Epílogo: Mais perto do céu

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Quinze anos atrás...


O sol baixava no oeste. Três cavaleiros surgiram a distância, na trilha para a casa-grande.


Diante da cena, Jão Bentecastro saltou da cadeira e forçou a vista a fim de identificá-los. "Patrão, tem visita chegando!", o jagunço anunciou, depois sacou a espingarda e desceu os degraus da varanda para recepcionar os viajantes.


Heitor Calabros, coronel de Itapopó da Mata, saiu da residência e aguardou, apoiando-se no parapeito da varanda. Atrás dele, vieram a esposa, Dona Amélia Flores, e o único filho do casal, Zequinha. O menino, ao perceber os visitantes, escondeu-se atrás da saia da mãe.


Cavalgando à frente, vinha ninguém menos do que o Coronel Joaquim da Silva, o Silvério, facilmente identificável por seu bigode avantajado e chapéu cornudo. A ele, seguiam Mão Santa, seu jagunço-mor, e um outro guarda-costas. Parando diante da casa-grande, Silvério abriu os braços para se anunciar. "Heitor, meu velho amigo", gargalhou alegremente, "vim conforme combinado!".


Coronel Calabros desceu os degraus da varanda e ajudou o colega a descer do cavalo. "Seja bem-vindo, Silvério, que a casa é sua! Preciso muito da sua ajuda, mas isso fica pra amanhã. Hoje vamos comemorar sua chegada!"


Subindo os degraus para a varanda da casa, Silvério cumprimentou Dona Amélia. O sorriso dele desapareceu, contudo, ao notar o menino agarrado medrosamente à perna da mãe. "Meu caro Heitor", voltou-se ao amigo, "se não ensinar esse menino a ser homem, ele vai crescer fracote e covarde!".


Coronel Calabros não gostou do comentário, mas conhecia bem a intratável língua ferina do amigo. "Ele é só uma criança, ainda tem muito o que crescer e aprender."


"Criança? Pois saiba que minha Emiliana é um cadinho mais nova, mas já é bem mais valente que esse menino!", Silvério retrucou. "Seu filho é mais velho hoje do que foi ontem, e menos do que vai ser amanhã. Tem que ensinar a cada dia, senão quando começar já vai ser tarde!"



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Apesar do clima festivo na casa, Zequinha passara a noite emburrado. Fora obrigado a participar do jantar e aturar o Coronel Silvério, de quem não gostava nem um pouco. Mais tarde, o pai o levou para dormir. Já longe das visitas, no corredor do andar de cima, o menino questionou: "Por que o Coronel Silvério tá aqui?".


"Ele veio me aconselhar, filho", respondeu Heitor Calabros ao abrir a porta do quarto. "Vai me ajudar a deixar nossa terra próspera como a dele, como era a vontade do seu finado avô Eustáquio."


Os dois entraram no quarto penumbroso, e o coronel pôs o lampião sobre o criado-mudo. Sob as sombras dançantes das chamas, Zequinha trocou de roupa e deitou-se na cama. Quando o pai veio cobrir-lhe com o lençol, o menino faz mais uma pergunta: "Por que o Coronel Silvério é tão mau?".


Coronel Calabros pensou um pouco, reunindo as palavras certas a dizer. "Ele não é má pessoa, José, é um homem justo, de palavra. É cheio de defeitos, sim. É teimoso, não tem papas na língua nem muita paciência com as pessoas, mas isso não faz dele mau, só difícil de lidar."


"Então, por que falam tão mal dele?"


"Por que ele é coronel", o pai disse. "Antigamente, coronéis sujavam as mãos de sangue, e isso vai ser sempre lembrado. As pessoas acham que todo coronel é igual, culpam-no dos crimes do passado, se ressentem da riqueza que acham que ele tem e cobram retribuição que ele não pode dar."


"Mas você também é coronel", o menino lembrou, "e na vila todo mundo gosta de você".


"A maioria da vila, sim, mas não todos", o pai corrigiu. "E pra quem vem de fora, sou só mais um coronel. Tenho inimigo em todo canto, tanto entre bandidos como outros coronéis. A gente tem que ser forte, José, porque se mostrar fraqueza, vão vir nos tomar tudo, até nossas vidas."


