumbiria, a despeito da exaustão, e assim se repetiriam todas as noites, até que deixasse a Catinga Danada.



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O presente...


Severino ergueu o facão acima da cabeça e, urrando, desferiu o golpe final.


Superando os ferimentos incapacitantes, Zé Calabros se ergueu naquela fração de segundo. Lançando-se à frente, agarrou o pulso do Rei do Cangaço e interrompeu a trajetória da lâmina. Ali permaneceu, ofegante e de cabeça baixa, impassível como uma montanha.


Tentando soltar o pulso, Severino socou a face do adversário, golpeou-lhe o estômago, chutou-o em desespero, mas não conseguia se livrar do aperto sobre-humano.


Calabros não reagiu aos ataques. Permaneceu inabalável, acalmou a respiração, reuniu as forças e finalmente ergueu a face. "Que cara é essa, fela-d'égua?", encarou os olhos arregalados do cangaceiro. "Por acaso, isso é medo?"


"Vosmecê não tem o direito!", o Rei do Cangaço vociferou em fúria e desalento. "Acha que perder a família te dá o direito de vingança? Nasceu na riqueza e na fartura, acima do povo comum! Eu só te puxei pra baixo, desgracento, fiz a minha justiça! Vosmecê não tem direito a nada!"


"Direito. Vingança. É só nisso que você pensa!", Zé retrucou, então agarrou e torceu a mão de Severino, quebrando-lhe o pulso e forçando-o a largar o facão.


O cangaceiro urrou de dor, mas reuniu forças para bradar em meio ao sofrimento: "Eu sou Severino Barriga D'Água, o Rei do Cangaço, o salvador dessa terra! Eu vim pra matar gente de privilégio como você, pra devolver o que ocês tomaram do povo! É meu direito de nascença!".


Zé Calabros cerrou o punho e, largando Severino, golpeou-o na face. Conteve a força, mas ainda assim lançou o bandido ao chão. "Pobreza e sofrimento não te tornam especial, não te dão direito de desgraçar vidas!"


Caído, o cangaceiro encolheu o braço de dor, mas já tentava se erguer. Apoiou-se na mão ilesa e, olhando para o adversário, berrou: "Isso é moral de coronel! Querem os pobres mansos e fracos, fáceis de explorar, mas a gente não segue suas leis!".


Calabros retorquiu impávido: "Você não segue lei nenhuma, desgraçado, é um bandido! Quantas vidas tirou, seu vagabundo assassino? Quantas famílias destruiu? Nunca fez bem a ninguém que não te servisse, deixou só miséria e sofrimento por onde passou!".


"O mundo novo não vai vir sem sacrifício!", disse Severino, levantando-se. Furtivamente, sacou das roupas um punhal e manteve-o fora da vista do inimigo. "Quem tiver do lado dos coronéis tem que morrer, e quem tiver comigo, tem que ser na vida e na morte! Pra fazer justiça, tem que tá disposto a derramar sangue, seja o próprio ou dos outros! Quando tudo acabar, vai ter valido a pena!"


"Não acaba nunca!", Zé o confrontou. "Quantas crianças você fez órfãs? Quantas vão virar novos Severinos, cheias de ódio e ressentimento? Você não tá fazendo um mundo novo, tá criando violência sem fim!"


"Melhor violência do que escravidão!", Severino avançou, revelando o punhal.


Zé se esquivou do ataque, afastando-se do oponente. "Violência é escravidão, a escravidão do mais fraco! Sem paz, ninguém tem vida decente!"


"Um coronel como vosmecê nunca vai entender", o Rei do Cangaço cuspiu sangue no chão, então se forçou a rir, exibindo o punhal. "Hehahaha, vamo acabar com isso de uma vez! Vem ter sua vingança, seu fí-de-quenga! Vem fazer sua justiça, senão faço a minha!"



"Vingança não é justiça!", Zé confrontou o adversário, ambos no limite das forças. "Não quero me vingar, nem vim pra exigir algum direito. Tô aqui pra salvar gente, desgraçado, porque isso é o meu dever!"


"Então, bate forte, desgraçado, senão volto pra queimar essa terra!", Severino vociferou. "Não tem prisão que me segure, nem ferida que não saro! Só vou parar quando tiver morto!"


"Eu sei. Enquanto você viver, vai destruir tudo ao redor", Zé respondeu, então exibiu o braço direito, e as faixas nele amarradas. "Mas enquanto eu tiver força pra me levantar, vou quebrar a fuça de gente da sua laia!"


Num urro, Severino avançou furioso, atacando com o punhal.


Calabros se esquivou da lâmina e, pondo toda a força no braço, desferiu o soco derradeiro.


O golpe esmigalhou a face do Rei do Cangaço, espirrando seu sangue. Mandíbula deslocada, crânio rachado, pescoço quebrado, Severino Barriga D'Água tombou aos pés do primeiro obstáculo que não conseguira superar: a montanha chamada Zé Calabros.



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Mara'iza desceu a avenida o mais rápido que o cansaço e a cautela permitiam. Pelo que podia perceber, a batalha no topo da cidade terminava. Tiros ainda ecoavam das alturas, mas cada vez menos frequentes. Os cangaceiros foram derrotados, e a moça sorria ao lembrar que ela fora essencial para a vitória.


O contentamento logo desapareceu diante das preocupações, porém. Não demorou a encontrar um grupo de guardas e jagunços mortos na avenida, e o coração dela palpitou ao perceber alguém surgir de uma viela adiante.


Era Zé Calabros, que, apesar de ferido e ensanguentado, vinha carregando nos braços a Coronel Malícia, desacordada.


"Carábu'ros-san!", Mara sorriu aliviada e, ignorando a própria exaustão, correu na direção dele. "Seu ogro idiota, você me deixou preocupada!", ela admitiu, mas logo a empolgação se tornou espanto quando, ao se aproximar, viu o quão ferido ele estava.


Ele caminhava lentamente, num esforço hercúleo e silente, com ferimentos sangrentos na cabeça, peito, braços e perna. Era simplesmente inconcebível que conseguisse ficar em pé naquelas condições, muito menos carregasse a coronel consigo.


Imediatamente, Mara conjurou um disco de energia arcana diante dele. "Repouse-a aqui, Carábu'ros-san, permita-me carregar este peso por você!"


Sentindo o corpo fraquejar, ele obedeceu, pousando Malícia gentilmente no disco. "Obrigado, Malinha", agradeceu. Com o dever cumprido, permitiu-se ceder à exaustão e se ajoelhou, sem mais forças para andar. "Será que esse seu troço aí aguenta mais um?"


"Mas é claro, ogro idiota!", Mara o abraçou, ajudando-o a subir no disco, onde ele se encolheu ao lado da coronel desmaiada. "O que aconteceu com Severino?", questionou.


Com as últimas forças que lhe restavam, Zé Calabros apontou avenida abaixo. "Faz favor, Malinha, avisa a todos, que o povo daqui tá precisando de esperança", ele pediu, então deixou-se perder a consciência.


Seguida de perto pelo disco arcano, Mara caminhou na direção indicada e não demorou a encontrar o corpo inerte do cangaceiro-mor. Abaixando-se, mediu o pulso do bandido, então encheu de ar os pulmões e concentrou-se em tornar sua voz ainda mais poderosa possível.


"Povo de São Vatapá!", a mensagem troou pelas redondezas. "Severino Barriga D'Água tombou! O Rei do Cangaço está morto! Vocês estão livres!"

A seguir: Epílogo: Mais perto do céu

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Zé Calabros na Terra dos Cornos
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As Crônicas Anímicas

© 2016 Tiago Moreira