• Tiago Moreira

Capítulo 3: Todo o peso da coroa

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Capítulo 3: Todo o peso da coroa

A saleta aos fundos da "Foster e Tavares - Casa de Câmbio, Empréstimo, Penhor e Poupança" era reservada ao almoço. A comida do dia era uma galinhada bem simples, e quatro funcionários já comiam à mesa. Outros viriam mais tarde, em seu devido turno.


"Tá que cheira bem!", Zé Calabros se serviu no panelão. Exibia bem mais ânimo do que no requintado jantar da noite anterior.


Abiliardo encheu a tigela em seguida. Faltavam cadeiras, e a mesa era pequena demais, então os dois se escoraram na parede e se puseram a comer em pé mesmo.


"Você devia ter voltado à mansão, com Mara e Kari", observou Bill, entre uma colherada e outra. "Teria uma refeição melhor e depois as acompanharia ao Bastião das Serpes."


"Isso aqui já tá bom demais, Seu Bill!", Zé respondeu. "Muito melhor do que ração de estrada! Além do mais, esse tal bastião não é lugar pra mim. Lá, só ia passar vergonha nas moças. Tudo que não quero é atravancar o sonho da Malinha!"


Abiliardo queria compreender melhor seu hóspede. Estudar os nuances das pessoas era um hábito, adquirido ao longo de quase uma década lidando com requerentes, devedores e nobres. "Acha que a estorvaria, Senhor Calabros?"


"Claro que sim!", ele retrucou. "Sou desse meu jeito, um cabra da terrinha. Fui feito pra trabalho pesado, não pra bater papo com gente fina. Se nem o pai da Dona Karina me deixaram ver, imagina lá nesse bastião? Iam julgar a Malinha pela minha companhia!"


"E esse preconceito o incomoda?", Abiliardo ainda o mensurava.


O sertanejo respondeu com franqueza. "Desde que não me venham apoquentar, tô pouco me importando com o que pensam de mim. Até entendo, sabe? A gente desconfia de tudo que é estranho. Precisa de tempo pra acostumar."


"Uma pena que não vá ao bastião. Com certeza, você se impressionaria com a arquitetura", Abiliardo incitou. "A universidade, a academia arcana e a fortaleza são magníficas, somente o palácio real pode superá-las em grandiosidade!"


"Não é a casa-grande do coronel que diz se um povoado é rico, Seu Bill. Pra conhecer de verdade um lugar, a gente não olha pro prédio mais bonito, mas pra moradia mais simples."


Abiliardo ficou intrigado com a resposta, bem mais profunda do que esperava. Zé podia ter origem simples, mas com certeza era um homem complexo. "Bem, e a mansão? Por que não passar a tarde lá? Vovô e Adriela gostaram do senhor, aproveitariam sua companhia. Aqui no banco, ficará entediado."


"O senhor não se preocupe comigo", o sertanejo retrucou. "Vou andar por aí. Se tem uma 'cidade alta', deve ter também uma 'baixa', né?"


"A cidade é grande", Bill protestou. "E perigosa. Não recomendo ir sozinho."


"Eu me viro, seu Bill! Já passei em cada lugar pelo sertão, que não tem como essa cidade ser pior. Quero conhecer os cantos, ver o povo de verdade. Talvez, Padim querendo, até arrumo um bico pra ganhar um dinheirinho, que não sou de viver de favor!"


"Não se preocupe com isso, é bem-vindo entre os Fósteres."


"Agradeço muito, mas tá decidido!", Calabros bateu o punho fechado sobre a palma da outra mão, "Sei lá quanto tempo a Malinha vai ficar aqui, e não quero viver aboletado na casa dos outros!". Porém, o comentário seguinte foi bem mais melancólico. "Aliás, nem sei se ela vai querer ir comigo quando for hora d'eu sumir no mundo..."


"Já pensa em partir?", Abiliardo estranhou.


Zé ergueu o punho direito, exibindo as fitas presas ao braço. "Aqui não é meu destino, não! Tenho assunto a resolver numa terra bem distante e quero ficar bem forte antes de chegar lá!"


A afirmação vaga deixou Abiliardo ainda mais curioso, mas Zé não quis se aprofundar no assunto. Decerto, não esperava que seus objetivos, por tão grandes, pudessem ser levados a sério por um ouvinte casual. "Creio que compreendo, Senhor Calabros. Saí de casa bem jovem. Fiquei anos longe, andei por muitos lugares e, por mim, seguiria viajando mundo afora."


Calabros se interessou pela história. "Mesmo, Seu Bill? E o que te fez voltar pra cá?"


"A família me convocou", Abiliardo sorriu saudoso, suas lembranças o remetendo ao passado. "Era meu dever retornar."


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Nove anos atrás...


Do convés, o jovem Abiliardo Foster contemplava Ferônia. Deixara a cidade três anos antes. Desde então, navegara pelos mares do norte. Aportara em cidades diversas da Adagalha e de Atallantys. Atravessara as florestas de Biorca. Singrara as águas da grande fenda no centro do continente. Foram anos de aventura que passaram tão rápido!


Essa era a tradição da família: ver terras distantes, conhecer povos ímpares, aprender profissões inesperadas, encontrar parentes afastados. Trabalhou como marinheiro, viajou nas caravanas mercantis do Primo-tio Hiagos, estudou com o sábio Tio Gen. A jornada, contudo, se concluía naquele dia.


Caso as coisas seguissem o plano original, Abiliardo só voltaria a Dragona no ano seguinte, ao completar dezoito e se tornar homem. Contudo, junto com as notícias da guerra e da morte do Rei Draconato, recebera uma missiva da família. "Retorne o quanto antes", pedia o pai, "precisamos de você conosco".


O regresso prematuro o incomodava, mas o fizera perceber as saudades, da terra, dos pais, da irmã, do Vovô... Estava ansioso por revê-los. Respirou fundo, estufou o peito, ajeitou os óculos.


O barco aportava. Logo, Abiliardo Foster pisaria em chão firme.


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O som da aldrava ecoou na mansão.


O mordomo Gerwald não tardou a abrir a porta. "Mestre Abiliardo! É um prazer revê-lo!", a carrancuda face albina do serviçal exibiu um raro e assustador sorriso.


"Não é necessário chamar-me de 'mestre', Ebúrneo!", o jovem deu uns tapinhas no ombro do serviçal, então adentrou a mansão. Há quanto tempo não via aquela casa!


"É meu dever, jovem mestre! Minha dívida com sua família é eterna!", o imenso mordomo insistiu. Deixou-o entrar, mas tomou-lhe as malas, apesar do jovem resistir a largá-las. "Prepararei seus aposentos."


O pai, Abílius "Bill" Foster, veio recepcionar o recém-chegado assim que reconheceu sua voz. "Meu filho!", abraçou-o forte. "Como você cresceu!"


O mordomo deixou-os a sós, mas logo a mãe, Rute Foster, veio à sala, trazendo com ela o pequenino Andreas. "Que homem você se tornou!", ela se encheu de orgulho, então apresentou o menininho que vinha com ela. "Olhe! Este é seu irmãozinho, lembra-se dele?"


Abiliardo pegou a criança nos braços, mas o pequeno, não o reconhecendo, embirrou, insistindo em voltar para o chão. Não era de surpreender, pois, quando Abiliardo partira, Andreas era apenas um recém-nascido. "E onde estão Dri e o Vovô?", perguntou ansioso.


"Estão no jardim", Rute respondeu. "Sua irmã é a razão de o termos chamado. Ela precisa muito falar-lhe, Bill. Coisas terríveis aconteceram nesses últimos meses."


"Refere-se à guerra, mãe?"