O menino se calou, melancolicamente virando-se para tentar dormir.


O pai aguardou mais alguma pergunta, mas o menino silenciara. Levantou-se, pegando o lampião, e caminhou para a porta. Antes que deixasse o quarto, porém, suspirou fundo e olhou para o filho. "Coronel Silvério tem razão", murmurou, "você já tá com quase sete anos, não vai ser criança pra sempre, tem que aprender a viver nesse mundo".


"Esse mundo me dá medo", o menino admitiu num sussurro.


"Preocupe-se não, filho, que vou te ensinar a ser um cabra arretado. E, até lá, vou tá aqui pra proteger você, sua mãe e toda a nossa vila."



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O presente...


As memórias desvaneceram na escuridão da inconsciência, mas esta também não durou. Confuso, Zé Calabros abriu os olhos e se viu num quarto estranhamente familiar. Era dia, a luz entrava pela porta entreaberta e pelas frestas da janela. Lá fora, pássaros cantavam. Estava quente, como de costume. O corpo todo doía, apesar das bandagens alquímicas que cobriam-no, garantindo cicatrização rápida.


Zé tentou sair da cama, mas desistiu após erguer o torso e se sentar, apoiado na cabeceira da cama. Avaliando os arredores, reconheceu estar na casa-grande de São Vatapá do Norte, no mesmo quarto em que fora acolhido tantos anos antes, sob a tutela do Coronel Silvério.


"Finalmente, ogro idiota!", Mara'iza chamou-lhe a atenção. Sentada em vigília numa cadeira logo ao lado, fechou o grimório, que lia até então, e se levantou, aproximando-se da cama. Pegou um copo sobre o criado-mudo, encheu com a água de uma jarra de barro e ofereceu a ele. "Beba. Agora que está acordado, pedirei que tragam uns elixires, ajudarão em sua recuperação."


Zé agradeceu com um meneio de cabeça, bebeu a água num só gole e estendeu de volta o copo, pedindo mais. "Malinha, graças a Padim que você tá bem! Tô brocado, com uma fome do cão!"


Fitando-o aliviada, Mara serviu-lhe água novamente. "Imagino, você esteve inconsciente por dois dias. Feriu-se gravemente, chegamos a pensar que não sobreviveria."


Bebendo novamente, ele a admirou por um instante. Notou-a parecer ligeiramente mais adulta do que no início da jornada, talvez devido aos cabelos um pouco crescidos, talvez por se mostrar tranquila e desenvolta. "Preocupe-se não, Malinha", disse, exibindo as fitas amarradas a seu braço direito, "que antes de cumprir todas as minhas promessas não morro!".


Ela sorriu, mas logo disfarçou, desviando o olhar e franzindo o cenho. "E é bom cumprir sua promessa, ogro idiota", esbravejou, fingindo-se irritada. "Decidi esperar por você e por sua culpa perdi a caravana que partiu esta manhã!"


"Ah, moleca da peste!", ele riu, mas logo perdeu o fôlego devido às dores no peito. Recuperando-se do esforço, notou o grimório a tiracolo dela. "Pelo menos você achou esse seu livro esquisito!"


Mara ergueu o tomo, fitando os cristais que adornavam a capa. "Encontrei-o rapidamente, na verdade, logo que voltei à casa-grande", disse, murmurando pensativa. "Foi estranho, senti pulsos de magia, como se um feitiço fosse conjurado... Parecia até que o grimório me chamava!"


"Ué", Zé estranhou, "mas você não pode sentir a presença dele?".


"Não, o que aconteceu não foi natural, tenho um elo apenas com meu foco arcano", Mara esclareceu, virando-se de lado para mostrar a adaga presa à cintura. "Naquele momento, o livro não o era, eu estava harmonizada apenas com o kai'ken de meu clã."


Zé pensou por um momento. "Certeza que esse troço aí não tá maculado não? Tô encafifado com ele desde o começo!"


"Tocado pelo destino? Não creio", ela respondeu, novamente avaliando a capa do tomo. "É uma questão que precisa de respostas, veremos se as encontraremos na academia arcana de Ferônia. Mas isso não importa agora, não partirei antes que você se recobre."


Ele levou a mão ao estômago. "Tem como me arrumar o que comer, Malinha? Tô precisando tirar a barriga da miséria!"


"Avisarei sua namoradinha", Mara'iza disse, mencionando Emiliana com claro desdém. "Afinal, é ela quem governa esta casa agora."



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À noite, após o jantar na casa-grande, os coronéis se reuniram à mesa para uma conversa particular.


"Estive pensando e tomei uma decisão", disse o Coronel Samuel Garrancho. "Agora que Zé acordou, chegou minha hora de partir. Amanhã preparo a tropa pra viagem, daí parto logo cedinho no dia seguinte."


Adelina Malícia já desconfiava do anúncio de Garrancho, mas André Meneses e Emiliana da Silva ficaram surpresos. "Mas já?", o jovem Meneses perguntou incrédulo. "Ainda há muito a se fazer aqui!"


"Estou cansado, André, pra mim essa luta começou bem antes", Garrancho desabafou. "Vigei Severino, convenci Adelina, me enfurnei na mata, lutei em Bota do Judas, atravessei a caatinga e cá estou. Fui o primeiro a lutar, é justo que seja o primeiro a descansar."


"E que peleja foi!", murmurou Malícia, contendo a voz devido às dores remanescentes no peito. Os curativos e elixires salvaram-lhe a vida, mas precisaria de mais alguns dias para a plena reabilitação.


"Foi uma luta longa e justa, sim", Garrancho sorriu sem disfarçar o cansaço. "Lavei minha alma e paguei meus pecados, mas minha Rosinha me faz falta. Padim querendo, chego em casa a tempo de ver nosso filhote nascer!"


"Entendo perfeitamente", Emiliana, agora Coronel Silvéria, também sorriu, mas com visível insegurança. "É uma pena, porque ainda preciso de tanta ajuda aqui na cidade!"


"Deixarei uns guardas aqui", Garrancho ofereceu. "Amanhã vejo quem se dispõe a ficar, mas o soldo deles será um problema. Essa campanha já foi custosa por demais."


"Eu cubro os custos dos que ficarem", disse Emiliana. "Severino deixou o butim dele todo nessa casa. Dinheiro é a única coisa que não me falta."


"Isso é bom, vai ajudar a reconstruir a cidade. Dinheiro passa de mão em mão, uma hora chega em quem precisa", Garrancho comentou. "As notícias já devem estar correndo pro oeste, aliás, logo o comércio vai ganhar força e muita gente virá atrás de trabalho. São Vatapá vai voltar a crescer!"


Emiliana ouvia, mas estava distante. De cabeça baixa, pensava nos árduos dias que ainda viriam. Ao contrário de Garrancho, não teria direito a descanso. Mal livrara-se do cativeiro, mal pudera lamentar a morte de seu pai e de seu irmão, e o peso da responsabilidade já pesava sobre seus ombros. A cidade precisava dela, mas a jovem coronel não se julgava capaz de guiar o povo de volta à prosperidade.



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Amanheceu. Antes mesmo que os outros despertassem, Zé Calabros escapulira do quarto para se exercitar. Apesar dos ferimentos, escalara a encosta montanhosa aos fundos da casa-grande até alcançar uma plataforma mais elevada, de onde se tinha uma visão privilegiada da cidade.


"Você deveria estar descansando", disse Emiliana ao encontrá-lo. "Todos estão preocupados, especialmente sua amiga Mara'iza."


"Oi, Emiliana", ele sorriu antes mesmo de virar-se para ela. Sabia que, se alguém o encontrasse, seria ela. Aquele era um local secreto, aonde os dois às vezes fugiam quando crianças. Havia uma outra maneira de alcançá-lo, através de uma longa trilha partindo do pomar dos Silvas.


A jovem coronel sorriu brevemente quando seus olhares se encontraram. "Não deveria se esforçar, Zeca. Apesar do tratamento, seus ferimentos ainda podem se abrir."