Rute meneou positivamente. "Sim, mas não apenas isso. Dragona tem se tornado sombria, Bill. Muita coisa mudou, e tememos que muito mais ainda mudará."


"Atraímos olhares inoportunos, filho", Abílius informou. "É possível que tenhamos despertado um dragão."


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O presente...


Quando Abiliardo se deu conta, tinha terminado a refeição. "Perdão, Senhor Calabros, creio que digressionei um pouco", retomou a conversa. "Então, você deseja conhecer a Cidade Baixa, correto?"


"Isso mesmo", o sertanejo confirmou.


Abiliardo tomou um momento para pensar, pediu licença e se virou para o sócio, Pedro Tavares, que chegara há pouco e se servia no panelão. "Pedro, aquela senhora da tecelagem, a Dona Cândida, ainda nos deve, não?"


"Sim", respondeu o homem, já idoso. "O prazo venceu há duas semanas, mas não há ninguém livre para fazer a cobrança no momento."


"Uma fortuita coincidência!", Abiliardo retornou a atenção a Zé. "Tenho negócios a tratar por lá, Senhor Calabros. Venha comigo, e aproveitarei para apresentar-lhe os arredores!"


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Não demorou, e os dois deixaram o banco. "Vocês daqui não tiram uma soneca depois do almoço?", Zé estranhou ao ver as ruas movimentadas. "Lá na terrinha, ia tá tudo vazio numa hora dessas."


Abiliardo riu. Fez sinal a um charreteiro à frente, então respondeu ao sertanejo. "Não, meu amigo, aqui, a labuta atravessa a tarde, não importa sono ou calor. Descanso à tarde, aliás, é malquisto nessas terras. Por causa desse costume, muitos consideram os cornos preguiçosos."


Zé já ouvira aquilo algumas vezes. Até mesmo Mara'iza comentara a respeito em algum momento. "E você acha que a gente é assim?"


"Claro que não!", Bill respondeu, indicando que Zé subisse primeiro na charrete. "Cresci ouvindo as histórias do Vovô. Quando jovem, ele passou anos na Cornália, sua primeira grande aventura! Você deveria conversar com ele, sabe? Acho que têm muito em comum!"


O charreteiro almoçava ali mesmo, mas, vendo os passageiros se acomodarem, deixou a marmita para depois. "Para onde, senhores?"


"Para as indústrias", informou Abiliardo Foster.


O veículo se pôs a andar, e Zé, por um momento, pensou em Mara'iza. "Será que a Malinha conseguiu o que queria?", questionou-se em voz alta. "Como será que aquela moleca tá?"


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A carruagem partiu da mansão sob o forte sol do meio-dia. Seguia para Caer'Wyrm, onde ficava a tão sonhada Academia Real de Artes Mágicas. Na cabina, Karina mostrava-se sonolenta, bocejando disfarçadamente. Em silêncio, ocupava-se em observar, pela janela, a paisagem bosqueada.


Em contraste, Mara'iza, sentada à frente, irradiava ânimo. Enquanto não chegavam ao objetivo, distraía-se avaliando o curioso dinheiro dragonino que Abiliardo lhe fornecera. As moedas, cada qual com tamanho, símbolos e bordas próprias, não seguiam o padrão internacional, valendo por dez, cinquenta ou cem dobrões de ouro.


Enquanto os dedos da magista tateavam pela cunhagem, sua mente voltava à conversa que tivera pela manhã, ainda no banco.


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Algumas horas antes...


"Noventa dobrões por drakkar?", Atsumi Mara'iza se espantou com a proposta. "Mas cada um vale cem!"

Abiliardo ainda avaliava com cuidado a moeda de Mara. "Em Kalimnor ou Gaz'zira, sim, minha cara, por força de lei. Aqui, porém, e em muitos outros lugares, essas moedas nada valem. Trocá-las é um serviço, não um favor, e serviços custam dinheiro."


"Reconsidere", pediu Mara. "Uma moeda não pode perder valor dessa maneira!"


"Valor não é absoluto, Mara. Trocar essas moedas dá trabalho. Considere a alternativa: ao invés de oferecer-lhe um preço pelo serviço, posso procurar algum mercador amigo, que viajará ao exterior. Lá, ele tentará trocar suas moedas, para depois trazer-nos os dobrões conseguidos. Tomará semanas, quiçá meses, e ainda assim há chance de não obter o valor integral. Acha que seria vantajoso?"


"Não posso esperar", ela respondeu. "Preciso dessas moedas hoje mesmo!"


"Exato! A diferença de dez dobrões é tanto o preço que você paga, por não ter de esperar, como a compensação que recebo, pelo risco que assumo, visto que não sei nem quando, nem por quanto, conseguirei trocar estes drakkares. Isso se chama juro."


"Chama-se usura", ela retrucou em tom condenatório. Cerrou os olhos e não escondeu a contrariedade.


Bill ajeitou os óculos. "Você pensa como uma nobre, Senhorita Mara'iza. As leis que regem o mundo não são como as feitas por burocratas. Nada, seja comida, roupas ou transporte, é fornecido senão através do trabalho. Se o esforço não for compensado, deixará de ser feito, e todos, tanto os que o realizam como os que dele se beneficiam, sairão perdendo."


Mara suspirou. Não queria discutir, ainda mais com seu anfitrião, que tão gentilmente a hospedara sem nada cobrar. "Muito bem", cedeu, "troque-me três drakkares, por favor".


Abiliardo fez os cálculos de cabeça. "Pagarei duzentos e setenta dobrões, portanto. Espere aqui, trarei em moedas de alto valor, para reduzir-lhe a carga."


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O presente...


Mara fitava as cinco moedas à mão: dois denários, um pentadenário, dois decadenários. Refletiu nas palavras de Abiliardo: "Você pensa como uma nobre". O que ele insinuava? Era uma constatação boa ou ruim?


"Estamos chegando", Karina se espreguiçou, afastando a sonolência.


Do lado de fora, a trilha, pavimentada e larga o suficiente para passagem de tropas, já não era mais ladeada por bosques verde-rubros, mas por gramados e árvores esparsas, de folhagem quase exclusivamente vermelha.


À frente, grades altas, de hastes em forma de lança, delimitavam a área militar. Os portões estavam abertos, mas vigiados por guardas com armadura, mosquete e sabre. A carruagem parou para pedir direções, mas logo retomou a jornada.


Adentrando o complexo, chegaram a uma praça florida, no centro da qual estava uma imponente estátua de um guerreiro com filhotes de dragão sobre os ombros. "Como se as criaturas fossem suas dragonas", Mara'iza concluiu.


Dali, o caminho se separava em três vias. A carruagem tomou um deles e, entre os campos carmesins, surgiam prédios diversos, ricamente ornados, alguns longos, outros altos. Pela janela, Karina nomeava-os: "O Museu da Coroa, a Faculdade de Ciências Naturais, a Academia Militar..."


À distância, mais alto no aclive, despontava-se uma imensa fortaleza enegrecida, com altas torres de vigília. Era Caer'wyrm, o Bastião das Serpes, que guardava o acesso aos campos reais e ao castelo da coroa. Muralhas patrulhadas por soldados impediam que a fortificação fosse contornada; a única passagem se dava por um túnel na própria construção. Não era para lá que a diligência seguia, contudo.


Durante o trajeto, para surpresa de Mara'iza, meia dúzia de dragontes atravessou os céus, dando voltas e manobras em conjunto. "Carábu'ros-san adoraria ver isso!", a magista murmurou diante da cena.


"Ali!", Karina apontou. "A Academia Real de Artes Mágicas!"


Era um prédio longo, de três andares, cercado por jardins e ornado com altos-relevos e colunas externas. Tinha diferentes alas, todas convergindo a um centro comum, mas a visão dali não permitia determinar quantas eram. Guardas patrulhavam os arredores, enquanto pequenos grupos de alunos, entre crianças, jovens e adultos, conversavam nos gramados.