"Já tô melhor, Emiliana", Zé retrucou estufando o peito, ainda recoberto por ataduras. "Não sou mais aquele menino mirrado."


De fato, ela pensou, o homem adiante em nada se parecia com o garoto de outrora. Passando por ele, ela se sentou junto à borda da ladeira e olhou para a cidade abaixo. "Você mudou muito, Zeca."


"A vida muda a gente", ele respondeu. Ao sentar-se ao lado dela, deixou escapar um leve gemido de desconforto. Suas feridas ainda não estavam plenamente cicatrizadas.


"Coronel Garrancho vai embora amanhã, você soube?", ela questionou.


"É, ele falou comigo ontem. Garrancho é um bom homem, merece um pouco de sossego."


"Coronel Malícia também não deve demorar a partir", Emiliana comentou. "Está apenas esperando se recuperar, e aposto que o Meneses vai com ela. As cidades dos dois ficam no mesmo caminho."


"Todo mundo tá merecendo descansar", Zé concluiu. "Foi uma luta dura."


Relutante, ela ficou em silêncio por um longo minuto. "Quando matei Chicó, eu me declarei 'Coronel Silvéria'", finalmente desabafou, "mas não sei se estou à altura do nome. Minha mãe, meus irmãos, a cidade... Tanta gente depende de mim agora. Não vá embora, Zeca, eu careço muito de sua ajuda".


Zé olhou-a, hesitando em responder a princípio, mas não tinha como mudar sua resposta. "Não, Emiliana, não posso, meu caminho é outro."


Ela se entristeceu, levando a mão ao rosto para conter uma lágrima que tentava sair. Tinha medo da imensa responsabilidade. Recompondo-se, implorou: "As pessoas daqui precisam de paz, mas sozinha não consigo dar isso a elas".


"Lembra do seu pai", Zé retrucou calmamente. "Eu demorei pra caramba a entender porque ele era tão desabrido com os outros. Ele queria que cada um aprendesse a se virar sem depender da bondade alheia. Só assim se pode ser forte e livre, você sabe. Ele te ensinou isso também."


"Eu sei, mas...", ela balbuciou.


Zé pôs a mão no ombro dela. "Eu sei como você tá se sentindo. Esse é o pior momento, é quando vem a dúvida, a vontade de desistir antes de começar. E é exatamente nessa hora que você tem que se levantar e enfrentar a vida. Se eu te achasse indefesa, eu ficava um pouco mais, mas sei que é capaz, tem sangue de Silvério nas veias!"


"Meu pai não me criou pra ser coronel", ela lamentou, baixando a cabeça. "Esse era o fardo do meu irmão Leonardo, que Padim o tenha. Não sou capaz de tomar o lugar dele."


"Se não é, vai ter que ser", ele se levantou, novamente demonstrando dor, e ofereceu a mão para ajudá-la. "Mudar não é escolha, é necessidade. Tudo o que você pode decidir, Emiliana, é se quer se tornar pior ou melhor."


A jovem coronel fitou a mão estendida. "Será que consigo?"


"Ninguém nasce forte nesse mundo. Força não é herança, é conquista. Esses cabras que fazem coisas incríveis, eles tiveram que aprender na marra, conseguiram porque não arregaram pro desafio. Se levanta, Coronel Silvéria, parte pra briga!"


Ela suspirou profundamente, então segurou-lhe a mão. Com ajuda do amigo de infância, Coronel Emiliana da Silva, a Silvéria, se ergueu. "Vou tentar, vou honrar o nome de minha família", disse, abraçando-o com força. "Obrigada."


Com as feridas apertadas pelo abraço, Zé segurou a dor, contendo o gemido e a expressão de desconforto, só depois envolveu-a nos braços. "Tem uma montanha no seu caminho, Emiliana. Parece impossível escalar, mas não é. Quando chegar ao topo, vai ser uma pessoa melhor do que é agora."


"Montanha?", ela estranhou a analogia.


Zé apontou para o sul, mostrando a majestosa cordilheira que limitava a Cornália. Além daquelas montanhas, estavam Dragona e Vol'kor. "O caminho da grandeza é feito de montanhas, uma maior que a outra. É duro e custoso, mas te leva sempre mais alto, cada vez mais perto do céu!"


Ela olhou para as montanhas, admirando-as. "E qual vai ser seu próximo passo, Zeca?"


"Primeiro, sarar", ele respondeu. "Depois, vou procurar a minha próxima montanha. Enquanto tiver alguma promessa a cumprir, esse é meu caminho, tá decidido."


A jovem coronel se afastou dele, olhando-o com um misto de alívio e tristeza. "Sua amiga, você vai com ela, não vai?"


"Vou levar Malinha pra fronteira, que nem prometi", ele disse, pensativo. "Depois disso, ainda não sei."



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Coronel Garrancho passara o dia todo preparando a partida de sua tropa, já era noite quando retornou à casa-grande. Comeu na cozinha mesmo, tomou um banho, depois foi para o quarto. Já se preparava para dormir quando alguém bateu à porta.


"Com licença, coronel", Mara'iza pediu. "Perdão pela intromissão, mas tivemos pouco tempo para conversa, e tenho dúvidas que só o senhor pode elucidar."


"Ah, Mara'iza, entre", ele convidou.


"Não, obrigada, não tomará muito tempo", ela justificou, mas também não considerava de bom tom entrar sozinha no quarto de um homem à noite. "Desejo saber a respeito dos heróis que vieram a esta terra, há nove anos."


"Os que afugentaram Severino e derrubaram Tibúrcio Mendes?", Garrancho, intrigado, passou os dedos no bigode e no queixo. "Contarei tudo o que puder."


"Suspeito que são os mesmos aventureiros que visitaram Gaz'zira na mesma época. As histórias a respeito deles são lendárias", ela comentou. "Você disse que um deles era seu amigo, pode me falar a respeito?"


"Ah, sim", ele respondeu. "Ele se chamava Augustus, era exímio com mecanismos engenhosos. Veio de Matríxia ainda criança, com a família, depois deixou Cornália pra correr o mundo. Após a queda de Tibúrcio, ele voltou uma segunda vez, já com esposa, pra buscar a mãe. Que eu saiba, partiram de volta pra Matríxia, não mais os vi."


"Matríxia está completamente fora de meus planos", Mara murmurou pensativa. "E os outros? Há alguma informação que possa levar-me a eles?"


"Até onde sei, o grupo se desfez. Alguns ainda são famosos mundo afora, como Ramon Falach, o bardo. Agora, sobre onde encontrá-los, só tenho certeza a respeito de dois."


"Quais?"


"Havia um jovem casal, Surial e Aliandra, guerreiros formidáveis. Ele era kalimnoriano, ela, amazona. Quando Augustus retornou para buscar a mãe, trouxe notícias. Surial era um príncipe, tinha sucedido o trono de seu pai e se casado com Aliandra. São os atuais rei e rainha de Kalimnor."


"Karímu'nor...", Mara'iza repetiu em seu sotaque exótico. "Apesar de distante, é um destino a se considerar!"



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No dia seguinte, Coronel Samuel Garrancho e seus homens partiram, ansiosos por seus lares em Itapopó e Santa Rita. Cruzariam os sertões da Cornália por uma semana antes de chegarem ao destino final.


E o tempo, sempre inclemente, continuou a correr. Apenas dois dias depois, chegava a vez de Adelina Malícia e André Meneses deixarem a cidade, conforme Emiliana previra.


Restaram poucos guardas em São Vatapá, a maioria emprestada pelos coronéis aliados, mas os bandidos também tinham fugido. Apesar das dificuldades, o povo vatapense trabalhava arduamente para restabelecer um semblante de normalidade.


Em poucos dias, começou a chegar ajuda de fora. Viajantes vinham do oeste, trazendo produtos, serviços e mão de obra. Com as rotas ao leste restabelecidas, caravanas saíam para Dragona a cada dois ou três dias. Logo as primeiras expedições retornariam com ainda mais bens essenciais, e as moedas voltariam a ter valor.