Com a aproximação, Mara'iza teve um arrepio na espinha, causado ao sentir pelas energias mágicas dali, manipuladas por centenas de vontades alheias. Era uma sensação inédita, que fez a moça exibir um sorriso de pura excitação.


Assim que o veículo parou, o condutor ajudou as passageiras a descerem. "Nossa!", Karina se viu diante das escadarias frontais do majestoso edifício. "Há uma década não vinha aqui! Não me dava conta de que tanto tempo se passou!"


A jovem magista estranhou a afirmação. "Já esteve aqui antes, Senhorita Karina?", questionou assim que se puseram a caminhar. "Tem interesse nas artes mágicas?"


"Apenas curiosidade", a bela dama respondeu. "Mas vinha aqui porque, como filha do duque, participava de muitas celebrações e eventos. O campus pertence à coroa, toda atividade aqui é de exercício de nobres. Diretores, funcionários, professores e alunos... Quase todos são fidalgos. Ou têm títulos de nobreza, ou vínculos de sangue."


As duas subiram os degraus. Enquanto seguiam para o salão, que um aviso indicava ser a "entrada sul" do prédio, a beleza de Kari e as vestes exóticas de Mara atraíram olhares curiosos dos alunos e servidores.


"São todos nobres?", Mara'iza questionou ao observar tanta gente. "Mesmo os magistas?"


"Nem todos. Um plebeu pode ser recrutado para o serviço militar", disse Karina. "É uma oportunidade sem igual, ganha-se estudo, soldo e pensão garantida. Por serem raros, isso é especialmente comum com magistas. Para uma família pobre, ter uma criança com aptidões mágicas é uma verdadeira bênção. Agora, venha", ela indicou as escadarias para o segundo andar. "Apresentarei você ao diretor, um velho amigo de minha família."


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"Ora, ora, mas que surpresa!", o homem veio recepcioná-las. Era alto e magro, de cabelos curtos e grisalhos, com um cavanhaque à face. Trajava-se elegantemente de negro, com uma imponente capa vermelha. Portava medalhas no peito e dragonas douradas sobre os ombros. "O quanto cresceste e o quão bela te tornaste, Karina Felisnero!"


"É bom vê-lo, meu caro Marquês Castilho", ela sorriu cortês. "Mas agora sou Karina Foster", corrigiu-o com delicadeza.


"Sim, claro", ele riu, beijando-lhe a mão. Em seguida, voltou-se a Mara. "Noto que me trouxestes uma jovem especial."


Kari os apresentou. "Atsumi Mara'iza, da terra de Gaz'zira, este é Humongo Castilho, o Marquês das Chamas, Grão-Mestre da Academia Real de Artes Mágicas e general-magista dos exércitos de Dragona".


"Prefiro o título de 'filósofo doutor'", ele sorriu jocoso. "É mais apropriado."


"Um grão-mestre!", a jovem magista arregalou os olhos em admiração, então curvou-se em reverência. "Como abjuradora e arcanista aprendiz, venho humildemente em busca de conhecimento."


"Vinde a minha sala", ele convidou, dando passagem às duas. "Conversemos em particular."


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Grão-Mestre Castilho leu a recomendação do Duque Felisnero, então deixou a carta sobre a mesa, junto ao decadenário doado por Mara'iza para pagar seus estudos. "Então, minha cara", fitou a jovem magista, "desejas aprender conosco, mas não como aluna regular".


"Sim, desejo apenas acesso à biblioteca e aos mestres. Preciso aprender as bases da magia elemental, mas não posso comprometer-me com o curso formal."


Avaliando-a, o grão-mestre deslizou os dedos pelo cavanhaque. "Mesmo que já tenhas experiência nas artes mágicas, não recomendo a ti uma educação informal."


"Sempre estudei informalmente", Mara'iza exibiu o grimório. "Desde pequena, debruço-me sobre este livro. Foi a principal instrução que tive."


Ele gesticulou, e Mara, sentindo um leve puxão sobre o tomo, largou-o. Imediatamente, o grimório flutuou gentilmente, a alça desvencilhando-se da jovem, até a mão do marquês, que abriu seu lacre e folheou as páginas.


"Aprendeste estudando isto?", Castilho ergueu a cabeça, as sobrancelhas arqueadas de descrença. "Nunca tivestes um tutor?"


"Exceto por algum ocasional monge errante, não", ela confirmou. "Este livro foi um presente de meu pai. A princípio, eu não compreendia os símbolos, mas aprendi a ver as letras ocultas. Imitei os gestos e os procedimentos descritos, até que, com tempo e dedicação, passei a dominar as técnicas."


"Esta não é uma obra introdutória", o Marquês das Chamas pôs o livro à mesa, não escondendo a desconfiança. "Ao contrário, é um compêndio de teorias avançadas e feitiços complexos, cifrado em runas arcânicas! Um aprendiz teria muita dificuldade em compreendê-lo, o que dizer, então, de uma criança sem experiência? Perdão por duvidar, pequena, mas é difícil crer que aprendeste através dele. Mostra-me tuas habilidades, preciso ter certeza delas!"


"Desafio aceito!", Mara não conseguiu esconder o sorriso arrogante. Concentrou-se, e, num lampejo, fez o grimório surgir em suas mãos. Em seguida, com simples aceno, desapareceu da cadeira e, de imediato, ressurgiu em pé, atrás do grão-mestre. "Abracadabra!", provocou zombeteira, sua mão brilhando em energia prateada.


Karina ficou espantada. Tinha visto Mara mover pequenos objetos e criar luzes faiscantes, mas nada tão surpreendente quanto aquilo.


O marquês se levantou e, voltando-se para a magista, aplaudiu-a admirado. "Manipulação de espaço e tempo! Habilidades, de fato, de uma abjuradora!"


"Posso demonstrar minha perícia como arcanista, também", ela sorriu orgulhosa, e um orbe de energia cintilante começou a se formar sobre a palma de sua mão. "Mas preciso de um espaço maior. Ou de algo que possa destruir."


"Não será necessário", ele riu, pousando a mão no ombro dela. "Instigaste minha curiosidade, minha jovem Mara'iza. Serás bem-vinda em nossa academia!"


"Fui aceita?", ela abriu imenso sorriso e fez o orbe luzente dissipar-se inofensivo. "Yatta!", bradou num surto de felicidade, erguendo a mão ao alto. Quando percebeu o riso do grão-mestre e de Karina, contudo, encolheu-se ruborizada. "Perdoem-me pela empolgação."


Marquês Castilho conteve o riso. "Não te preocupes! Entendo que tivestes uma longa jornada!". Estendeu o braço para o lado, e um cajado enegrecido, até então apoiado na parede, voou para sua mão. "Vinde as duas, apresentar-vos-ei a academia! Nossa conversa continuará pelo caminho!"


Karina, porém, gesticulou uma recusa. "Perdoe-me, marquês, mas não ficarei. Aproveitarei esta tarde para visitar minha mãe", sorriu, levantando-se da cadeira, e então se voltou à jovem magista. "É seu grande momento, Mara, aproveite! Voltarei para buscá-la às seis."


Mara'iza se curvou em agradecimento. Queria abraçar a amiga, mas tal demonstração afetiva não seria apropriada para uma sam'rai.


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A academia arcana, Mara percebera, tinha a forma de cruz, com um pátio interno, similar a um claustro, acompanhando o traçado do prédio. As classes primárias, destinadas a aulas teóricas e práticas básicas, se localizavam no andar térreo. No piso intermediário, estavam classes teóricas avançadas, salas de reunião e escritórios do corpo docente. O último andar, segundo o grão-mestre, era ocupado pela biblioteca. Sacadas e passarelas nos níveis superiores permitiam observar e transpor o vão do pátio abaixo.