Apesar dos dias árduos e sofridos, os sinais indicavam que os tempos sombrios chegavam ao fim. Aquela era a aurora de um nova etapa da história da Cornália.



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Uma semana se passara desde a batalha de São Vatapá. Logo cedo, no começo da trilha para o leste, Coronel Silvéria e sua família se despediam dos heróis que salvaram a Cornália.


Zé Calabros e Mara'iza já estavam prontos para a partida. Vestiam roupas novas, compradas por ela na cidade. Como sempre, ele usava alpercatas, calça longa e camisa aberta, exibindo as inúmeras cicatrizes no peito. Sob o braço, o fiel embornal.


Mara, por sua vez, trajava vestido florido, chapéu de couro, colete de renda e sandálias. Levava a adaga na cintura. A tiracolo, grimório de um lado e bolsa do outro. Adquirira também um cajado, para minimizar o esforço da caminhada. O bordão se recurvava em gancho numa ponta e tinha uma proteção de couro na outra, para reduzir o desgaste com o solo.


"Cuide-se!", Zé abraçou a coronel.


Demonstrando um misto de alegria e tristeza, a coronel se afastou do amigo de infância. "Têm certeza que precisam ir hoje? Ouvi dizer que outra caravana partirá amanhã."


"Ah, desculpa, Emiliana", ele apontou para Mara'iza, "mas essa doida tá me aporrinhando desde ontem, não consegue esperar mais nem um dia!".


"Ora", retrucou Mara, franzindo a testa. "Por acaso, ogro idiota, você está com preguiça de caminhar até a fronteira?"


A jovem coronel riu. Nos últimos dias, acostumara-se com as brigas dos dois e afeiçoara-se à magista apesar de seu jeito orgulhoso. Em companhia da mãe e dos irmãos, acenou em despedida. "Obrigada por tudo! Que Padim os abençoe!"


"Nos veremos de novo!", Calabros prometeu, acenando de volta. "Quando voltar, vou ser um cabra ainda mais arretado!"


E assim Zé e Mara partiram, rumo às montanhas.



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Seguindo a trilha, em determinado momento, Zé percebeu diversos entalhes ao longo do cajado de Mara'iza. Similares à estranha escrita do grimório da magista, as marcas despertaram a curiosidade dele. "O que são esses sinais, Malinha? Você que fez?"


"Ah, sim, estou personalizando, para que sirva como eventual foco reserva", ela respondeu. "Cajados são implementos tradicionais, símbolos de estabilidade e potência. Particularmente, considero-os um tanto desajeitados, mas já que viajar a pé está se tornando um hábito..."


"Muito bom!", ele comentou. "Também serve pra meter na fuça de bandido."


"Você só pensa nisso?", ela revirou os olhos e balançou a cabeça. "Meu destino é a civilização, espero não ter esse tipo de problema doravante."


"Nunca se sabe, tem bandido em toda parte", Zé retrucou. "Nas estradas, então, costuma ter de monte."


"Que apareçam, estão abaixo de minha consideração!", Mara ergueu a voz. "Meus recursos são mais vastos do que um simples pedaço de pau! E basta deste assunto, tenho outros mais relevantes em mente!"


"Como o quê?"


"Ferônia, capital de Dragona!", ela respondeu com entusiasmo. "Não consigo imaginar como é! Uma pessoa em minha terra natal a descreveu com palácios de mármore, vias arborizadas, belos parques e dragões no céu!"


A menção a dragões atraiu a atenção de Zé. "Deve ser duro quando cagam lá do alto", imaginou. "Passarinho já é uma porqueira..."


Constrangida com o comentário, Mara'iza tratou de retomar o assunto principal. "Na academia arcana de Ferônia, terei a oportunidade de me aprofundar em diversos tópicos mágicos. Tenho especial desejo de aprender os fundamentos da Escola Elemental das Chamas."


"É nessa academia que você vai pernoitar? "


"Não, para isso tenho uma carta de recomendação...", Mara'iza se interrompeu repentinamente. "Oh, não!", parou a caminhada, largou o cajado e, abrindo a bolsa, se pôs a procurar por algo. "Céus, sou uma tola! Maldição!"