Conduzindo a jovem magista pelo corredor do andar intermediário, o Marquês Humongo Castilho descrevia as quatro alas do prédio. "Aqui na banda sul, dedicamo-nos à Escola Elemental das Chamas. Na leste, estudamos a Escola da Terra. N'oeste, a dos Ventos."


"E a norte?", Mara questionou.


"Dedica-se a um apanhado de outras disciplinas, nas quais não nos aprofundamos tanto. Nosso foco está nos elementos, em especial o fogo."


"Mas, então, por que a Escola das Águas não recebe atenção similar aos demais elementos?"


"Uma vez que se aprende um caminho, torna-se quase impossível manipular seu oposto. Os alunos aqui são instruídos nas combinações de chamas e terra ou chamas e ventos. Uns poucos prodigiosos fogem destes padrões."


"Terei eu também tal impedimento?"


"Claro que sim! Não se trata de uma regra imposta por acadêmicos, mas uma limitação da mente humana, pequena! Teu desafio, na verdade, será ainda maior!"


"Porque me dedico às artes fundamentais", ela deduziu.


"Exato! Raros são os magistas que se desenvolvem além de duas escolas, e já te especializas em Mistérios e Quintessência. Não importa qual arte elemental escolhas aprender, terás dificuldade em adaptar-se."


"Tenho ciência disso", ela respondeu, "mas desejo testar meus limites".


"Sinceramente", o grão-mestre desabafou, "estranha-me que tenhas interesse nas disciplinas elementais. Não há, em tua terra, um monastério dedicado aos estudos fundamentais? Melhor seria aprofundar-te ainda mais neles".


"Sim, o Monastério Kamí", ela respondeu. "Contudo, não é essa minha trilha. Escolhi o caminho do almagus, meu objetivo é aprender todas as oito escolas de magia!"


"És ambiciosa, jovem Mara'iza", o grão-mestre admitiu. Conduziu-a para a passarela adiante, sobre o pátio interno do prédio. "Mas teu objetivo, preciso informar-te, é tolo."


"Por que pensa assim?", Mara, perplexa, escorou-se no parapeito e observou abaixo, onde alunos recebiam instruções e praticavam mágicas.


"É fútil abdicar da especialização", disse o Marquês das Chamas. "Conhecimento é como areia, minha criança, quanto mais tentares segurar nas mãos, mais escapará por entre os dedos. Estás diante de uma escolha: podes ser mestra de uma disciplina ou eterna aprendiz de várias. Desejas mesmo sacrificar a excelência em algo para seres medíocre em tudo?"


Abaixo, um mestre ergueu o cajado e, com um gesto, conjurou uma potente magia. Em frações de segundo, no chão à frente dele, uma circunferência de chamas se formou, preencheu-se de fogo e explodiu para o alto numa coluna incandescente. Findado o pilar, o piso de pedra continuou a arder em chamas, mesmo sem combustível para alimentá-las.


A demonstração reavivou o entusiasmo de Mara. Ela queria ser capaz de fazer aquilo e muito mais. "Não é minha pretensão ser excelente em tudo, grão-mestre, apenas desejo expandir meu conhecimento até meus limites. Talvez fracasse, mas nada me impede de tentar."


Humongo Castilho suspirou. "Se vais insistir nisso, terás de ultrapassar os óbices naturais de tua própria mente. Compreender as bases de uma disciplina é relativamente simples, os mais talentosos o fazem por instinto. Manipular duas não é tão simples, mas é comum o bastante. A partir da terceira, contudo, o desafio se torna exponencialmente maior. Dominar todas as oito, então, inclusive as proibidas? Um feito mítico, reservado a lendas!"


Mara'iza o encarou desafiante, seu sorriso cheio de soberba. "Então, hei de tornar-me lendária!"


O grão-mestre riu. "Tua teimosia me diverte, pequena! Venha, sigamos à biblioteca! Providenciar-te-ei permissão de acesso. Terás abertos os portões do conhecimento, daí veremos onde consegues chegar."


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Zé Calabros se atentava ao trajeto da charrete. Queria decorá-lo, pois, no dia anterior, quando seguiu com Mara do porto para a mansão Foster, fora distraído pela fome. Lembrava vagamente de passar por um mercado e um parque, o "Horto Municipal", segundo Bill.


Desta vez, contudo, o caminho foi diferente. O charreteiro contornou o Horto pelo norte ao invés de atravessá-lo, depois desceu por uma avenida em declive mais acentuado.


Naquela rampa, Zé vislumbrou a cidade e se impressionou com a infinidade de casas. Sabia que Ferônia era maior do que qualquer povoamento da Cornália, mas até então não fazia ideia da real dimensão. "Deve de ter gente demais da conta aqui! Dá umas quatro ou cinco São Vatapás!"


Conforme se afastavam do centro, os casarões davam lugar a habitações pequenas, e as ruas ladrilhadas, à exceção das vias principais, eram substituídas por ruelas de chão batido. Alcançando um cruzamento de avenidas, a charrete mudou de rumo, tomando uma direção mais ou menos correspondente à do encontro dos rios Dragarganta e Feralança. À frente, colunas de fumaça subiam aos céus.


"O que tem pra lá?", Zé questionou.


"As indústrias", disse Abiliardo. "Produz-se de tudo ali: roupas, calçados, barcos... Visitaremos uma cliente, depois lhe mostrarei melhor a cidade."


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O setor industrial era uma desordem esfumaçada, ruidosa e fedorenta. Devido às ruas estreitas e movimentadas, tiveram de deixar a charrete por parte do trajeto. "Que lugar dos infernos!", reclamou Zé, evitando esbarrar nos trabalhadores levando caixas.


"De fato, meu amigo, não é agradável", Bill elevou a voz para se fazer ouvir. "Mas é o que atrai tantos migrantes. É aqui que há trabalho e oportunidades!"


"Aonde a gente tá indo?"


"Ali adiante, na tecelagem", Bill apontou com a bengala. "A dona tem passado por tempos difíceis, teve de pegar um empréstimo para tentar resolver a vida. Infelizmente, sou forçado a cobrá-la."


"Mas, se ela tá passando necessidade, vai ter como pagar?"


"Tentaremos negociar uma solução", Abiliardo não escondeu o desconforto com a situação. "Mas, em último caso, serei forçado a tomar algo para cobrir a dívida. Sempre há um bem acordado como garantia. Não aprecio chegar a esse ponto, pois salda-se a dívida, mas acelera-se a ruína do devedor. E, para meu desgosto, isso tem ocorrido muito nos últimos anos. Dragona tem passado por tempos difíceis."


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A tecelagem era essencialmente um grande galpão, onde as trabalhadoras, todas mulheres, preparavam os fios, operavam os teares e cortavam os tecidos. "Seu Foster!", a supervisora sorriu satisfeita ao vê-los adentrarem.


Zé não esperava uma reação tão alegre. Imaginava-a assustada, temerosa da cobrança. Dedicado a observar a cena e entender a situação, manteve-se atrás do banqueiro.


Abiliardo, por sua vez, cumprimentou a senhora, sorrindo de volta. "Seu humor melhorou, Dona Cândida! Será que tem boas notícias para mim?"


"Aconteceu um milagre!", ela fez sinal para que a seguissem. Conduziu-os ao outro lado do galpão, onde uma porta levava à moradia dela, uma casa simples anexa à fábrica.


A primeira sala era um escritório, mas via-se, num cômodo adjacente, uma jovem cuidar de duas crianças mais novas. Zé não pôde deixar de sentir pena delas, imaginava que viver no ambiente industrial não podia fazer-lhes bem.


Enquanto isso, de uma gaveta da mesa, Cândida tirou um saco de moedas. "Consegui o dinheiro, Seu Foster!", disse entusiasmada. "Tá aqui meu pagamento!"


Abiliardo se mostrou contentemente surpreso. "Isso é muito bom! Semana passada, você me pareceu tão sem esperanças! O que houve? Conseguiu fechar um bom negócio?"


"Infelizmente, não, Seu Foster, ainda tamos lutando pra sobreviver", ela respondeu. "Mas, essa noite, já bem tarde, alguém entrou na tecelagem e fez muito barulho pra nos acordar. Minha menina até achou que era capanga do barão quebrando o maquinário! Mas, quando fui ver, de vassoura na mão, tinha nada quebrado, e o dinheiro tava bem diante da porta! Era mais da metade do valor da dívida! O resto, completei do meu próprio bolso!"


Abiliardo estranhou a história. "Não confie em pessoas que agem nas trevas, Dona Cândida! Quem deixaria dinheiro assim, a troco de nada?"


"O sujeito esperou a gente chegar, pra ter certeza que íamos ver o dinheiro", ela respondeu. "Vi o vulto no escuro, me encarando com aqueles olhos brilhantes, igualzinho à gravura dos jornais! Era o Sombra Mascarado, tenho certeza!"


Intrigado, Zé Calabros cruzou os braços e franziu o cenho.


"Ele é um ladrão!", afirmou Bill Foster. "Não podemos aceitar esse dinheiro, Dona Cândida! É perigoso!"


"Por favor, Seu Foster!", ela implorou. "Dinheiro é dinheiro, e eu achei, não roubei! Se você não aceitar, vou perder o tear, daí o que vai ser da fábrica? Aceite, por favor! Não quero ter que vender tudo pro barão!"


"Muito bem, aceitarei", Bill Foster suspirou. "Mas, por favor, não conte essa história a mais ninguém. Se a guarda souber que o mascarado a ajudou, ambos podemos entrar em apuros com a coroa. Não desperte o dragão, Dona Cândida!"


"Prometo não contar", a senhora o tranquilizou, sorridente. Estava satisfeita. Por ora, seu negócio estava salvo, suas empregadas teriam emprego, e ela poderia alimentar as filhas. "Agradeço de coração tudo o que fez por mim, Seu Foster. Não fosse o senhor, e aquele mascarado também, todas aqui iam tá desesperançadas."


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Zé só veio a comentar após deixarem a tecelagem. "Que história esquisita da peste! Por que aquele mascarado foi ajudar ela assim? Ele não é bandido?"


"Sim, mas...", hesitou Abiliardo, ajeitando os óculos, pensativo.


"Mas o quê?", Zé insistiu. "Isso não tá certo!"


"Não é a primeira vez, já vi outros casos, ouvi relatos... Esse mascarado não é tão somente um ladrão, ele tem ajudado algumas pessoas."


"Não deixa de ser bandido, Seu Bill! Ele tá roubando alguém pra fazer isso! Quem faz cortesia com chapéu alheio não é santo, é safado!"


"Você é um sujeito de fibra moral, Senhor Calabros", Abiliardo sorriu. "Mas essa questão é muito mais complexa do que imagina. Percebeu que ela mencionou um certo 'barão'?"


"Ah, notei sim! Quem é esse sujeito?"


"Um homem rico com contatos poderosos", Bill revelou. "Ele tem expandido seus negócios, está comprando os concorrentes que passam dificuldades. Dizem, e ressalto tratar-se de boatos, que usa capangas para acelerar a falência das indústrias que pretende comprar."


"Mas que safadeza!", Zé Calabros se exaltou. "Coisa assim me deixa cabreiro! Por que ninguém faz nada?"


"Ele tem amigos em altas instâncias, meu caro, e não é o único de sua estirpe. Novos barões têm aparecido nestes anos. Surgiram do nada, com títulos de nobreza adquiridos sabe-se lá com que recursos. Compram indústrias, destroem seus concorrentes, tornam-se cada vez mais ricos e poderosos."


"E ninguém encara esses sujeitos?", o sertanejo perguntou, exibindo o punho cerrado. "Se é por falta de surra, eu mesmo posso dar!"


Abiliardo gesticulou, pedindo calma. "Não se envolva com essa gente, Senhor Calabros! Aqui não é a Cornália, não estamos falando de um senhor de terras com meia dúzia de pistoleiros. Se os agredir, será considerado um fora-da-lei, e todo o peso da coroa cairá sobre você."


Zé se conteve. Inspirou fundo, expirou forte. "Tá bem, Seu Bill, mas que essa história me deixou encafifado, ah, isso deixou!"


"Acredite, entendo o sentimento de impotência", Abiliardo desabafou, tratando então de mudar o assunto. "Bem, deixemos esse lugar barulhento. Vou mostrar-lhe a Cidade Baixa."


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Mara'iza ergueu a mão adiante. Concentrou-se, visualizou uma pequena esfera em sua mente e convergiu o fluxo arcano sobre sua palma, desejando que a orbe imaginária se incendiasse à sua frente. Para sua decepção, nada aconteceu.


A magista resmungou frustrada. Passara as últimas horas a sós, na biblioteca, estudando um livro introdutório para crianças. Julgara que seria fácil conjurar o feitiço ígneo mais básico, mas o contínuo fracasso comprovava o alerta do Grão-Mestre Castilho.


Cada escola arcana, Mara'iza se recordava, se sustentava em certos princípios. A "abjuração de mistérios" dependia da compreensão de leis naturais; o "arcanismo quintessencial", da percepção do fluxo arcano. Juntas, essas artes eram denominadas "fundamentais", embasadas em puro intelecto. Eram as escolas que Mara já dominava.


Pelo que depreendera do livro, as "artes elementais", em contrapartida, se baseavam em intuição e espontaneidade, e cada elemento estava ligado a uma emoção, denominada "chave filosofal". O poder de um elementalista era exercido indiretamente: a magia estava em conjurar, transmutar, direcionar ou dissipar os elementos, mas estes existiam independentes da vontade do magista e podiam fugir ao seu controle.


Mara'iza tentou novamente. Estendeu a palma adiante. Imaginou a esfera, sentiu a energia se acumular. A "chave" do fogo era a agressividade, então a magista buscou se enraivecer. Pensou em coisas desagradáveis, lembrou-se de momentos tensos, desejou que a ira se concentrasse adiante. Mais uma vez, nada aconteceu. A esfera invisível não se tornou real.


Mara bufou, baixando a cabeça e levando as mãos à face. O fracasso fazia-a reconsiderar suas habilidades. Estava tentando reaplicar o que já sabia, mas essa não seria a solução. Criar faíscas para acender uma vela ou fogueira era um feito básico, podia fazê-lo há anos, mas criar fogo contínuo, alimentado e contido por magia, era algo completamente diferente, ainda que parecesse semelhante.


Seu erro estava em se apegar a hábitos, concluiu. Para aprender uma nova escola, precisaria ignorar o que já sabia. O verdadeiro desafio para se tornar uma almaga, portanto, seria ter uma mente fluida, capaz de mudar e se adaptar conforme a natureza do feitiço desejado.


Cansada de tanto refletir e frustrada pelas múltiplas falhas, Mara'iza se levantou. Devolveu o livro à prateleira, então caminhou pela biblioteca, tentando relaxar. Sons externos chamaram-lhe a atenção, fazendo-a dirigir-se até uma das sacadas para o pátio interno.


Ali abaixo, bem onde as quatro alas do prédio se encontravam, havia um anfiteatro circular, no qual era praticada uma espécie de combate ritual. Alunos, nas arquibancadas da arena ou nas sacadas e passarelas dos andares superiores, vibravam empolgados. "Téu, mô! Téu, mô! Téu, mô!", repetiam incessantemente. Um dos duelos estava para começar.