Zé segurou o bordão antes que caísse. "O que houve, Malinha?"


Fechando a bolsa, a magista levou a mão à face, frustrada. "Esqueci-me por completo da carta! Provavelmente, se estragou quando caí no mar, e Madre Mirna deve tê-la descartado!"


"Calma, Malinha!", ele pediu, devolvendo-lhe o cajado. "Que diabos de carta era essa?"


"Era endereçada a uma das famílias nobres mais influentes na corte real", ela explicou, claramente irritada. "Era prova de minha proveniência e me garantiria estadia na cidade. Não importa agora, porém, preocupar-me-ei com isso quando lá estiver!"



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A jornada da dupla prosseguiu por mais algumas horas. A trilha, margeada por vegetação, até então seguia por entre as elevações e declínios da cordilheira, permitindo apenas pequenos vislumbres do oceano distante.


Em determinado momento, porém, o caminho os levou até perto da costa. Aquele trecho, à borda do abismo, dava uma visão panorâmica da Cornália: a enseada de São Vatapá, o horizonte tempestuoso no oceano ao norte e, é claro, as vastas terras secas de caatinga e restinga.


Ali era a fronteira informal da Cornália. Para os viajantes que vinham visitá-la, aquela era a primeira visão da terra dos cornos. Para os que a deixavam, era a última chance de se despedirem.


Zé Calabros parou, virando-se para sua terra natal. "Tamos aqui, Malinha, bem na fronteira", disse, num tom melancólico. "Minha promessa tá cumprida."


Mara'iza deu mais alguns passos à frente, mas também parou para apreciar a vista. "É uma terra muito mais bonita e surpreendente do que dizem mundo afora."


"É?", ele perguntou, sua mente em pensamentos distantes. "E o que falam dela por aí?"


"Dizem que é uma terra selvagem e hostil, de gente preguiçosa que dorme a tarde toda, sem nenhum rei para trazer ordem."


"E você, que acha agora?"


"Tudo o que sei é aquilo a que dei testemunho", Mara respondeu. "Vi um povo valoroso, que trabalha manhã e noite para evitar o sol inclemente da tarde. Vi grandes cidades, construídas sem a necessidade de reis. Vi pessoas lutando para viver com dignidade, a despeito dos bandidos que as assolam. Cornos não são grosseiros nem preguiçosos, são cabras-machos, cascas-grossas e...", ela se enrubesceu, "bem... do resto não posso comentar".


Zé fitou-a, sorrindo satisfeito.


E ela retornou o olhar, também sorridente, daquela forma gentil que o encantava. "Carábu'ros-san...", ela se esforçou em falar, um tanto inibida. "Insisti em viajar hoje porque... porque se eu tomasse uma caravana, temia não ter a chance de pedir... Venha comigo! Desejo conhecer este mundo vasto e ficaria muito... honrada... se tivesse sua companhia."


Zé se voltou mais uma vez para a Cornália. Daquela altura, a sua terra natal parecia tão pequena e distante. Ou talvez fosse ele próprio quem se tornara grande demais para ela.


"Pai", ele murmurou, orando. "Tô com o mesmo frio na barriga de quando eu me escondia atrás da saia da mãe. Conquistei nossa terra, mas tem uma montanha nova me desafiando lá fora. Vou lá, pra ficar ainda mais forte. E pra pagar uma dívida com dois grandes amigos. Mas quando voltar, vou cumprir a promessa que fiz pra você, pra minha mãe e pra Padim."


Mara'iza o fitava ansiosa. Com o vento soprando, não discernia as palavras dele, mas percebia o tom solene.


Então, ele se virou para Mara e, com olhar determinado, deu um passo à frente. Quando seu pé tocou novamente o chão, Zé não estava mais na Cornália. Entrava num mundo novo e maior, perigoso e imprevisível, cheio de maravilhas e terrores, desafios e conquistas. Um mundo que não estava preparado para Zé Calabros.

A seguir: Um conto extra: Doze dias nas montanhas

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Livro Atual
Zé Calabros na Terra dos Cornos
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As Crônicas Anímicas

© 2016 Tiago Moreira