Dois desafiantes, em pontos opostos do tablado, se saudaram. Estavam descalços, com camisa sem mangas e calças longas e folgadas, próprias para esportes. O primeiro empunhava cajado, que Mara'iza sentia ser seu foco arcano. O segundo, para surpresa dela, nada tinha em mãos, mas ainda assim seu corpo se cercava de energias invisíveis.


Um instrutor, agindo como árbitro, ergueu a mão ao alto. De seus dedos, saltaram projéteis flamejantes, que, como fogos de artifício, traçaram rastros incandescentes e explodiram inofensivamente acima. Era o sinal para o confronto começar.


O desafiante de cajado ergueu a mão, e uma circunferência de chamas rasteiras se desenhou ao redor do adversário desarmado. Este, em resposta, agilmente se evadiu dali, a tempo de evitar a coluna de fogo que explodiu para o alto. O ataque era impressionante, mas deliberadamente enfraquecido para que não causasse mais do que incômodo passageiro.


Em meio a saltos e giros hábeis, o desarmado fez um gesto, e uma esfera de fogo saltou de sua palma. O desafiante de cajado tentou evitá-la, mas, atingido em cheio, recuou em dor. Felizmente, a potência da esfera também fora atenuada.


"Um guerreiro arcano!", Mara'iza sussurrou admirada. Já lera a respeito deles. Eram pessoas capazes de combinar artes marciais e magia. "Mas como é possível conjurar sem um foco em mãos?"


O desafiante, no revide, lançou um rastro serpeante de chamas.


Com impressionante agilidade, o desarmado se esquivou e, em giros e cambalhotas, se lançou sobre o adversário, desferindo um forte chute contra o cajado. O báculo de madeira escapou das mãos e caiu na arena.


Aparentemente, aquilo findava o duelo, e a plateia vibrou. "Téu, mô! Téu, mô!", voltaram a gritar. O derrotado apanhou seu foco arcano e deixou o círculo de combate. O vitorioso ergueu as mãos ao alto, triunfante, e retornou à posição inicial. Um outro desafiante, este empunhando um cetro, adentrou. Cumprimentaram-se, prontos para nova disputa. "Téu, mô! Téu, mô!"


Foi quando Mara entendeu que "Telmo" era o nome do lutador desarmado. Teve, então, uma ideia. Continuaria a observar as lutas, mas passaria a se focar em como os combatentes conjuravam seus feitiços. Atentar-se-ia aos gestos, ao fluxo de magia, aos detalhes invisíveis do processo. Talvez assim aprendesse algo sobre as artes elementais.


Os fogos de artifício explodiram, e o duelista recém-chegado iniciou a disputa conjurando um relâmpago elétrico. Telmo foi atingido em cheio, surpreendendo a plateia.


"Escola dos Ventos!", Mara murmurou estupefata diante do ataque.


Após o inesperado ataque inicial, Telmo se enfureceu. Evitou habilmente o segundo relâmpago; então, urrando, arremessou uma esfera maior de fogo, que voou um tanto lenta, em arco.


O adversário evadiu facilmente o projétil, mas as chamas, ao caírem, se expandiram explosivamente numa enorme bola de fogo, engolfando-o e confundindo-o.


Antes que seu oponente se recuperasse, Telmo lançou contra ele um orbe flamejante. Voando veloz com um rastro ardente, o ataque atingiu o alvo, empurrando-o para fora do círculo. Vitória! Telmo ergueu os punhos ao ar, e a plateia comemorou com ele.


Logo, outro desafiante adentrou a arena. Mais uma partida, mais uma vitória de Telmo. E isso se repetiu de novo e de novo. O ágil duelista, obviamente muito experiente, permaneceu invicto até eventualmente se cansar. Enfim, ofegante, acenou ao público e deixou a arena. Alguém veio substituí-lo, mas boa parte da plateia perdeu o interesse e se dispersou. De fato, os duelos seguintes seriam bem mais longos, lentos e enfadonhos.


Ainda assim, Mara'iza continuou a assistir o espetáculo. Ficara interessada naquele esporte, questionava-se se podia participar dele. O pensamento ficaria para depois, contudo. Naquele instante, concentrava-se em estudar as conjurações dos participantes, e o ritmo mais lento das lutas a ajudou a perceber nuances antes ignoradas.


Depreendera um detalhe importante. As escolas que já dominava envolviam manipulações longas e planejadas. Eram como tecer uma trama, entrelaçando a energia arcana durante todo o processo, até atingir a forma perfeita a ser liberada.


Nos feitiços elementais, contudo, notara que o fluxo mágico era bem mais grosseiro. O manipulador se cercava de poder, como num manto ou aura, e somente ao fim, no instante derradeiro, as energias convergiam num ponto ou forma. A conjuração não se concretizava em um tecido delicado, mas num estalo explosivo.


Diante daquela epifania, Mara fitou a própria mão. Gesticulou, desta vez sem imaginar a esfera invisível. Cercava-se de poder, pensava em raiva e frustrações. Então, somente no último instante, forçou a energia invisível a se coalescer.


Nada aconteceu, porém.


Ela suspirou. E tentou de novo. E de novo. Três, quatro, cinco vezes, e assim em diante. Até que, entre as várias tentativas, por uma fração de segundo, uma minúscula chama brilhou. Mara'iza sorriu triunfante. Era um resultado tímido, mas o primeiro passo estava dado.


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Afastando-se do porto e das indústrias, Zé Calabros e Bill Foster caminharam boa parte da tarde. Perto das avenidas da Cidade Baixa, as casas eram ainda grandes e bonitas, mas não tão luxuosas quanto os casarões do centro. O comércio era composto por lojas de artesãos e pequenas feiras.


Por acaso, numa barraquinha mantida por cornos, Calabros encontrou comida "da terrinha" e, matando saudades, comprou uma deliciosa tapioca com manteiga. Aproveitou para apresentar o petisco ao colega, depois insistiu que continuassem o passeio.


"Por que tem tanto interesse na periferia, Senhor Calabros?", Bill questionou.


"Sou pé-rapado, Seu Bill, sempre vivi com gente simples", o sertanejo respondeu. "Se for arrumar um canto pra mim, vai ser por aqui."


Conforme se aprofundavam nas ruelas, as casas ficavam menores e mais humildes. Finalmente, no terreno acidentado dos sopés montanhosos a leste, casebres paupérrimos se amontoavam nos aclives e as vias, cheias de entulho e lixo, se tornavam um labirinto.


"É melhor pararmos", disse Bill, ao notar o quanto tinham andado. Notava que os dois já atraíam olhares de desconfiança de desempregados e indigentes. "Essa região não é segura."


Zé Calabros observou os arredores, espantado com a infinidade de casas tomando os sopés. Não havia guardas à vista, nem bandeiras dragoninas, pavimentos, calçadas ou qualquer sinal de ordem pública. "Que lugar é esse?", questionou.


"Chama-se Bocaina da Mata", o Foster respondeu. "É uma das favelas."


"Favelas?", Calabros desconhecia o significado.


"São regiões marginais, de miseráveis, desesperados e quem não têm mais aonde ir. É terra desordenada, sem lei, os guardas só vêm quando realmente necessário."


"E a Malinha me insistiu que Dragona era terra de lei e ordem!", Zé ironizou. "Tem muitas dessas favelas por aqui?"


"Várias, tanto grandes como pequenas", Abiliardo revelou. "A cidade cresceu rápido demais e, sem emprego para todos, as pessoas acabam nos morros e ladeiras."


"Mas o senhor disse que nas indústrias tinham emprego e oportunidade", o sertanejo lembrou.


"Sim, mas também disse que muitas indústrias estão passando por dificuldades. E não só em Ferônia, como em outras cidades. Até no campo faltam empregos. São tempos difíceis, e mais migrantes não param de chegar."


"Não é possível ter tanta gente abandonada assim!", Zé comentou. "Lá na Cornália, vi cidade muito rica e vila muito pobre, mas não as duas coisas no mesmo lugar!"


"Pobreza e riqueza existem em toda parte, meu amigo", Bill Foster retrucou. "Mesmo a mais rica das cidades atrai migrantes buscando vida melhor. Duvido que lá haja exceção."


O sertanejo meneou a cabeça em concordância. "É, verdade, Seu Bill, só que já passei por tudo quanto é lugar. Fui em vila só de miserável, sem ninguém por lá com qualquer luxo. E fui nas cidades, onde tinha um pouco de rico e um tanto de pobre, mas a maioria não era nenhum dos dois, tava no meio. Isso aqui é diferente, me faz lembrar terra de coronel do pior tipo, onde só a família dele é muito rica, e o resto é tudo desvalido."


"Ferônia é imensa, Senhor Calabros, daqui só se vê uma fração dela. Não julgue que haja apenas essa miséria", lembrou Abiliardo. Notando gente suspeita espreitando, fez sinal para que partissem. "Nos bosques atrás da mansão, há um barranco com uma boa visão da cidade. Veja por si mesmo, então tire suas conclusões. Agora, contudo, precisamos partir, por favor."


"Tá bem, Seu Bill", Zé Calabros aquiesceu, pondo-se a caminhar. O assunto não estava encerrado, porém. Queria saber mais sobre as favelas. "Pra onde a gente vai, então?"


"Escurecerá em breve", disse Bill. Ao invés de tirar o relógio do bolso, olhou para o sol, cada vez mais perto das cordilheiras no horizonte. "Não queremos estar aqui quando a noite vier. Retornemos à avenida. Lá, há de encontrarmos transporte de volta à Cidade Alta."


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Um sino tocou, anunciando as seis horas da tarde.


Deixando a biblioteca, Mara'iza procurou o Grão-Mestre Castilho para agradecer e se despedir, mas ele não estava em seu escritório, partira para um compromisso. Uma pena, queria mostrar-lhe seu avanço, bem como perguntar sobre os duelos que vira naquela tarde.


Mara saiu pela ala sul. Havia pouca gente ali, os alojamentos dos alunos ficavam ao norte. Como a carruagem de Karina não chegara, a magista, solitária, se sentou sob uma árvore e aguardou.


Escurecia. O sol já sumira atrás das montanhas, mas ainda restava alguma luz no céu. Os postes às margens da via começavam a se iluminar sozinhos, por algum processo alquímico. O efeito deixou Mara'iza curiosa.

A carruagem logo apareceu, e o condutor desceu para abrir a cabina. "Desculpe-me pela demora, Mara", pediu Karina quando a menina adentrou. "Tive um atraso, perdão."


"Não há problema, agradeço a gentileza", a magista sorriu ao se sentar. Notou, contudo, consternação na face da amiga. "Há algo errado?"


Karina suspirou, pensativa. "Tive uma má notícia na casa de meus pais, mas não se preocupe. É um assunto que preciso tratar com meu marido."


Mara'iza assentiu com a cabeça, enquanto o condutor subia na boleia do veículo e dava ordem de marcha aos cavalos.


Ninguém percebeu os corvos que voavam acima, acompanhando a diligência.


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Com a charrete seguindo para a Cidade Alta, Zé Calabros percebeu os postes, às margens da avenida, se iluminarem sem que ninguém os acendesse. Quanto mais escuro ficava, mais a luz se intensificava. "Meu Padim do céu! Como que esses lampiões brilham assim sozinhos, sem fogo nem nada?"


Abiliardo riu. "Trata-se de alquimia, meu amigo. No lugar de óleo, há na câmara rochas chamadas pedrassóis. Durante o dia, elas armazenam a luz do sol. Ao anoitecer, liberam o brilho, mais intenso conforme a escuridão."


"Parece coisa do capeta!", Zé olhava maravilhado, mas fez o sinal do Divino Pai por precaução.


Chegando à Cidade Alta, a charrete parou diante do banco. Abiliardo desceu, pedindo um momento para o condutor. "Só resolverei uma pequena pendência", disse, pretendendo guardar o dinheiro recebido de Dona Cândida. "Logo, partiremos. Aguarde aqui."


O charreteiro concordou. Zé, embora não precisasse, preferiu descer do veículo e acompanhar seu anfitrião.


Bill destrancou a porta do estabelecimento. Embora o local estivesse vazio e silencioso, havia um lampião aceso no escritório adjacente. Provavelmente, o sócio da família, Pedro Tavares, fazia serão, a fim de fechar o balanço do dia. "Pedro?", chamou-o.


De fato, o velho Tavares se debruçava sobre papéis na mesa. Porém, ao erguer a cabeça, exibiu uma face desesperada. "Estamos arruinados, Abiliardo! Os desgraçados fizeram o que temíamos! O Senado aprovou a nova lei!"


A face de Abiliardo ficou branca. Aproximando-se do sócio, pegou os papéis e se pôs a lê-los.


"Que lei é essa, Seu Bill?", perguntou Zé, sem entender.


Ele não respondeu de imediato. Lia incrédulo as folhas, tentando decifrar aquele texto jurídico desnecessariamente rebuscado. Regulações, restrições, determinações. Loucuras. "Não é possível!", estremeceu. Após tantos anos, as sombras de Dragona finalmente envolviam sua família.


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Nove anos atrás...


No jardim, Adriela ajudava o avô a caminhar. As pernas do velhote, contudo, estavam fracas, tremiam muito. Após poucos passos, ele foi forçado a se apoiar nas muletas.


"O que aconteceu com o Vovô?", o jovem Abiliardo, vindo da mansão, perguntou. "Quando parti, ele caminhava muito bem com a bengala."


Adriela estava linda. Jovial, elegante, uma verdadeira dama. Deu um beijo na careca do vetusto, então se aproximou sorridente do irmão. "Bill, filho de Bill", brincou, abraçando-o forte. "Há quanto tempo, maninho!"


"Também senti saudades, Dri", ele retribuiu.


Afastando-se, Adriela o encarou. Mostrou-se séria, hesitou em falar, então, para descontrair, fez-se zombeteira. "Espero que tenha aprendido a manejar um sabre. Será que consegue derrotar uma garota agora?"


Abiliardo devolveu o olhar. "Ora, Dri, anseio mostrar a você", ironizou. "Quero retribuir-lhe por todas as derrotas com que já me presenteou."


Ambos riram. Encararam-se, após três anos sem se verem. Silêncio momentâneo. Por fim, em parte por causa da saudade, mas não só por isso, o rosto sorridente de Adriela verteu lágrimas.


"O que a aflige, irmã?", ele tentou confortá-la.


"Muita coisa aconteceu", ela respondeu.


"Ela está de coração partido!", o velhote se intrometeu, aproximando-se com a ajuda das muletas. "Hehihihi!"


"Vô!", Adriela o repreendeu. Notando o ar inquisitivo do irmão, virou-se a Abiliardo e adiantou-lhe a resposta. "Foi um bardo errante. Não importa, não creio que ele retornará. E não é isso que realmente me incomoda. Temos assuntos sérios a tratar."


"Papai me disse", ele comentou, mas, antes que continuasse o assunto, decidiu cumprimentar o velho. "Bênção, vô!"


"Carece de minha bênção, não, menino!", o vetusto abriu o sorriso sinistro. "Agora, você é Foster de verdade! Quero saber tudo das suas viagens!"


"Contarei", ele sorriu. "Mas o que aconteceu com suas pernas?"


O ancião enrugado elevou a voz com uma empolgação sem igual. "Uma aventura, como há muito não tinha!"


"Esse teimoso foi lutar na guerra", Adriela revelou, transparecendo contrariedade. "Sumiu sem avisar ninguém. Reuniu o velho grupo de amigos dele, aquele bando de arruaceiros, e partiu para Nemésia! Ainda por cima, lutou pelos kalimnorianos!"


Vovô riu. Só de ouvir a história, parecia mais jovial. Por um momento, pareceu não precisar das muletas, mas não tardou a perder o equilíbrio.


Abiliardo se apressou em apoiá-lo. "Parece que suas viagens já não o rejuvenescem mais, vô. A idade finalmente o está alcançando!"


"A morte corre atrás de todo mundo, Bill, deve estar de saco cheio de me perseguir!", o velhote disse com um olhar determinado. "Mas ela que se acautele, pois quando chegar minha hora, vou sem arrependimentos, mas não sem luta!"


O jovem sorriu. Levantou-se, acariciou a careca do avô, então se voltou à irmã, retomando o assunto anterior. "O que precisa me contar, Dri? O que a aflige, de fato?"


Adriela abraçou a si mesma, desconfortável, e baixou a cabeça. Suspirou, hesitando em dizer, mas então criou coragem. "Estou passando a casa e minhas responsabilidades para você. Perdoe-me, Bill, mas não posso mais ficar aqui."


A notícia o atingiu como uma bomba. "Por quê?", perguntou atônito. "O que aconteceu?"


"Não posso...", gaguejou, então se concentrou em recompor-se. "Não posso continuar frequentando a corte. Vi coisas, descobri segredos... Não consigo mais lidar com aquela gente. Estou arriscando toda a família. Se perceberem o que sei..."


"Você não está dizendo coisa com coisa", Abiliardo a encarou. "O que você sabe?"


Ela devolveu-lhe o olhar. "A guerra foi uma farsa, Bill. Não foram os kalimnorianos que a começaram. Os supostos assassinos... nós os acolhemos aqui, nesta casa. A acusação contra eles é falsa, tentavam salvar o Imperador Kalim."


"Por que acha que lutei do lado de Kalimnor?", Vovô se intrometeu. "Hehihi!"


"Há uma conspiração nas sombras de Dragona", ela continuou. "Despertei esse dragão. Desconfiam de mim, de mamãe. Temos que nos afastar da corte, mas a família não pode simplesmente desaparecer. Você tem que assumir nossas responsabilidades, para proteger os Fósteres de retaliações."


"Eu?", Abiliardo hesitou, assustado. "Nunca tive experiência com a corte, não conheço as pessoas, os contatos! Por que não partimos todos daqui?"


"Porque, se partirmos, eles vencerão", ela respondeu.


"E porque somos Fósteres!", Vovô completou, orgulhoso. "Jamais se esqueça disso!"


"Papai ainda cuidará dos negócios, você nos representará na corte", ela o fitou, compadecida com a insegurança dele. "Mamãe estará ao seu lado. E também ficarei mais um pouco, para treiná-lo. Está pronto para essa aventura, irmãozinho?"


Ele suspirou fundo. Ergueu a cabeça, ajeitou os óculos e a encarou, forçando-se a um sorriso de ousadia. "Pronto? A vida não espera que estejamos preparados, mas farei assim mesmo. Afinal, eu sou um Foster!"


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O presente...


"Seu Bill?", Zé insistia. "O que aconteceu? Que lei é essa?"


As perguntas eventualmente despertaram Abiliardo de seu estupor. "Há anos, os nobres queriam controlar os bancos. Lutamos de todas as formas possíveis contra isso. Participamos dos debates, usamos nossos contatos na corte, até subornamos senadores. Nós fracassamos."


"Tentam nos imobilizar", Pedro Tavares, ainda abalado, explicou. "Mais impostos, controle de juros e tarifas, restrição de penhor aos agentes da coroa. Não temos como sobreviver sob tais restrições."


"Ah, tá... entendi...", Zé murmurou sem convicção, com olhar perplexo de quem nada compreendia.


"A pior parte é esta...", Abiliardo apontou no texto em suas mãos. "Querem substituir os dobrões do padrão comercial por moeda própria. Isso é absurdo, a coroa poderá cunhar dinheiro para se financiar! Acabará distorcendo toda a economia!"


"O que faremos, Abiliardo?", questionou Tavares, à beira de um ataque de nervos. "Esse banco significa tudo para mim. Eu o fundei junto com seu finado avô Alessandros. É minha vida e minha herança para os filhos e netos. O que podemos fazer?"


"Acalme-se, amigo", Bill pôs a mão no ombro do sócio. "Pensaremos em algo. Talvez tenhamos de demitir funcionários, reduzir atividades, encontrar novos negócios. Não sei ainda, mas nos debruçaremos sobre os números e encontraremos saída. Por ora, vá para casa, descanse."


Apesar da relutância, Tavares acabou concordando.


Logo, os três deixaram o estabelecimento. Bill e Zé tomaram a charrete. André Tavares caminhou para casa, sob a luz dos postes. Não era longe. Precisava descansar, mas não sabia se teria nervos para dormir naquela noite.


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Após silenciosa viagem, o charreteiro os deixou na mansão. Antes que Abiliardo Foster e Zé Calabros subissem os degraus da varanda, a porta se abriu. O enorme albino Gerwald os esperava. Cumprimentou-os sobriamente, deu-lhes passagem, então os acompanhou, sem nada dizer.


Na sala, Karina veio ao encontro do marido. "Bill, mamãe deu-me uma notícia terrível. As leis de regulação monetária foram aprovadas pelo Senado. Em breve, a rainha as ratificará!"


"Eu soube", ele respondeu, fitando-a.


"Há algo mais", ela murmurou hesitante, mas evitou explicar-se na frente de Zé.


Bill se voltou ao sertanejo. "Amigo, deixe-me conversar com minha esposa. Vá em frente, tome um banho, descanse. Conversaremos mais durante o jantar."


Karina também se direcionou ao hóspede. "Senhor Calabros, Mara deseja vê-lo. Após se lavar, procure-a nos jardins."


"Agradecido, Dona Karina!", Zé curvou-se sorridente.


"Venha, Senhor Calabros", disse o mordomo, tentando apressá-lo. "Seu banho já está preparado."


"Vixe, não carece de tanto cuidado, branquicento", Zé resmungou ao sair, "sei muito bem me virar sozinho!".

A despeito do protesto, Gerwald o seguiu de perto.


Finalmente a sós, Karina abraçou o marido. "Será esta noite, Bill", sussurrou em seu ouvido. "A reunião será esta noite..."


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André Tavares estava tão perdido em pensamentos que não se atentou aos arredores. Só tarde demais notou os três homens diante do casarão em que morava. "Quem são vocês?", perguntou alarmado.


"Acalme-se, Senhor Tavares", disse o do meio, bem-vestido e apoiado numa bengala. Os dois ao seu lado, em contraste, tinham aparência bem mais rude e suspeita. "Não viemos fazer-lhe mal. Pelo contrário, queremos oferecer-lhe ajuda."


"Ajuda?", Tavares forçava a vista para identificar o cavalheiro, cuja voz lhe era familiar. "Quem é você?"


"Sou um amigo", o homem se afastou dos capangas e deu alguns passos à frente, onde a luz revelou-lhe as feições. "Possivelmente, considerando as atuais circunstâncias, o melhor amigo que você poderia ter."


Tavares arregalou os olhos. "Barão!"


 
A seguir: Bill, filho de Bill

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